O mundo tem ignorado uma Primavera Africana com quase uma década de duração?

por Andrew Korybko | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes

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(Foto: thierry ehrmann)

O anúncio de que o presidente argelino Bouteflika não concorrerá mais à reeleição, mas adiará o próximo pleito até que sua recentemente decretada reforma constitucional seja concluída, representa a oitava mudança de regime (regime change) por via não eleitoral na África em muitos anos, abrindo o questionamento sobre se o mundo não tem ignorado uma “Primavera Africana” de quase uma década, ou se algo mais está acontecendo por todo o continente.

Pressupostos imprecisos sobre a Argélia

A surpresa do presidente argelino Bouteflika em voltar atrás em sua decisão de concorrer ao quinto mandato consecutivo tem sido o assunto do momento por toda a África, tendo pegado muitos desprevenidos. Porém, mesmo assim, a desistência foi amplamente recebida com aplausos universais como sendo a solução mais responsável para que se evitasse um surto de violência nesse Estado do norte da África estrategicamente posicionado.

O país vinha experimentando uma onda sem precedentes de protestos pacíficos em reação à quinta candidatura eleitoral de Bouteflika, alimentados pela indignação de uma população majoritariamente jovem com o desemprego elevado e uma economia estagnada. Isso para não falar do quanto os jovens se sentiam insultados por um líder idoso – especula-se que Bouteflika esteja incapacitado física e talvez até mentalmente depois de sofrer um derrame cerebral em 2013 – se apresentando mais uma vez como o rosto da nação pelo que se acredita serem seus poderosos manipuladores dentro do Deep State (“Estado profundo”) da inteligência militar.

Muito já foi escrito sobre o que pode vir a seguir na Argélia, mas a maioria dos observadores está analisando eventos no vácuo ou fazendo comparações previsíveis com as Revoluções Coloridas de todo o teatro da Primavera Árabe de 2011 – nenhuma das quais é totalmente precisa porque, em ambos os casos, ignoram o fato de que a Argélia representa a oitava mudança de regime pela via não-eleitoral na África em muitos anos. É, portanto, apenas a mais recente manifestação de uma tendência maior que até agora ainda não foi trazida à atenção do público.

É verdade que há matizes da Primavera Árabe no que está acontecendo atualmente na Argélia, mas simplesmente se limitar a isso não faz justiça ao país, pois implica dizer, enganosamente, que as potências estrangeiras tinham uma mão predominante na orientação do curso dos eventos ali. Também negligencia toda a relevância das mudanças de regime ocorridas no continente nos últimos oito anos. Portanto, assume imprecisamente que este é um evento isolado, não relacionado a nada anterior.

Mudanças no regime em vigor

Para simplificar, aqui está um detalhamento mais pertinente dos eventos, exceto o argelino que acabamos de descrever, incluindo duas tentativas de mudança não-eleitoral de regime que fracassaram, duas pela via eleitoral que merecem ser mencionadas por razões que serão explicadas abaixo, e uma intervenção internacional curta em apoio a uma operação de mudança de regime quase esquecida.

Eventos da Primavera Árabe na Tunísia, Egito e Líbia em 2011-2012:

O mundo inteiro está ciente do que aconteceu durante esse período, de modo que não há muita necessidade de rememorar, além de apontar a interpretação deste autor acerca desses eventos como uma campanha de mudança de regime provocada externamente em todo um teatro originalmente planejado para a substituição de governos servis seculares por membros da Irmandade Muçulmana, alinhados à Turquia, antes da inevitável transição de liderança que eventualmente aconteceria depois que seus líderes idosos morressem.

O principal ponto na antecipação desse processo e para acelerá-lo artificialmente foi garantir que seus sucessores permanecessem geopoliticamente leais aos EUA, o que não estaria garantido caso fosse “permitido” que a “troca da guarda” ocorresse “naturalmente”. Além disso, os EUA acreditavam que seria possível mobilizar o apelo semipopulista do Islã político naqueles países com o objetivo de fazer com que seus líderes-fantoches parecessem ter o apoio “genuíno” da população. O tiro, contudo, saiu pela culatra no Egito, mas acabou sendo administrável.

Burkina Faso, 2014:

O súbito aparecimento de protestos progressivamente violentos em resposta às tentativas do presidente Blaise Compaoré de mudar a Constituição para concorrer a mais um mandato rapidamente resultou em uma mudança de regime, que foi brevemente desafiada um ano depois por forças especiais leais a um golpe fracassado.

Alguns observadores previram que a “Revolução Burquinense” desencadearia uma “Primavera Africana” contra outros governantes que estavam no poder por décadas e que logo poderiam anunciar suas intenções de seguir os passos de Compaoré de também mudarem suas próprias constituições, embora tal previsão não tenha se desenrolado conforme o esperado.

Ainda assim, a mudança de regime de 2014 em Burkina Faso poderia ser vista como evidência de que protestos genuínos (não provocados externamente, guiados e/ou sequestrados) são capazes de derrubar governos entrincheirados e as permanentes estruturas militares, de inteligência e burocráticas diplomáticas (“Estado Profundo”) por trás deles. Também deve ser notado que a comunidade internacional reconheceu a renúncia de Compaoré e sua subsequente decisão de ir para um exílio autoimposto (planejado por seu desejo de escapar da Justiça por sua suposta corrupção e outros crimes imputados pelas autoridades pós-golpe), enquanto a mesma comunidade internacional foi contra a tentativa de golpe militar por parte de seus partidários um ano depois.

Gâmbia, 2017:

A maior parte do mundo se esqueceu e quase ninguém prestou muita atenção a isso naquela altura, mas uma intervenção militar da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), liderada pelo Senegal, derrubou o presidente gambiano Yahya Jammeh no início de 2017, após ele ter se recusado a deixar o cargo depois da sua derrota eleitoral um mês antes, em dezembro de 2016.

O líder desse minúsculo Estado africano também estava se tornando internacionalmente ultrajado pelo Ocidente antes mesmo da eleição de 2016, devido à sua decisão de se retirar da Commonwealth e começar o processo de fazer o mesmo em relação ao Tribunal Penal Internacional. Além disso, a proclamação do país como uma República Islâmica em 2015 também lhe valeu a consternação do Ocidente, embora os líderes ocidentais não precisassem de quaisquer outras desculpas, dadas as citadas acima.

O estudo de caso da Gâmbia espelha a controvertida intervenção da ONU liderada pela França que ocorreu na Costa do Marfim em 2011, após uma eleição similarmente disputada alguns meses antes, embora o líder marfinense não tenha tido a mesma sorte que seu colega gambiano, uma vez que foi capturado por forças francesas e extraditado para Haia (onde foi acusado de crimes de guerra, mas acabou absolvido no início deste ano).

A lição a ser dada tanto por parte da Costa do Marfim quanto da Gâmbia é que coalizões internacionais podem se reunir para remover do cargo líderes recalcitrantes que se recusam a aceitar resultados eleitorais, embora isso seja menos uma “regra” e mais uma tendência, ainda mais quando se trata de uma mudança de regime que pode ganhar apoio doméstico e/ou no exterior caso se seguirem protestos altamente midiatizados, que dão à intervenção a pretensão de legitimidade (genuína ou não).

Angola, 2017:

Este poder ascendente na África Austral experimentou, naquele verão, uma transição democrática de poder do ex-líder revolucionário José Eduardo dos Santos para o membro do MPLA e seu sucessor designado, João Lourenço, naquilo que foi inicialmente considerado por muitos como sendo um “embaralhamento de cartas”, cuidadosamente coordenado pelo “Estado Profundo” angolano, mas que eventualmente provou ser um golpe do “Estado Profundo” após Lourenço rapidamente começar a atuar erradicando a estrutura de poder que seu antecessor implementou e ir atrás da antiga “família real” (em particular, sua filha, que é mulher mais rica de África e a primeira mulher bilionária do continente, e seu filho, acusado de corrupção). Basta dizer que isso foi um choque para muitos, embora geralmente seja um prazer para a maioria.

Os eventos acima mencionados provam que, às vezes, o “Estado Profundo” é a força mais influente que impulsiona a mudança de regime em certos países – a saber, aqueles com partidos revolucionários do pós-guerras coloniais que ainda permanecem no poder. Acontece que a Angola pode ter sido uma inspiração para o que mais tarde aconteceu na Etiópia e só agora ocorreu na Argélia, embora ambos se desenrolem sob circunstâncias ligeiramente diferentes e de maneiras variadas. Porém, o ponto é que os chamados “poderes constituídos” podem estar envolvidos em sérias brigas internas entre si, e decidir qual é o curso de ação mais responsável em nome da estabilidade nacional consiste em “embaralhar as cartas” ou realizar uma genuína mudança de regime nos bastidores para reprimir (potencialmente) de forma preventiva ou reativa a agitação desestabilizadora (anticorrupção ou eleitoral).

Zimbábue, 2017:

No final de 2017, os militares zimbabuanos realizaram um golpe de facto contra o líder revolucionário nonagenário Robert Mugabe durante um período de crescente agitação da sociedade civil nesse país economicamente destituído. Quase ninguém contesta que se tratou realmente de um golpe militar e que possivelmente foi parcialmente motivado pela controversa escolha de Mugabe de ter sua esposa como sua sucessora, às custas da elite política e militar da União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), mas isso não foi reconhecido legalmente como tal no exterior porque, de outro modo, a União Africana e outros atores teriam sido obrigados a impor vários graus de sanções contra o país em resposta.

Isso demonstra, curiosamente, que alguns golpes militares são apoiados pela chamada “comunidade internacional”, enquanto outros, como a tentativa do Gabão – que será descrita em breve – no início deste ano, sugerem que é possível haver certos critérios envolvidos para determinar se tais apreensões de poder (ou suas tentativas) serão (mesmo a contragosto) aceitas no exterior ou não.

Os militares mauritanos de 2005 e 2008 e os nigerianos de 2010 não foram endossados ​​pelo mundo, mas não foram tomadas medidas sérias para isolá-los, já que eles tiveram um sucesso incontestável e também havia a preocupação com a desestabilização da situação de segurança na região da África Ocidental, atingida por terroristas.

África do Sul, 2018:

Jacob Zuma foi pressionado a renunciar no início de 2018 devido ao que muitos interpretaram como sendo um golpe do “Estado Profundo” contra ele, realizado por uma facção rival do Congresso Nacional Africano (CNA), dirigida por seu eventual sucessor, Cyril Ramaphosa.

As lutas internas do partido esquentaram depois que o líder do BRICS se viu envolvido em escândalos de corrupção que podem ou não ter sido tacitamente facilitados por seus rivais, com tudo isso ocorrendo no contexto do crescente descontentamento contra o governo e do crescente apelo dos partidos da oposição. Seja pela pura sede de poder e/ou sentindo que seu partido precisava mudar tanto sua marca externa como suas políticas internas para permanecer no poder, Ramaphosa acabou por depor Zuma e tomou as rédeas dessa crescente Grande Potência Africana, apesar do eleitorado nunca ter votado nele para o cargo.

A situação de 2018 na África do Sul mostrou que mesmo o mais exteriormente estável dos países do continente e o mais bem-visto pela “comunidade internacional” (tanto ocidentais quanto não ocidentais, o último em relação aos BRICS) pode experimentar uma mudança de regime pela via não-eleitoral, apesar de ter sido executada principalmente nos bastidores, após uma campanha de pressão interconectada entre a população e a facção rival do partido que aspirava a entrar no poder.

Em certo sentido, a África do Sul – que é geralmente considerada uma das democracias mais vibrantes da África – deu o tom para o restante do continente porque a mensagem que enviou foi de que todos os seus pares poderiam fazer o mesmo sem qualquer crítica externa sendo levantada contra eles, contanto que retirassem seus governantes de forma suave e rotulassem a ação como um “assunto interno”.

Etiópia, 2018:

A Etiópia cativou a imaginação do mundo após seu partido pós-guerra decidir que o jovem ex-oficial de inteligência militar de 41 anos, Abiy Ahmed, era o novo líder após a violenta agitação de 2016, que ameaçou devolver o segundo país mais populoso da África à guerra civil.

Para encurtar a história, Abiy é da etnia Oromo, que representa a maior parte do país, mas que tem sido tradicionalmente sub-representada em sua classe dirigente, especialmente após a ascensão ao poder da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), forte na Região Tigré. Porém, Abiy rapidamente começou a trabalhar desmantelando a “velha guarda” do partido no que só pode ser descrito como um golpe do “Estado Profundo” com um apoio popular esmagador. É importante ressaltar que ele também fez as pazes com a vizinha Eritreia e colocou as tensões remanescentes dos dois povos irmãos para trás, enquanto embarcavam conjuntamente na elaboração de um novo futuro regional para o Chifre da África.

A Etiópia estabeleceu o precedente pelo qual a agitação em larga escala poderia servir como um incentivo para que facções responsáveis ​​do “Estado Profundo” realizassem um golpe contra seus rivais no poder, baseando-se no antecedente angolano, no qual a África Austral não saiu em resposta a quaisquer protestos significativos ou surtos de violência, tais quais vistos no Chifre da África.

Os acontecimentos na Etiópia também são evidência de que mesmo os “Estados Profundos” mais arraigados e militarmente poderosos são formados por diversas facções, algumas das quais têm ideias radicalmente diferentes das dominantes, como pode ser o caso na Argélia, a depender também de como a situação se desenrola. O ponto principal, entretanto, é que as facções do “Estado Profundo” podem usar a agitação natural ou provocada externamente como pretexto para ascender ao poder nos bastidores e, enfim, publicamente.

Comores, 2018:

É difícil categorizar o que aconteceu exatamente no ano passado na nação insular de Comores. Porém, podemos resumir como uma tentativa semipopular e possivelmente externamente influenciada de desafiar ativamente o centro regional do país por uma unidade periférica que se sentiu marginalizada por reformas constitucionais democraticamente instituídas, que removeram a cláusula de presidência rotativa em um Estado propenso a golpes.

Houve um breve temor de que a ilha de Anjouan tentasse se separar da federação mais uma vez e que esse cenário pudesse provocar outra intervenção internacional para restaurar a unidade nacional, bem como aconteceu em 2008. Só que esse movimento foi suprimido depois que os militares rapidamente restauraram a lei e a ordem, desalojando dezenas de combatentes que tentaram dominar aquela parte do país.

O que é importante prestar atenção é que as disputas regionais intra-estatais podem perigosamente criar o pretexto para mudanças no regime nacional ou provincial, dependendo de como o curso dos eventos políticos se desenvolve. Acredita-se que o presidente das Comores, nesse caso, tenha se aproveitado do domínio demográfico (e consequentemente, eleitoral) de sua região natal para legitimar sua tentativa de permanecer no poder, demonstrando uma variante de outros métodos de reforma tentados em outras partes da África, mas adaptada à situação específica do seu país.

Apesar de alguns membros da comunidade internacional terem criticado o referendo do verão passado, eles ainda o aceitaram porque sua iniciativa ganhou de fato por vias democráticas, mesmo que as probabilidades estivessem a seu favor, graças ao fator demográfico que acabamos de descrever.

República Democrática do Congo (RDC), 2018-2019:

Houve trepidação global no ano passado, depois que o ex-presidente Joseph Kabila adiou a primeira transferência democrática de poder em seu país por razões logísticas, uma vez que ele tentaria mudar a Constituição para permanecer no poder indefinidamente, algo que seus tradicionais apoiadores ocidentais o pressionaram a não fazer, enquanto seu novo patrono chinês permaneceu em silêncio, alegando que processo político congolês é um assunto interno (embora seus interesses estratégicos no cobalto congolês possam ter desempenhado um papel em sua posição de permanecer do lado bom do governo).

O país gradualmente caiu em um estado não-declarado de guerra civil de baixa intensidade que poderia ser descrita mais precisamente como uma guerra híbrida e que poderia ter explodido em um conflito muito maior caso o presidente não tivesse chegado inesperadamente a um acordo especulado com um dos líderes da oposição supostamente para permitir que Félix Tshisekedi substituísse Kabila, enquanto o ex-homem-forte continuaria sendo a “eminência parda” após seu partido sair em alta nas eleições parlamentares.

A mídia internacional e os ativistas locais condenaram essa ação como um flagrante enfraquecimento do que deveria ter sido uma transição democrática de poder. Alguns observadores disseram que apostariam na vitória de Fayulu caso a votação tivesse sido verdadeiramente livre e justa, mas esse candidato representava uma grande ameaça ao “Estado Profundo” congolês, que deve sua lucrativa existência a Kabila e que foi – conforme diz a narrativa – marginalizado em favor de Tshsekedi, filho de um conhecido líder da oposição.

Isso pode ser visto como uma forma híbrida tanto de uma eleição “internacionalmente reconhecida” como de um golpe do “Estado Profundo”. Como eleição, o processo foi universalmente reconhecido, provavelmente por conta dos interesses multilaterais envolvidos em manter a estabilidade no país rico em minerais (ao menos, por enquanto). Já o golpe do “Estado Profundo” foi suprimido, a fim de não manchar a ótica da “primeira transferência democrática de poder” do Congo (e, consequentemente, o soft power daqueles que endossaram o astuto plano de Kabila).

Gabão, 2019:

Como foi mencionado antes, houve uma tentativa fracassada de encenar um golpe militar no Gabão, país economicamente estratificado e politicamente polarizado onde um líder envelhecido e enfermo continua a governar como parte de uma dinastia política que está no poder há mais de meio século.

A operação de mudança de regime foi rapidamente abafada para parte das forças militares que não aderiram ao golpe, embora o evento tenha conseguido lançar luz global sobre as tensões subjacentes predominantes nesse país membro da OPEP. Também levantou temporariamente preocupações sobre se os franceses usariam suas forças militares no país para ajudar o governo em apuros e “restaurar a democracia” caso os rebeldes conseguissem tomar o poder de seu mandatário.

Devido ao seu início súbito e fim abrupto, a comunidade internacional não teve escolha senão condená-lo de forma reativa, como sempre é feito quando algo do tipo ocorre. Contudo, ele poderia ter sido aceito a contragosto, assim como os mauritanos e nigerianos que o precederam nesse texto, caso conseguissem triunfar sem qualquer resistência séria. Esse não foi o caso no Gabão porque parecia que a facção militar do “Estado Profundo” está satisfeita com o presidente Ali Bongo, possivelmente devido a algum relacionamento clientelista pelos bastidores. Portanto, não gostariam de sacrificar seus próprios interesses mesmo em nome da resolução de disputas eleitorais ainda remanescentes que nitidamente dividiram a nação há alguns anos.

Variáveis-chave:

Tendo em vista a compreensão que pode ser obtida a partir dos exemplos mencionados acima, é possível identificar as principais variáveis ​​que pertencem a cada líder-alvo, o evento desencadeador da operação de mudança de regime pela via não eleitoral e os fatores determinantes do sucesso ou fracasso.

Alvos

Os alvos típicos parecem ser líderes idosos de longa data, com especulativas preocupações com a saúde, que representam uma estrutura de poder (suas próprias ou herdadas) que segmentos cada vez maiores de suas populações e/ou uma facção de seus próprios “Estados Profundos” passaram a acreditar (seja por conta própria ou por guerra de informação estrangeira e “cutucadas” de ONGs) não defender seus interesses.

Eles também são geralmente atormentados por acusações de corrupção (sejam reais, exageradas ou falsas) que servem para incitar nacionalmente a agitação durante períodos de dificuldades econômicas, causadas por má administração sistêmica, Guerra Híbrida e/ou uma queda no preço das exportações primárias (petróleo, commodities etc.).

Gatilhos:

Tratam-se em geral, direta ou indiretamente, de uma iminente “troca de guarda” ou de uma transição política que desencadeiam um movimento de mudança de regime pela via não eleitoral, sejam esforços do mandatário para modificar a constituição a fim de concorrer a outro mandato, anunciando sua candidatura para ficar o tempo X após já ter governado por vários anos; o temor por parte de uma facção do “Estado Profundo” de que o mandatário perderá uma futura eleição e consequentemente levará seus sucessores a possivelmente desmantelarem a estrutura de poder herdada por eles (geralmente sob o apelo populista da “anticorrupção”); uma disputa eleitoral; ou, no caso da Primavera Árabe, a percepção do chamado “momentum regional”.

Determinantes:

A maioria das mudanças no regime pela via não-eleitoral é bem-sucedida por causa de fatores que vão além da percepção popular, ou seja, o estado das coisas dentro do “Estado Profundo” e, em particular, a lealdade das forças militares que gozam do monopólio legal da violência em virtude de sua própria natureza.

É importante, entretanto, que haja algum pretexto público “plausível” para que a mudança de regime aconteça – seja um protesto, um escândalo de corrupção ou uma disputa eleitoral –, e a unidade do “Estado Profundo” é também outro determinante importante, pois facções rivais podem abusar do supramencionado visando seus próprios propósitos. Às vezes, a ameaça de sanções contra o mandatário e sua camarilha por usar a força para suprimir a agitação pode ampliar as divisões dentro do “Estado Profundo” e facilitar a mudança de regime.

Quem será o próximo?

Tudo isso levanta a questão de quais países podem ser os próximos a experimentar suas próprias mudanças no regime pela via não eleitoral, com os seguintes se aproximando do modelo elaborado acima por este autor e sendo apresentados em ordem alfabética.

Camarões:

O presidente Paul Biya venceu o seu sexto mandato no final do ano passado, após um grave colapso da lei e da ordem na região anglófona separatista adjacente à fronteira nigeriana, que veio na esteira de Camarões, parecendo finalmente superar o desafio representado pelo Boko Haram na parte norte do país.

A principal consequência geoestratégica de sua derrubada sob o cenário possível de uma nascente Revolução Colorida nas cidades, que se funde com a guerra não convencional na periferia rural, pode ser a desestabilização, descrita por este autor, dos planos da China de criar um “Corredor Econômico da África Ocidental Central”, embora, se gerenciado adequadamente pelo “Estado Profundo”, pode contrariamente estabilizar a viabilidade desse megaprojeto, caso a manobra seja bem-sucedida em apaziguar a população.

República do Congo:

O outro Congo menos discutido, localizado entre a República Democrática do Congo e o Gabão, é presidido por um dos líderes mais antigos da África que recentemente se juntou à OPEP e também pôs fim a uma grande insurgência na região de Pool, em torno da capital. Diferentemente de Camarões, é menos claro quais poderiam ser as consequências geoestratégicas de uma mudança não-eleitoral no regime, mas poderia ser fator decisivo para saber se o país permanecerá dentro da órbita conjunta da França e da China ou decisivamente se vira para um ou para outro.

Nesse sentido, isso poderia mudar o “equilíbrio de poder” na África Central e contribuir para o recuo gradual da Françafrique, em face das vantagens gerais que os chineses estão tendo dentro da histórica “esfera de influência” francesa e das recentes vantagens russas na República Centro-Africana.

Chade:

Ocupando o espaço entre a África do Saara e da África Equatorial, o presidente Idriss Deby chegou ao poder após um golpe em 1990 e permanece no cargo desde então, confiando principalmente no fato de que o exército de seu país é considerado um dos mais fortes de todo o continente e tem um alcance operacional até o oeste do Mali.

Contudo, ele não está livre de seus próprios detratores domésticos, alguns dos quais lideraram grandes formações rebeldes em direção à capital em várias tentativas fracassadas de golpe que, às vezes, foram frustradas pela intervenção de sua aliada França, como em fevereiro de 2019, quando Paris bombardeou um comboio antigovernamental que cruzava o norte do Chade vindo da Líbia. Apesar de todos os seus defeitos, o Chade parece ser “grande demais para fracassar” para a França, e é improvável que o ex-colonizador deixe essa peça valiosa escapar de seus punhos.

Guiné Equatorial:

O presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo reinou por quase quatro décadas e sobreviveu a numerosas tentativas de golpe – algumas das quais foram planejadas por mercenários – nessa pequena nação costeira insular, rica em petróleo, no estratégico Golfo da Guiné. Estando localizada onde está e com a riqueza de recursos que possui, é uma peça importante do tabuleiro de xadrez que a França quer manter longe de seu aliado americano para reforçar sua política de Françafrique, que enfrenta a China e a Rússia na África Central como sua maior ameaça. Para além da “concorrência amigável” entre as duas grandes potências, não há muito o que se possa dizer neste momento sobre o possível resultado de qualquer mudança de regime por via não-eleitoral que possa ocorrer na Guiné Equatorial.

Moçambique:

O líder incumbente está no poder somente há poucos anos, mas representa a corrupta e cada vez mais decomposta Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), que governa o país desde a independência, embora as autoridades estejam implementando progressivamente o que parece ser uma “transição de liderança em fases” para incorporar a antiga oposição rebelde da RENAMO ao “Estado Profundo” como parte de um acordo de paz.

Dito isto, esse arranjo responsável pode sempre entrar em colapso a qualquer momento, e o país hoje é ameaçado por misteriosos jihadistas que estão causando estragos ao longo da fronteira norte com a Tanzânia, problema que pode desencadear uma mudança não-eleitoral de regime. Assim, os elementos que podem desencadear tal mudança são mais suscetíveis aqui do que na maioria dos outros alvos previstos, o que poderia ter um impacto na geopolítica global do gás natural, devido às suas consideráveis reservas (coincidentemente localizadas nas proximidades de onde emergiu a nova ameaça terrorista) e sua segurança regional.

Uganda:

Finalmente, o país que mais se ajusta aos critérios do nosso modelo de mudança de regime pela via não-eleitoral é Uganda, o peso-pesado militar no espaço transregional da África Oriental e Central, governada pelo presidente Museveni pelo último terço de século.

Durante os últimos anos, no entanto, sua população mais jovem – que também é uma das que mais cresce na África, apesar de a grande migração (às vezes, ilegal) que recebe – tem se tornado inquieta e, mais recentemente (e pode-se argumentar, ingenuamente), está colocando suas esperanças no cantor que virou político Bobi Wine, pois veem nele uma face comparativamente mais jovem da mudança antissistêmica. Contudo, no caso de uma mudança não-eleitoral de regime se desdobrar em Uganda, suas consequências mudariam todo o “equilíbrio de poder” nessa parte estratégica do mundo no auge do Novo Grande Jogo e da moderna “Corrida pela África” na Nova Guerra Fria.

Pensamentos finais

Usando os últimos acontecimentos na Argélia como ponto de partida para discutir as demais mudanças do regime por via não-eleitoral e as tentativas que aconteceram na África desde a Primavera Árabe, fica claro que três diferentes cenários – mas, às vezes, interconectados – se desdobraram, sejam as Revoluções Coloridas (os eventos de 2011), genuínos movimentos populares não influenciados externamente (Burkina Faso de 2014), ou golpes de “Estado Profundo” (Angola em 2017 e posteriormente na Etiópia e Argélia, sendo estes últimos motivados, em parte, pelos dois primeiros cenários).

Todos os países têm estruturas de poder (“Estados Profundos”), mas alguns são mais flexíveis do que outros quando confrontados com pressões (que podem ou não ser influenciadas externamente e, em seguida, possivelmente instrumentalizadas contra os interesses geoestratégicos da China), que geralmente compõem ou minam a operação de mudança de regime e determinarão se os alvos previstos sobreviverão.