A mídia ocidental é chave para a enganação sobre a Síria

por Jonathan Cook | Strategic Culture - Tradução de Julia Menezes para a Revista Opera

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(Foto: USAF)

Para qualquer consideração, a declaração feita no começo do mês por combatentes ligados à Al-Qaeda, dizendo que foram atingidos com armas químicas pelo governo Sírio na província de Idlib – o seu último reduto na Síria – deveria ter sido tratada com um alto grau de ceticismo pela mídia ocidental.

O fato dos EUA e outros governos ocidentais coletarem essas declarações com entusiasmo não deveria torná-las mais aceitáveis.

O ceticismo era a maior garantia da mídia, dada a falta de evidências físicas produzidas para corroborar as declarações dos jihadistas. E a mídia deveria continuar desconfiada, dado que o governo Sírio já estava preparado para combater esses grupos da Al-Qaeda sem utilizar armas químicas – e sem provocar a ira previsível do ocidente (mais uma vez).

Mas, sobretudo, o ceticismo era necessário porque essas últimas declarações chegaram logo após termos assimilado que o último suposto maior ataque químico – que aconteceu em abril de 2018 e o presidente Bashar Assad, como sempre, foi responsabilizado por todas as fontes ocidentais – muito possivelmente foi manipulado, uma operação false-flag pelos grupos da Al-Qaeda que agora declaram que o governo Sírio os atacou novamente.

Viciados na incompetência

O mais impressionante da cobertura das declarações feitas pelos grupos Al-Qaeda é o fato da mídia ocidental se recusar a aprender qualquer lição, desenvolver qualquer distância crítica das fontes em quem eles confiam, mesmo quando essas fontes já demonstraram ter se enganado diversas vezes. 

Isto era verdadeiro após a falha em encontrar armas de destruição em massa no Iraque, e agora é ainda mais verdadeiro após o organismo internacional de controle de armas químicas, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW), ter se revelado profundamente desonesta neste mês.

É suficientemente desagradável que nossos governos e instituições especialistas nos enganem e mintam para nós. Mas é ainda pior que tenhamos uma grande mídia viciada – em uma interpretação mais generosa – na sua própria incompetência. A evidência tem demonstrado que isso se fortalece a cada dia.

Ataque injustificado

Em março a OPCW elaborou um documento sobre um ataque de armas químicas que o governo sírio supostamente realizou em Douma em abril do último ano. Dezenas de civis, a maioria deles crianças, aparentemente morreram como resultado daquele ataque.

O documento da OPCW concluiu que houve “motivos razoáveis” para acreditar que uma forma tóxica de cloro foi usada como arma química em Douma, provavelmente enviada por dois cilindros por meios aéreos.

Isso é tão adequado quanto as declarações confirmadas feitas pelos grupos Al-Qaeda, apoiados pelos estados ocidentais, de que os cilindros foram lançados pelas forças militares sírias. Utilizando linguagem técnica e firme, a OPCW juntou-se aos EUA e à Europa ao apontar o dedo diretamente à Assad. 

A conclusão obtida pela OPCW foi vitalmente importante não só pelas ambições fundamentais do ocidente na mudança de regime Síria.

Em resposta ao suposto ataque de Douma um ano atrás, os EUA dispararam uma salva de mísseis de cruzeiro no exército Sírio e em locais do governo antes de qualquer investigação sobre quem foi responsável.

Aqueles mísseis foram já um crime de guerra – um ataque injustificado em outro país independente. Mas sem a benção implícita da OPCW, os EUA estaria desprovido desse frágil pretexto humanitário para o lançamento dos mísseis.

Documento vazado

Sem dúvidas a OPCW estava sobre uma grande pressão política para chegar à conclusão certa. Mas com um organismo científico responsabilizando-se pela investigação forense, certamente o documento não seria simplesmente adulterado.

Entretanto, parece ter sido exatamente o que aconteceu. Esse mês o Grupo de Trabalho na Síria, Propaganda e Mídia – um grupo de acadêmicos que se fortaleceu pelo ceticismo frente às narrativas ocidentais sobre a Síria – publicou um documento interno vazado da OPCW.

Uns dias depois a OPCW confirmou relutantemente que o documento era verdadeiro, e que iria identificar e lidar com o responsável pelo vazamento.

O documento era uma avaliação supervisionada por Ian Henderson, um especialista superior da OPCW, especialista dos dados de engenharia recolhidos pela missão de investigação dos fatos que acompanhou a cena do ataque de Douma. Suas descobertas contrariam o documento publicado pela OPCW.

Retirados do registro

O documento vazado é profundamente problemático por dois motivos.

Primeiro, a avaliação, baseada nos dados técnicos disponíveis, contradiz a conclusão do documento final da OPCW de que dois cilindros químicos foram lançados no ar e colidiram com tetos de edifícios. Ao contrário, afirma que os cilindros provavelmente foram colocados nos lugares em que foram achados. 

Se isto está certo, a explicação mais provável é de que os cilindros foram colocados lá pelos grupos da Al-Qaeda – provavelmente por um último e desesperado esforço para persuadir o ocidente a intervir e prevenir que os jihadistas fossem dirigidos para fora de Douma.

Ainda mais surpreendente é o fato de que a avaliação do especialista baseada nos dados recolhidos pelo time da OPCW é totalmente não abordada no documento final da OPCW.

Isso não quer dizer que o documento final reduz ou refuta as descobertas dos seus próprios especialistas. O documento simplesmente ignora essas descobertas; e finge que elas não existem. O documento exclui e apaga as descobertas do registro oficial. Em resumo, comete uma enorme enganação. 

Especialistas ignorados

Tudo isso seria manchete se tivéssemos uma mídia responsável que se importa com a verdade e em manter seus leitores bem informados.

Sabemos agora tanto que os EUA atacaram a Síria inteiramente baseando-se em falsidades, e que a OPCW – uma das comunidades internacionais e organizações oficiais mais respeitadas – foi pega em flagrante em uma enganação escandalosa com graves implicações geopolíticas. (Na verdade, não é a primeira vez que a OPCW foi flagrada fazendo isto, como já foi explicado aqui).

O fato da OPCW ter ignorado as descobertas de seu próprio especialista e de seu próprio time técnico quando se provaram politicamente enfadonhas lança uma sombra obscura por todo o trabalho da OPCW na Síria, e além. Se uma enganação foi preparada nessa ocasião, por que deveríamos assumir que não em outras ocasiões quando isso se provou conveniente politicamente?

Combatentes ativos

Os documentos da OPCW sobre outros possíveis ataques químicos – auxiliando os esforços ocidentais para envolver Assad – agora estão igualmente afetados. Isso especialmente naqueles outros casos em que a OPCW violou seus próprios procedimentos, elaborando conclusões prejudiciais sem a presença dos especialistas, no local dos supostos ataques. Ao invés disso, receberam amostras e fotos dos grupos Al-Qaeda, que poderiam facilmente ter manipulado a evidência. 

E ainda não há quase nada na grande mídia sobre essa exposição da desonestidade da OPCW, além de alguns trechos de comentários de somente dois jornalistas dissidentes mais conhecidos no Reino Unido – Peter Hitchens, um conservador independente colunista do Mail aos domingos, e o correspondente de guerra veterano Robert Fisk, do jornal pouco lido The Independent (mais sobre sua participação em Douma a seguir).

Assim como a OPCW ocultou as descobertas de seus especialistas técnicos para evitar o desconforto político, a mídia escolheu permanecer em silêncio sobre essa nova informação politicamente delicada. 

A mídia preferiu apoiar uma narrativa desqualificada de que nossos governos têm agido para proteger os direitos humanos dos cidadãos sírios no lugar da realidade em que eles têm sido combatentes ativos na guerra, ajudando a desestabilizar um país por meios que têm causado enorme sofrimento e morte na Síria.

Falha sistemática

Esta não é uma única falha. É parte de uma série de falhas da grande mídia na sua cobertura de Douma.

A mídia ignorou muitos motivos óbvios por precaução na época do suposto ataque. O repórter vencedor de prêmios Robert Fisk estava entre os primeiros jornalistas a entrar em Douma um pouco antes dos ocorridos. Ele e alguns jornalistas independentes divulgaram uma declaração de testemunha ocular que contradiz categoricamente a narrativa comum promovida pelos grupos da Al-Qaeda e governos ocidentais de que Assad havia bombardeado Douma com armas químicas.

A grande mídia também ridicularizou uma coletiva de imprensa posterior à qual supostas vítimas do suposto ataque químico apareciam para mostrar que estavam desarmados e falar como eles foram coagidos a interpretar seus papéis. 

E agora a mídia ocidental tem agravado essa falha – revelando sua natureza sistemática – também ao ignorar o documento vazado da OPCW.

Mas isso fica pior, muito pior.

A propaganda da Al-Qaeda

No começo do mês os mesmos grupos da Al-Qaeda presentes em Douma – e muitos que prepararam aquele ataque letal – declararam que o governo Sírio novamente lançou armas químicas contra eles, dessa vez em seu último reduto em Idlib. 

Uma mídia responsável, interessada em fatos, evidências, em dizer a verdade, em procurar explicações dos que estão no poder, seria moralmente obrigada a enquadrar esta última declaração como sem fundamento, no contexto em que novas dúvidas foram levantadas sobre o documento da OPCW sobre o ataque químico do ano passado que responsabiliza Assad.  

Já que os dados técnicos sugerem que os grupos Al-Qaeda e os Capacetes Brancos (Defesa Civil Síria) que trabalharam próximo a eles, foram responsáveis por encenar o ataque – possivelmente até assassinando civis para fazer o ataque parecer mais persuasivo – a mídia corporativa tinha a obrigação moral e profissional de levantar o problema do documento vazado. 

É um contexto fundamental em que ninguém tenta ponderar se as últimas declarações do Al-Qaeda são provavelmente verdadeiras. Privar os leitores dessa informação, neste importante contexto, seria escolher um lado, propagandear em prol não somente dos governos ocidentais, mas também da Al-Qaeda.

E é exatamente o que a grande mídia tem feito. Toda a mídia.

É evidente a gravidade da falta do dever jornalístico mais básico se considerarmos a cobertura acrítica do Guardian sobre as declarações jihadistas quanto ao último suposto ataque químico. 

Assim como a maioria das outras mídias, o artigo do Guardian incluiu duas estranhas alusões – uma da França, e outra dos EUA – à enganação cometida pela OPCW em seu recente documento de Douma. O Guardian relatou essas alusões embora nunca tenha proferido uma palavra em qualquer das suas páginas sobre a enganação.

Em outras palavras, a grande mídia, tão comprometida em propagandear em prol dos poderes ocidentais, relatou as negações da irregularidade oficial embora nunca tenha reportado a verdadeira irregularidade. É difícil imaginar que a mídia soviética sob Stalin se comportaria de uma forma tão desonesta e medrosa.

A grande mídia tem dado a França e aos EUA uma plataforma para rejeitar acusações contra a OPCW que a própria mídia nunca havia levantado publicamente.

Dúvidas sobre a OPCW

O que se segue é uma breve declaração (incompreensível sem o contexto de renúncia) da França, relatado pelo Guardian em relação à última declaração de que as forças de Assad usaram armas químicas essa semana: “Nós confiamos integralmente na Organização para a Proibição de Armas Químicas.”

Mas ninguém, exceto blogueiros e acadêmicos ignorados pela mídia e pelas autoridades estatais, jamais levantou dúvidas sobre a OPCW. Por que o Guardian pensaria que esses comentários da França deveriam ser relatados a não ser que existissem motivos para duvidar da OPCW? E se há motivos para dúvidas, por que o Guardian não pensou em torná-las públicas, relatá-las para seus leitores?

O departamento estatal dos EUA igualmente veio em auxílio da OPCW. No mesmo relato do Guardian, um oficial dos EUA foi citado dizendo que a OPCW estava enfrentando “uma contínua campanha de desinformação” da Síria e Rússia, e que a campanha foi elaborada para “criar uma falsa narrativa de que outros [ao invés de Assad] são culpados pelos ataques de armas químicas”.

Então Washington também estava rejeitando as acusações contra a OPCW que nunca foram relatadas pela grande mídia estatal. 

Curiosamente, no caso dos oficiais dos EUA, eles declaram que a Síria e a Rússia estão por trás da “campanha de desinformação” contra a OPCW, mesmo que a OPCW tenha admitido que o documento vazado desacreditando seu trabalho é verdadeiro e escrito por um de seus especialistas.

A OPCW está sendo desacreditada, com certeza, somente porque tem procurado esconder uma prova presente no documento vazado que pode isentar Assad do ataque químico do ano passado. É difícil enxergar como a Síria ou a Rússia podem ser responsabilizados por isso.

A conivência na enganação

Mais surpreendente ainda, enquanto os oficiais dos EUA e da França têm ao menos reconhecido que há dúvidas sobre a participação da OPCW na Síria, mesmo tendo rejeitado essas dúvidas sem justificava, a grande mídia simplesmente ignorou essas dúvidas como se elas não existissem.

O incessante apagão da mídia sobre o documento vazado da OPCW não pode ser visto como acidental. Isso tem sido sistemático na mídia.

O apagão tem permanecido absolutamente em vigor mesmo após a OPCW admitir que o documento vazado que desacredita em seu trabalho era genuíno e mesmo após os próprios países ocidentais começarem a se referir ao documento vazado.

A grande mídia é efetivamente conivente tanto na enganação original cometida pelos grupos da Al-Qaeda e poderes ocidentais, e na subsequente desonestidade da OPCW. Ambos têm trabalhado juntos para enganar o público do ocidente.

A questão é: por que a mídia é tão obviamente incompetente? Por que é tão motivada a se manter e manter seus leitores no escuro? Por que é tão disposta a promover narrativas ingênuas em favor dos governos ocidentais que repetidamente já mostraram ter mentido?

Irã: o alvo real

O motivo é que a grande mídia não é o que declara. Ela não é vigilante do poder, ou um quarto poder.

A mídia é na verdade a ala das relações públicas de um punhado de grandes corporações – e estados – que perseguem dois objetivos centrais no Oriente Médio.

Em primeiro lugar, eles querem controlar o petróleo. Auxiliando a Al-Qaeda na Síria – incluindo na sua propaganda de guerra – contra o governo Assad atende uma agenda ocidental mais ampla. OS EUA e a OTAN estão ultimamente mirando na liderança do Irã, um grande produtor de petróleo na região que não está sob controle do dedo imperialista dos EUA. 

Grupos xiitas poderosos na região – Assad na Síria, Hezbollah no Líbano, e líderes iraquianos promovidos pela nossa invasão daquele país em 2003 – são aliados ou potenciais aliados do Irã. Se eles estão em jogo, o espaço dos EUA para a manobra de assumir o Irã é limitado. Remova esses participantes menores e o Irã permanece isolado e vulnerável.

É por isso que a Rússia interveio há muitos anos para salvar Assad, em uma tentativa de impedir que os dominós caíssem e impedir que os EUA construísse uma terceira guerra mundial centrada no Oriente Médio.

Em segundo lugar, com o Oriente Médio afundado com o dinheiro do petróleo, as corporações ocidentais têm a chance de vender mais das armas lucrativas usadas em guerras públicas e confidenciais como a que devasta a Síria nos últimos oito anos.

Que melhor gerador de lucro para essas corporações do que guerras ineficazes e sem sentido contra monstros fabricados como Assad?

Como um culto à morte

Do lado de fora, isso parece e soa como uma conspiração. Mas na verdade é algo pior – e muito mais difícil de superar.

As corporações que comandam nossa mídia e nossos governos simplesmente fundiram em suas próprias mentes – e na nossa – a ideia de que seus pequenos interesses corporativos são sinônimos de “interesses ocidentais”.

As falsas narrativas geradas por eles existem para servir a um sistema de poder, assim como já expliquei em blogs anteriores. A visão de mundo e os valores desse sistema são aplicados por um círculo encantado que inclui políticos, generais militares, cientistas, jornalistas e outros, funcionando como se tivessem passado por uma lavagem cerebral de um tipo de culto à morte. Eles vêem o mundo por um único prisma: a necessidade do sistema em manter o poder. Tudo mais – verdade, evidência, justiça, direitos humanos, amor, compaixão – deve tomar um lugar secundário.

É esse mesmo sistema que paradoxalmente está determinado a se preservar, mesmo se isso significa destruir o planeta, devastar nossas economias, começar e sustentar guerras nefastas permanentemente. É esse sistema que nos arrastará para o abismo, a menos que o impeçamos.