A votação sobre o Brexit não deveria ter sido o único aviso de que um dos maiores problemas enfrentados pela esquerda organizada no século 21 é sua conexão tênue com os interesses da classe trabalhadora.

A história sobre o porquê de isso ter ocorrido é conhecida. Ataques aos sindicatos pelos governos Conservadores e os do New Labour (Novo Trabalhismo – Em referência à liderança de Tony Blair e Gordon Brown no partido), e sua obsessão com os votos da classe média, alienaram as classes trabalhadoras dos movimentos socialistas. O New Labour considerava ter sua base tradicional garantida, e falhou em levar o declínio da indústria e o aumento da precarização do trabalho a sério.

A surpreendente exibição do Partido Trabalhista na eleição de 2017 mostrou sinais de recuperação – e isso porque os trabalhistas começaram a abordar questões econômicas importantes na Grã-Bretanha pós-industrial. Mas conseguir o poder não será fácil. Fazer o manifesto e a mensagem dos trabalhistas passar pelos muros de uma mídia hostil continua sendo uma tarefa difícil. E o socialismo só pode se enraizar se levar a sério os interesses das comunidades trabalhadoras.

A rápida ascensão na filiação do Partido Trabalhista após o notável triunfo da liderança de Jeremy Corbyn em 2015 deu aos progressistas a oportunidade de fechar a porta firmemente em face das últimas décadas – e a insistir que o socialismo não deve ser algo chato, “fechado” em grupelhos e separado da vida cotidiana.

Chega a cultura socialista de baixo.

(Foto: Morning Star)

Manchester – em meio a uma crise imobiliária amplamente divulgada – foi o lar de tais desenvolvimentos e tornou o socialismo interessante e acessível novamente. O Manchester Momentum tem noites de bingo e quiz, e o festival anti-fascista 0161 organizou caminhadas, torneios de futebol, boates e uma academia comunitária, além de um festival anual de música. Tanto a Manchester Momentum quanto a 0161 aproveitaram bem a importância da estética com seus pôsteres, panfletos e adesivos bem produzidos.

0161 é parte de um ressurgimento nacional de “academias vermelhas”. Uma das mais proeminentes é a Solstar Sports Association, liderada por mulheres, sediada na Associação Cultural de Refugiados e Trabalhadores, um centro socialista turco e curdo em Tottenham, norte de Londres. A Solstar tem boxe, artes marciais e aulas de autodefesa para adultos e crianças. Baseia-se em princípios socialistas e é sempre dirigida por três formadoras experientes, atualmente Ella Gilbert, Paula Lamont e Anna Zucchelli: elas argumentam que uma das maneiras mais simples de combater o sexismo é ter mulheres no comando, especialmente nos espaços tradicionalmente masculinos.

Como toda a sua política, esta é uma abordagem sutil – e a academia está livre da “sloganeidade” banal e autocongratulatória do feminismo liberal: a academia é liderada por mulheres, mas decididamente aberta a todos. Eu participei de várias sessões da Solstar e vi alguns dos eventos políticos associados ao centro. Interesses políticos são mencionados nas introduções, em parte para garantir que seja um ginásio onde pessoas de todas as habilidades e origens vão encontrar um ambiente acolhedor. Mas se um observador tivesse perdido a sessão de abertura, ele poderia ser perdoado por não perceber que se tratava de uma academia socialista. Isso ocorre porque organizações como a Solstar sabem que a normalização dos princípios socialistas na vida cotidiana deve ser central na construção de qualquer movimento de massa.

(Foto: Morning Star)

No mês passado, fui a uma nova academia administrada pelo Cambridge Socialist Club (CSC). O design e a estética socialista da bandeira do clube conseguem até rivalizar com os cartazes tão bem produzidos pelo Manchester Momentum. Não só a CSC está fundamentada em valores socialistas, como também promove ligações para os sindicatos – e se você for um membro do GMB (sindicato com mais de 600 mil membros), poderá treinar de graça.

O CSC fica no Centro Comunitário de East Barnwell e está localizado bem longe do mundo dos acadêmicos de Cambridge e de várias posições intelectuais. Como o Solstar, os participantes vêm de uma variedade de habilidades e origens – incluindo pessoas de famílias romenas, libanesas, portuguesas e turcas.

Da mesma forma, a atmosfera foi amigável e acolhedora, mas séria quando o treinamento começou sob a supervisão do ex-boxeador amador Saeed Kobeissi. Este foi um bom exemplo de socialismo normalizado. De fato, como suas companheiras “academias vermelhas”, eles também organizam outros eventos culturais, como o festival Forward Cambridge, que mistura música ao vivo, DJs e palestras políticas acessíveis e curtas.

(Foto: Morning Star)

Gordy Cullum, um representante do GMB, foi a inspiração para começar este novo ginásio vermelho em 2018. Depois de ver um retorno da violência de extrema-direita nas ruas de Londres no ano passado, ele decidiu tirar as luvas do armário e começar um clube para a comunidade local. Eu fiz um sparring (treino simulando combate) com Gordy enquanto ele treinava para sua próxima luta, quando o CSC se encontrou com a 0161 e a Solstar para um torneio de boxe interclubes em Manchester.

Falei com Gordy sobre o papel da Cruz de São Jorge na faixa do clube – algo que 0161 também usou sem medo. Não é uma bandeira nacional, com sua história contaminada algo que deixa os esquerdistas e liberais enjoados?

A resposta de Gordy foi que a bandeira da Inglaterra não deveria ser confundida com a Union Jack – a bandeira do imperialismo britânico. Além disso, sua opinião sobre a bandeira é que ela não representa a rainha e toda a pompa e cerimônia associadas. Essa não é a Inglaterra da extrema direita, não importa o quanto eles tentem seqüestrar a bandeira – eles tentam roubar bandeiras nacionais em todos os outros lugares.

Em vez disso, a bandeira inglesa aponta para outra coisa que tem um apelo popular óbvio, e isso inclui uma história compartilhada, em andamento e em constante mudança. Subjacente a esse ponto está algo importante: se o socialismo é estranho aos interesses cotidianos das comunidades locais, que leva a bandeira inglesa a sério, como o socialismo pode esperar vencer? De fato, é mesmo “socialismo” se um movimento continua dominado pela academia e pelos intelectuais de classe média desinteressados ou até mesmo contrários à bandeira inglesa?

Meio-cipriota, Gordy falou sobre sua experiência da cultura grega por parte de sua mãe enquanto crescia e como isso o levou a pensar como na Inglaterra nos esquecemos de celebrar nossa herança cultural popular, de músicas a histórias de baixo – incluindo uma tradição política popular da Revolta dos Camponeses, a Revolução Inglesa, o sindicalismo e o antifascismo.

Os clubes esportivos são uma parte esquecida da tradição do socialismo cultural. Décadas do neoliberalismo destruíram a indústria e enfraqueceram severamente o movimento sindical. Mas os socialistas e comunistas estiveram lá, em tempos difíceis durante o crescimento do movimento pré-trabalhista, e eles podem se fazer presentes de novo. Uma nova cultura socialista pode proporcionar oportunidades para melhorar vidas e não apenas por meio do esporte, mas também da educação, da música, do cinema e até mesmo da socialização. Isso pode criar uma sociedade além do individualismo brutal das últimas décadas.

(Foto: Morning Star)

O trabalho da CSC, Solstar, 0161, Manchester Momentum e outros mostram que os socialistas são os que ajudarão a apoiar as comunidades destruídas pelo neoliberalismo e políticos desconectados de seus interesses. Isso será essencial para a futura sobrevivência e sucesso da esquerda inglesa. E não devemos esquecer isto: criar uma cultura política a partir de baixo é algo que a esquerda pode dominar. É improvável que haja clubes e centros culturais apoiando o The Independent Group, falando sobre uma história compartilhada de belicismo e austeridade, e cantando canções sobre Chris Leslie (parlamentar independente).

E onde a extrema-direita continuamente tenta desenvolver sua própria cultura de artes marciais para tentar recrutar entre as classes trabalhadoras, lá estarão os socialistas em cada passo do caminho para impedi-los – porque ninguém mais o fará. Mas isso só funcionará se for com uma cultura socialista intimamente alinhada com os interesses da classe trabalhadora.

E ao fazer disso abertamente parte de uma tradição inglesa histórica e contínua, lugares como o Cambridge Socialist Club mostram que a esquerda organizada e seus valores podem – e devem – emergir das comunidades locais. A identidade inglesa é uma identidade coletiva pronta que pode ajudar a desenvolver um movimento para muitos, e não para poucos. Para ter sucesso, isso precisa ser um movimento socialista cultural mais amplo que não tolere apenas uma herança inglesa, mas deixe claro que isso é a herança inglesa.

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23 anos, é editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. Tem artigos publicados em sites como Truthout, Russia Insider, New Cold War, OffGuardian, Latin America Bureau, Konkret Media e Periferia Prensa. É autor de "Golpe é Guerra - Teses para enterrar 2016".