Nós publicamos recentemente o artigo “É hora de abandonar a estética leninista“, do militante maoísta estado-unidense Tyler Burns, que escreve em seu blog “Armed With a Pen” (Armado com uma caneta, em tradução literal).

O artigo polêmico de Burns – que  é um militante comunista sério e comprometido, não simplesmente um liberal progressista – causou reações diversas* porque, como previmos e colocamos em nota anexa ao final do texto, tem pontos que talvez sejam acertos no contexto norte-americano, mas que no brasileiro sem dúvidas são falhas. A decisão de publicá-lo foi feita por duas razões: 1 – queremos começar a estabelecer um debate sobre cultura e estética neste veículo, porque acreditamos realmente que estes dois pontos têm sido negligenciados pelos militantes comprometidos, ao passo que não são nem um pouco negligenciados pelos liberais progressistas de toda ordem. 2 – O artigo, apesar de algumas falhas, tem acertos cirúrgicos; dentre os quais os socos desferidos contra o “saudosismo estético” e a “política como estilo de vida”.

Antes de tudo, talvez o maior erro de Burns seja na descrição que deu do objeto de seu texto; “estética leninista.” Fica claro, no primeiro parágrafo e pelos exemplos visuais que inseriu, que Tyler Burns está tratando em especial do realismo socialista e da propaganda chinesa do período da Revolução Cultural.

Tratando disso, Burns está absolutamente correto em dizer que essa estética deve ser abandonada no contexto da propaganda. E explico o porquê: qualquer peça de propaganda ou comunicação é feita com um objetivo e com um público claro. A maior parte dessas peças foram produzidas no contexto pós-revolucionário. As linhas estéticas adotadas nesses períodos não são, e diferem muito, da estética pré-revolucionária. São estéticas adotadas para criar e manter coesão em torno da Revolução e seus líderes, é uma estética voltada à hegemonia de um programa que já está no poder, não à agitação de um movimento pela tomada dele. Mesmo a criação e veiculação dessas peças não poderia ser realizado no contexto pré-revolucionário: como a Dra. Katya Rogatchevskaia diz, “os bolcheviques tinha acesso limitado aos meios de disseminação e portanto tiveram de fazer o uso completo de seus propagandistas que foram enviados para falar com soldados no fronte e na retaguarda das forças militares. No entanto, quando os bolcheviques conquistaram o poder, eles obtiveram acesso a meios convencionais de impressão, e sua propaganda virou propaganda oficial do Estado, que zombava do antigo regime pela sua inabilidade em comandar.”

Nisso implica que, não importa o quanto você goste das pinturas de Lênin discursando, Stálin com um bebê ou de membros da Guarda Vermelha lendo seus Livros Vermelhos: eles não foram pensados nem feitos para a agitação pré-revolucionária. Os que agora estão pensando “mas e daí que não foram feitos com esse objetivo?” são a prova da negligência na comunicação. Mas não pretendemos deixá-los sem respostas.

Toda peça de comunicação pode ter sua força a partir de dois sentidos: ou ela é ampla o suficiente para, sendo compreendida por um grande público, ser levada a cabo por uma pequena parcela dele; ou é específica o suficiente para ter grande força em determinado público. Assim, ela pode ser massiva ou segmentada. O problema da adoção mecânica do que Burns chama de “estética leninista” é que, fora do contexto específico em que foi criada, ela não é massiva e, hoje, só é segmentada a quem conhece seus signos com alguma profundidade. Sem dúvidas, até hoje esta estética é poderosa – mas somente aos quem já se identificam com o socialismo. Assim, no sentido da propaganda ela é inútil, senão contraproducente, apesar de ser um instrumento fortíssimo para a coesão.

A comunicação visual, no entanto, se difere em muito das outras formas por um fato banal: ela é imediata. Qualquer interpretação complexa de determinado acontecimento pela via visual depende do receptor da mensagem ter também um conhecimento e referências visuais prévias complexas desse acontecimento. O problema que Burns aponta é que, quando tratamos das massas e das experiências socialistas, o anticomunismo já triunfou como mensagem massiva, sem que haja uma outra faceta concreta para fazer frente a isso. Usar o rosto de Lênin no começo da década de 20 como ferramenta de agitação, ainda que o anticomunismo já estivesse bem presente no mundo, era usar o rosto de um homem que liderava a primeira revolução bem sucedida de trabalhadores. Usar a imagem de Stálin na década de 30 era usar a imagem de um homem que representava a luta contra o nazismo. Eles estavam vivos, bem como sua revolução. A comparação entre a propaganda ocidental e a experiência real da União Soviética não era distante e “abstrata”, era próxima e concreta, porque a experiência real e seus desdobramentos existiam. Hoje, é uma comparação de caráter histórico; é uma disputa pela memória. Precisamente por isso, é uma disputa mais complexa. Pretender realizar essa disputa por um meio que é por excelência imediato (e não é esse afinal o sentido da propaganda?) é a fórmula para o fracasso; a boa propaganda é sempre ancorada no concreto, no real; ou ela ataca o que é ruim hoje, ou ela oferece o que pode ser bom; de qualquer maneira, ela trabalha com o concreto, com o que é perceptível pelo receptor.

E é sem dúvidas neste aspecto que temos uma mão mais fraca: o inimigo oferece produtos culturais imediatos e concretos, e na comunicação opera em vários grupos segmentados. Nós estamos esperando que nosso povo tenha facilidade de ler tipografias inspiradas em um idioma que não é nem o seu; mais do que isso, nós fazemos disso nossa cara e nos segmentamos em nós mesmos.

O melhor que conseguimos em termos de propaganda é de ter nossa estética atrelada a alguma brincadeira auto-flagelante de hipsters que brincam de política. Willian Abreu, que escreveu uma resposta honesta e equilibrada ao artigo de Burns (apesar de não concordamos com seu conteúdo e considerarmos que sua leitura foi por vezes mal feita) diz: “Desse modo, na sequência do texto, mais especificamente no tópico em que ele nomeia como ;Não seja descolado;, vai trazer uma crítica em certa medida aceitável, no sentido de que os comunistas não devem vulgarizar a simbologia do movimento comunista, mas ainda assim, vem carregada de uma cobrança exacerbada, como por exemplo, ao abordar a “revolta infantil”, tenta cobrar das organizações o controle por esse fenômeno, como se fosse algo controlável, o que de fato não é.”

De fato, não é controlável (ou é; os punhos servem para muitas coisas além de segurar pincéis). Mas o ponto não é esse. O ponto é: por que essa estética tem servido aos revoltosos infantis? Sem dúvidas, é porque lhes permite posar como “radicais” e “diferentes.” Mas o “radicalismo” dos comunistas não provém do fato de gostarem de Lênin – provém do fato de tomarem suas lições para, com as classes trabalhadoras, atacar o velho sistema em sua raiz, e em seu lugar plantar outra. Nesta tarefa, sem dúvidas não queremos posar de “diferentes”; pelo contrário, queremos nos aproximar do povo. Se nossa estética tem servido mais para setores médios se pintarem excêntricos, é completamente justo perguntar até que ponto nossa estética está ligada, em nosso contexto, às demandas concretas de nosso povo. Se não podemos impedí-los, tornemos difícil que eles se pintem de diferentes: os hipsters se pintarão de povo?

Eu não falo gringo, eu só falo brasileiro

Um outro ponto importante a se considerar, creio o fundamental, é a questão nacional. Em seu artigo, Burns se concentra muito em uma “velha estética” contra uma “nova estética”; e sem dúvidas podemos fazer considerações estéticas sobre o que novos meios proporcionaram de novo, mas a distância geográfica – que implica diferenças históricas e culturais – tem muito mais peso do que a temporal.

Não há dúvidas de que Eisenstein tenha sido um grande cineasta, mas “Eles não usam black tie” se comunica melhor com nosso povo do que “A Greve.” Os versos de Maiakóvski são realmente geniais, mas é mais em João Cabral de Melo Neto e Castro Alves do que no primeiro que devemos buscar nossa estética. As pinceladas de Vasily Hitrikov têm, ou terão, muito a ver com nosso povo – mas quem o pintou por completo foi Gontran Guanaes Netto.  “Sem dúvidas, camarada!” logo responderão – mas esses têm lido Morte e Vida, os Escravos? Têm passado Leon Hirszman em seus cineclubes? Sequer conheciam Gontran, antes dele ilustrar o artigo de Burns? Ou têm se apegado ao socialismo triunfante soviético para comunicar o socialismo que ainda está por vir no Brasil, reconhecendo assim sua própria derrota no fetiche de uma vitória distante e que já se foi? Sem dúvidas, peças internacionalistas foram produzidas tanto na URSS quanto na China. Mas os pincéis russos pintavam mais Lênin, e os chineses mais Mao. Nos faltam heróis?

Dmitry Moor contra a OSPAAAL.

O mesmo valerá para o nosso continente. É um fato exemplar que mesmo as mais experimentais das obras soviéticas tenham tanto apreço, enquanto os cartazes da OSPAAAL (Organização de Solidariedade com os Povos da África, Ásia, e América Latina) sejam absolutamente desconhecidos.

Estética para a propaganda tem muito mais a ver com tática do que estratégia. Ela não é universal, nem atemporal. E seu objetivo é comunicar da melhor forma que possa. Dizer que a “estética leninista” (leia-se, o realismo socialista e a estética da Revolução Cultural) “tem a ver” com a classe trabalhadora brasileira é reconhecer publicamente a preguiça que há no âmago: a comunicação não é feita para se assemelhar, é feita para traduzir. Reconhecer tudo isso não significa abandonar os ensinamentos de Lênin, Stálin ou Mao – uma acusação que alguns fizeram contra Burns, o que nos faz pensar ou que confundam o aparente com o real (e portanto pouco entenderam de qualquer um dos três) ou que se apeguem ao leninismo pelo que ele tem de oferecer de estético, unicamente – nem abandoná-los frente ao ataque anticomunista. O problema é que sim, nós somos defensores de seu legado, nós somos defensores do legado soviético, do legado da revolução chinesa. Mas nós não somos só isso e, ainda mais, não somos feitos principalmente disso: nós somos defensores do futuro. E é isso que devemos comunicar.

*Essas tendências se dividiram basicamente em três campos: 1 – Os que adotaram o texto de Burns com fúria, por vezes a desencadeando também contra essa revista. Alguns falaram de “pessoas bem alimentadas, educadas e confortáveis” nesse veículo. Deveriam pesar suas palavras com os dez quilos perdidos na Venezuela em um mês, pela faculdade abandonada pela continuação deste trabalho – apesar do fato do ingresso nela ter sido garantido via PROUNI, o que sem dúvidas diz bastante sobre nossos “confortos” pessoais –  e com os problemas estruturais que avariam nossos lares (“nossos” porque o caso é que não nos pertecem), apesar deste veículo estar aqui, de pé, bonito, para ser desprezado por gente tão comprometida com os pobres. 2 – Os que reconheceram as limitações do texto, mas também seus acertos, e que acima de tudo reconheceram como acertada a nota que foi inserida no final e ampliaram o debate ou esperaram pelas próximas produções dessa revista nesse campo. 3 – Os que concordaram sem pestanejar com o texto.

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