Entrevista: Cinco anos após golpe na Ucrânia, “construir a organização dos comunistas é prioridade máxima”

por Greg Butterfield | Struggle-La Lucha - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

1
867
(Foto: Borotba)

O que segue é a primeira parte de uma entrevista especial de Greg Butterfield para o  Struggle-La Lucha, organização comunista dos Estados Unidos, com Alexey Albu, do partido comunista ucraniano Borotba. A segunda parte será publicada amanhã.

Em fevereiro de 2014, um golpe patrocinado pelos Estados Unidos derrubou o governo eleito da Ucrânia e instalou um regime de extrema-direita representante dos interesses imperialistas ocidentais, oligarcas locais e neonazistas. O novo governo lançou-se em guerra contra a região mineira do Donbass, que se rebelou, que teve o custo de ao menos 13 mil vidas até o momento.

O Struggle-La Lucha conversou com Alexey Albu, um ex-representante do Conselho Regional de Odessa e líder da organização marxista revolucionária Borotba (Luta), que foi posta na clandestinidade na Ucrânia de hoje. Albu sobreviveu o primeiro massacre na Casa dos Sindicatos de Odessa em 2 de maio de 2014, e foi forçado a deixar a Ucrânia. Desde então, de fora das áreas atualmente controladas pelo governo de Kiev, ele tem trabalhado pela libertação do país.

Struggle-La Lucha: Passaram-se cinco anos desde a realização do golpe “Maidan” em Kiev. Em breve, serão cinco anos desde o início da guerra no Donbass e o massacre de Odessa. Como alguém que foi forçado ao exílio político em 2014, qual é sua situação hoje? Qual é a situação dos exilados políticos da Ucrânia, em geral?

Alexey Albu: Cinco anos atrás, as forças de extrema-direita desencadearam uma guerra civil na Ucrânia. De um lado do conflito estavam os oligarcas e seus cães acorrentados – os ultranacionalistas. Do outro lado estavam as pessoas que não concordavam, mas que, infelizmente, não estavam unificadas em suas perspectivas.

O movimento de resistência unido foi chamado de “Antimaidan”. Estivemos unidos por três ideias principais: antifascismo, anti-oligarquismo e integração com a Rússia e outros países que surgiram como resultado do colapso da URSS. Pessoalmente, meus companheiros e eu consideramos os verdadeiros separatistas como aqueles que separaram a Ucrânia da URSS em 1991, o que significa que, em nossa visão de mundo, a guerra está ocorrendo no território da União Soviética. É por essa razão que não nos consideramos exilados políticos, já que estamos em nosso próprio país.

Se falamos sobre as condições em que as pessoas se consideram emigrantes políticos vivem hoje, elas são certamente difíceis. Os antifascistas que deixaram a parte ocupada da Ucrânia encontraram-se em países com leis diferentes, sem status oficial, sem trabalho regular, com laços sociais quebrados. Na verdade, todos tiveram que começar suas vidas do zero.

A fim de melhorar a sua posição na sociedade, várias organizações e associações foram criadas, tais como a União dos prisioneiros políticos e emigrantes políticos da Ucrânia, o Comitê para a Libertação de Odessa (Comissão de 2 de Maio), o Comitê para a Salvação da Ucrânia e outros. Mas como todos os participantes tinham aproximadamente o mesmo status social no novo “mundo pós-emigração”, ninguém poderia se ajudar.

Por um lado, essa circunstância deu origem a alguns conflitos internos e, por outro, fortaleceu certos grupos de oposição. As condições em que todos nós caímos tornaram-se uma espécie de teste. Alguns passaram com dignidade, outros não.

A situação é agravada pelo fato de as partes da antiga URSS – Bielorrússia e Rússia – que estão mais próximas da Ucrânia em cultura e língua, não poderem prestar assistência total às pessoas que deixaram temporariamente o território ocupado da Ucrânia. A este respeito, as pessoas têm muitos problemas associados às autoridades de imigração.

Legalmente, a Rússia e a Bielorrússia não têm o direito de conceder o estatuto de asilo político. E o status de asilo temporário foi concedido apenas aos moradores de duas regiões da Ucrânia: Donetsk e Lugansk. Assim, os moradores de Odessa, Kharkov, Zaporozhye, Kiev e outras cidades, que foram forçadas a fugir da repressão, se viram na situação de residentes ilegais.

Isso preocupa os comunistas, mas entendemos que, se as forças de esquerda fossem mais fortes na Rússia e na Bielorrússia, não haveria tais problemas.

Eu e muitos camaradas do Borotba estamos nas Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk (LPR e DPR). Não há problemas legais aqui, porque muitos camaradas têm passaportes ucranianos. No entanto, há uma situação social bastante difícil causada pela guerra.

SLL: Quais são suas atividades políticas agora?

AA: Hoje, nossa principal tarefa é apoiar os ativistas e apoiadores do Borotba que permaneceram nos territórios ocupados. Os métodos e formas de trabalho e luta política mudaram significativamente, e sob a ditadura neofascista na Ucrânia não podemos ver o que poderíamos durante o período da democracia burguesa. Portanto, estamos constantemente buscando aberturas.

Continuamos a conduzir pequenas campanhas de agitação – para distribuir panfletos explicando a essência de classe dos problemas da Ucrânia, para desenhar grafites, para pendurar bandeiras vermelhas. Mas somos incapazes de realizar abertamente uma manifestação ou um protesto. Mesmo as mesas-redondas fechadas são bloqueadas por representantes dos serviços especiais e pelos nacionalistas.

Também continuamos o trabalho de propaganda nas mídias sociais e nos meios de comunicação russos que são lidos na Ucrânia. Nós nos concentramos na comunicação pessoal com muitas pessoas, que permanecem do outro lado da linha de frente.

Além disso, nossos camaradas estão ocupados desenvolvendo um esboço de uma nova Constituição da Ucrânia, a fim de oferecê-lo ao público.

Infelizmente, resolver problemas cotidianos consome muito tempo que poderia ser gasto na luta revolucionária. Portanto, acreditamos que, gradualmente, é necessário retornar a uma abordagem profissional para o trabalho. Para este fim, estamos fazendo muito trabalho para arrecadar fundos para o Borotba. No entanto, devido ao fato de que a maioria dos nossos camaradas vive em condições sociais difíceis, esse processo é bastante difícil.

SLL: Durante cinco anos, o regime apoiado pelos EUA e União Europeia em Kiev levou a cabo “reformas” econômicas com vista a uma maior privatização e penetração dos capitalistas ocidentais, incluindo medidas de austeridade exigidas pelo Fundo Monetário Internacional. Como isso afetou a situação dos trabalhadores na Ucrânia?

AA: Estamos bastante familiarizados com os trabalhos de V.I. Lênin, e sabemos que a consciência de classe não pode emergir da classe trabalhadora por si mesma. Só pode ser trazido do exterior, pelos comunistas. Para este fim, propaganda em larga escala e trabalho organizacional precisam ser realizados. Naturalmente, nas condições após a derrota do Antimaidan, é extremamente difícil realizar tal trabalho.

Todos nós vemos o resultado: a classe trabalhadora é desorganizada, moralmente deprimida e, pior de tudo, não se reconhece como uma classe trabalhadora.

Muitos políticos que se opuseram à junta de Kiev pensaram que quanto mais as condições sociais dos trabalhadores se deteriorassem, mais cedo se levantariam para lutar. No entanto, nós, marxistas ucranianos, compreendemos plenamente que, para que a classe trabalhadora se levante para lutar, a organização comunista deve aparecer na sociedade. Construir essa organização é nossa primeira prioridade.

SLL: Como vocês avaliavam as recentes eleições presidenciais na Ucrânia, marcadas para o 31 de março? Vocês achavam que o presidente Petro Poroshenko seria reeleito? A esquerda teve algum papel nessas eleições?*

AA: Acreditamos que a parte da população que se opõe ao estado atual das coisas simplesmente não está representada no processo político ucraniano. Partidos e organizações que podem representar seus interesses são simplesmente proibidas ou estão sob o controle completo dos serviços de segurança.

Por isso, discutimos esta situação com os nossos camaradas e preparamos este apelo aos cidadãos da Ucrânia:

“Desde o golpe de estado e início da guerra civil, uma situação política complicada se desenvolveu na Ucrânia. Hoje, não há um único candidato presidencial que defende um ponto de vista alternativo sobre o desenvolvimento sócio-político e econômico futuro da Ucrânia, ou para a resolução pacífica de conflitos internos e externos, respeitando os direitos constitucionais e liberdades dos cidadãos.

Não pode haver livre-arbítrio de acordo com as regras da ditadura nacionalista, que são capangas de forças externas.

Para uma grande parte da população – por exemplo, cidadãos de língua russa e partidos de esquerda – tem sido impossível nomear um candidato que não seja contaminado pela cooperação com os atuais saqueadores.

Nestas condições, o Borotba declara uma rejeição categórica da próxima eleição eleitoral imposta ao povo ucraniano pelo regime ilegítimo de Kiev.

Repressão política maciça contra dissidentes, guerra contra o seu próprio povo, escravização sem paralelo e subjugação de amplas seções de trabalhadores – este é o resultado do governo atual. Então, por que razão as pessoas sensíveis têm que acreditar que serão dadas à ‘escolha democrática’?

O reconhecimento da legitimidade e participação no processo eleitoral é uma traição. Só a resistência, apenas um trabalho sistemático para desmantelar o regime criminoso, faz sentido para nós.

Nós nunca perdoaremos os oligarcas que desencadearam a guerra; Nós desprezamos seus cães nazistas, que realizam a maldade dos gatos gordos. Não aceitamos a lógica dos ingênuos, que vêem os “oposicionistas” naqueles que trabalham silenciosamente nos últimos cinco anos, de acordo com as regras da camarilha de criminosos de guerra e terroristas de Estado.

Enquanto o regime de Kiev de usurpadores e algozes não é deposto, e a camarilha vilã de Poroshenko e seus asseclas não recebe um castigo merecido, não vamos aceitar quaisquer eleições ou outras tentativas de legitimar o ‘regime do Maidan.’

A única escolha real para o povo ucraniano é uma vitória sobre o poder oligárquico e neonazista na Ucrânia!

Pedimos a todos que têm esse poder de se unirem com seus amigos e entes queridos, com pessoas que pensam como você!

Encorajamos o estabelecimento de comunicação e coordenação com outras pessoas que querem desmantelar este sistema!

Nós pedimos que você se junte à resistência já existente contra a matilha nazista oligárquica!

Não temos outro jeito senão lutar e resistir! A verdadeira revolução está à frente!”

Leia aqui a segunda parte da entrevista

*A questão havia sido feita antes da realização das eleições, que acabaram por eleger o comediante Volodimir Zelenskiy presidente. Adaptamos o texto para uma melhor leitura, sem alterar a resposta.

COMPARTILHAR
AnteriorSocialismo sob ataque da amedrontada Casa Branca
PróximoA comédia ucraniana
23 anos, é editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. Tem artigos publicados em sites como Truthout, Russia Insider, New Cold War, OffGuardian, Latin America Bureau, Konkret Media e Periferia Prensa. É autor de "Golpe é Guerra - Teses para enterrar 2016".