Massacre de Christchurch: o ódio na Austrália começou em 1788 e hoje é ‘negócio de exportação’

por Chris Graham | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera

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(Imagem: Pedro Marin / Revista Opera)

Se você quer saber por que um australiano massacrou 50 muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, então você precisa entender um pouco sobre o passado sombrio da Austrália e, em particular, a qualidade da atual liderança do país.

Compreender uma tragédia indescritível como aquela que ocorreu em Christchurch não é uma coisa fácil. É difícil entender o nível de ódio que sustenta um ato tão hediondo. Normalmente, quando ocorre um evento como esse, há pressa entre os líderes políticos em oferecer condolências. Porém, também há um clamor para que discussões políticas sejam evitadas. Quando coisas terríveis como essa acontecem é dito: “Agora não é hora para debate. Agora é a hora do luto”.

Na Austrália, nessa ocasião, tal clamor não aconteceu. Acredito que é, em parte, porque as vítimas são muçulmanas, e a maioria dos australianos não se identifica com elas – e não se identificará com o luto. Não houve “filtro para fotos de perfil” inundando o Facebook em apoio aos muçulmanos de Christchurch.

Também acho que, em parte, isso acontece porque os próprios líderes muçulmanos – jovens e idosos – já estão liderando as chamadas para uma discussão nacional, embora já estivessem cumprindo esse papel há muito tempo. O jornalista Osman Faruqi foi provavelmente quem melhor se posicionou:

“Eu me sinto tão triste. Nós imploramos a vocês que parassem de ampliar e normalizar o ódio e o racismo. Mas vocês nos diziam que éramos ‘politicamente corretos’ e que a ‘liberdade de expressão’ era mais importante. Quanto mais vocês davam à extrema-direita uma plataforma, mais poderosa ela ficava. Nós lhes imploramos.”

Existem vários diálogos distintos que devem ser levados a cabo na Austrália e na Nova Zelândia, e há uma ironia profunda e distorcida em, pelo menos, um deles. Se os líderes da Nova Zelândia reagirem da mesma forma que os líderes australianos, haverá um debate centrado em torno da imigração. Eles podem concluir que nenhum muçulmano chegou às suas terras e massacrou 49 pessoas. Porém, um australiano já fez e, partindo da lógica australiana, os neozelandeses deveriam proibir a imigração… de australianos.

A outra discussão – a mais premente – está nas costas da Austrália. O que os líderes muçulmanos – e muitos de nós – querem discutir é como chegamos a esse ponto e como voltaremos dele. Isso exigirá uma avaliação honesta da história da nação australiana – não apenas quanto ao tratamento dos muçulmanos, mas de pessoas de cor em geral – e, em particular, requer uma discussão franca sobre as pessoas que nos conduziram até aqui e ainda nos conduzem hoje. Só então podemos começar a entender o que criou um homem como Brendon Tarrant. Essa parte de análise é uma tentativa de contribuir para esse processo.

O racismo australiano e nossos líderes

Quando John Howard, primeiro-ministro entre 1996 e 2007, se juntou ao Partido Liberal na década de 1950, a escravidão dos aborígenes era comum na Austrália, embora não haja reconhecimento oficial disso em museus ou bibliotecas.

Crianças aborígenes foram tiradas de suas famílias, colocadas em “casas” e depois forçadas a trabalhar. Seus salários e economias foram mantidos sob “confiança” do governo e depois roubados. Ainda em 1986, os governos ainda se recusavam a pagar aos trabalhadores aborígenes os mesmos salários que todos os demais. Quando um tribunal finalmente ordenou a igualdade salarial, o governo de Queensland aumentou o nível salarial, e depois demitiu o número necessário de trabalhadores negros para garantir que, no final das contas, não houvesse impacto.

Quando isso ocorreu, John Howard já havia estado no Parlamento por uma década e meia e ascendido à posição de líder federal do Partido Liberal. Ele não disse nada em defesa do povo aborígene, nem chamou a atenção do seu colega de partido, o premiê de Queensland, Joh Bjelke-Petersen. Dois anos depois, como líder da oposição, Howard pediu a redução da imigração asiática na Austrália. A política foi apelidada de “Uma Austrália”.

Em 1998, Howard fez campanha pela reforma tributária e enfrentou uma crise eleitoral. Ele ganhou a eleição, mas perdeu no voto popular. Em 2001, ele aprendeu sua lição – seu slogan eleitoral era “vamos decidir quem vem para este país e as circunstâncias em que eles vêm”. A “eleição de Tampa” – em que Howard se recusou a conceder asilo a imigrantes requerentes que haviam sido resgatados por navios no mar após seus barcos afundarem – deu uma vitória significativa aos liberais e, mais notavelmente, mudou a paisagem política na Austrália. A evidente xenofobia de Howard foi bem recebida por grande parte dos eleitores.

Em 2005, Howard ainda era o primeiro-ministro quando milhares de australianos brancos desceram na famosa praia de Cronulla, em Sydney, para tumultuar e espancar pessoas negras – a fim de “recuperarem as praias”, tal qual disseram os organizadores. O “protesto” foi motivado em grande parte pelo radialista de Sydney, Alan Jones, amigo de Howard. Apesar da escalada da violência, Howard se recusou a aceitar que havia um problema com o racismo na Austrália.

Dois anos depois, ele enviou o exército australiano para as comunidades aborígenes no Território do Norte sob o falso pretexto de que a região estava inundada de círculos de pedofilia. A história era parte de uma campanha racista inventada pela emissora de TV nacional, a ABC, e Howard e seu partido tentaram explorá-la na eleição federal seguinte. Os índices de suicídio e automutilação entre a população aborígine do Território do Norte mais do que quadruplicou, as taxas de anemia em crianças aborígenes dispararam, e o governo posteriormente admitiu que a prática de restringir o acesso a fundos de bem-estar causou fome generalizada entre a população aborígene. Somente os negros estavam sujeitos a essa legislação.

Quando o relator especial das Nações Unidas para os Direitos dos Povos Indígenas, James Anaya, visitou o país em 2009, ele rotulou a política de intervenção no Território do Norte – que agora estava sendo levada a cabo pelos trabalhistas – como “racista”. Ele foi descrito como um “crítico de poltrona” pelo futuro primeiro-ministro da Austrália, Tony Abbott, um homem que acredita que a mudança climática é “lixo”, cujo principal slogan eleitoral em 2013 era “parar os barcos” – uma referência a pessoas negras que procuram asilo – e que pensava que os povos aborígenes que vivem na pobreza engendrada pelo Estado estavam fazendo “escolhas de estilo de vida”.

Abbott acabou sendo o primeiro-ministro e foi sucedido pelo atual primeiro-ministro, Scott Morrison, o homem que, como ministro da imigração da Abbott, promoveu a detenção indeterminada de refugiados nos campos de Manus e Nauru. Documentos vazados na época revelaram que Morrison deliberadamente construiu o sistema de detenção para ser o mais punitivo possível, servindo de meio de intimidação. Ainda há centenas de homens e mulheres vivendo hoje sob essa “dissuasão”, presos nessas ilhas. Tal política também foi condenada pelas Nações Unidas e pela comunidade internacional.

Morrison foi rápido em manifestar solidariedade com a Nova Zelândia e condenar os comentários de seu colega parlamentar, Fraser Anning, que alegou que a causa do massacre foi a política de imigração neozelandesa. Morrison chamou os comentários de Anning de “repugnantes”. Eles foram repugnantes mesmo – na verdade, a maioria das coisas que Anning diz são, incluindo seu recente discurso pedindo uma “Solução Final” para o “problema de imigração” na Austrália. Todavia, de todas as pessoas na Austrália em posição de condená-lo, o primeiro-ministro Morrison não é uma delas.

Fraser Anning, é claro, já fez parte do Uma Nação, um partido político profundamente racista liderado por Pauline Hanson. Por sua vez, Pauline Hanson já foi correligionária dos liberais de Scott Morrison. Ela entrou na Câmara Parlamentar no ano passado vestida com uma burca, uma brincadeira projetada para dar destaque à sua oposição à imigração muçulmana.

Em seu primeiro discurso no Parlamento em 1996, ela reclamou que a Austrália estava sendo inundada por asiáticos. Em seu retorno ao Parlamento duas décadas depois, ela afirmou que a Austrália estava sendo “inundada por muçulmanos”. E, a fim de esclarecimento, cerca de 2/3 dos australianos hoje não são imigrantes e identificam sua herança como branca, e o Islã nem sequer está entre as cinco religiões mais importantes do país, de acordo com o Bureau Australiano de Estatísticas.

Recentemente, em meio a uma grande renovação política de seu partido, Pauline Hanson escolheu Mark Latham como seu candidato nas eleições estaduais de Nova Gales do Sul. Latham é o ex-líder do Partido Trabalhista, outra importante força política da Austrália. Latham pediu que os aborígenes fizessem teste de DNA antes que pudessem reivindicar seu bem-estar social. Em 2015, ele disse à mídia que Sydney tinha um “problema muçulmano”. Em 2017, ele argumentou que era inútil ser “legal com os muçulmanos” para fazer com que eles “alertassem à polícia quanto a futuros ataques terroristas”.

Aqueles que estão no espectro à esquerda na Austrália costumam afirmar que o Partido Trabalhista é muito mais moderado que os liberais. Aqui está o ex-primeiro-ministro trabalhista Kevin Rudd, descrevendo as pessoas que buscam asilo como “imigrantes ilegais”. E aqui está sua antecessora, Julia Gillard, culpando os aborígenes pela sua própria pobreza.

Alguém que também retorna às bancadas parlamentares nas eleições federais de 2019 é Jacqui Lambie, ex-senadora do Partido Unido de Palmer, outro dos partidos de direita australiano. Impulsionada pela mídia, Lambie alcançou o status de heroína popular durante seu mandato por ser conhecida por sua “fala clara”. Aqui está Lambie “falando claramente” na televisão sobre os problemas com a “Lei da Sharia islâmica”:

 

Se você não tem estômago para ver o vídeo – ou mais, simplesmente não consegue entende-lo – você pode ler a transcrição completa aqui. Ou aqui está um breve trecho. Lambie é perguntada sobre o que ela acha exatamente que é a Lei Sharia: “Sharia, Lei Sharia, você sabe, para mim, é, ah, obviamente envolve terrorismo. Envolve um poder que não é um poder saudável”. Essas são as palavras exatas de uma líder australiana eleita pelo povo.

Cory Bernardi, outro ex-integrante liberal e, no passado, membro da bancada do partido, há muito tem sido um forte opositor dos muçulmanos e do islamismo. Ele ainda atua no Parlamento como deputado independente e, no ano passado, descreveu os inspetores muçulmanos que fornecem certificação Halal (permitido para consumo) a alimentos na Austrália como “baratas” depois de travar uma campanha fracassada contra eles por quatro anos que incluiu uma investigação no Senado que, sem surpresa, não encontrou ligações com o terrorismo.

Um dos momentos mais divertidos de sua campanha foi durante uma entrevista ao programa Four Corners, da ABC, em que ele tentou argumentar que havia ligações financeiras entre os certificadores Halal e “grupos terroristas” como o Hamas, o partido governista de Gaza, na Palestina. “O próprio Hamas não é uma organização terrorista proscrita nesse país”, ressaltou o jornalista. Bernardi olha de volta para a câmera por um momento, engole a seco e depois responde: “Pois bem, aí está”.

A retórica antimuçulmana de Bernardi tem sido regularmente veiculada na mídia sob o pretexto de uma “cobertura equilibrada”. Mas cá está ele “falando por conta própria” em seu próprio site, em um texto intitulado “As palavras não são suficientes”. Ele se insurgiu contra os ataques terroristas de 2017 em Manchester, que custou a vida de 23 pessoas e termina dizendo: “Basta. Se a comunidade muçulmana não vai acabar com esse mal em seu meio, devemos assumir a liderança. Nossas instituições são projetadas para proteger nossos cidadãos e nosso interesse nacional. Já é hora de fazermos o que é necessário para torná-las eficazes”. Notavelmente, a resposta de Bernardi ao massacre de 49 muçulmanos por um homem branco australiano provocou uma reação muito mais silenciosa – um único tweet de 13 palavras.

Em 2013, Bernardi usou o mesmo termo – “repugnante” –, mas acrescentou “abominável”, para descrever a proposta de legislação dos Verdes Australianos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Isso levaria à bestialidade”, ele argumentou.

Quem os impulsiona?

Isso é somente uma pequena fração das recentes lideranças políticas australianas – há muitos outros para mencionarmos, como Wilson Tuckey, conhecido amplamente na política por seu apelido “Iron Bar”, que ele recebeu por flagelar um homem aborígine no chão de um pub no interior da Austrália; ou a trabalhista Fiona Reynolds, que descreveu o trabalho de ser Ministra de Assuntos Aborígenes como “limpar o vaso sanitário do Titanic”. Ou o ex-político do Uma Nação, David Oldfield, que acha que a cultura aborígene – a mais antiga da Terra – deveria ter morrido na Idade da Pedra. Mas isso já dá uma ideia do clima em que esse país conduz seus problemas, isto é, o medo e a aversão ao “outro” – de quem não é branco.

Nossa população é facilmente explorada por esse cinismo político covarde. Isso é inegável. Entretanto, os políticos não podem fazê-lo sem a ajuda da nossa mídia e, nesse front, não faltam participantes dispostos. O Daily Mail dedicou um enorme espaço aos ataques de Christchurch. Claro, a matança por atacado deve ter sido terrivelmente triste, mas há também cliques e dinheiro a ganhar. Se você pesquisar a palavra “muçulmano” na página inicial do Daily Mail e depois passar pelas 79 histórias que já registraram essa tragédia, você enfim verá a cobertura real do Daily Mail sobre o Islã, que é um catálogo de alguns dos preconceitos mais extremistas e islamofóbicos da história da mídia.

Vá para o Daily Telegraph ou o Herald Sun e pesquise “gangues africanas” ou “gangues libanesas”. Ou leia esta matéria de Michael Brull, que documenta 2.891 reportagens da mídia de Rupert Murdoch atacando o Islã em um único ano. Leia esta fake news da Fairfax Media sobre como a cidade de Bourke, na Nova Gales do Sul – lar de um grande número de moradores aborígenes – é o lugar mais perigoso do planeta.

Depois, comente. Qualquer dia desses, não faltarão colunistas ultraconservadores demandando os mesmos direitos que eles esperam que sejam negados aos cidadãos da fé islâmica. Ou ao povo aborígene.

Vá ao Google e pesquise a frase “Sunrise” e “Aboriginal”. O que você vai encontrar é uma profunda ignorância e intolerância reconvertida em entretenimento, depois apresentada como “debate equilibrado”.

No início deste ano, nossa mídia organizou outro desses “debates equilibrados” sobre o “Dia da Austrália”, como acontece anualmente (ainda comemoramos o dia nacional na data que marca a chegada dos britânicos e o início de dois séculos de matança e expropriação dos primeiros australianos). A painelista Kerrianne Kennerly – uma ícone da televisão australiana – chegou à conclusão de que as pessoas que protestavam contra o Dia da Austrália precisavam levantar seus traseiros e correr para impedir que crianças e mulheres aborígenes fossem estupradas.

Em 2017, a jornalista da ABC, Yassmin Abdel-Magied – uma mulher muçulmana –, foi expulsa do país pela mídia e pelos políticos por ter tido a ousadia de mencionar essa história de morte no Dia ANZAC, uma data reservada para a “comemoração” do orgulho australiano pelo envolvimento em praticamente todos os conflitos globais desde a implantação do federalismo, em 1901. Para os australianos, a reflexão solene é um feriado em que ficamos bêbados e fazemos apostas e não mencionamos as guerras travadas no próprio território do país.

Andrew Bolt, colunista conservador da News Limited, descreveu Abdel-Magied como uma “apologista muçulmana”. E aqui está um tweet do político liberal de Queensland George Christensen – um lutador em defesa da liberdade de expressão – pedindo a demissão e “autodeportação” de Abdel Magied. Ele contou com uma cobertura entusiástica na mídia mainstream.

Sem um toque de ironia, essa foi a resposta nas mídias sociais de Christensen ao massacre de Christchurch:

“Cristãos nigerianos estão sendo alvos e mortos por extremistas islâmicos. Mais de 120 cristãos foram mortos nas últimas semanas, incluindo alguns na igreja.

Essa barbárie é o mesmo tipo que vimos em Christchurch esta semana: uma ideologia religiosa-política distorcida que não mascara o puro ódio autêntico do agressor de seus semelhantes. Deus defenda a Nigéria!”

Vale a pena notar que, dois anos antes, Christensen foi o orador convidado em um comício organizado pelo Reclaim Australia – um grupo agora extinto ligado a neonazistas –, em que ele declarou que a Austrália estava em guerra com o Islã radical. Isso também contou com grande cobertura midiática. Indignação como cliques é um grande negócio.

Antes de Abdel-Magied, perseguimos Adam Star, um astro do futebol aborígine, depois que ele atirou uma lança imaginária contra um setor da multidão que estava impiedosamente o vaiando por ter expulso uma jovem, em um jogo anterior, por tê-lo chamado de “macaco”. E antes disso, apesar de obsessão nacional pelo esporte, os australianos comemoraram quando um boxeador aborígine, Anthony Mundine, foi eliminado em uma luta pelo título mundial. É quase certo que essa havia sido a primeira vez na história da mídia australiana que editores da mídia australiana celebraram uma derrota esportiva tão significativa.

Então, onde a partir daqui?

A Austrália, como nação, não perdeu muito do nosso caminho, como também nunca o encontramos de fato. Nossa história é de abate, mas é também de negação desse abate. Quando Anders Behring Breivik massacrou 76 pessoas na Noruega em 2011 – uma pessoa que Brenton Tarrant listou em seu incontestável manifesto de 73 páginas como sua “verdadeira inspiração” –, Breivik elogiou conservadores australianos como Keith Windschuttle, historiador que negou categoricamente que massacres significativos tenham ocorrido na Tasmânia em 1800.

Breivik também elogiou o ex-primeiro-ministro John Howard, junto com o cardeal católico George Pell, que foi condenado recentemente à prisão por estuprar um coroinha e agredir sexualmente outro. John Howard descreveu o cardeal como uma referência de “caráter brilhante” durante uma audiência no tribunal.

Como o manifesto de Breivik, o texto de Tarrant também é bastante extremista e espelha, em grande parte, as opiniões de pessoas como Blair Cottrell, Shermon Burgess e Neil Erikson, três dos mais proeminentes supremacistas brancos da Austrália, que foram frequentemente acolhidos pela mídia australiana.

Contudo, enquanto sua linguagem e tom são irritados, o que Tarrant diz – as coisas que ele pede, como a suspensão da imigração islâmica – são opiniões amplamente mantidas e expressas dentro do governo, Parlamento e lideranças políticas que intimidam nossos campos com intolerância para, em seguida, expressarem condolências quando pessoas como Tarrant executam a violência. Se quisermos sair da bagunça tóxica que construímos para nós mesmos, isso exigirá uma avaliação honesta do passado. Essa é uma tarefa enorme, dada a profundidade da nossa negação.

Em resposta aos comentários de Fraser Anning, o primeiro-ministro Scott Morrison também disse que as opiniões de Anning não tinham lugar no Parlamento australiano. Na verdade, esse tipo de visão sempre fez parte do Parlamento australiano. Assim falava o primeiro primeiro-ministro da Austrália, Edmund Barton, após a aprovação da primeira legislação do Parlamento em 1901, a chamada Lei de Restrição da Imigração: “Todos os homens que chegam a essas terras com um registro limpo, que deixam para trás uma memória de distinções de classe e diferenças religiosas do mundo antigo, são australianos. Nenhum preto, nenhum chinês, nenhuma esquimó, nenhum canaque, nenhum fornecedor de mão de obra barata é um australiano.”

Essa legislação era conhecida como Política da Austrália Branca, e permaneceu em vigor até meados da década de 1970 (na época, o slogan da revista que publicava comentários sobre tal política, The Bulletin, era “Austrália para o homem branco”. Finalmente fechou as portas em 2008). Então, ao contrário das afirmações de Morrison, esses tipos de comentários não só pertencem ao Parlamento australiano, mas são rotineiramente de onde eles emanam.

Para caminhos futuros, também é preciso reconhecer nosso presente. Se você olhar para a conta oficial do Twitter de Scott Morrison, ele postou oito vezes sobre o ataque em Christchurch até o momento da escrita deste artigo. Porém, ele evita usar explicitamente a palavra “Muçulmanos”, referindo-se a “todos os neozelandeses” e “todos os kiwis”, como se o ataque não fosse especificamente direcionado aos muçulmanos. Contudo, quando dois australianos foram mortos por um terrorista muçulmano em Melbourne no ano passado, Morrison soltou a voz, envergonhando a comunidade islâmica por não “fazerem o suficiente para acabar com a violência”.

“Para aqueles que querem enfiar a cabeça na areia, para aqueles que querem dar desculpas àqueles que enfiam a cabeça na areia, vocês não estão tornando a Austrália mais segura. Vocês estão dando às pessoas uma desculpa para olhar para o outro lado e não lidar com as coisas bem na sua frente. Se há pessoas em uma comunidade religiosa, uma comunidade islâmica, que estão trazendo ideologias extremistas e violentas para sua comunidade, vocês precisam dar o fora.”

De fato. Mas e as comunidades não islâmicas, que criam homens como Brendon Tarrant? O que elas estão fazendo? Onde está a condenação geral a eles por parte do primeiro-ministro? Por que não é o prefeito de Grafton, onde Tarrant cresceu, que está sendo responsabilizado? Ou o Dr. Murray Harvey, o bispo católico de Grafton?

Além de reconhecer com sinceridade o nosso presente, a melhor maneira de sair dessa confusão é começar a aplicar os padrões de forma igual – tratar todos os cidadãos da Austrália com o mesmo respeito e lhes proporcionar os mesmos direitos e cortesias. E devemos exigir que nossos líderes eleitos iniciem e defendam esse processo.

Nessa frente, infelizmente, não temos atualmente uma liderança na Austrália capaz da tarefa. Nossa islamofobia, nosso racismo e medo dos negros estão tão arraigados que, enquanto falamos, sobre o escritório do primeiro-ministro de Scott Morrison, há um troféu – literalmente um troféu – em formato de um barco, com uma placa que diz: “Eu parei estes”.

Então, precisamos encontrar outras pessoas para liderar esta nação. Nossos líderes pararam barcos de imigrantes – nós precisamos parar seus votos. Precisamos limpar o Parlamento na eleição de maio de 2019. Onde nos encontramos hoje é resultado direto do nosso passado. É hora de assumirmos o controle do nosso futuro.

Não há outra opção, pois, embora seja certamente um choque e profundamente angustiante que o homem que massacrou pelo menos 49 muçulmanos na Nova Zelândia fosse australiano, também não deveria ser uma surpresa. Nós importamos e fomentamos o ódio na Austrália desde 1788. Agora, finalmente, estamos o exportando.

* Chris Graham é australiano e redator e editor da New Matilda. É o ex-diretor administrativo fundador da revista National Indigenous Times and Tracker. Chris ganhou o prêmio Walkley, a comenda Walkley High e dois prêmios Human Rights Awards por suas reportagens.