Um breve balanço sobre o papel recente do Brasil no golpismo contra a Venezuela

por Estevam Vieira | Revista Opera

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(Foto: Diego Delso)

“Operação perigosa”: este foi o termo usado pelos militares para definir a pressão golpista que assistimos recentemente contra a Venezuela. Depois de oito dias de fronteira fechada, e seis de circo midiático desde o “23F” (23 de fevereiro), selou-se a parcial retirada do Brasil da operação e um veto absoluto desta, e ao que tudo indica, foi uma decisão tomada em última hora.

O veto à participação direta dos brasileiros na aventura partiu dos militares, de dentro e de fora do governo, mas também de outros atores importantes (grandes capitalistas, mercado, bancos, figurões da política – o que foi uma decisão positiva no fim das contas). Podemos concluir que exista também uma relação de proximidade histórica entre as duas forças armadas, e que Mourão representa isso.

Aos fatos

O governo e a imprensa estavam anunciando que a “ajuda humanitária” brasileira à Venezuela seria algo em torno de 200 toneladas de alimentos e kits médicos. Porém, na pratica se resumiu a duas caminhonetes. O fato, além de engraçado, foi também bastante simbólico, pois demonstrou que a maioria dos militares brasileiros não estavam afim de confusão com a Venezuela e trabalharam bem pouco em cima daquele espetáculo midiático do 23F. Desde então, em meio a tensões internas entre Mourão/Heleno/Maia e Bolsonaro/Ernesto/Azevedo e Silva, os primeiros trabalharam no sentido de “esvaziar” a operação norte-americana em sua fronteira, e os segundos foram totalmente neutralizados pelos militares e por forças poderosas de dentro e de fora do governo. O Exército e a Força Nacional agiram em conjunto com a GNB e os militares venezuelanos para conter os guarimberos do lado de cá da fronteira, diferente da polícia colombiana, que fez vista grossa para os provocadores da ponte Simón Bolívar. O recado foi claro: não queremos conflito, não queremos confusão.

Temos de prestar bem atenção para esse comportamento “à brasileira”, pois já vimos isto em nossa história. Lembremos do famoso ditado “para inglês ver”. Talvez esta seja a interpretação mais aproximada sobre a postura dos militares brasileiros: no século XIX os ingleses pressionavam o Brasil para aprovarem leis contra o tráfico de escravos. O Brasil, que era contrário ao fim do tráfico, mas que também não queria encrenca com os ingleses, se submetia e aprovava essas leis, mas na pratica não as cumpriam, apenas aparentemente, mantendo a letra morta. Apesar das declarações e blefes do governo pra lá e pra cá, na prática e desenrolar concreto da situação, o Brasil atuou para “norte-americano ver”, de forma aparente, sem empregar um verdadeiro e profundo esforço militar de desestabilização. Resta saber se os militares possuem grau suficiente de autonomia perante Washington para ensaiar pretensões nacionalistas, defensivas e desenvolvimentistas.

Quais são os elementos concretos da cautela brasileira?

1) Além do governo se ver dividido sobre a questão, existe muita preocupação com as reformas exigidas pelos banqueiros e financistas, coisa que eles tem de dar conta para ontem: reformas da Previdência, Tributária, privatização do Banco Central, grandes leilões e pacotes de privatizações de estatais, dar um encaminhamento concreto para os rumos da economia, etc. Todo o primeiro semestre será dedicado a isso, mas principalmente um esforço em cima da reforma da Previdência. Há uma pressão enorme em cima do governo para cumprir as exigências dos setores da elite, e alguns já pularam do barco Bolsonaro, como setores do mercado que não depositam nenhuma confiança em seu governo.

2) Os estrategistas brasileiros sabem que as forças armadas venezuelanas não são qualquer força armada. Os militares brasileiros conhecem bem o poderio dos bolivarianos. Sabem que suas capacidades são inferiores ou equivalentes. Há pelo menos duas ou três décadas as forças armadas brasileiras se encontram defasadas.

Nossa Marinha sofre de profunda crise orçamentária, operando em baixa e não conseguindo avançar em seus projetos, situação que é similar no caso da FAB, que além de tudo acabou de sofrer a dura perda da EMBRAER e vê seu projeto alternativo de aviação e defesa, a DESAER, ser completamente sabotado. O EB apenas recentemente veio a dar um pequeno passo na modernização de suas peças e equipamentos adquirindo peças usadas e doações norte-americanas. Outro fator é sua Doutrina defensiva e voltada para a ação doméstica (contra seu próprio povo), sendo em grande medida uma força sustentada por um corpo majoritário de constritos e soldados de serviço obrigatório.

Dado isso, sabem que caso embarcassem nesta aventura política irresponsável, não iriam para “dar um passeio” como fazem nas favelas cariocas, mas iriam enfrentar uma duríssima guerra e com sérias possibilidades de derrota. Os oficiais brasileiros, em certa medida, nada afeitos às guerras, mas somente ao carreirismo parasitário, teriam que se empenhar bastante, estarem dispostos a encarar uma carnificina de grandes dimensões e uma destruição operacional e de pessoal muito grande.

3) Diante do quadro de enorme crise política, econômica e social, uma situação de conflito bélico levaria o país a uma crise interna de dimensões revolucionárias (nada como a guerra para gerar condições revolucionárias; vejam o Oriente Médio e Ásia que após mergulhados em processos de guerra, empurraram suas populações para a radicalização, inclusive armada), ainda mais entrando ao lado dos norte-americanos (uma coisa nada popular) e sendo derrotados pelos venezuelanos numa situação hipotética. Isso levaria imediatamente à liquidação total da ideia de que os militares (que estão à cabeça do governo Bolsonaro), são uma verdadeira e imponente força política. Seria uma demonstração de fraqueza extraordinária, que repercutiria sobre a autoridade e legitimidade do governo (que já não é muito grande, tendo apenas 20% ou menos de aprovação com dois meses) que por sua vez, seria totalmente esmagada, lançando o trabalho de reorganização interna da burguesia brasileira na lama, inaugurando uma nova e mais profunda crise entre as frações da classe dominante que disputam internamente o poder e direção. Portanto, seria uma operação desmoralizante que os mais sensatos não estão dispostos a pagar.

4) Ainda sobre crise: ela assombra todos os golpistas envolvidos na operação de cerco à Venezuela. “Guaidog” e a direita venezuelana, a oligarquia colombiana, a OEA, grande parte do Grupo de Lima e o próprio imperialismo norte-americano: todos viram seus planos fracassarem enormemente diante dos seus olhos. Também os militares brasileiros e demais forças internas e externas do governo, perceberam que o governo Maduro não está para cair e goza de gigantesco apoio da população, viram que o chavismo militante e popular é uma grande força social em movimento, e portanto, um obstáculo gigante para os golpistas, que se encontram desmoralizados, isolados e derrotados. Guaidó está peregrinando pelos países envolvidos na trama golpista, tentando sobreviver e se recuperar do fracasso do 23F.

5) Além disso, há o receio do desencadeamento de uma guerra civil generalizada na região. Ou seja, para os militares, o problema não está apenas numa intervenção militar na Venezuela, mas na séria possibilidade de uma guerra civil se espalhar por toda a região. O Brasil  (pelo temor tanto de um levante nas ruas, frente a decomposição do governo, a rejeição das reformas anti-povo e a própria guerra, quanto a radicalização de grupos ligados ao crime organizado), Colômbia (que nunca resolveu completamente o problema da guerra civil interna em larga escala que envolve os criminosos grupos paramilitares criados pelo próprio governo, grupos dissidentes das FARC que não deporam armas, assim como o ELN), o Peru (que até pouco tempo atrás também era um país imerso em guerra civil levada a cabo pelo Sendero Luminoso, e esta chama está acesa até os dias de hoje com pequenas frações de guerrilha espalhadas pelo país), as regiões da Guiana, enfim, toda a parte norte da América do Sul poderia ser abalada por uma guerra generalizada, efeito colateral imediato de uma agressão militar contra a Venezuela. Um cenário de guerra civil radicaliza todo o panorama político da região. Para os EUA isso é útil e em última instância não se importam com isso, mas para os governos subordinados e envolvidos na trama golpista, isto não é nada atraente, pois seriam facilmente desestabilizados.

6) Os militares e o governo sabem da importância da energia elétrica fornecida pela Venezuela à região de Pacaraíma. Desde que inaugurada a crise entre os países, o governo venezuelano mandou desligar temporariamente a rede para “reparos” (um aviso claro). O governo e prefeitura bolsonaristas de Roraima e Pacaraima estão se reunindo constantemente com Bolsonaro, transmitindo sua preocupação, e hoje estão em estado de calamidade pública. O abastecimento de energia elétrica gratuita fornecida pela Venezuela é um grande obstáculo a ser superado pelo governo brasileiro.

Leia também – Notas sobre a Venezuela: As coisas da guerra estão sujeitas à contínua mudança

Dito essas coisas, devemos acreditar que o Brasil não atacará o país irmão venezuelano? Bem, seria ingenuidade crer nisso. Apesar de não optar pela guerra aberta, isso não significa que vai deixar de atuar na trama do golpe imperialista e nem que o espírito do povo esteja sendo preparado para isso. Por hora, vai ficar na “pressão diplomática” (mesmo aparente). Talvez uma atuação verdadeiramente direta e agressiva contra a Venezuela se dará caso ele fracasse nas reformas do primeiro semestre, e se encontre imerso numa crise sem precedentes, tendo de apelar para o uso da guerra como tábua de salvação da crise.

Além da “pressão diplomática”, poderá atuar de outras formas? Sim. Caso lhe for designado na “divisão de tarefas” do trabalho sujo do golpismo, poderá cumprir um papel semelhante que Turquia, Israel ou Jordânia cumpriram no conflito sírio: traficante de armas, facilitador de suprimentos, mantimentos, remédios, fornecedor de campos de treinamento e auxílio logístico para mercenários. Nada impede que cumpra este trabalho sujo. Turquia, Israel e Jordânia cumpriram esse papel na guerra da Síria, onde controlavam toda a rota fronteiriça por onde entravam e saíam mercenários, carregamentos de armas, suprimentos e mantimentos para sustentar os jihadistas. Tudo sob o véu da “ajuda humanitária.”

Um outro palpite é que o Brasil atue na “retaguarda”, como “ajuda humanitária” ou “força de paz” mediada pela ONU e tutelada pelos EUA/OTAN, após um cenário hipotético de destruição parcial ou completa do país venezuelano pós guerra civil, com o pretexto de “ajudar a reconstruir o país” (entenda-se, auxiliar o imperialismo e dominar alguma fatia do país vizinho), tal como no Haiti e em breve na África. Mas são apenas palpites.

Por fim, o governo passa por constantes crises e delas tem dificuldades de sair. As crises atrapalham seu desenvolvimento enquanto governo. O que se passa na fronteira entre Roraima e Venezuela é somente distração, por hora, longe de qualquer ação realmente a militar e ofensiva. Mas não podemos cair no erro de achar que o problema nacional está desvinculado do problema internacional (como grande parte da nossa esquerda faz). O desenvolvimento da luta política na Venezuela é crucial também para a luta política brasileira. A luta no Brasil se dá contra um governo imposto por um golpe de Estado, por uma fraude eleitoral, coordenado pelo imperialismo norte-americano e pelo imperialismo em geral. Portanto, disso se tira uma conclusão óbvia: é um governo subserviente a eles e sua força depende do apoio desse imperialismo, que tem a função de agir contra vários setores da população brasileira. Se o imperialismo que hoje ataca a Venezuela, sai derrotado ou vitorioso, isso impacta profundamente a correlação de forças na luta política brasileira. Acompanhemos.