No último dia 31 de março, véspera do aniversário do golpe militar de 1964, estreou na internet e em alguns cinemas do país o documentário “1964: O Brasil entre armas e livros”, da produtora “Brasil Paralelo.”

“A gente não queria mentir em prol de um panfleto político”, disse um dos responsáveis pelo filme, Lucas Ferrugem. O problema é que, ao mesmo tempo, o objetivo do documentário não é outro que não sustentar “que a Revolução (sic) de 1964 foi feita para deter a nossa caminhada para Havana e para Caracas”, como declara no filme o jornalista Aristóteles Drummond – que transparece, pela declaração, não ter senso de justiça suficiente nem para carregar o nome do filósofo, nem o do poeta.

A besta paradoxal com que os defensores do regime militar se enfrentam é o fato de que, na sua linha argumentativa, os militares derrubaram um presidente eleito e impuseram ao país uma ditadura – este é o fato incontestável – para evitar uma imaginada “ditadura comunista” futura – e a realização desta, impedida ou não pelo golpe, é contestável não só pelos discursos ou documentos, mas precisamente pelo fato de não ter se concretizado.

Os “conservadores liberais” lambedores de coturnos, neste caso, estão em uma posição dura: eles têm de justificar os crimes de seus amantes do passado, sobre os quais não pesam dúvidas, com a névoa do “poderia ter acontecido coisa pior.” E esta nuvem embusteira tem sua fraqueza precisamente por um problema filosófico: o futuro sempre carrega em si o pior e o melhor; e se a possibilidade do pior ocorrer justificar atuar, no presente, precisamente como se prenuncia pelo pavor, a civilização não terá nunca estabilidade que produza avanço e, ao contrário, nos mataremos todos mutuamente, sempre impregnados pelo medo de que, se não o fizermos, outro atentará contra nós. E é precisamente como os chorosos em questão pensam – mas só quando se trata dos militares. Eles justificam a ilegalidade do poder, instituída, com os ditos crimes dos revolucionários que resistiram, esquecendo daquelas lições do liberal John Locke quanto ao direito à rebelião.

É esta a razão pela qual os responsáveis pelo regime militar devem ser rechaçados hoje: porque aquele que quer ser senhor do tempo, que age “preventivamente” quanto ao futuro, quando traindo suas próprias profecias e pela própria mão as tornando fatos, deve se ajoelhar perante a História, que lhe julga pelas hipócritas mentiras.

Mas deixemos o problema destes nossos hobbesianos que, tomados pela covardia frente ao futuro e ao imaginário Leviatã Vermelho, acabam por criar, no presente, seu próprio Leviatã. Discutamos a História. Ou, melhor: discutamos o que o Brasil Paralelo chama de história.

O documentário “1964 – O Brasil entre armas e livros” baseia-se, em suma, em três pilares: 1 – a ideia de que, sem a ação dos militares, o Brasil seria levado ao comunismo. 2 – A ideia de que os Estados Unidos não tiveram participação no golpe. 3 – A ideia de que “o povo” apoiou e pediu a ação dos militares.

O comunismo no Brasil e a StB

A ideia de que o Brasil seria inevitavelmente levado ao comunismo, no documentário, tem como base o livro “1964: O elo perdido”, de Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák. Os autores do livro se basearam nos arquivos que encontraram no arquivo do Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários, de Praga, que comprovariam a presença, no Brasil, de uma rede de agentes do Státní bezpečnost (StB), o serviço secreto da antiga Tchecoslováquia socialista.

O livro relata, dentre outros, a história de Alexandr Ivanovich Shitov (vulgo Alexeyev), um oficial soviético que teria sido tradutor de Jânio Quadros durante sua visita à URSS, em 1959, e que teria sido enviado ao Brasil em 1961. De acordo com o próprio livro, “Jânio Quadros não sabia a verdadeira identidade de Alexeyev, e garantiu a seu amigo que ‘quando eu chegar ao poder, e chegarei com 100% de certeza, você será o primeiro a receber o visto'”. O livro diz, da viagem de Alexeyev ao Brasil, que “O efeito mínimo seria reatar as relações diplomáticas. E o máximo? Podemos apenas imaginar.”

De fato, podem somente imaginar. E é justamente este o pecado do “Brasil Paralelo”: imaginam demais. Os momentos mais incendiários com a participação de Goulart ou Jânio, no livro de Kraenski e Petrilák, relatam, somente, encontros absolutamente naturais, direitos assegurados ao presidente e ao vice pelos votos do povo. Se a StB tinha um plano secreto capaz de levar o País ao comunismo, a função dos militares era a de alertar o presidente; não derrubá-lo. E se o serviço secreto da Tchecoslováquia representava tamanho perigo para o Brasil, por que permaneceu ativo durante o regime militar, como demonstra o website dos responsáveis pelo livro, sem ter implantado tal ditadura contra os militares?

“Para analisar a ciência política nós temos que ter cuidado com o que se chama ‘evidência anedótica’. O que é evidência anedótica? é um depoimento, do próprio agente ou dos interessados na questão, que dizem ‘tal coisa aconteceu’. E você só tem o depoimento”, declarou o produtor do documentário, Lucas Ferrugem, quando perguntado sobre casos de tortura durante o regime militar. Mas não é exatamente o que fizeram com os documentos da StB, para justificar que o Leviatã Vermelho se aproximava?

Os Estados Unidos e o golpe

A participação dos Estados Unidos na preparação e articulação do golpe no Brasil, no documentário, é tomada como mito. Uma carta do diretor do FBI, J. Edgar Hoover, é apontada como uma falsificação da StB. A esquadra de navios enviada pelos norte-americanos ao litoral brasileiro é descrita por Olavo de Carvalho, no documentário, com o objetivo único de “tirar norte-americanos do País”. Balela.

Para o professor da Universidade de Columbia, nos EUA, John Dingens, “por causa de um medo exagerado de uma repetição da revolução cubana – um cenário que observadores objetivos consideraram ser extremamente improvável, beirando a paranoia geopolítica -, o embaixador e agentes da CIA [sigla em inglês para a Agência Central de Inteligência, do governo norte-americano], conspiraram e encorajaram militares brasileiros a depor o presidente eleito pelo povo brasileiro, João Goulart.”

O documento “A Contingency Plan for Brazil” (“Um plano de contingência para o Brasil”), escrito em 11 de dezembro de 1964 – quatro meses antes do golpe – pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, conta com o item “Afastamento de Goulart por Forças Construtivas”, que prevê a “persuasão” para que o então presidente do Brasil, João Goulart, deixe o governo, que o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, o suceda, e que haja uma “tomada militar interina”. Foi o que ocorreu.

Em 28 de março – ou seja, quatro dias antes do golpe – o mesmo Lincoln Gordon escreve um documento solicitando a “entrega clandestina de armas de origem não-americana” a “apoiadores de Castello Branco em São Paulo”, por um “submarino não-marcado, à noite”, e o deslocamento de “força-tarefa naval”.

Vejamos o que haviam escrito Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák sobre como o serviço tcheco recebeu o golpe de 1964:

“Os acontecimentos de 31 de março a 1 de abril de 1964 foram uma surpresa total para o serviço de inteligência tchecoslovaco […] o golpe de estado, a derrubada de João Goulart, a facilidade com que os generais mudaram o regime político no Brasil, sem encontrar grande resistência da estrutura do governo anterior — nada disso entrava na cabeça dos analistas da Central da StB em Praga. Perguntava-se: como é possível que a rezidentura no Rio, tão elogiada, não sinalizou nada antes? Por que, ainda em 2 de abril de 1964, relatou que a posição de Goulart era ‘forte’?”

Ora, o serviço secreto que foi “pego de surpresa” com o golpe era todo-poderoso, capaz de levar o país ao comunismo, mas aqueles agentes norte-americanos, que desenhavam cenários para derrubar Jango já desde 1963 – cenários, lembremos, que se confirmaram no futuro – e que quatro dias antes do golpe pediam a entrega de armas especificamente para os apoiadores de Castello Branco, em São Paulo, nada tiveram a ver com o golpe?

O povo nas ruas

“Os militares… eles deram um golpe em 1964…. [golpe] legal, né.” disse o produtor Lucas Ferrugem. “O povo apoia, todo mundo queria 64, foi com muito apelo popular aquilo que aconteceu”, fecha. É o que é argumentado no documentário: o povo queria a derrubada de Jango, e o apoiou com a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade.”

Dizer que o povo “apoiou” o golpe e que era contra Jango é um tanto nebuloso, considerando que o povo só foi se manifestar publicamente por meio legítimo, o voto, 21 anos depois.

Flávio Morgenstern diz no documentário: “ela é gigantescamente maior do que a Coluna Prestes. Lá teve um milhão e meio de pessoas numa época em que o Brasil tinha menos de 1/3 da população atual. Quer dizer, você imagina hoje uma marcha com quatro, cinco milhões de pessoas.” Os dados quanto ao nível de participação na Marcha, na verdade, são de 500 mil a 800 mil pessoas. Em 1965, o país tinha 83,5 milhões de pessoas. Ou seja, no melhor dos casos – com 800 mil pessoas – a marcha teve participação de menos de 1% da população. Até o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, relatou a falta de apoio popular no movimento, em um telegrama de 2 de abril de 1964: “A única nota destoante foi a evidente limitada participação das classes mais baixas na marcha”.

Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião feitas pelo IBOPE às vésperas do golpe revelam um apoio grande também a Goulart. Em São Paulo, 43% consideravam seu governo “ótimo” ou “bom”, e outros 30% consideravam regular. 40% disseram que as reformas de base eram “absolutamente necessárias, e com urgência”, e outros 39% disseram “necessárias, porém com moderação, sem pressa.” Os dados estão disponíveis em pesquisa de Rodrigo Patto Sá Motta.

Tortura

O tema da tortura não constitui um dos pilares do documentário, mas dada a desonestidade absurda com o qual nele foi abordado, gostaria de comentá-lo.

“Foi feita uma propaganda da tortura como uma arma institucional, e isso não foi o que a gente encontrou na pesquisa. O que a gente mais encontrou na pesquisa é que houve psicopatas que se abusaram do poder, de ambos os lados, para cumprir, de certa forma, aquelas diretrizes e aquele poder do estado que tinha na mão”, disse um dos produtores ao programa “Pânico.” É também o que diz o documentário: “E foi nesse ambiente de guerra que psicopatas, torturadores e criminosos de ambos os lados se valiam para praticar as suas perversidades em nome de uma causa ou de outra.” De acordo com eles, a tortura não era uma prática institucional, mas um fato difuso, fora do controle das autoridades. E isso é um embuste.

Os produtores do Brasil Paralelo, tão apegados aos documentos que são, deixaram de consultar aqueles documentos liberados pelos próprios Estados Unidos. Um memorando de 1974, enviado pelo diretor da CIA para o então secretário de Estado Henry Kissinger, relata uma reunião entre o presidente Ernesto Geisel, o general Milton Tavares de Souza, o general Confúcio Danton de Paula Avelino, e o chefe do Serviço Nacional de Informações João Baptista Figueiredo. Diz o relatório que: “[Milton] Descreveu o trabalho do CIE contra a subversão interna durante a administração do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici. Ele enfatizou que o Brasil não pode ignorar a ameaça subversiva e terrorista, e afirmou que métodos extralegais deveriam continuar a ser empregados contra subversivos perigosos […] Nesse sentido, o general Milton relatou que cerca de 104 pessoas, nessa categoria, haviam sido executadas sumariamente pelo CIE durante o último ano, ou pouco mais de um ano. Figueiredo apoiou essa política e defendeu sua continuidade.”

O relatório informa ainda que o presidente Geisel “informou ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que extremo cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados […] O presidente e o general Figueiredo concordaram que, quando o CIE detivesse uma pessoa que poderia ser enquadrado nessa categoria, o chefe do CIE deveria consultar o general Figueiredo, cuja aprovação deveria ser dada antes que a pessoa fosse executada.”

Mas o documentário em questão diz: “Com o terrorismo comunista cada vez mais crescente, a esquerda radical deu pretexto para que a população sentisse medo e a linha dura do exército conseguisse expandir seu poder. […] A guerra travada pelos terroristas expandia as justificativas para a repressão por parte do Exército. Por outro lado, permitia que o movimento estudantil usasse os mortos em combate para construir a ideia de que a tortura era uma política de estado, fazendo dessa bandeira seu instrumento político e sua publicidade.”

Ora, se o movimento estudantil usava seus “mortos em combate” (como aquele combatente aguerrido, Edson Luís, estudante secundarista morto dentro de um restaurante universitário, certo?) para “construir a ideia de que a tortura era uma política de estado”, eles acertaram em cheio: a tortura era realmente uma política de estado.

Nossos documentaristas dizem ainda que “há uma divergência sobre o número de mortos e desaparecidos durante o regime militar. 424, segundo os movimentos de esquerda, 362, segundo os militares. O número verdadeiro deve estar em algum lugar no meio dessa diferença.”

Um número muito mais acertado deve estar nos arquivos do Exército, mas nossos milicos não têm coragem de liberá-los e, quando pressionados, dizem que foram destruídos. Os nossos defensores da verdade e combatentes das anedotas não pressionarão por sua liberação. Ao contrário, preferem procurar alguma verdade oculta na Tchecoslováquia. E quando pressionados por suas mentiras, dizem que “não encontramos nada.” Sinal de que procuravam algo bastante específico, e bem distante da verdade – um conto de um universo paralelo.