A tentativa patética de golpe de estado que assombrou a Venezuela nessa semana teve um efeito óbvio: expôs Juan Guaidó e sua trupe, aos olhos de todo o mundo, como os golpistas vis que são.

A grande imprensa global bem que tentou, desesperadamente, dar pelas penas de seus jornalistas a força que faltou aos fuzis dos golpistas. Horas depois da Telesur assegurar que a base aérea La Carlota, alvo estratégico dos golpistas, continuava sob controle dos soldados das Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) leais a Maduro, ainda rodava pelo globo a notícia de que a base tinha sido tomada pelo grupo de Guaidó – o que aparentemente nunca ocorreu.

Mais tarde, a mesma imprensa tentou colher lágrimas do público por meio de imagens de umas “tanquetas” da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) “passando por cima de manifestantes.” Não deram tanto peso, no entanto, ao fato do coronel da GNB Yerzon Jimenez Baez ter sido baleado no pescoço pelos golpistas, naquele mesmo cenário.

De qualquer maneira, o fato é que os esforços da imprensa – por um lado como uma lança; pretendendo que a imaginação de uma força maior de fato conferisse aos golpistas tal portência, por outro como um escudo; tentando mostrar a “crueldade do regime” – não foram frutíferos. Com sua tentativa de golpe, Guaidó perdeu tudo o que tinha: a imagem imaculada de um mauricinho que ousou se autodeclarar presidente, com o apoio de potências estrangeiras. O cidadão médio que por ele tinha alguma simpatia sem dúvidas não tornou-se, por isso, um chavista convicto; mas agora vê a Venezuela como a encruzilhada de uma batalha entre “dois loucos”, no mínimo.

Internamente, os efeitos são similares. A oposição ao governo Nicolás Maduro efetivamente foi enfraquecida, restando isolados aqueles elementos radicais. Como ocorreu durante as “guarimbas”, em 2014 e 2017, é previsível que, mesmo dentro da oposição, as rachaduras aumentem. Os Estados Unidos precisarão de um novo boneco Ken para brincar de golpe brando na Venezuela… mas cada vez que tentam, o penteado pomposo do brinquedo mingua mais.

Venezuela: Uma necessidade

O que não foi alterado é um fato vital: a Venezuela não constitui só um “incômodo” para os EUA, nem é um mero objeto de desejo. O país efetivamente é um objetivo estratégico dos abutres do norte em um novo momento da geopolítica global.

É comum vermos apontamentos sobre a sede pelo petróleo. Isso é um fator, sem dúvidas, mas tudo é mais grave. Para entender as razões dos norte-americanos na Venezuela, precisamos voltar há quase duas centenas de anos atrás, e precisamos dirigir nossa visão à geopolítica.

Em 1823, o presidente norte-americano James Monroe inaugurou a chamada “Doutrina Monroe”. Essa Doutrina estabelecia que os Estados Unidos consideravam que a América Latina como um todo era seu protetorado. Isso era especialmente importante em um momento em que as potências europeias, antigas metrópoles das colônias americanas, ensaiavam novos avanços em nosso continente.

No começo do século seguinte, o presidente norte-americano Theodore Roosevelt anuncia perante o Congresso, no dia 6 de dezembro de 1904, o famoso “Corolário Roosevelt”, uma continuação da Doutrina Monroe, agora assegurada por certas medidas estratégias de segurança. Inaugurava-se a “Política do Big Stick” – fale suavemente, mas com um porrete em mãos. Dizia Roosevelt: “No que se refere à nossa política externa e à atitude que essa grande Nação deve assumir no mundo como um todo, é absolutamente necessário considerar o Exército e a Marinha […] não é somente imprudente, é desprezível que uma nação, como é para um indivíduo, usar a linguagem em alto tom para proclamar seus propósitos ou posições que se tornem ridículas se não forem apoiadas pelo potencial da força, e depois se recusar a prover essa força. Se não há intenção de prover e manter a força necessária para apoiar uma atitude forte, então seria melhor não assumir tal atitude.”

O que poderia motivar tais atitudes? Roosevelt não nos deixou sem resposta: “Se uma nação mostra saber lidar com eficiência razoável e decência em questões políticas e sociais, se ela mantém a ordem e paga suas dívidas, ela não deve temer qualquer intervenção dos Estados Unidos. Falhas crônicas, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços da sociedade civilizada podem, na América, ou em outro lugar, requerir a intervenção de alguma nação civilizada, e no Hemisfério Ocidental a aderência dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que de forma relutante, em casos flagrantes de tais falhas ou impotências, a exercer um papel de poder policial internacional.”

O essencial para compreendermos essa questão está na concepção que os Estados Unidos tinha da América Latina: era parte de “nosso hemisfério.” No começo do século 20, uma questão em específico preocupava Roosevelt: a dívida da Venezuela com países europeus, especialmente a Alemanha. O então presidente venezuelano, Cipriano Castro, estava confiante de que precisamente por conta da Doutrina Monroe, seu país não sofreria uma intervenção europeia. Pura ilusão. Roosevelt declarou: “Se algum país sul-americano se comportar mal frente a um país europeu, deixe que o país europeu o espanque.” A Venezuela sofreu por meses um bloqueio naval da Itália, Grã-Bretanha e Alemanha, que só foi resolvido após muita pressão norte-americana contra a Venezuela. Foi daí que surgiu a declaração de Roosevelt: “Falhas crônicas, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços da sociedade civilizada podem, na América, ou em outro lugar, requerir a intervenção de alguma nação civilizada.”

Em 1908, um episódio similar se repetiu, agora entre a Venezuela e a Holanda. O caso terminou com Juan Vicente Goméz, com o apoio dos Estados Unidos, dando um golpe no então presidente Castro, e encerrando a disputa com a Holanda.

Qualquer episódio de desestabilização no continente era visto pelos EUA como uma desestabilização de suas forças próprias. Era preciso assegurar a estabilidade por meio do grande porrete, evitando intervenções europeias na América do Sul. Agora tomemos um respiro para algumas declarações:

“[A Doutrina Monroe é] claramente um sucesso […] tão relevante hoje como no dia em que foi escrita […] Hoje a China está colocando um pé na América Latina. Está usando políticas econômicas para colocar a região na sua órbita. A pergunta é: a que preço? A América Latina não precisa de novos poderes imperiais que só buscam beneficiar seu próprio povo.” – Rex Tillerson, ex-secretário de Estado de Trump, em fevereiro de 2018.

Nessa administração nós não temos medo de usar a frase ‘Doutrina Monroe’. Esse é um país em nosso hemisfério, tem sido o objetivo de presidentes desde Ronald Reagan ter um hemisfério completamente democrático.” – John Bolton, atual Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, tratando da Venezuela, em março desse ano.

Agora, um fato tão significativo que se torna quase pueril: desde 2005, a China distribuiu na América Latina – “nosso hemisfério” – 150 bilhões de dólares. Mais de um terço desse montante – 62 bilhões – foram para a Venezuela.

Trocando em miúdos: em uma época em que a China se levanta, disputando a hegemonia global com os Estados Unidos, motivando guerras comerciais (depois daquelas guerras reais contra a Rússia, na Ucrânia e Síria, terem se provado inúteis), os chineses tem um pé firme num dos mais importantes países do continente. Se aquelas tentativas na Síria, na Ucrânia, em Hong Kong e na Coreia falharam na grande estratégia norte-americana contra a Rússia e principalmente a China, agora é a hora de garantir a segurança de “nosso hemisfério.

Guerra, guerra, guerra

Assim, não se trata somente de uma busca para sanar a sede por petróleo – o petróleo venezuelano de fato importa em termos econômicos, mas importa muito mais em termos geopolíticos; tomá-lo é impedir que aqueles outros países não-alinhados tenham reservas. Se trata de assegurar a estabilidade continental, o “ordenamento único”, garantir próprias bases antes de se jogar em mais uma provocação contra a China ou a Rússia.

Reordenar a Venezuela, assim, é um fator decisivo. Ao mesmo tempo, para fazê-lo sem desestabilizar todo o continente – o que é mister, para os Estados Unidos, que não ocorra nesse momento -, os norte-americanos dependeriam de uma disposição grande por parte do povo venezuelano para derrubar Maduro, ou por parte das principais forças do alto-escalão do exército. E, aparentemente, nada disso vai ocorrer em um futuro próximo.

A outra opção, a da intervenção, levaria os Estados Unidos a travar uma guerra encarniçada, possivelmente de média-longa duração, já que, como Euclides Vasconcellos escreveu em artigo para este veículo, além das forças regulares nas FANB e GNB, Maduro conta com milícias civis, separadas em diversos pequenos núcleos ao longo do país, preparadas para travar a guerra de guerrilhas contra as forças de ocupação. Fala-se de uma possível guerra de mercenários, mas é difícil prever um cenário em que ela não levaria a precisamente os mesmos efeitos que uma guerra regular dos Estados Unidos contra a Venezuela.

Assim, a única alternativa responsável – do ponto de vista odioso do imperialismo, deixemos claro – é isolar a Venezuela econômica e politicamente, garantindo o “ordenamento único” no resto do continente, com governos mais ou menos bem ordenados e estáveis, e seguir com a violenta política de sanções econômicas, enfraquecendo a Venezuela economicamente, com a esperança de que, no médio prazo, a balança do apoio militar e civil a Maduro mude. Para tanto, é imperativo não só que Cristina Kirchner não volte ao poder, como também que Evo saia e que figuras como Bolsonaro e Macri tenham rédeas para controlar seus governos tumultuosos. Na falta de pulso de nosso presidente, ou do presidente argentino; o pulso de outros. Como naqueles tempos áureos de Roosevelt, Cipriano Castro e Juan Vicente Goméz.