Plano Condor II: como o Prosul volta a colocar a América Latina sob ameaça

por María Luisa Ramos Urzagaste | Telesur - Tradução da Revista Opera

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Presidente da República, Jair Bolsonaro durante Reunião Bilateral com Presidente do Chile, Sebastián Piñera. (Foto: Marcos Corrêa/PR)

As mudanças políticas na América Latina e no Caribe nestes últimos anos se refletiram em um sério enfraquecimento dos organismos multilaterais regionais. A nefasta e retrógrada OEA se restabeleceu, o que, como simbolismo, é um grave antecedente contra a soberania regional e possivelmente agora estamos assistindo ao surgimento do Plano Condor II.

A criação do “Fórum para o progresso da América do Sul”, Prosul, no último dia 22 de Fevereiro não parece ser algo improvisado, e quanto mais se repete o que o presidente Sebastián Piñeira disse –  que “não é um fórum ideológico” – mais difícil se torna acreditar nele.

O que deve preocupar e ocupar a América Latina e o Caribe é a discussão a portas fechadas que tiveram esses presidentes do Prosur. Se não houvesse planos obscuros no meio, a reunião realizada em Santiago do Chile teria sido transmitida por meios de comunicação.

Preocupa mais ainda quando o presidente do Brasil Jair Bolsonaro acaba de visitar os Estados Unidos onde, além de se reunir com seu homólogo, realizou uma muito comentada visita à CIA.

Os líderes do Fórum Prosur compartilham profundas coincidências, entre elas: sua submissão e admiração pelo presidente Donald Trump, seu desejo de desaparecer com qualquer movimento progressista, seu ódio às idéias esquerdistas, seu desejo de colaborar militarmente com os Estados Unidos e a OTAN, a decisão de restaurar as ideias do neoliberalismo e as privatizações, entre outras.

Unasul sob ataque

Entre suas táticas para afirmar seu projeto, utiliza-se o método do descrédito. Assim, argumentam que a Unasul fracassou aduzindo que há um “excesso de ideologia e burocracia”.

O certo é que, se a Unasul está praticamente inativa há mais de três anos, é em razão da sabotagem que realizaram os representantes de alguns países, que buscaram impôr um Secretário-Geral, sabotaram as convocatórias a reuniões e não permitiram a aprovação do seu orçamento.

O presidente colombiano Ivan Duque disse que a Unasul será substituída pelo Prosul, e a esses ataques se somou o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, que considera que a Unasul morreu.

Além disso, soam cínicas as palavras do presidente chileno Piñera quando disse que o Prosul “está aberto a todos os países que cumpram dois requisitos essenciais. Primeiro, vigência clara da democracia e do Estado de Direito; e segundo, o respeito pleno às liberdade e direitos humanos de seus habitantes”.

O presidente chileno nos quer dar lições de democracia e direitos humanos quando ele mesmo há alguns anos expressou sua profunda solidariedade com o ditador Pinochet, que foi um dos líderes do Plano Condor na América do Sul, responsável por muita dor e morte no Cone Sul.

A pergunta chave que devemos nos fazer diante da criação do Prosul é: o que há por trás disso? A declaração assinada é apenas fachada.

Os Estados Unidos e os governos afinados com Trump colocaram todo seu empenho para que a OEA seja o único fórum de discussão política na região; por outro lado, se tratamos de tarifas e comércio, aí está a Associação Latino-americana de Integração (ALADI), o Mercosul e a comunidade andina.

Para que então um novo fórum? Algumas ações, em especial as do presidente Bolsonaro, que ao que parece agora é fator de coesão do grupo, poderiam nos ajudar a entender.

Ligando pontos

Durante a visita realizada pelo presidente Bolsonaro no último 21 de março aos Estados Unidos, não se discutiram somente assuntos bilaterais, se foi mais além, já que inclusive ele se reuniu com a CIA para “abordar assuntos da região”.

Por outro lado, no último dia 11 de fevereiro o Itamaraty anunciava que o ministro Ernesto Araújo se reuniu em Brasília com o Almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, para discutir a cooperação e alianças bilaterais na área de defesa e segurança.

Vale recordar aqui que Craig S. Faller declarou no último dia 7 de Fevereiro que Washington está estreitando laços com os países do Southcom (Comando Sul) e esclareceu que “esta colaboração não se dá apenas entre militares, mas também com diplomatas, sob os auspícios do Departamento de Estado e outras organizações, com a Agência para o Desenvolvimento Internacional e os Departamentos de Justiça e de Segurança Nacional”.

Um fato não menos relevante é que, durante um jantar oferecido na Embaixada brasileira em Washington, o Presidente brasileira Jair Bolsonaro disse que o que queria era “liberar o Brasil da ideologia nefasta de esquerda” e não poupou palavras para elogiar Olavo de Carvalho, a quem ele definiu como “o inspirador de muitos jovens no Brasil e [é] em grande parte a ele que devemos a revolução que estamos vivendo”.

Olavo de Carvalho, admirador de Evola

Carvalho, que reside nos Estados Unidos, expressa abertamente sua profunda admiração por Julius Evola e Giovanni Gentile, intelectuais fascistas, tradicionalistas radicais, considerados por muitos como anti-democráticos e anti-igualitários.

Giovanni Gentile foi, inclusive, coautor junto a Benito Mussolini da doutrina do fascismo.

Humberto Eco adverte que “o Ur-Fascismo está ainda ao nosso redor, por vezes com trajes civis. Seria cômodo, para nós, que alguém se apresentasse ao mundo e declarasse ‘Quero voltar a abrir Auschwitz, quero que as camisas negras voltem a desfilar solenemente nas praças italianas!’ Por desgraça, a vida não é tão fácil. O Ur-Fascismo pode voltar, mas com aparências mais inocentes”.

Por certo, Carvalho foi quem recomendou designar Ernesto Araújo ao cargo de Ministro das Relações Exteriores do Brasil, por ser um de seus melhores discípulos.

Calar para impôr

Por acaso alguém acredita que, sabendo das vergonhosas demonstrações de submissão destes governantes diante dos Estados Unidos, serão eles que irão liderar um projeto de prosperidade para a América Latina?

Não é descabido pensar que poderíamos estar assistindo ao surgimento de uma espécie de Plano Condor II, com novos instrumentos e ideias para submeter a região

Os Estados Unidos estão ávidos para voltar a controlar a América Latina e o Caribe a qualquer preço. Por isso, se faz imprescindível refrescar a memória.

O nefasto e sangrento Plano Condor

Como conta o juíz espanhol Baltasar Garzón Real no livro Operação Condor 40 anos depois, “a Operação Condor fazia parte do complexo sistema interamericano de contra-insurgência promovido pela política exterior norte-americana. Mediante sua ativação transnacional, Condor complementava as políticas repressivas que as Forças Armadas do Cone Sul exerciam sobre seus territórios nacionais”.

O uso de esquadrões da morte e métodos ilegais eram meios de desmobilizar movimentos populares, aterrorizar a sociedade e solidificar estruturas econômicas e militares na região, aponta a escritora J. Patrice McSherry no livro escrito por Garzón.

Esta coordenação implicou, oficial e diretamente, em seguir, vigiar, deter, interrogar com torturas e transportar pessoas de forma ilegal entre países, além do desaparecimento ou assassinato de pessoas consideradas por tais regimes como “subversivas da ordem instaurada, ou contrárias à sua política ou ideologia”.

Só a guisa de exemplo, se podem mencionar os chamados “Arquivos do Terror”, achados no Paraguai em 1992, que fornecem uma cifra de 50 mil pessoas assassinadas, 30 mil desaparecidas e 400 mil encarceradas.

Permitiremos que destruam a Unasul?

A integração regional passa por momentos difíceis, é certo, porém não é nada definitivo, e não serão essas visões excludentes, obscuras e retrógradas as que prosperarão.

Um gravíssimo erro histórico destes tempos na América Latina e no Caribe seria nos somar às vozes que querem ver morta a Unasul e a CELAC.

Se requer por isso mesmo uma forte dose de autocrítica e um profundo refletir sobre a História, para evitar que nossos povos percam a esperança de que podemos em harmonia na diversidade.