Morreu Clemente, o guerrilheiro invencível

por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Reprodução Jangada Fest / Youtube)

Morreu no último sábado (29) aos 68 anos, em Ribeirão Preto (SP), Carlos Eugênio Sarmento Coelho Paz, o camarada “Clemente”, último comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ALN), um dos mais importantes grupos de guerrilha urbana durante a ditadura militar no Brasil. A despedida ocorreu hoje, também em Ribeirão Preto, onde o ex-guerrilheiro morava com sua companheira Maria Claudia.

“Clemente” conheceu Carlos Marighella, quando era estudante do Colégio Pedro II, aos 15 anos. Por sugestão da organização, entrou para o Exército, servindo no Forte de Copacabana, de onde posteriormente desertou. “Eu decidi que ia colocar minha juventude, minha vida, sob o comando de Carlos Marighella”, declarou o guerrilheiro em entrevista a Geneton Moraes Neto. “Eu não era uma pessoa que pudesse ser presa de uma maneira simples. Eu tinha decidido, na minha mente e nas minhas ações, que eu ia dar o máximo de trabalho possível”. E deu. Clemente nunca caiu nas mãos do inimigo.

Participou de diversas ações de destaque, dentre as quais o justiçamento de Henning Albert Boilesen, executivo de origem dinamarquesa, diretor da Ultragaz e fundador do CIEE que foi pessoalmente responsável por esquemas de levantamento de dinheiro e criação de métodos de tortura para a repressão. Foi também responsável pelo famoso “tiro no nariz” de Fleury, durante um combate em São Paulo.

Em 1973, deixou o país, já após a morte de Marighella, em 1969, e Joaquim Câmara Ferreira, em 1970. Se formou como músico em Paris. “Eu tinha 23 para 24 anos, e os amigos que fiz [em Paris] tinha 14, 15, 18. Tive o privilégio de, na França, exilado, viver a juventude que eu tinha dedicado à luta. Essas pessoas substituíram meus mortos. Esses amigos, quando fiz 60 anos, os dez que puderam pagar passagem, vieram. […] É minha família francesa. Entraram no lugar da Ana, do Alex, do Yuri… entraram no lugar daqueles que eu perdi.”

Apesar de ser figura relativamente esquecida em tempos em que tanto se fala abstratamente em “antifascismo”, Carlos Eugênio – nosso exemplo concreto – é tema do documentário “Codinome Clemente”, de Isa Albuquerque.