20 anos da Guerra da Iugoslávia: a morte de Milosevic e a responsabilidade da OTAN

por Christopher Black | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes

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(Foto: SSGT Lance Cheung, USAF)

Em 11 de março de 2006, o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic morreu em uma prisão da OTAN. Ninguém foi responsabilizado por sua morte. Mais de 10 anos desde o fim de sua luta solitária para defender a si próprio e a Sérvia contra as acusações falsas inventadas pelas potências da OTAN, o único país a exigir uma investigação pública sobre as circunstâncias de sua morte foi a Rússia, quando o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, afirmou que os russos não aceitam a negação de responsabilidade do Tribunal de Haia e exigiram que fosse realizada uma investigação imparcial e internacional. Em vez disso, o tribunal da OTAN fez sua própria investigação, conhecida como o Relatório Parker e, como esperado, exonerou-se de toda a culpa.

Porém, sua morte não pode permitir uma mentira não examinada, muitas perguntas sem resposta e a impunidade dos responsáveis. O mundo não pode continuar aceitando a substituição da paz e da diplomacia pela guerra e pela brutalidade. Não pode continuar a tolerar mais governos que desprezam a paz, a humanidade, a soberania das nações, a autodeterminação dos povos e o Estado de Direito.

A morte de Slobodan Milosevic era claramente a única saída para o dilema que as potências da OTAN haviam imposto a ele ante o Tribunal de Haia. A propaganda contra ele era de uma escala sem precedentes. O julgamento foi jogado na imprensa como um dos grandes dramas do mundo, como um teatro mundial em que um homem malvado seria obrigado a responder por seus crimes. Entretanto, é claro que não houve crimes, exceto os da OTAN, e a tentativa de fabricar um processo contra ele caiu em farsa.

O julgamento foi necessário do ponto de vista da OTAN para justificar a agressão contra a Iugoslávia e o golpe perpetrado pelas forças da Oposição Democrática da Sérvia em Belgrado, apoiado pela OTAN, por meio do qual a democracia na Iugoslávia foi finalmente destruída, e a Sérvia reduzida a um protetorado atlântico sob um regime colaboracionista. Sua prisão ilegal pelas forças da OTAN em Belgrado, sua detenção ilegal na Prisão Central de Belgrado, sua rendição ilegal à antiga prisão da Gestapo em Scheveningen, próximo a Haia, e o julgamento que se seguiu fizeram parte do drama que se desenrolou para o público mundial e só poderia ter dois finais: a condenação ou a morte do presidente Milosevic.

Como a condenação do presidente Milosevic claramente não era possível depois que todas as evidências foram ouvidas, sua morte se tornou a única saída para as potências da OTAN. Sua absolvição teria derrubado toda a estrutura de propaganda da máquina de guerra da OTAN e os interesses ocidentais que a utilizam como seu punho armado.

A OTAN claramente não esperava que o presidente Milosevic se defendesse, nem com tanta coragem e determinação. A cobertura midiática do início do julgamento foi constante e ocupou as primeiras páginas da imprensa. Foi prometido que seria o julgamento do século. Todavia, logo depois que começou, a cobertura da mídia parou, e o julgamento esteve enterrado nas últimas páginas. As coisas tinham dado terrivelmente errado para a OTAN desde o início. A chave para o problema é a seguinte declaração do presidente Milosevic, feita aos juízes do tribunal durante o julgamento:

 “Este é um julgamento político. O que está em questão aqui não é se eu cometi um crime. O que está em questão é que certas intenções são atribuídas a mim, das quais são derivadas consequências que estão além da perícia de qualquer advogado concebível. O ponto aqui é que a verdade sobre os eventos na ex-Iugoslávia precisa que ser contada aqui. É isso que está em questão, não as questões processuais, porque não estou aqui porque fui acusado de um crime específico. Estou aqui porque sou acusado de conduzir uma política contra os interesses desta ou de outra parte.”

A promotoria – isto é, os Estados Unidos e seus aliados – não esperava uma defesa real de qualquer tipo. Isso fica claro a partir de indiciamentos ineptos, acusações confusas e o completo fracasso em apresentar qualquer evidência que pudesse resistir a um exame minucioso.

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O caso da acusação se desfez assim que começou, mas, uma vez iniciado, teve que continuar. A OTAN se encontrou trancada em uma caixa construída por si própria. Se eles desistissem das acusações ou se ele fosse absolvido, as ramificações políticas e geoestratégicas eram enormes. A OTAN teria que explicar as verdadeiras razões da agressão contra a Iugoslávia. Seus próprios líderes enfrentariam acusações de crimes de guerra. A perda de prestígio não poderia ser calculada. O presidente Milosevic seria mais uma vez uma figura política popular nos Bálcãs. A única saída para a OTAN era terminar o julgamento sem libertar Milosevic ou admitir a verdade sobre a guerra. Essa lógica exigiu sua morte na prisão e o abandono do julgamento.

O Relatório Parker contém fatos que indicam que, no mínimo, o tribunal da OTAN se envolveu em uma conduta que era criminosa em relação ao seu tratamento e que a conduta resultou em sua morte. A corte foi informada várias vezes que ele estava gravemente doente com problemas cardíacos que precisavam de investigação adequada, tratamento e repouso absoluto antes de se envolver em um julgamento. No entanto, o tribunal ignorou continuamente o conselho dos médicos e o incentivou a prosseguir com o julgamento, sabendo muito bem que o estresse do julgamento certamente o mataria.

A corte recusou o tratamento médico prescrito na Rússia aparentemente por razões políticas e, mais uma vez, colocou os interesses do tribunal, quaisquer que sejam, à frente da saúde de Milosevic. Em outras palavras, eles deliberadamente retiveram o tratamento médico necessário que poderia levar à sua morte. Essa é uma forma de homicídio, e é homicídio culposo nas jurisdições da Common Law.

Contudo, há vários fatos inexplicáveis ​​contidos no Relatório Parker que precisam de mais investigação antes de descartar envenenamento ou drogas destinadas a prejudicar sua saúde: a presença das drogas rifampicina e droperidol em seu sistema são os dois principais. Nenhuma investigação adequada foi conduzida sobre como essas drogas poderiam ter sido introduzidas em seu corpo. Nenhuma consideração foi dada sobre seus efeitos. Sua presença combinada, com o demorado atraso inexplicável em levar seu corpo a um centro médico para exames, levanta sérias questões que necessitam ser respondidas, mas que até hoje permanecem sem resposta.

O Relatório Parker, apesar de suas conclusões ilógicas, livrando o tribunal da OTAN da culpa, fornece a base para um pedido de inquérito público sobre a morte do presidente Milosevic. Isso é reforçado pelo fato de que o comandante da prisão da ONU onde o presidente Milosevic foi mantido, sr. McFadden, de acordo com documentos expostos pelo WikiLeaks, forneceu informações às autoridades americanas sobre Milosevic durante sua detenção e julgamento reforçado pelo fato de que Milosevic escreveu uma carta à embaixada russa alguns dias antes de sua morte, afirmando que ele acreditava que estava sendo envenenado. Infelizmente, ele morreu antes que a carta pudesse ser entregue a tempo para uma resposta.

Todos esses fatos juntos exigem que seja realizada uma investigação pública internacional sobre todas as circunstâncias da morte do presidente Milosevic, não só por causa dele, de sua viúva Mira Markovic e seu filho, mas por todos que enfrentamos as constantes ações agressivas e a propaganda das potências da OTAN. A Justiça requer isso. A paz e a segurança internacionais requerem isso.