As duas canções que derrubaram o regime Salazar

por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: FraLiss / WikiCommons)

24 de março de 1974. Um grupo de capitães portugueses revoltosos, que haviam se reunido pela primeira vez há menos de um ano, e formado o Movimento das Forças Armadas há seis meses, decide: o Estado Novo de Salazar, que perdurava desde 1933 e cujo representante neste momento era Marcello Caetano, deve ser derrubado.

Um mês depois, no dia 24 de abril, esses militares estarão na véspera da Revolução dos Cravos. Eles esperam o momento do ataque. Otelo Saraiva de Carvalho instalara um centro de operações em Lisboa. Às 22h55 da noite, a primeira senha combinada pelos militares revolucionários para iniciar a tomada de posições ecoa na rádio dos Emissores Associados de Lisboa: “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho.

“Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci / Perguntei por mim / Quis saber de nós / Mas o mar / Não me traz / Tua voz.”
Às 0h20, agora já no dia 25, outra canção ecoará e servirá como senha que confirma o golpe e marca o início das operações. É “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, que viaja pela Rádio Renascença, no programa Limite. 

“Em cada esquina um amigo / Em cada rosto a igualdade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti ó Cidade”

A canção havia sido composta por Zeca Afonso em homenagem à vila de Grândola, em Alentejo, que visitou em 17 de maio de 1964, quando se apresentou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. De acordo com o poeta e escritor Carlos Loures, a apresentação na vila “mudou sua vida”. “Cantou perante uma assistência constituída maioritariamente por gente pobre, mas faminta de cultura – trabalhadores da indústria corticeira, amadores de música, ceifeiras, alguns clandestinos ligados ao Partido Comunista… José Saramago, então um escritor quase desconhecido, estava também entre a plateia”, diz em relato. “Apaixonado pela vila, comprou uma pequena parcela de terreno em Grândola, com uma modesta casa, onde gostava de passar os seus tempos livres. Grândola cativara-o definitivamente pelo ambiente fraterno que envolvia as suas gentes. Pedro Martins da Costa, militante do PCP e, a partir de 1974, vice-presidente do município durante mais de 25 anos, presente no famoso concerto de 1964, diz que ao Zeca agradou sobretudo a igualdade que ali existia antes e depois da Revolução de Abril – continuaram a ser «tão igualitários que nem se sabia quem era o presidente». A letra da canção não constitui, portanto, um conjunto de simples metáforas…”

O movimento tem sucesso, o Estado Novo é derrubado, e a Junta de Salvação Nacional toma o poder com o programa Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. A música de Zeca toma o mundo, em versões em jazz, em catalão, no punk português e brasileiro.

No Brasil, destaco a versão de Kátya Teixeira, Luiz Salgado e Barbatuques, no disco “Dois Mares”, em que fazem uma espécie de pout-pourri com “Cangoma me chamou” (ou Tava Durumindo):

E que os cravos de Abril façam raízes também no Brasil!