As seis maiores mentiras da mídia sobre a Coreia do Norte no encontro em Hanói

por Mike Whitney | The Unz Review - Tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera

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(Foto: Dan Scavino Jr.)

Aqui estão seis das maiores mentiras da mídia sobre a Coreia do Norte:

1 – A Coreia do Norte deu fim às negociações em Hanói porque Trump se recusou a suspender as sanções?

Não. Isso não foi o que aconteceu. Kim Jong-un fez uma oferta séria para suspender permanentemente todos os testes nucleares e de foguetes de longo alcance e “desmantelar por completo todas as instalações de produção nuclear” em Yongbyon (a principal instalação de enriquecimento nuclear da RPDC) em troca do levantamento parcial das sanções que atingem civis norte-coreanos.

Kim não apresentou sua oferta como uma demanda rígida da qual ele não estava disposto a ceder, mas como um ponto de partida para as discussões, como seria de se esperar durante as negociações. Porém, a equipe de Trump nunca considerou seriamente a oferta de Kim. Pelo contrário, a conselho do neoconservador senhor da guerra, John Bolton, a delegação de Trump surpreendeu Kim com um ultimato que incluía a eliminação das “armas químicas e biológicas” da RPDC e seu “programa de mísseis balísticos”, junto à sua completa desnuclearização. Bolton disse que nenhuma sanção seria suspensa até que esse abrangente plano de desarmamento fosse implementado e verificado por inspetores de armas de Washington. Essas demandas não relacionadas não faziam parte das discussões anteriores nem estavam contidas nos acordos anteriores em Cingapura. Elas foram preparadas com a clara intenção de sabotar a cúpula e garantir que nenhum acordo entre os lados fosse alcançado.

2 – A administração Trump honrou o acordo feito na Cúpula de Cingapura?

Não. Em 12 de junho de 2018, o presidente Trump assinou uma declaração conjunta concordando com o seguinte:

  • Os Estados Unidos e a RPDC se comprometem em estabelecer novas relações EUA-RPDC de acordo com o desejo dos povos dos dois países pela paz e prosperidade.
  • Os Estados Unidos e a Coreia do Norte unirão seus esforços para construir um regime de paz duradouro e estável na Península Coreana.
  • Reafirmando a Declaração de Panmunjom de 27 de abril de 2018, a RPDC se compromete a trabalhar pela desnuclearização completa da Península Coreana.
  • Os Estados Unidos e a RPDC se comprometem em recuperar prisioneiros de guerra / refugiados permanentes, incluindo o repatriamento imediato dos que já foram identificados.

Enquanto Kim tomou várias medidas para normalizar as relações EUA-RPDC (incluindo a cessação de todos os testes de armas e mísseis balísticos, a destruição de um antigo local de testes nucleares, a devolução dos restos mortais de 55 militares norte-americanos que foram mortos durante a Guerra da Coreia de volta à custódia dos EUA, a remoção de minas da Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC) e o ativo engajamento em projetos culturais e econômicos com líderes no Sul), o governo Trump não fez absolutamente nada além de encerrar os provocativos exercícios militares conjuntos de grande escala que são usados ​​como ensaio para uma invasão ao Norte a fim de derrubar o governo em Pyongyang. Trump não fez esforços para normalizar as relações ou para criar um “regime estável de paz” na península.

Além disso, os EUA violaram o acordo de Cingapura ao lançar outra rodada de exercícios militares conjuntos denominados “Dong Maeng” (que significa “aliança” em coreano). Embora as manobras tenham sido ignoradas pela mídia ocidental, elas foram criticadas pela agência de notícias estatal KCNA, da Coreia do Norte, que classificou os exercícios como uma “ameaça à paz e estabilidade na Península Coreana”.

3 – Kim Jong-un concordou em desmantelar seu arsenal nuclear e encerrar seu programa de mísseis balísticos ANTES de o governo Trump aliviar as sanções?

Sem chance. Em 18 de setembro de 2018, Kim encontrou o presidente sul-coreano Moon Jae-in em Pyongyang, onde os dois líderes concordaram em aumentar a “cessação das hostilidades militares”, promover cooperação econômica e cultural e intercâmbios, buscar a desnuclearização completa na Península Coreana. A Coreia do Norte se comprometeu a desmantelar o local de testes de motores de mísseis de Dongchang-ri (o que fez) e prometeu tomar medidas adicionais, como o desmantelamento das instalações nucleares em Yongbyon, se os Estados Unidos “tomarem medidas correspondentes de acordo com o espírito da Declaração Conjunta EUA-RPDC de 12 de junho”.

A promessa de desnuclearização nunca foi um compromisso para o lado norte-coreano se desarmar unilateralmente enquanto os EUA não faziam nada. O Norte esperava que os dois lados fizessem gestos recíprocos para aumentar a confiança. Em vez disso, o governo Trump endureceu as sanções, o que aumentou a desconfiança de Pyongyang.

De qualquer forma, o acordo original implicava um desarmamento gradual depois de haver (a) uma melhora nas relações e (b) a construção de “um regime de paz duradouro e estável”.

4 – O governo Trump concordou com um desarmamento “em fases” ou gradual, semelhante ao que foi divulgado em Cingapura?

Sim. Em 31 de janeiro de 2019, o enviado especial da Coreia do Norte, Stephen Biegun, disse que o governo estava preparado para avançar passo a passo em direção à completa desnuclearização paralelamente ao trabalho pela paz na Coreia e que está disposto a adiar uma declaração completa sobre os recursos nucleares da Coreia do Norte. Veja um trecho dos comentários de Biegun na Universidade de Stanford:

“Comunicamos às nossas contrapartes norte-coreanas que estamos preparados para buscar simultaneamente e em paralelo todos os compromissos que nossos dois líderes fizeram em sua declaração conjunta em Cingapura no verão passado.”

A declaração de Biegun foi feita em janeiro de 2019. Todavia, dois meses depois – em 7 de março de 2019 –, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma declaração rejeitando completamente a política de Biegun. A declaração dizia:

“Ninguém na administração defende uma abordagem passo a passo. Em todos os casos, a expectativa é de uma completa desnuclearização da Coreia do Norte como uma condição para todos os outros passos serem dados.” (Departamento de Estado)

Então, o que isso quer dizer? Será que Trump enganou deliberadamente Kim sobre as exigências do governo ou a posição de Trump simplesmente endureceu com o tempo? Normalmente, as negociações não são uma via de mão única: “Você me dá tudo o que eu quero e talvez eu suspenda as sanções”. Não é assim que as negociações funcionam. O que Trump e seus conselheiros linhas-duras querem é capitulação, a rendição completa e incondicional de Pyongyang aos seus senhores americanos. Essa é uma estratégia que está fadada ao fracasso.

5 – A administração Trump mentiu sobre o cancelamento de exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul?

Sim, mas um porta-voz dos EUA tentou minimizar a ofensa, afirmando que os exercícios foram largamente reduzidos em comparação aos exercícios que estavam programados (por que isso importaria?). Naturalmente, a mídia estatal norte-coreana respondeu com raiva dizendo:

“É uma violação violenta das declarações e afirmações conjuntas que a Coreia do Norte alcançou com os EUA e a Coreia do Sul. Isso também representa um desafio frontal ao objetivo e desejo de todos os povos [coreanos] e da comunidade internacional pela paz e estabilidade na Península Coreana.”

6 – Kim Jong-un está planejando quebrar os compromissos que assumiu em Cingapura reconstruindo suas instalações de testes de mísseis para poder lançar outro míssil balístico?

Não. As histórias que recentemente surgiram na mídia, sugerindo que Kim está traindo seus acordos anteriores, são parte de uma operação psicológica elaborada e bem-financiada (psy-ops) com o objetivo de convencer o povo americano de que Kim não é confiável. Alguns desses artigos até invocam o espectro de um Holocausto nuclear na esperança de impedir o governo Trump até de considerar as futuras negociações. O ataque propagandístico tem sido um enorme sucesso, já que a maioria dos americanos está ansiosa para acreditar que Kim é o “ditador brutal” retratado na mídia (em vez de outro alvo inculpado da beligerância insaciável de Washington). O site Disobedient Media realizou algumas pesquisas e análises de primeira linha sobre essa última fake news (instalações de testes de mísseis de Kim). Aqui estão alguns trechos de um dos posts, corretamente intitulado “A mídia está mentindo sobre construção de uma instalação de lançamento em Sohae”, publicado no Disobedient Media:

“Um relatório de 8 de março de 2019 da National Public Radio (NPR) segue outro da NBC News com alegações sensacionalistas e enganosas de que imagens de satélite divulgadas por corporações privadas com laços contratuais com agências de defesa e inteligência do governo mostram preparações iminentes da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) para a realização de testes de mísseis ou o lançamento de um satélite de suas instalações em Sanumdong, na Coreia do Norte. Um exame das fotos fornecidas não mostra absolutamente nenhuma indicação de tal atividade.”

(Repetindo) Não há absolutamente nenhuma indicação de que várias fotos de baixa resolução de uma instalação na Coreia do Norte contenham nela alguma atividade além de alguns veículos enferrujados que ficaram parados sem se mover por algum tempo…

As fontes de imagens de satélite da NPR são empresas com contratos com a CIA e o Pentágono. O envolvimento sutil de agências de inteligência e empresas de defesa em tentativas de minar as negociações com a Coreia do Norte não cria confiança nas alegações já frágeis feitas pela NPR com relação a supostos preparativos da RPDC para participar de um lançamento de mísseis. Essas alegações não são apoiadas em substância por quaisquer fatos tangíveis.

As imagens de satélite da instalação de Sanumdong não mostram nenhum sinal de lançamento iminente. A NPR afirma que as imagens mostram “atividade de veículo” ocorrendo em torno da instalação. Entretanto, uma inspeção minuciosa demonstra que a “atividade” consiste em alguns veículos inertes, que parecem ser uma picape branca e um caminhão basculante branco ou um caminhão estacionado em posição permanente ao lado de pilhas de metal. A cena não parece ser diferente de qualquer estaleiro que possa ser publicamente examinado no Google Maps.

A NBC News destruiu sua integridade jornalística sobre questões norte-coreanas

A decisão da NBC News de incluir uma infinidade de fontes tendenciosas – que parecem ter deturpado intencionalmente a natureza das imagens de satélite da Estação de Lançamento de Satélites da RPDC – coloca seriamente em causa a sua integridade jornalística. Sua decisão de apresentar imagens de satélites obtidas de prestadores de serviços de inteligência e fontes “comerciais” da indústria de defesa elimina totalmente quaisquer dúvidas remanescentes de que os recentes relatos de suposta atividade norte-coreana após o colapso da Cúpula de Hanói sejam espalhados apenas com a intenção de propagandear à população, mas também ao próprio presidente Trump. É um esforço patético para minar o potencial de paz e oportunidades econômicas com o propósito de contínuas tensões que só beneficiam interesses especiais selecionados.

Conclusão: O governo Trump deliberadamente sabotou a Cúpula de Hanói, não honrou seus compromissos sob os termos da Cúpula de Cingapura, mentiu sobre o término dos exercícios militares conjuntos, fez um giro de 180º em sua promessa especial de “desarmamento em fases” e não empreendeu qualquer tentativa de normalizar as relações EUA-RPDC ou “construir um regime de paz duradouro e estável”. Além disso, a mídia lançou outra gigantesca campanha de desinformação destinada a obter apoio público para sanções mais rigorosas, mais provocações e mais guerra sem fim.