EUA: Como o “tabuleiro de xadrez” de Brzezinski se degenerou na russofobia de Brennan

por Mike Whitney | The Unz Review - Tradução de Matheus Ferreira Silva para a Revista Opera

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(Foto: DoD / Sgt. Brigitte N. Brantley)

A Rússia é uma parte inalienável e orgânica da Grande Europa e da civilização européia. Nossos cidadãos se veem como europeus. É por isso que a Rússia propõe avançar na criação de um espaço econômico comum que vai do Atlântico ao Oceano Pacífico, uma comunidade mencionada por especialistas russos como “a União da Europa” que fortalecerá o potencial da Rússia como pivô econômico em direção à ‘Nova Ásia’”. – Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa, fevereiro de 2012.

As alegações de “interferência russa” nas eleições norte-americanas só fazem sentido se forem colocadas em um contexto geopolítico mais amplo. Quando percebemos que Washington está implementando uma agressiva estratégia de “contenção” com o intuito de cercar militarmente a Rússia e a China afim de espalhar seus tentáculos pela Ásia Central, começamos a entender que a Rússia não é a autora das hostilidades e propaganda, mas a vítima. As alegações de “hackeamento” russo fazem parte de uma guerra de informação mais complexa, que foi abarcada por todo o establishment político de Washington. O objetivo é enfraquecer metodicamente um rival emergente enquanto reforça a hegemonia global dos EUA.

Tente imaginar por um momento que as alegações de “hackeamento” não faziam parte de um plano sinistro de Vladimir Putin de semear discórdia e divisão nos Estados Unidos, mas foram formuladas para criar uma ameaça externa que justificaria uma resposta agressiva de Washington. É disso que o Russiagate[1] se trata realmente.

Os formuladores de políticas dos EUA e seus aliados nas agências militares e de inteligência sabem que as relações com a Rússia tendem a se tornar cada vez mais conflituosas, principalmente porque Washington está determinado a seguir com seu plano de se tornar o “ponto central” no continente asiático. Essa nova estratégia regional foca no “fortalecimento de alianças bilaterais de segurança, na expansão do comércio e investimento e na criação de uma presença militar ampla”.

Em suma, os EUA estão determinados a manter sua supremacia global estabelecendo postos militares avançados por toda Eurásia, pressionando a Rússia e a China, e reforçando sua posição como o ator dominante na região mais populosa e próspera do mundo. O plano foi apresentado pela primeira vez em sua forma primária pelo arquiteto do plano de Washington para governar o mundo, Zbigniew Brzezinski. Veja como o ex-assessor de segurança nacional de Jimmy Carter resumiu, em sua obra-prima de 1997, The Grand Chessboard: American Primacy And Its Geostrategic Imperatives (O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos):

Para a América, o principal prêmio geopolítico é a Eurásia […] (p.30) […] A Eurásia é o maior continente do globo e é geopoliticamente axial. Um poder que domina a Eurásia controlaria duas das três regiões mais avançadas e economicamente produtivas do mundo. […] Cerca de 75% das pessoas do mundo vivem na Eurásia, e a maior parte da riqueza física do mundo se encontra lá, tanto em seus empreendimentos como sob seu solo. A Eurásia representa 60% do PIB mundial e cerca de três quartos dos recursos energéticos conhecidos no mundo.” (O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos, Zbigniew Brzezinski, Basic Books, página 31, 1997)

14 anos após essas palavras serem escritas, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton assumiu a bandeira da expansão imperial e exigiu uma mudança radical na política externa dos EUA, que teria como foco principalmente o aumento da presença militar dos EUA na Ásia. Foi Clinton quem primeiro cunhou o termo “pivot” (pivô) em um discurso que ela fez em 2010 intitulado “America’s Pacific Century”. Aqui está um trecho do discurso:

“À medida que a guerra no Iraque vai se esvaindo e os Estados Unidos começam a retirar suas forças do Afeganistão, os Estados Unidos estão em um ‘pivot’. Nos últimos 10 anos, alocamos recursos imensos para esses dois teatros. Nos próximos 10 anos, precisamos ser inteligentes e sistemáticos sobre onde investimos tempo e energia, para nos colocarmos na melhor posição para sustentar nossa liderança, proteger nossos interesses e promover nossos valores. Uma das tarefas mais importantes da política americana ao longo da próxima década será, portanto, garantir um investimento substancialmente maior – diplomático, econômico, estratégico ou não – na região Ásia-Pacífico […]

Mercados abertos na Ásia proporcionam aos Estados Unidos oportunidades sem precedentes de investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta […] as empresas americanas (precisam) aproveitar a vasta e crescente base de consumidores da Ásia […] A região já gera mais da metade da produção global e quase metade do comércio global. Enquanto nos esforçamos para cumprir a meta do presidente Obama de dobrar as exportações até 2015, estamos procurando oportunidades para fazer ainda mais negócios na Ásia […] e nossas oportunidades de investimento nos dinâmicos mercados asiáticos.” (“O século pacífico americano”, secretária de Estado Hillary Clinton, Foreign Policy Magazine 2011)

A estratégia de “pivot” não é uma repetição insignificante do “Grande Jogo” do século 19 promovido por fantasistas e teóricos da conspiração. É a principal doutrina de política externa de Washington, uma teoria de “reequilíbrio” que se concentra no aumento da presença militar e diplomática dos EUA em todo território asiático. Naturalmente, os nefastos movimentos de tropas da OTAN no flanco ocidental da Rússia e as provocativas operações navais de Washington no Mar do Sul da China enviaram bandeiras vermelhas em Moscou e Pequim. O ex-presidente chinês Hu Jintao resumiu assim:

“Os Estados Unidos fortaleceram suas instalações militares na região Ásia-Pacífico, fortaleceram a aliança militar com o Japão, fortaleceram a cooperação estratégica com a Índia, melhoraram as relações com o Vietnã, estabeleceram um governo pró-americano no Afeganistão, aumentaram as vendas de armas para Taiwan, e assim por diante. Eles estenderam postos avançados e colocaram pontos de pressão sobre nós vindos do leste, do sul e do oeste.”

O presidente russo, Vladimir Putin, também tem criticado o comportamento errático de Washington. A expansão da OTAN para o leste convenceu Putin de que os EUA continuarão a ser uma força disruptiva no continente no futuro próximo. Ambos os líderes temem que as provocações implacáveis ​​de Washington levem a um confronto inesperado que terminará em guerra. Mesmo assim, a classe política abraçou totalmente a estratégia do “pivot” como uma tentativa de última hora de reverter o relógio para a era do pós-guerra, quando os centros industriais do mundo estavam em ruínas e os EUA era o único jogador em campo. Agora, o centro de gravidade mudou de oeste para leste, deixando Washington com apenas duas opções: permitir que os gigantes emergentes da Ásia conectem seus trens de alta velocidade e gasodutos à Europa, criando a maior zona de livre comércio do mundo, ou tentar virar o jogo através de ameaças aos rivais, através da implementação de sanções que retardam o crescimento e o envio de moedas, e fornecendo armamento para representantes jihadistas com o objetivo de alimentar o ódio étnico e fomentar a agitação política. Claramente, a escolha já foi feita. O Tio Sam decidiu lutar até o amargo fim.

Washington tem muitas maneiras de lidar com seus inimigos, mas nenhuma dessas estratégias retardou o crescimento de seus concorrentes no leste. A China está a ponto de ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo nas próximas duas décadas, enquanto a intervenção russa na Síria afetou o plano de Washington de derrubar Bashar al-Assad e consolidar seu poder sobre o Oriente Médio, rico em recursos. Esse plano entrou em colapso forçando os políticos americanos a abandonar completamente a Guerra ao Terror e mudar para uma “grande competição de poder”, que reconhece que os EUA não podem mais impor unilateralmente sua vontade aonde quer que vá. Desafios para o domínio americano estão surgindo em todos os lugares, principalmente na região onde os EUA esperam reinar, a Ásia.

Por conta disso, todo o estado de segurança nacional agora está apoiando o improvável plano “pivot”. É uma tentativa desesperada para preservar a decadente ordem mundial unipolar.

O que isso significa em termos práticos?

Isso significa que a Casa Branca (a Estratégia de Segurança Nacional), o Pentágono (Estratégia Nacional de Defesa) e a Comunidade de Inteligência (Avaliação Mundial de Ameaças) elaboraram suas próprias análises das maiores ameaças que os EUA enfrentam atualmente. Obviamente, a Rússia está no topo dessas listas. A Rússia descarrilou a guerra de Washington na Síria, frustrou as tentativas dos EUA de se estabelecer na Ásia Central e reforçou os laços com a UE na esperança de “criar uma comunidade econômica harmoniosa que vai de Lisboa à Vladivostok”. (Putin)

Deve-se ter em mente que os EUA não se sentem ameaçados pela possibilidade de um ataque russo, mas sim pela capacidade da Rússia de frustrar as grandiosas ambições imperiais de Washington na Ásia.

Como observamos, a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) é um documento oficial produzido pela Casa Branca que explica como o presidente pretende implementar sua visão de segurança nacional. Não surpreendentemente, o foco principal do documento é a Rússia e a China. Veja um trecho:

“A China e a Rússia desafiam o poder, a influência e os interesses americanos, tentando corroer a segurança e a prosperidade norte-americanas. Eles estão determinados a tornar as economias menos livres e menos justas, aumentar suas forças armadas e controlar informações e dados para reprimir suas sociedades e expandir sua influência.

(Nem a Rússia nem a China estão tentando “corroer a segurança e a prosperidade americana”. Estes países estão apenas crescendo suas economias e expandindo seus mercados. Se as corporações americanas reinvestissem seu capital em fábricas, treinamento de funcionários e P&D[pesquisa e desenvolvimento] ao invés de recompras de ações e compensação de executivos, então elas estariam mais capacitadas a competir globalmente.)

Tem mais:

“Por meio de formas modernizadas de táticas subversivas, a Rússia interfere nos assuntos políticos internos de países do mundo todo” (esse é um caso do “sujo falando do mal lavado”).

“Hoje, atores como a Rússia estão usando ferramentas de informação na tentativa de minar a legitimidade das democracias. Adversários têm como alvo a mídia, processos políticos, redes financeiras e dados pessoais.” (O colossal aparato midiático ocidental é o maior propagador de desinformação que o mundo já viu. O Relatório Mueller[2] prova, sem sombra de dúvida, que os absurdos, politicamente motivados, que se lê na mídia não são nem fundados em provas confiáveis nem honestos.)

A Avaliação Mundial de Ameaças da comunidade de inteligência americana é ainda mais explícita em seus ataques à Rússia. Confira:

“Ameaças à segurança nacional dos EUA se expandirão e se diversificarão no próximo ano, impulsionadas em parte pela China e pela Rússia, que competem mais intensamente com os Estados Unidos e seus aliados e parceiros tradicionais. Avaliamos que Moscou continuará buscando uma série de objetivos para expandir seu alcance, incluindo minar a ordem internacional liberal liderada pelos EUA, dividindo instituições políticas e de segurança ocidentais, demonstrando a capacidade da Rússia de moldar questões globais e reforçando a legitimidade interna de Putin.

Avaliamos que Moscou teve um aumento de confiança, por conta de seu sucesso em ajudar a restaurar o controle territorial do regime de Assad na Síria […] A Rússia busca aumentar sua presença militar e influência política no Mediterrâneo e nos Mares Vermelhos […] mediar conflitos, incluindo o envolvimento no processo de paz do Oriente Médio e na reconciliação do Afeganistão.

A Rússia continuará pressionando os líderes da Ásia Central para apoiar as iniciativas econômicas e de segurança lideradas pela Rússia e reduzir o envolvimento com Washington. […] A Rússia e a China provavelmente intensificarão os esforços para obter influência na Europa em detrimento dos interesses dos EUA…”[3]

Observem como o resumo da Comunidade de Inteligência não sugere que a Rússia representa uma ameaça militar iminente aos EUA, apenas que a Rússia restaurou a ordem na Síria, fortaleceu os laços com a China, emergiu como um “intermediário honesto” entre os países do Oriente Médio e usou o sistema de livre mercado para melhorar as relações com seus parceiros comerciais e aumentar sua economia. A CI parece criticar a Rússia por estar utilizando o sistema que os EUA criaram para melhor proveito do que os EUA. Isso é perfeitamente compreensível, dada a determinação de Putin de aproximar a Europa e a Ásia por meio de um plano de integração econômica regional. Com a palavra, Putin:

“Devemos considerar uma cooperação mais ampla na esfera da energia, incluindo a formação de um complexo energético europeu comum. O gasoduto Nord Stream, sob o Mar Báltico, e o gasoduto South Stream, no Mar Negro, são passos importantes nesse sentido. Esses projetos contam com o apoio de muitos governos e envolvem grandes empresas européias de energia. Quando os gasodutos começarem a operar a plena capacidade, a Europa terá um sistema de fornecimento de gás confiável e flexível, que não depende dos caprichos políticos de qualquer nação. Isso fortalecerá a segurança energética do continente não apenas na aparência, mas na essência. Isto é particularmente relevante à luz da decisão de alguns estados europeus de reduzir ou renunciar à energia nuclear.”

Os gasodutos e a linha férrea de alta velocidade são as artérias que unirão os continentes e fortalecerão o novo super-Estado formado pela UE-Ásia. Este é o maior pesadelo de Washington, uma zona de livre comércio enorme e próspera, fora de seu alcance e não sujeita às suas regras. Em 2012, Hillary Clinton reconheceu esta nova ameaça e prometeu fazer tudo ao seu alcance para destruí-la. Confira este trecho:

“A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, descreveu os esforços para promover uma maior integração econômica na Eurásia como ‘um movimento para ‘ressovietizar’ a região’. ‘Sabemos qual é o objetivo e estamos tentando descobrir formas eficazes de retardá-lo ou evitá-lo’, disse ela em uma conferência internacional em Dublin, em 6 de dezembro de 2012, na Radio Free Europe.”

Retardá-lo ou evitá-lo?

Por quê? Porque o crescimento e a prosperidade da UE-Ásia pressionarão os mercados de dívida dos Estados Unidos, os interesses corporativos dos EUA, a dívida nacional dos Estados Unidos (que está inflando) e o dólar americano? É por isso que Clinton está tão comprometida em sabotar o plano de integração econômica de Putin?

De fato, é. Washington quer bloquear o progresso e a prosperidade no leste, afim de prolongar a vida útil de um estado decadente e totalmente falido, que atualmente possui U$ 22 trilhões no vermelho, mas continua a emitir cheques além do limite.

Mas a Rússia não deve ser culpada pelo comportamento depravado de Washington, isso não é culpa de Putin. Moscou está meramente usando o sistema de livre mercado mais efetivamente que os EUA.

Agora, considere a Estratégia Nacional de Defesa (NDS) do Pentágono de 2018, que reitera muitos dos mesmos temas que os outros dois documentos:

“Hoje, estamos emergindo de um período de atrofia estratégica, conscientes de que nossa vantagem militar competitiva está se desgastando. Estamos enfrentando uma crescente desordem global, caracterizada pelo declínio na ordem internacional de longa data baseada em regras – criando um ambiente de segurança mais complexo e volátil do que qualquer outro que tenhamos experimentado na memória recente. A competição estratégica entre estados, e não o terrorismo, é agora a principal preocupação na segurança nacional dos EUA ”.

(Naturalmente, o “ambiente de segurança” será mais desafiador quando a “mudança de regime” é pedra angular da política externa de alguém. É claro que o NDS encobre esse fato triste. Veja mais:)

“A Rússia violou as fronteiras de nações próximas e persegue o poder de veto sobre as decisões econômicas, diplomáticas e de segurança de seus vizinhos[…] (Besteira. A Rússia tem sido uma força para a estabilidade na Síria e Ucrânia. Se Obama tivesse o seu caminho livre, a Síria teria acabado como o Iraque, um inferno ocupado por mercenários estrangeiros. É assim que o Pentágono mede o sucesso?).

“China e Rússia querem moldar um mundo consistente com seu modelo autoritário […]

‘China e Rússia estão agora minando a ordem internacional dentro do sistema[…]’

‘China e Rússia são as principais prioridades do Departamento […] devido à magnitude das ameaças que representam à segurança dos EUA.”[4]

Entendeu o que está em jogo? China e Rússia, China e Rússia, China e Rússia. Mau, mau, mau.

Por quê? Porque eles estão implementando com sucesso seu próprio modelo de desenvolvimento que não é programado para favorecer as instituições financeiras e corporações dos EUA. Essa é a realidade nua e crua. A única razão pela qual a Rússia e a China são uma ameaça ao “sistema baseado em regras”, é porque Washington insiste em ser o único que faz as regras. É por isso que os líderes estrangeiros não estão mais entrando no barco: pois não é um sistema justo.

Essas avaliações representam a opinião prevalente dos formuladores de políticas de nível sênior em todos os espectros. (A Casa Branca, o Pentágono e a Comunidade de Inteligência). O governo dos EUA é unânime em seu julgamento de que é necessária uma abordagem mais agressiva e mais combativa para lidar com a Rússia e a China. As elites que possuem influência na política externa querem colocar a nação no caminho para mais confrontos, mais conflitos e mais guerras. Ao mesmo tempo, nenhum desses três documentos sugere que a Rússia tenha qualquer intenção de lançar um ataque contra os Estados Unidos. A maior preocupação é o efeito que os concorrentes emergentes terão no plano provocativo de Washington para sua expansão militar e econômica, a ameaça que a Rússia e a China representam para o esvaimento norte-americano no poder global. É esse medo que impulsiona a política externa dos EUA.

Essas avaliações representam a opinião prevalecente de formuladores de políticas de nível sênior em todo o espectro. (A Casa Branca, o Pentágono e a Comunidade de Inteligência) O USG é unânime em seu julgamento de que é necessária uma abordagem mais agressiva e mais combativa para lidar com a Rússia e a China. As elites da política externa querem colocar a nação no caminho para mais confrontos, mais conflitos e mais guerras. Ao mesmo tempo, nenhum desses três documentos sugere que a Rússia tenha qualquer intenção de lançar um ataque contra os Estados Unidos. A maior preocupação é o efeito que os concorrentes emergentes terão no plano provocativo de Washington para a expansão militar e econômica, a ameaça que a Rússia e a China representam para o tenso aperto norte-americano no poder global. É esse medo que impulsiona a política externa dos EUA.

E é neste contexto mais amplo no qual devemos encaixar a investigação da Rússia. A razão pela qual o furor midiático do suposto “hackeamento” russo foi autorizado a florescer e se espalhar, apesar da óbvia falta de qualquer evidência que suporte essa acusação, é que a difamação da Rússia segue perfeitamente os interesses geopolíticos das elites do governo. Os EUA agora trabalham em colaboração com a mídia para influenciar as atitudes do público em questões que são importantes para o poderoso establishment da política externa. O objetivo ostensivo dessas operações psicológicas (PSYOP) é ​​usar seletivamente informações em audiências “para influenciar suas emoções, motivos, raciocínio objetivo e, finalmente, o comportamento de… organizações, grupos e indivíduos”.

O governo americano agora vê as mentes dos cidadãos americanos como um alvo legítimo para suas campanhas de influência. Eles consideram as atitudes e percepções como “o domínio cognitivo do campo de batalha” que eles devem explorar para construir apoio público para suas guerras e intervenções vastamente impopulares. A implacável narrativa do Russiagate (que foi primeiramente encaminhada ao FBI pelo chefe da Guerra da Síria, o ex-diretor da CIA John Brennan) representa o componente de desinformação da campanha mais ampla contra a Rússia. As elites da política externa estão determinadas a persuadir o povo norte-americano de que a Rússia constitui uma ameaça real à sua segurança, que deve ser combatida por sanções mais severas, mais belicosas e, eventualmente, guerra.

Notas do tradutor:

[1]: Russiagate refere-se a uma série de acusações de ingerência da Rússia na política doméstica dos Estados Unidos, especificamente no processo eleitoral de 2016.

[2]: O Relatório Mueller é o relatório oficial de Robert Mueller que teve como objetivo investigar as acusações de interferência russa nas eleições americanas de 2016 e as alegações de cooperação de Donald Trump com a Rússia. Grosso modo, Mueller concluiu que, embora não fosse possível acusar a campanha de Trump de conspiração, tampouco era possível isentá-lo completamente do crime de obstrução de justiça.

[3]: Disponível em: https://www.dni.gov/files/ODNI/documents/2019-ATA-SFR—SSCI.pdf

[4]: Disponível em: https://dod.defense.gov/Portals/1/Documents/pubs/2018-National-Defense-Strategy-Summary.pdf