Nada lembra mais “comunismo” do que letras cirílicas e uma mandíbula russa forte. Pelo menos, isso é o que vem a mente quando alguém imagina a marca comunista. O realismo socialista, o estilo icônico da propaganda soviética, é um duradouro básico da estética comunista e inspira um sem-número de artistas. Mas o problema da arte é: ela tem o seu tempo. Para o realismo socialista e a estética leninista, esse tempo não é 2018.

Na Sombra da Rússia

No final de dezembro, 1991, o decrépito revisionismo soviético finalmente colapsou, levando o primeiro Estado socialista com ele. Isso, a queda do Bloco Oriental, e a consequente crise ou liberalização do que restava do mundo socialista foi indubitavelmente a maior derrota moral jamais enfrentada pelo comunismo como uma ideologia. Como pode a própria nação fundada por Lênin, a vanguarda internacional do proletariado, tombar? Essa é uma questão que ainda assombra comunistas e toda classe de trabalhadores até os dias de hoje.

A falência da União Soviética, aos olhos do mundo, era a falência do comunismo. E enquanto comunistas têm tentado justificar ou se distanciar da União Soviética, ela e o comunismo estão para sempre interligados. Portanto, em 1989, Francis Fukuyama, um propagandista do Departamento de Estado estadunidense, começou a experimentar com “o fim da história”. Algo que ele finalmente declarou em 1992 no seu “O Fim da História e O Último Homem”.

“O triunfo do Oeste, da ideia ocidental, é evidente… na total exaustão das alternativas sistêmicas viáveis ao liberalismo ocidental.”
– Francis Fukuyama

Absurdo, choraminga qualquer tolo olhando honestamente para o estado do liberalismo ocidental. Mas, como outro tolo pode ver, olhares honestos estão em falta. Essa narrativa de “fim da história”, aliada é claro com mais de um século de propaganda anticomunista, mancha qualquer conversação sobre um mundo pós-capitalista. Já é difícil o suficiente fazer com que autoproclamados socialistas discutam abertamente a abolição da propriedade privada, imaginem então o materialismo histórico dialético. Por que isso?

Para iniciantes, o socialismo científico está há muito sepultado em trabalhos inacessíveis de acadêmicos áridos e os clubes auto-isolantes que os leem. Os novos desenvolvimentos são desconhecidos e poucos conseguem nomear um marxista que não seja o próprio Marx. Alguns tentaram mudar isso. Mas quantos ainda estão usando agitprop de sessenta anos atrás?

Não é de se espantar que liberais e charlatões estão abusando da palavra “socialismo”. Nós com certeza não estamos usando-a para nada!

A marca comunista tem sido ignorada. Uma caricatura! A cada oportunidade de avançar com o movimento proletário, os comunistas ocidentais estão ocupados demais refazendo antigas discussões e venerando os mortos para travar uma luta relevante.

Nós ainda temos de provar às pessoas que o comunismo é relevante. Tentar trazer e volta a União Soviética não está ajudando. Nós estamos na defensiva, lutando apenas para que sejamos ouvidos. Por que não deveríamos ao menos termos uma boa aparência enquanto o fazemos? É hora de começarmos a nos importarmos com a nossa imagem. O comunismo necessita desesperadamente reinventar a sua marca.

Não seja um nerd

Eu odeio dizer isso, mas pouquíssimas pessoas gostam do Stalin ou do Mao. Menos pessoas ainda simpatizam com qualquer coisa envolvendo a Coreia do Norte. Nós precisamos botar na cabeça que a ortodoxia anticomunista é mais forte do que imaginamos. Pode não ser uma boa ideia fazer com que as nossas figuras mais demonizadas sejam os rostos do nosso movimento.

Agora, isso não significa que devemos demonizá-las também. Os esquerdistas autoflagelantes da revista Jacobin, que passam mais tempo criticando o socialismo do que advogando por ele, são ativamente prejudiciais ao nosso movimento. Mas devemos mesmo fazer nosso trabalho mais difícil por nostalgia? Claro que não.

Precisamos entender que o nosso visual é um reflexo da nossa causa. Se a nossa arte é velha, nós somos velhos. Se o nosso estilo é irrelevante, nós somos irrelevantes. Esse apego a ícones antigos mostra uma má vontade não só para seguir em frente como também para servir ao povo.

O nostálgico serve só a si mesmo. Eles colocam as próprias preferências acima do trabalho de massas. Não é que o seu jargão ou sua estética de nicho histórica que são chatos. É o proletariado que está errado. Você pode falar da história o quanto quiser, mas se isso não faz com que a classe trabalhadora se identifique ou se inspire, então é tão útil quanto qualquer pedaço da decadência burguesa.

Os saudosistas precisam entender que a sua estética é para eles mesmos. E tudo bem. Todos precisamos de um hobby. Mas a história da arte é de pouca importância para a classe trabalhadora e sua conquista do poder. Se você quer só recriar as experiência antigas, o que você precisa é de uma máquina do tempo, não de uma revolução.

A estética leninista, em adição a ser completamente anacrônica, foi parodiada tantas vezes que não é mais do que inútil hoje. Ninguém a leva a sério a não ser outros comunistas. Nós precisamos fazer algo novo, algo com apelo massivo, algo que não seja o fim de uma piada.

“Maoístas no capitólio – não deixe os republicanos fazerem o trabalho sujo da China esmagando as últimas manufaturas – salve o #ExImBank!”
“A Morte de Stalin – Uma comédia de terrores”
“A revolução permanente de Trump – os leninistas de direita destruindo o Estado”

Não seja descolado

O foco no “estilo de vida”, algo exposto pelo anarquista Murray Bookchin, não é um problema apenas para a anarquia como também para o espectro político inteiro da esquerda. O comunismo necessariamente significa uma oposição ao status quo, o apoio aos poderes vindouros e não aos estabelecidos. Anticomunismo significa necessariamente o oposto. Por essa razão, o comunismo, assim como a anarquia, é extremamente atraente para descolados “do contra”. Esses tipos não se interessam por fazer nada produtivo ou ler teoria, eles só querem ser descolados.

Mal informados, infantis, e destinados a se tornarem apenas liberais de esquerda mais tarde, os que fazem do comunismo um estilo de vida prejudicam a nossa imagem. Eu sei que eu sinto vergonha alheia quando vejo adolescentes magrelas vestindo camisetas do Che Guevara posando com os punhos erguidos. Pode ser algo para o qual os descolados olham e riem, mas para alguém realmente tentando estudar e se organizar, é um estereótipo ao qual você não quer ser associado.

A propaganda antiga atrai o tipo de gente errada. A última coisa de que precisamos é de mais perdedores brincando de revolucionários. Eles só vão prejudicar a nossa aparência e repelir qualquer pessoa séria que poderia estar apta à radicalização.

Não seja reacionário

Há outro tipo de pessoa ainda presa ao visual antigo. Mas enquanto o saudosista e até o descolado têm boas intenções, este é muito mais pérfido. São os dogmáticos e derrotistas que fetichizam não apenas o antigo proletariado industrial como também as lamentáveis atitudes conservadoras daqueles comunistas mortos há anos.

Europeus de rostos pálidos em cenas heteronormativas de produção tem o mesmo apelo a “marxistas” reacionários quanto a nostalgia rockwelliana para a multidão “Make America Great Again”. Eles variam entre simples desdenho pelas políticas de identidade e “guerreiros da justiça social” até preconceito aberto, mas são todos iguais no fim. A sua estética centenária envelheceu tanto quanto sua política. Esses reacionários têm uma visão estreita, romantizada e imprecisa da classe trabalhadora. Qualquer coisa que difere disso, como a realidade, é negligenciada. Qualquer um que aponte suas características reacionárias é tachado de liberal. Esses são de longe os piores e mais prejudiciais comunistas arcaicos.

Entre estes frequentemente encontramos hoxhaístas ou terceiro-mundistas com nada a oferecer. Seu dogmatismo é quase que indistinguível da política de respeitabilidade liberal. Eles consideram qualquer um que não trabalha com martelos ou foices pequeno-burguês e vão frequentemente iniciar um discurso contra o feminismo, igualdade racial ou libertação LGBT, falsificando citações de revolucionários reais, completamente desavisados do quão ridículos parecem. Não surpreendentemente, eles não se dão conta do quanto a ushanka ou o traje de Mao parecem ridículos.

“Desculpa, pessoal, um garoto branco disse que política de identidade é liberal e divisiva.”

Nós não somos nem bolcheviques nem guardas vermelhos. Nós não somos operários do século XX ou camponeses asiáticos. Nossos rostos não estão sujos de fuligem e nossas crianças não estão limpando chaminés. Nós somos os cansados e desiludidos peões do século vinte e um. Nós trabalhamos com telefones celulares nos bolsos e cafeína no sangue. Alguns de nós não somos brancos, heterossexuais, cisgêneros, ou fisicamente saudáveis, e se a história nos ensinou algo, os melhores de nós não serão. Os dogmáticos e derrotistas negariam nosso caráter proletário; mas nós não possuímos mais do que aqueles que sacudiram o Palácio de Inverno ou espancaram, mataram e expulsaram seus senhorios de Hunan, nem estamos menos irritados.

Atualize-se

Se uma imagem diz mais do que mil palavras, nós andamos falando muita merda. O realismo socialista e a estética leninista serviu ao proletariado muito bem durante a época da Guerra Fria quando parecia que qualquer coisa era possível. Mas assim como o revisionismo soviético foi relegado à história, assim deve ser com o antigo estilo de arte. Nem nossa arte nem nosso movimento pode avançar se seguirmos presos ao passado. Precisamos de um visual fresco com o qual as massas populares se identifiquem, uma alternativa real às políticas de respeitabilidade liberais e à impotência dos saudosistas e opositores.

O fim da história não está aqui; mas Lênin também não. Somos só nós, o inimigo e o presente. Ou nós aceitamos isso como verdade ou morremos.

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É hora de encontrar nossa estética

Nota do editor: o artigo acima inicia uma série de discussões neste veículo sobre a questão estética. Consideramos que há nele algumas limitações, advindas talvez pelo fato de seu autor ser norte-americano. No entanto, o central do argumento está absolutamente correto, e advém de um fato banal: nós não estamos nem na Rússia ou na China, nem em 1917 ou 1911. Isso não implica dizer que “tudo mudou”, nem que o fundamental mudou – mas me parece certo que as dezenas de milhares de quilômetros e os cem anos que nos separam dessas experiências impõem algumas mudanças, que se não tiverem uma totalidade estrutural, sem dúvidas terão alguma relevância na estética. É que, para impedir que tudo mude no concreto, sem dúvidas foi necessário ao capital grandes mudanças no estético; e se a estética é uma ferramenta para a propaganda, é necessário também nos atualizarmos – ainda que nessa atualização devamos nos ancorar em um passado mítico. Esse é, aliás, o desafio: sem mudar nada no central, devemos alterar algo na estética. O construtivismo ou o realismo socialista não eram propostas estéticas antigas, mas sim vanguardas. E isso implicará para nós também estabelecer nossa vanguarda. 

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