A decisão de Cristina Fernández de Kirchner de concorrer para a vice-presidência e colocar no topo da chapa presidencial o “dialogante” Alberto Fernández balançou o tabuleiro político argentino. Com essa decisão, os kirchnerismo se move em direção ao centro para enfraquecer o “racha” que atravessa a sociedade argentina e tirar o macrismo de seu eixo.

Se algo nunca faltou a Cristina Fernández de Kirchner, e ao kirchnerismo em geral, é audácia e iniciativa política, tanto em tempos de governismo como de oposição; em tempos de acordo plural ou de “batalha cultural”, de cadeias nacionais diárias ou de silêncios prolongados. A novidade é que Cristina Fernández abdicou de sua candidatura presidencial em favor de Alberto Fernández e reservou para si a vice-presidência. Alberto Fernández foi chefe de gabinete de Néstor Kirchner, esteve afastado por dez anos da ex-presidente, a quem criticou duramente e, mais recentemente, tornou-se novamente seu conselheiro de confiança.

O anúncio surpreendeu os amigos e estranhos – inclusive aqueles que vão jurar que “sabiam” a respeito dele antecipadamente – e foi o corolário, parcial e momentâneo, de umas semanas políticas em que Cristina Fernández voltou ao primeiro plano depois de longos meses de prudente silêncio, somente interrompido por um vídeo denunciando a perseguição contra sua filha, Florencia Kirchner, e tornando pública a doença que a manteve em um virtual (auto)exílio em Cuba. Seu retorno para o centro da cena, como em outras ocasiões, mostrou mais do mesmo, mas com a inovação necessária para deixar deslocados atores e analistas políticos. Foi mais do mesmo, pois Cristina Fernández se colocou mais uma vez como enunciadora única e principal de seu espaço – certamente, com plena legitimidade –: o que é apresentado como uma “renúncia” é também uma decisão única e irrecorrível. Houve muitos opositores que, com mais consternação do que sarcasmo, expressaram com falsa ironia que é a primeira vez na história que uma vice-presidente nomeia seu candidato à presidência.

A ex-presidente mostrou nestas semanas todo o repertório de seu gênio político, em uma faceta que a mostra contida. No início deste mês, a publicação e apresentação do seu livro Sinceramente a puseram em contato novamente, embora de um jeito incomum, com as multidões que a alegram e a reclamam. O tom de seu discurso, conciliador e prudente, mas duro (“Creio que, para neutralidade, já existem os suíços”), contrastando com a emoção de uma multidão que clamava por sua líder, com fervor e esperança, à espera do anúncio de uma candidatura presidencial que não chegava nem chegaria. O que se notava – ainda que hoje soe como um gesto teleológico e uma falsa pretensão de premonição – era a posição crescente de Alberto Fernández, o desterrado e até mesmo “traidor”, que testemunha um kirchnerismo disposto a esquecer as ofensas passadas em busca de um objetivo maior.

A contrapartida do reencontro do líder com seus seguidores entusiastas – que evocam, ainda que seja à distância, aquelas praças lotadas que eram cartão-postal durante todo o kirchnerismo – foi o anúncio desses dias. Embora contrastante, esse também é um traço idiossincrático do kirchnerismo: decisões palacianas, intempestivas e invulneráveis ​​a vazamentos jornalísticos. As decisões políticas do kirchnerismo – isto é, de Cristina Fernández –, sobretudo em matéria eleitoral, sempre estiveram longe tanto das tentações da democracia interna como da ditadura das urnas. É uma política que corre a um ritmo próprio, uma política de instituições e lealdades, em uma guerra de guerrilha para atacar a trama que desenvolveram com sucesso o chefe de gabinete macrista Marcos Peña e o guru equatoriano Jaime Durán Barba nos últimos anos. Ao esquema da democracia algorítmica sob auditoria permanente desenvolvida pelo atual governo, a ex-presidente respondeu com um repertório da (boa) velha política de intrigas e golpes de efeito.

Quem é Alberto Fernández? O que a sua nomeação implica? Que impacto ela pode ter? As perguntas são muitas e, até agora, as respostas precipitadas e taxativas não parecem ser a melhor opção. Parte da equipe política do ex-ministro de Economia, Domingo Cavallo, Alberto Fernández foi um ator-chave na montagem do governo de Néstor Kirchner, mas também uma das saídas mais ressonantes do governo de Cristina Fernández após a “crise do campo”, em 2008.

Ele continuou durante esses anos trabalhando em diferentes espaços do peronismo alternativo, com mais posições centristas, com um tom que não poupou críticas ao kirchnerismo. Foi um dos muitos “anistiados” por Cristina Fernández em seus esforços para reconstruir seu espaço político, porém demonstrou não ser só mais um. Pouco a pouco, sua figura, embora sempre em segundo plano, ganhava centralidade nessa nova etapa do kirchnerismo e, acima de tudo, da liderança da ex-presidente.

A apresentação de Sinceramente na Feira do Livro de Buenos Aires deixou claro, para aqueles que ainda duvidavam, que Alberto Fernández estava novamente no centro das decisões e no círculo de maior confiança da ex-presidente após anos de ostracismo, junto a seu filho Máximo Kirchner e o ex-ministro da Economia kirchnerista, Axel Kicillof. Sua ascensão é prejudicial para outros atores que têm demonstrado tanto lealdade irredutível como inépcia política incomensurável: “A ex-presidente nunca encontrou ninguém que pudesse substituí-lo, nem como parte de sua estratégia política, nem como porta-voz, nem como operador geral”, escreveu Diego Genoud.

A nomeação de Alberto Fernández serve, a princípio, para diluir um pouco da figura da ex-presidente como engrenagem fundamental da polarização – o famoso “racha”– que, especialmente desde o início do governo do Cambiemos, liderado por Macri, tem sido alimentada por todos esses anos. O candidato vem para limar as arestas mais ásperas do kirchnerismo e oferece a Cristina Fernández a possibilidade de demonstrar uma certa vocação de amplitude e desapego à concentração de poder. A acusação de arrogância – o principal defeito da ex-presidente, de acordo com o próprio Alberto Fernández em seu modo opositor – encontra uma forma de ser atenuado, enquanto Mauricio Macri mostra sua faceta mais inflexível ao rechaçar – ao menos, por agora – qualquer possibilidade de abdicar de sua candidatura em favor da governadora María Eugenia Vidal, o chamado “Plano V”, defendido por uma parte do establishment.

A decisão tem muito mais robustez do que parece à primeira vista, independentemente da confusão que produziu. Em termos gerais, a chapa Fernández-Fernández, como já a popularizaram nas redes sociais, é stricto sensu a primeira formalmente oficializada como tal. Isso transfere a responsabilidade para o terreno do adversário e para os possíveis candidatos para enfrentá-los; no momento sobra espanto e faltam decisões. Para a maioria dos analistas, a eleição de Alberto Fernández, inclusive sobre outros possíveis candidatos que realizarem a mesma jogada, é uma mensagem direta a certos setores do peronismo não kirchnerista articulados na Alternativa Federal e, especialmente, o chamado “círculo vermelho”, isto é, o poder econômico e financeiro.

Nesse sentido, a fórmula presidencial vem para dar corpo aos indícios de moderação que o discurso de Cristina Fernández já havia mostrado em suas últimas aparições públicas. A candidatura de Alberto Fernández é cheia de sinais, não de seus votos próprios. Uma figura mais pensada para o possível governo futuro – que se presume difícil em muitos aspectos, especialmente econômicos – e para o dia da votação. Um fato não menor é que o novo candidato não tem acusações de corrupção contra ele, um dos lados mais fracos da ex-presidente, que enfrentará um processo judicial no meio da campanha.

Parece apressado determinar – embora os analistas não tenham se privado disso – se esse anúncio representa o fim do “racha” (José Natanson) ou, muito pelo contrário, sua ratificação, ainda que em transição de uma polarização defensiva para uma ofensiva que busque ampliar o território de caça eleitoral (Andrés Malamud). Levará tempo para medir seu possível impacto eleitoral nas pesquisas. O efeito mais imediato será sobre possíveis adversários ou aliados, que terão que decidir o que fazer nas próximas semanas.

Há um cenário aberto, mas os atores começaram a se organizar. A aliança governista de Cambiemos baseou sua sobrevivência na agitação do fantasma do retorno do kirchnerismo. A aliança fez isso com sucesso até que seus próprios fracassos erodiram a eficácia dessa mensagem. O espaço sofreu uma série de derrotas eleitorais provinciais que apenas alimentam a incerteza, mesmo em relação à candidatura do próprio Macri.

O kirchnerismo, por sua vez, depois de uma longa série de reveses, começou a alimentar sua versão de polarização, com o fracasso econômico do governo e o abandono de seu próprio sectarismo. A nova chapa presidencial parece dar conta disso, mas parece cedo para medir seus efeitos.

Finalmente, o terceiro campo “antirracha” – apoiado por socialistas, radicais e dissidentes de um setor minoritário do peronismo, e incerto em volume e potencial – foi ratificado pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, um dos arquitetos da recuperação pós-2011, que adia o lançamento de sua candidatura, mas não descansa em seu plano de avançar sobre o eleitorado e os aliados de Cambiemos. Em primeira instância, com resultados ainda incertos, a estratégia que combina audácia e cálculo – traços que certa vez Beatriz Sarlo atribuiu a Néstor Kirchner – parece estar correta, dado o efeito que o anúncio de Cristina Fernández produziu sobre o peronismo.

“Qualquer um, menos Macri” começou a entrar em ressonância como o lema para alcançar um triunfo da oposição, com o terceiro espaço incluído na equação. Alberto Fernández assumiu a responsabilidade de tentar pôr fim a esse kirchnerismo tão “intenso” como derrotista, de dar o golpe decisivo contra o frágil governo de Cambiemos. Alberto Fernández quer ser esse “qualquer um”; a última palavra, como sempre, terão as urnas.