De todas as principais multinacionais americanas que fazem negócios na China, a Apple está em uma posição particularmente delicada: os iPhones vendidos nos EUA estarão sujeitos a novas tarifas, já que a Apple fabrica a maioria deles na China, enquanto os consumidores chineses – dos quais a empresa passou a depender para o crescimento de suas vendas – podem evitar a marca à medida que a guerra comercial se intensifica.

Analistas do JP Morgan calcularam que a Apple precisaria aumentar os preços dos iPhones vendidos nos EUA em 14% para compensar as novas tarifas:

Porém, com o mercado focado no “próximo bilhão de usuários de celulares”, ser vítima de um boicote de consumidores decorrente de o governo Trump ter colocado a Huawei em sua “lista negra” provavelmente seria bem mais doloroso para os acionistas da Apple – o golpe contra o mercado da Apple pode nesta semana estar só começando.

A maioria dos que detinham as ações da Apple desde, pelo menos, o final do ano passado provavelmente se lembra de como a empresa sozinha assustou o mercado quando cortou sua orientação trimestral de receita pela primeira vez em 16 anos, alegando que as vendas de iPhones na China foram mais fracas do que o esperado.

Apresentando uma avaliação da qual ele pode se arrepender em breve, o CEO da Apple, Tim Cook, disse aos analistas de mercado no mês passado, durante a divulgação dos resultados trimestrais da companhia, que as vendas na China estavam melhorando. As ações da Apple subiram naquele dia horas mais tarde, depois que Cook garantiu aos investidores que o diálogo comercial entre Washington e Pequim havia “melhorado” e que isso havia reforçado a “confiança do consumidor chinês”.

Entretanto, Cook não poderia estar mais errado, e apenas uma semana depois uma ruptura nas negociações – algo que Wall Street não conseguiu antecipar – a ruptura se tornou realidade. Porém, o potencial para um boicote do consumidor não pode mais ser ignorado, de acordo com uma série de analistas consultados pela Bloomberg. “Existe um potencial para boicotar” os produtos da Apple, afirmou Shannon Cross, da Cross Research. “Pode haver um movimento na China de apoio aos campeões nacionais”.

A proibição total dos produtos da Apple pelo Partido Comunista Chinês teria um impacto devastador nos resultados da empresa, com os analistas da Goldman Sachs estimando que a empresa renunciaria a quase 1/3 de seus lucros. Um cenário ainda mais terrível: a China implementar restrições de produção que forçariam a Apple a reestruturar toda a sua cadeia global de suprimentos.

“Mas, mesmo sem nenhuma ação adicional, alguns analistas acreditam que as vendas do iPhone na China poderão cair até 5% no próximo ano, graças ao banimento da Huawei.

A Apple pode perder quase 1/3 de seu lucro se a China retaliar proibindo seus produtos, estimaram analistas da Goldman Sachs nesta semana. Dan Ives, analista da Wedbush Securities, disse que de 3% a 5% das vendas de iPhone na China podem desaparecer nos próximos 12 a 18 meses por causa da proibição americana da Huawei. As ações da Apple caíram menos 1% às 9h36 em Nova York.

A Apple enfrentaria consequências muito mais terríveis se as restrições à produção fossem implementadas na China, segundo nota dos analistas da Goldman, liderados por Rod Hall.

Não acreditamos que a empresa possa transferir muito volume de iPhone para fora da China em um prazo curto de tempo, embora iniciativas que levem a produção da Apple para fora da China possam ter implicações negativas para o ecossistema tecnológico chinês, bem como para o emprego local’, disseram os analistas da Goldman.”

Quanto ao impacto de curto prazo para a Apple, a crescente onda de nacionalismo chinês pode tornar mais difícil para a gigante de tecnologia cumprir suas previsões para o segundo trimestre de 2019 (o terceiro trimestre do ano fiscal da Apple).

“Mesmo que a China não retalie diretamente, o sentimento nacionalista provavelmente prejudicará as vendas da Apple no país e poderá fazer com que a empresa perca suas previsões para o terceiro trimestre fiscal, de acordo com a Lynx Equity Strategies. A Apple não respondeu a solicitações de comentários nesta terça-feira.”

Felizmente para os acionistas da Apple (um grupo que agora inclui a Berkshire Hathaway), a repressão da Casa Branca à Huawei pode ter um efeito positivo. A decisão do Google de interromper a oferta de serviços Android nos telefones da Huawei pode diminuir a demanda dos clientes, enquanto a Apple pode conseguir melhores negócios em seus acordos com fornecedores.

“Os clientes da Huawei desabafaram nas mídias sociais na terça-feira, preocupados com o fato de seus aparelhos não funcionarem tão bem sem o suporte da gigante norte-americana. Isso pode significar que alguns clientes optem por comprar um iPhone.

‘Essas questões reduzirão a demanda pela Huawei nos próximos anos e poderão dar à Apple uma posição incrivelmente melhor no mercado’, disse Ives.

Não há muitos clientes nos EUA para a Apple reconquistar. Mas, em outras partes do mundo, a Huawei se tornou um incômodo para a Apple. A gigante de tecnologia chinesa detinha quase 1/4 do mercado de smartphones na Europa no quarto trimestre, atrás somente da Apple e da Samsung Electronics Co., de acordo com a empresa de pesquisas Canalys. Mundialmente, a Huawei é a segunda maior fabricante de smartphones, atrás da Samsung.

Além do Google, a Huawei também está perdendo acesso aos principais componentes de fabricantes de chips dos EUA, incluindo a Qualcomm e a Intel. A perda de um cliente tão grande pode tornar esses fornecedores mais dispostos a negociar os preços de seus produtos com a Apple.

‘Isso poderia dar à Apple um pouco mais de influência nas negociações de contratos com fornecedores, mas a Apple não vai querer pressioná-los demais’, disse Cross.”

Contudo, a infeliz realidade permanece: independentemente do que acontecer com a Huawei, se as tarifas de Trump continuarem em vigor (ou se a Casa Branca as expandir para incluir virtualmente todos os produtos chineses que entrarem nos EUA), Apple precisará tomar uma decisão difícil: aumentar os preços de seus iPhones ou absorver as tarifas, o que afetaria seriamente sua margem bruta de lucro.

Seja o que for que a empresa decida, Wall Street provavelmente não ficará entusiasmada.

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