Esta é a sexta parte da série “Carta no Coturno”. Clique aqui para ler as outras partes.

O silêncio dos generais nesta quarta-feira (8) grita como uma saraivada de canhões.

Os leitores leais deste veículo – e em especial desta série de artigos, reunidos sob a alcunha de “Carta no Coturno” – sabem bem que, já há muito tempo, desde 2016, argumentamos que o Partido Fardado ressurgiria e se estabeleceria como força de reordenamento do sistema político brasileiro, hoje absolutamente fragmentado e jogado numa odienta espiral de caos.

As previsões, que terão seus detalhes expostos em livro que pretendemos lançar no próximo mês pela Editora Baioneta, não dependiam da ocorrência de tamanha humilhação aos generais do governo, como vimos ontem – mas sem dúvidas tal humilhação fez as bocas militares rangerem os dentes.

Naquela fatídica ocasião em que se pronunciou, em um encontro maçônico, sobre a necessidade de uma “intervenção” caso o Judiciário não resolvesse o “problema político”, o General Hamilton Mourão fez uso de uma frase interessante. Disse que todos os seus “companheiros do alto-comando” estavam cientes de que o necessário eram “aproximações sucessivas”, como na “tábua de logaritmos.” O devagar no andor na marcha militar deu resultados – devagar devagarinho, o então general, logo depois colocado na reserva, se converteu em vice-presidente.

Essa marcha lenta, essas aproximações sucessivas, a “tábua de logaritmos”, era a “distensão lenta e gradual” ao contrário: ao invés de irem o deixando aos poucos, agora iam circulando o poder, até o momento do assalto. Como sempre ocorreu na História, não eram razão do retorno do Partido Fardado, só reflexo – este é o pequeno fato que fugiu à vista de tantos “crentes da normalidade contínua”, que até ontem tomavam as palavras escritas aqui por delírios. Hoje, esses crentes já pegam firme no rosário e repetem mil ave-marias.

O presidente Bolsonaro, em desatino, decidiu, apesar do fato de não ter poder próprio nenhum, por aposta contra as armas, em defesa do Sr. Olavo de Carvalho, para evitar a tutela. Ainda mais; multiplicou a humilhação moral informando aos generais o contigenciamento de cerca de 7% do orçamento da Defesa.

O marechal Deodoro da Fonseca escreveu em 1887, no seu manifesto “Ao Parlamento e à Nação”: “Sob tais teorias jurídicas não há Exército, nem pode haver pátria; porque a primeira condição da pátria é pundonor dos defensores profissionais de sua honra. O que se agita, portanto, não é uma questão de classe: o aviltamento do Exército envolveria a sociedade e daria triste medida do caráter nacional. Não é também veleidade de predomínio militar o que nos move; a consciência pública tem certeza de que o Exército brasileiro é a mais estável segurança da paz, da legalidade da organização civil do Estado.Dois anos depois, Deodoro movia golpe militar e inaugurava a República.

Não havia o “aviltamento” do Exército – até ontem. Hoje, há. Em verdade, creio que nunca houve aviltamento tão radical na História. Sendo este o cenário, cada vez ficamos mais próximos da medida dos “defensores profissionais” para escudar sua honra – que, em seus cálculos, é a honra da Pátria em si. Num só delírio, Bolsonaro converteu o “devagar no andor” dos militares no “apertar dos passos”. Mas não tenhamos ilusões: entre as mandingas do astrólogo-filósofo, a estupidez do presidente e as baionetas dos generais, a Pátria segue órfã.