Eleição de Zelensky na Ucrânia: Imagine o Brasil presidido por Marcelo Adnet

por Luiz Freitas | Revista Opera

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(Foto: Russianname)

Ao término das eleições ucranianas, a maior parte da mídia cuspiu análises simplistas e idênticas. Por exemplo: “Comediante vence as eleições presidenciais ucranianas numa avalanche”. Essa manchete não faz justiça aos fatos. Esse tipo de notícia já é algo com o qual nós estamos acostumados. Como, por exemplo, quando o Brasil deu mais de um milhão votos para o Tiririca, a ascensão de Beppe Grillo na Itália ou, até mesmo, a vitória de uma série de candidatos “antipolítica” no mundo desenvolvido. Ávidos por promover – ou combater – uma suposta nova ordem populista, muitos veículos fizeram as comparações que foram feitas a Trump, Le Pen e até mesmo a Bolsonaro. Simplificações e falsas analogias ajudam o leitor a se identificar e não pular a história por preguiça.

Mas minha analogia é justa, eu prometo. Imagine a seguinte situação: O ano é 2022. Não muito surpreendentemente, a “revolução” conservadora do Brasil não cumpriu com suas expectativas, e o governo Bolsonaro é extremamente impopular. A paisagem política do país é caótica e com praticamente todas forças políticas desacreditadas. A eleição é um completo tiro no escuro.

Um ano e meio antes das eleições, a Rede Globo lança uma nova novela das 7. Nela, Marcelo Adnet interpreta um professor que, no meio da aula, reclama com seus alunos dos políticos brasileiros de forma contundente e até vulgar. Um aluno filma tudo e põe na Internet. O vídeo viraliza. Antes que ele próprio possa perceber, o clamor popular para que o professor seja presidente é irresistível e, a esse homem simples, desajeitado e bem-intencionado, cabe a missão de salvar seu país das trevas. Tão logo a novela se torna popular, Marcelo Adnet é realmente lançado a presidência e vence.

Não soa ridículo para quem observa a situação de fora? Essa analogia é o começo do que é preciso para entender o que aconteceu na Ucrânia. O começo, pois o circo espetacular que se tornou o processo eleitoral desse país não acaba nisso. Em breve, esse circo fantástico aonde realidade e ficção se misturam pode estar perto de você.

Vladimir Zelensky interpretava um professor em uma série de TV popular, chamada Servo do Povo e idêntica à hipotética telenovela descrita na introdução deste texto. Entretanto, ao contrário da ficção, sua candidatura não é algo exatamente orgânico e espontâneo. O partido foi registrado nas autoridades eleitorais tão logo a série foi lançada pelos advogados da produtora de TV, sob a alegação de “impedir que alguém usasse a marca eleitoralmente“. Um plano aparentemente existia desde o início. Se a ideia era vencer de fato ou alcançar algo mais modesto que obteve resultados acima do esperado, nunca vamos saber.

Durante o processo eleitoral, Zelensky nunca fez campanha de forma muito convencional. O candidato evitou debates e entrevistas, não propôs absolutamente nada e não tentou ser nada mais do que uma espécie de voto “contra todos” (uma opção que ainda existe nas urnas de vários países pós soviéticos, Rússia incluso). Isso não é uma interpretação ou dedução. São exatamente as suas palavras. A estratégia de evitar os compromissos normais de um candidato foi bastante útil para esconder seu despreparo e sua falta de base político-ideológica. Lembra, de certa forma, o que um certo candidato presidencial fez no Brasil em 2018. Tal qual o certo candidato brasileiro, há poucos motivos para acreditar que não foi um passo calculado.

Justiça seja feita, Zelensky somente estava se adaptando a um ambiente em que a seriedade e o compromisso já não eram mais qualidades. Seus oponentes também faziam campanhas surrealistas, embora de forma mais tradicional. Poroshenko, o atual presidente, prometia colocar a Ucrânia no caminho da ascensão à União Europeia em menos de cinco anos, sem se preocupar muito com o que a União Europeia teria a dizer sobre isso. Tymoshenko – figura carimbada do campo pró-atlantista ucraniano e, até então, a favorita – prometia elevar os salários na Ucrânia aos patamares poloneses no mesmo prazo, o que significaria quadruplicá-los em tempo recorde. Com todos seus problemas, a última acusação que pode ser feita a ele é ter baixado o nível do debate. Isso era impossível.

Nem tudo é o fim do mundo. Pode parecer que essas eleições são mais uma má notícia em uma longa lista para aqueles de esquerda ou que simplesmente têm um apreço pela decência. Mas há pontos positivos, embora não exatamente os mesmos que os liberais que buscam “populistas” embaixo da cama como The Guardian enxergam. Sim, a taxa de participação subiu, e os eleitores do leste do país, que normalmente se consideram marginalizados e que acreditam que participar da “democracia” ucraniana não faz diferença, compareceram às urnas – com exceção daqueles 4 milhões e 350 mil de refugiados na Rússia, que foram impedidos de votar.

Por incrível que pareça, há quem enxergou essa farsa como um sinal de uma democracia participativa e saudável. Há quem diga que a Rússia e a Bielorrússia, os dois últimos países europeus cujos governos não veem futuro no atlanticismo, olhariam para esse vívido jogo eleitoral com uma certa inveja. A cobertura extensiva, profunda e em um tom despreocupado, quase alegre, da mídia governista russa sobre essas eleições não demonstra muito medo de que isso seja verdadeiro. Na realidade, o fato do líder bielorrusso Lukashenko ter sido apontado pelos ucranianos como o chefe de Estado estrangeiro com a avaliação mais positiva em 2018 permite uma visão mais apurada de quem inveja quem.

Também não é pela razão de que essa eleição, de fato, vá significar uma nova era na política ucraniana. Do pouco que se sabe do que seria um eventual governo Zelensky, já se pode identificar um bom número de tecnocratas que fizeram parte dos governos Yushchenko (o primeiro dos “pró-Ocidente” a desapontar o eleitorado ucraniano) e Poroshenko, e há até a sugestão de que Arseniy Yatsenuk, que, por um tempo, foi o primeiro-ministro de Poroshenko, vá voltar ao cargo. A única certeza na Ucrânia, além da morte, é a influência dos oligarcas. A começar por Igor Kolomoyskiy, o empresário dono do canal de TV que transmite a série de Zelensky e que provavelmente será sua eminência parda. Com a total ausência de instituições sociais orgânicas, como sindicatos, movimentos estudantis (tudo foi perseguido e desacreditado durante a histeria anticomunista), poucos países tem um grau tão desavergonhado e explícito de poder comprado. É um aviso do que acontece quando você promove uma “caça às bruxas”, acusando até mesmo centristas domados de serem literalmente o Stálin. Algo que também deve soar familiar a um brasileiro.

A boa notícia é que o eleitorado ucraniano – em um país onde a imprensa não é livre, onde se referir a guerra civil como guerra civil é crime, emitir opiniões de esquerda ou pacifistas é um risco, onde gangues de neonazistas agem com impunidade contra minorias étnicas e opositores políticos do governo –, no meio de toda essa pressão, rejeitou os candidatos com discurso belicoso e patriota em prol de alguém que, embora de forma superficial e sem oferecer solução nenhuma, resolveu abordar os problemas sociais do país.

Os antigos apoiadores já começam a se preparar para admitir que o Euromaidan fracassou. A influência do fascismo sobre o mainstream ucraniano é impossível de disfarçar. Mais de dois milhões de ucranianos deixaram o país para trabalhar na Polônia, um outro grande número, incalculável, foi para a Rússia, e muitos outros foram para a Europa Ocidental. O país, vítima de cortes cruéis e incompetência na gestão da saúde pública, reúne 2/3 de todos os casos de sarampo da Europa. Antigos centros industriais de cidades que resistiram à desindustrialização e recessão dos anos 1990 finalmente sucumbiram, como a terra natal de Zelensky, Krivoy Rog, uma das maiores cidades do país – onde ratos infestam áreas abandonadas, e as autoridades não têm o equivalente a 500 euros para contratar um serviço de controle de pestes. Todas essas informações, outrora descartadas como “conspiração e desinformação russa”, estão cada vez mais presentes na imprensa mainstream.

Finalmente, esses tristes fatos passaram a importar mais que uma ameaça fantasma russa. A ideia de Poroshenko de provocar um incidente no mar de Azov e declarar lei marcial pouco antes das eleições falhou. O apelo ao ultranacionalismo, evocando que Zelensky, que tem o russo como primeira língua e vem do leste do país, seria um traidor, também falhou. Insinuações antissemitas sobre Kolomoyskiy e Zelensky, que são judeus, não pegaram. Enquanto Zelensky se esquivou de debates e compromissos de campanha, a classe política se esquivava dos problemas reais da Ucrânia por anos. Até agora. Fica a dúvida do que vai acontecer quando ficar evidente que charme e tiradas sagazes não vão resolver esses problemas. É uma grande incógnita.

Não bastando a performance de Zelensky, Tymoshenko foi obrigada a abrandar o discurso nacionalista, e Poroshenko ficou sozinho no uso dessa tática. Na verdade, por muito pouco não houve um segundo turno entre Zelensky e uma candidatura oficialmente pró-Rússia. Esse campo do eleitorado foi dividido entre dois candidatos, e o principal deles, Oleg Boiko, ficou apenas quatro pontos percentuais atrás de Poroshenko. Não bastando isso, não foi permitido que os ucranianos residentes na Rússia votassem, o que poderia ter alterado o resultado do primeiro turno. Os candidatos assumidamente de extrema-direita tiveram também uma performance muito pior que a esperada.

Com relação à Guerra Civil no Leste e as relações com a Rússia, é difícil prever algo. A versão oficial é que, embora Moscou entenda que quase nada pode ser pior que Poroshenko e seu uso desavergonhado do nacionalismo de extrema-direita, não há expectativas quanto ao próximo governo ucraniano. Zelensky acenou com a possibilidade de novas e mais frutíferas negociações, apesar de mantendo muitas das pré-condições do atual governo. Na pior das hipóteses, a Rússia espera se beneficiar da eventual incompetência e inexperiência do novo governo, que já começa sob um apertamento das sanções mútuas entre os dois países.

Já há, porém, sinais claros de Zelensky é despreparado, incompetente, e de que muita coisa vai continuar como já está. Sua ideia para resolver o conflito no Donbass é “uma guerra de informação para conquistar os corações” dos habitantes dessas áreas, ou, em outra palavras, propaganda. Nada que já não seja feito. Em resposta à ideia ventilada por Putin de oferecer cidadania russa a qualquer ucraniano interessado, ele, com uma galhofa e triunfalismo novamente digno do seu personagem, “ameaçou” oferecer cidadania ucraniana a qualquer russo, arrancando seu primeiro elogio de Vladmir Putin.

A conclusão é que, para aqueles pouco interessados na política ucraniana, as eleições de 2019 mostram um aprofundamento da “pós-verdade”, por meio da qual a eleição de um homem que não existe foi possível. Começar este texto com uma transposição desse evento ao Brasil foi intencional: quando os factoides do governo Bolsonaro inevitavelmente não forem suficientes, e a atual era política brasileira, que já tem vários paralelos com o Euromaidan, finalmente desapontar a gigantesca maioria do eleitorado, não vai sobrar alternativa a aqueles interessados em garantir a continuidade do neoliberalismo, senão lançar mão de algo arriscado e radical. Pode ser que as lições de Zelensky e seu programa de TV Servo do Povo tenham mostrado um caminho a se seguir, inclusive aos “não populistas”. Imagine que excelente ideia; um ator protagonista de um filme de super-herói repetindo as platitudes bem-intencionadas do seu personagem? Luciano Huck? Alguém do Game of Thrones? Agora tudo é possível.

A falta de possibilidade de escolha real que neoliberalismo do século 21 impôs às pessoas levou a um novo patamar de cinismo e descrença nos processos eleitorais. O ucraniano não é mais nem menos bobo que qualquer povo no mundo, e honestamente, poucos lugares tem uma narrativa oficial tão desconectada da realidade e cheia de ódio como o Brasil e a Ucrânia. Esse país, outrora o centro industrial soviético, hoje o país mais pobre da Europa, virou uma colônia americana, com uma parcela do eleitorado paranóica e tresloucada, com uma elite e governo supostamente patriotas que não perdem uma chance de prejudicar os próprios interesses em benefício dos EUA. Um país que não tinha absolutamente nada em comum com o Brasil. Isso é, até agora.