Rússia-China: a cúpula que a mídia ignorou

por Manlio Dinucci | Il Manifesto - Tradução de Vinícius Moraes para a Revista Opera

0
1413
(Foto: Kremlin)

No dia 5 de junho, os holofotes da mídia se voltaram para o presidente Trump e para os líderes europeus da OTAN. Em Portsmouth, no aniversário do Dia D, o grupo comemorou “a paz, a liberdade e a democracia na Europa”, prometendo “defendê-las a qualquer momento, onde quer que estivessem sendo ameaçadas”. A referência à Rússia é notória.

No mesmo dia, os principais veículos de comunicação ignoraram, ou sarcasticamente trataram como algo secundário, a reunião que ocorreu em Moscou entre os presidentes da Rússia e da China. Vladimir Putin e Xi Jinping,  na trigésima reunião em seis anos, deixaram a retórica de lado e discutiram uma série de ações.

As negociações comerciais entre os dois países, que no ano passado ultrapassaram os 100 bilhões de dólares, foram ampliadas por cerca de 30 novos projetos chineses de investimento na Rússia, particularmente no setor de energia, somando mais 22 bilhões de dólares.

A Rússia tornou-se o maior exportador de petróleo para a China e está se preparando para fazer o mesmo com o gás natural: o maior gasoduto oriental abrirá em dezembro, seguido de outro da Sibéria, além de duas grandes áreas para a exportação de gás natural liquefeito.

O plano dos EUA de isolar a Rússia por meio de sanções – também aplicadas pela UE e respondidas com a suspensão das exportações russas de energia para a Europa – será, portanto, frustrado .

A colaboração russo-chinesa não se limitará ao setor energético, projetos conjuntos foram anunciados no setor aeronáutico e em outros setores de tecnologia de ponta. As rotas de ligação entre os dois países – ferroviárias, rodoviárias, fluviais e marítimas – estão sendo intensamente desenvolvidas. Os intercâmbios culturais e os fluxos turísticos também estão se expandindo rapidamente.

Trata-se de uma cooperação em larga escala, cuja visão estratégica é indicada por duas decisões anunciadas ao fim da reunião:

        • a assinatura de um acordo intergovernamental para estender o uso das moedas nacionais, o rublo e o yan, em negociações comerciais e transações financeiras, como uma alternativa ao ainda dominante dólar;
        • a intensificação dos esforços para integrar a Nova Rota da Seda (promovida pela China) e a União Econômica Eurasiática (promovida pela Rússia), com o “objetivo de criar uma parceria eurasiana mais estreita no futuro”.

O fato desse objetivo não ser meramente econômico é confirmado pela “declaração conjunta sobre o reforço da estabilidade estratégica mundial”, assinada também no final da reunião. A Rússia e a China compartilham “posições idênticas ou muito semelhantes”, que são de fato contrárias às dos EUA/OTAN, relativas à Síria, Irã, Venezuela e Coreia do Norte.

Ambos os países estão fazendo um alerta na declaração: a saída dos EUA do Tratado INF, com o objetivo de posicionar mísseis nucleares de alcance intermediário ao redor da Rússia e da China, pode acelerar a corrida armamentista e aumentar a possibilidade de conflito nuclear. As partes também denunciam a recusa dos EUA em apoiar a proibição total de testes nucleares. Também consideram “irresponsável” o fato de alguns Estados signatários do Tratado de Não Proliferação (TNP) praticarem “missões nucleares conjuntas”, sugerindo o “retorno a seus territórios nacionais de todas as armas nucleares que estão fora de suas próprias fronteiras”.

Esse pedido diz respeito à Itália e a outros países europeus onde, em violação do Tratado de Não Proliferação (TNP), os EUA têm posicionado armas nucleares que podem ser utilizadas pelos países receptores sob comando estadunidense: especificamente, bombas nucleares B-61 que serão substituídas, a partir de 2020, pelas ainda mais perigosas B61-12.

Os principais veículos de comunicação não disseram nada sobre isso, mas estiveram bastante ocupados em 5 de junho descrevendo os esplêndidos trajes da primeira-dama Melania Trump para as cerimônias do Dia D.