Foi uma semana infernal no front iraniano. Ela começou com ataques contra dois petroleiros no Golfo de Omã em 13 de junho e terminou com a ordem de Donald Trump para um ataque militar contra o Irã, que depois foi cancelada em 20 e 21 de junho. Como chegamos do começo ao fim desse capítulo na atual saga EUA-Irã merece uma análise cuidadosa.

Ambiguidade estudada

Como qualquer um que pode pensar em “Golfo de Tonquim”, “Lembrem-se do Maine!” e “armas de destruição iraquianas”, minha reação instintiva aos ataques contra os dois petroleiros – um mês após as explosões atingirem quatro petroleiros no porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos – foi: “E lá vamos nós de novo!” Sabemos que os Estados Unidos, instigados por Israel e pela Arábia Saudita, estão ansiosos para lançar algum tipo de ataque militar contra o Irã e estamos nitidamente cansados ​​da fórmula que é sempre usada para produzir uma justificativa para tal agressão.

Parecia bem pouco credível que o Irã atacaria um petroleiro japonês, o Kokuka Courageous, no momento em que o primeiro-ministro do Japão estava sentado com o aiatolá Khamenei em Teerã. Afinal, o Irã está ansioso para manter suas exportações de petróleo fluindo, de modo que dificilmente ia querer insultar tão flagrantemente um de seus principais clientes.

Também não faria sentido que o Irã tivesse atacado um navio norueguês, o Front Altair. Aquele petroleiro é de propriedade da companhia de navegação Frontline, que pertence ao homem mais rico da Noruega (antes de se mudar para o Chipre), John Fredriksen. Fredriksen fez sua fortuna transportando petróleo iraniano durante a Guerra Irã-Iraque, durante a qual seus petroleiros ficaram sob constante fogo do Iraque e foram atingidos por mísseis três vezes. Ele ficou conhecido como “o salva-vidas do aiatolá”. Além disso, como noticia o Wall Street Journal, a empresa Frontline de Fredriksen continua a ajudar o Irã a transportar seu petróleo de uma forma que evita as sanções. O Irã não tem um amigo maior que esse. Esse é o cara que o Irã escolheu para alvejar, em outro insulto gratuito?

Depois, há a “prova” da fumaça da arma: um vídeo borrado de alguém fazendo alguma coisa ao lado de um navio qualquer, que mais parece ter saído de um episódio de Caçadores de Fantasmas. Encorajo todos a lerem este thread no Twitter, que inclui as observações:

“Eu conto 10 pessoas a bordo deste navio. Também pode muito bem ser um cabo de ancoragem magnética que eles estão removendo. Temos essa resolução lixo no vídeo.

Por fim, esses marinheiros claramente estão trabalhando com o manual de remoção de minas:

‘Ao limpar as minas, assegure-se de ter seus 10 melhores amigos atrás de você. Dessa forma, caso ela exploda, eles poderão te pegar, e você não vai cair.'”

Por isso, eles provavelmente não estavam retirando minas. Tudo isso – a história das false flags americanas e mentiras que justificam guerras, as especificidades dos alvos atingidos e a risibilidade das provas apresentadas – tornou muito difícil para o governo Trump reunir uma massa crítica de consenso nacional ou internacional favorável a um ataque militar ao Irã.

Muitas pessoas compartilham da reação do ex-embaixador britânico Craig Murray: “Eu realmente não consigo imaginar o quão estúpido você tem que ser para acreditar” que o Irã atacou esses petroleiros. Afinal, Cui bono? Não há muitos outros atores – Israel, Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos ou os próprios EUA (quis dizer “John Bolton”?) – que estão interessados agora em explosões dramáticas que praticamente convidam uma resposta militar americana? Essa foi certamente a minha reação.

Vamos fazer uma pausa por um segundo para enfatizar a maravilha do efeito-Trump em ação por aqui. Como inúmeros especialistas da mídia estão reclamando, Trump carece de credibilidade e provoca ceticismo, mesmo entre “nossos aliados ocidentais”. O Washington Post declarou: “O impasse com o Irã expõe a questão da credibilidade de Trump, já que alguns aliados buscam mais provas de que os ataques aos petroleiros ocorreram”. Eu discuti isso em um ensaio anterior, citando o New York Times, sobre as reações de mais de uma dúzia de diplomatas e políticos internacionais: Com Trump como presidente, os EUA estão perdendo a “autoridade moral que imbuiu a América de um tipo especial de influência no mundo” e até “sua capacidade de fazer alianças necessárias”.

Não é esplêndido? Barack ou Hillary não teriam esse problema. O ataque deles ao Irã teria sido repleto de autoridade moral, vídeos borrados e tudo mais.

Giro ampliado

Eis que então o Irã derrubou um drone RQ-4A Global Hawk em 20 de junho. Esse é um bem militar muito valioso para os EUA, um dos quatro drones RQ-4A de “vigilância massiva” da Marinha que custam entre US$ 110 e 220 milhões cada um – mais do que um F-35, o caça mais avançado do país.

Esse drone provavelmente violou o espaço aéreo iraniano, como mostram o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, e o Moon of Alabama (também aqui). Naquela parte estreita do Estreito de Ormuz, era praticamente impossível não fazê-lo. Contudo, a discussão sobre isso é obscurecida pela forma como a altitude de cruzeiro de 60 mil pés do drone afetou seu ângulo em relação à costa iraniana.

Por qualquer perspectiva, o Global Hawk não era um espectador inocente. Sem dúvida, ele era um falcão espiando sua presa – o Irã – de tão perto quanto os EUA achavam que poderiam se safar, reunindo sua inteligência e observando seus alvos para facilitar o mortal ataque militar que os americanos sempre estão planejando. Só que os militares iranianos não hesitaram em atacar esse valioso bem militar dos EUA – direta, abertamente e sem desculpas.

Embora eu ainda mantenha a explicação da false flag para os incidentes com petroleiros, a ação do Irã em derrubar o drone confirma um ponto crucialmente importante feito pelos mais bem informados comentaristas anti-imperialistas que sugeriram que o Irã atacou sim, pelo menos, um dos petroleiros. Particularmente convincente é a análise de Elijah J. Magnier, um repórter com muitas fontes confiáveis ​​na região, tal qual analisou o sempre afiado blog Moon of Alabama (MoA).

Seu ponto fundamental é que o Irã não vai tolerar passivamente as sanções econômicas no cerco de guerra que agora os EUA elevaram à “pressão máxima”. A última gota é a negação por parte dos EUA das isenções de sanções à China, Japão, Índia e Coreia do Sul, que permitiam a esses países importar petróleo iraniano. Com essas sanções em pleno vigor, os EUA estão efetivamente impondo um bloqueio ao Irã, o que é um ato de guerra.

Em face disso, o Irã não se contenta em ouvir súplicas sinceras de países europeus e asiáticos para que o país tenha responsabilidade em não “aumentar as tensões”, aceitando sua posição sitiada como um novo ponto de partida para o “diálogo” com seu agressor – os EUA.

De fato, o encontro de Abe com Khamenei acabou precisamente em uma rejeição de qualquer cenário desse tipo. Ao contrário da suposição de Craig Murray de que o primeiro-ministro japonês Abe Shinzo estava em Teerã em “conversações desaprovadas pelos EUA”, ele estava lá carregando uma mensagem de Trump, que estava oferecendo “suspender todas as sanções somente durante as negociações”. Khamenei sumariamente recusou, dizendo a Abe que Trump “não era digno” de “trocar uma mensagem com ele” e descartando Abe como o garoto de recados que ele realmente era. Isso coloca outra luz no ataque ao petroleiro japonês.

Como enfatiza Magnier, o Irã deixou clara sua posição: “Se o Irã não pode exportar petróleo através do Golfo Pérsico, ninguém no Oriente Médio poderá fazê-lo… O petróleo deixará de ser entregue ao mundo se o Irã não puder exportar seus dois milhões de barris diários”.

Mesmo que seus ostensivos amigos europeus e asiáticos se rendam aos americanos – como estão fazendo, apesar de suas declarações de solidariedade –, o Irã não vai discutir ou negociar ou viver sob sanções incapacitantes impostas pelos EUA. Vai agir contra eles. O Irã buscará um alívio desse assédio perpetuado em conversas infinitamente regressivas e completamente indignas de confiança. O Irã está determinado a não dialogar sobre o cerco, mas a quebrá-lo.

MoA resume: a situação atual é confusa e perigosa porque “o Irã e alguns de seus inimigos agora têm os mesmos interesses táticos. Ambos os lados agora querem elevar a temperatura na região”.

O Irã agora vai agir de modo a exigir que a Europa e o Japão expressem prontamente suas intenções de desafiar as sanções americanas e cumpram seus compromissos com o JCPOA. Ou então ficam calados, observam o Irã revidar e pagam as consequências. O Irã está dizendo aos EUA e ao governo Trump que é melhor recuar nas sanções, ou enfrentarão a versão iraniana de “pressão máxima”.

A ambiguidade sobre se o Irã foi ou não responsável por qualquer um dos ataques aos petroleiros demonstra que o Irã está numa posição em que poderia encenar uma série de incidentes plausivelmente negáveis, aproveitando-se das justificáveis suspeitas sobre os padrões de comportamento dos EUA. Assim, o Irã direciona as ações históricas dos EUA contra eles próprios e apresenta suas próprias declarações de guerra à la John Bolton, criando o que essencialmente seriam falsas false flags.

Não serão necessários muitos desses incidentes – que para qualquer um são difíceis de definir com precisão – até não importar mais quem os fez, e, como uma das fontes de Magnier disse: “Nenhuma companhia de seguros vai concordar em cobrir qualquer petroleiro que navegue nas águas do Golfo, colocando o Irã e os demais exportadores de petróleo no mesmo nível”. De acordo com sua fonte: “Mais alvos podem ser atingidos, e o nível de tensão aumentará gradualmente… Se o Irã estiver sofrendo, o resto do mundo sofrerá igualmente”.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Iranianas nos garante que: “Se a República Islâmica do Irã estivesse determinada a impedir a exportação de petróleo do Golfo Pérsico, essa determinação seria concretizada na íntegra e anunciada em público, tendo em conta o poder do país e de suas Forças Armadas”.

Talvez sim, mas, como a Information Clearing House aponta:

“O ponto-chave é que não importa como o Estreito de Ormuz será bloqueado.

Pode ser uma false flag. Ou pode ser porque o governo iraniano acha que vai ser atacado e depois afunda um navio de carga ou dois. O que importa é o resultado final; qualquer bloqueio do fluxo de energia levará o preço do petróleo a atingir US$ 200 o barril, US$ 500 ou mesmo, segundo algumas projeções da Goldman Sachs, US$ 1.000.

Esse valor, vezes 100 milhões de barris de petróleo produzidos por dia, nos leva a 45% do PIB global de US$ 80 trilhões. É evidente que a economia mundial entraria em colapso apenas com base nisso.”

A certeza – de fato, o reconhecimento orgulhoso – de que o Irã abateu um dos melhores ativos militares dos EUA que entrou em seu espaço aéreo – ou se aproximou demais dele – demonstra que o Irã também vai responder militar e inequivocamente a qualquer atividade militar hostil dirigida contra o país, incluindo qualquer violação de suas fronteiras aéreas, marítimas e terrestres.

É claro que se espera que o Irã seja cauteloso com tal decisão, como o chefe da divisão aeroespacial da Guarda Revolucionária alega ter sido nesse caso: “Junto ao drone norte-americano na nossa região, havia também um avião P-8 americano com 35 pessoas a bordo. Esse avião também entrou em nosso espaço aéreo e poderíamos ter derrubado, mas não o fizemos”.

Embora seja uma notícia de Marte para a maioria dos americanos, e eu não tenha ouvido uma única palavra sobre o tema nos dias em que a mídia americana cobria o inocente drone, o Irã não esquece que a Marinha dos EUA certa vez derrubou um avião civil da Iran Air no espaço aéreo iraniano matando 290 pessoas, incluindo 66 crianças. Isso levou o presidente dos EUA na época – George H. W. Bush, “pensativo e comedido”, ícone do “respeito e cortesia bipartidária”, que “sempre encontrou uma maneira de elevar o nível do debate” – a declarar: “Eu nunca peço desculpas pelos Estados Unidos. Não me importo com os fatos”.

O Irã derrubará qualquer aeronave ameaçadora – e certamente qualquer drone maldito – que quiser. Sem desculpas.

Tudo dentro

Assim, o Irã considera que já está em guerra e contra-atacou. E o fará novamente – com qualquer instrumento de força com o qual ele possa contar, da maneira que ele quiser, em qualquer nível da escalada mortal empregada pelos EUA a fim de tentar forçar o Irã a aceitar seu próprio estrangulamento.

Felizmente, todos os incidentes até agora foram sem perda de vidas ou grandes danos, mas qualquer ataque dos EUA ao Irã – seja um “ataque tático”, “limitado a um alvo específico”, que o Jerusalem Post descreveu como iminente, seja um assalto estratégico generalizado visando destruir grandes partes da infraestrutura iraniana, “afundar sua marinha” e provocar “o fim oficial do Irã”, como ameaçam vários políticos dos EUA – resultará em morte e destruição calamitosas, e o Irã responderá da mesma maneira.

Essa resposta tomará a forma de retaliações diretas dos militares iranianos contra os EUA e suas forças de ataque sempre que possível e/ou contra-ataques assimétricos das forças aliadas do Irã às bases, instalações e aliados americanos em toda a região.

O comandante da Guarda Revolucionária do Irã, general Hossein Salami, quer que o abate do drone americano seja uma “mensagem clara” de que o Irã “não tem nenhuma intenção de entrar em guerra contra nenhum país, mas estamos prontos para a guerra”.

Para ser claro: na minha opinião, essa é uma postura não passiva e assertiva que todos os anti-imperialistas devem apoiar. Os EUA não têm o direito de determinar à força qual o governo que querem para o Irã, que armas o país pode ter, quem serão seus aliados ou com quem o Irã pode negociar. O Irã tem todo o direito de lutar contra qualquer tipo de agressão, e todo esquerdista anti-imperialista deve defender sua vitória em qualquer luta desse tipo.

Será que os países do Golfo, Israel, Europa Ocidental, Japão, toda a presença americana no Oriente Médio, a economia mundial ou, mais trivialmente, todo o mundo, exceto a presidência de Trump, sobreviverão sem danos catastróficos ao que quer que aconteça ao Irã? Essa é a questão que o Irã está agora obrigando todos os atores mundiais a responderem.

Infelizmente, entre os tomadores de decisão (em cujas mãos Donald Trump é submisso) e, mais fatalmente, entre a população, há uma suposição firme de que a vitória é inevitável e relativamente sem custos e que há uma possibilidade infinita de controlar as consequências. Eles acham que os EUA serão capazes de fazer com o Irã o que fizeram com o Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria: impor uma destruição catastrófica à vontade, sem sofrer consequências sérias e mortais.

Não parecem reconhecer que, em qualquer uma dessas intervenções mortais, os EUA não conseguiram nada que seus próprios cidadãos americanos possam abraçar como uma “vitória”. No Afeganistão, os americanos esperam fazer um acordo com o Talibã, cuja guerrilha, em tese, deveria ter sido derrotada 16 anos atrás. Os EUA podem lançar mísseis contra a Síria à vontade, mas não conseguiram derrubar o governo sírio, mesmo havendo proclamado, há sete anos, que “Assad tinha que sair”.

De fato, nem as elites nem o povo americano parecem capazes de reconhecer que o Irã não é a Síria. Como diz o analista iraniano Trita Parsi, eles se enganam pensando que “o Irã não é diferente da Síria. Você pode atacar à vontade que eles não terão coragem de responder”. Porém, aqueles que pensam que os EUA podem cair fora após um ataque “tático” limitado ao Irã estão se iludindo.

O Irã não tem as fragilidades enfrentadas pela Síria durante a última década, e está precisamente determinado a não permitir que tais fraquezas se desenvolvam. O Irã não permitirá ser atacado a esmo pelos EUA ou por Israel, seu Estado guarda-costas, sem contra-golpear. Se os EUA derem um “soco no nariz” do Irã, os americanos devem estar prontos para tomar um murro na cara.

O Irã está considerando o domínio da escalada militar por parte dos EUA um blefe. O país sabe que pode acabar ficando ferido, mas não será derrotado. É um país de 83 milhões de habitantes, com 617 mil milhas quadradas de um território formidável e semimontanhoso – quase três vezes mais populoso e quatro vezes maior que o Iraque. É um país que lutou e venceu uma das mais mortíferas guerras da história contra uma invasão iraquiana apoiada pelos EUA e por todos os seus Estados-clientes regionais e internacionais. Não hesitará em se defender furiosamente contra qualquer ataque americano.

The Saker fez uma análise razoável do potencial e das vulnerabilidades militares do Irã aqui. Porém, mesmo um neocon belicista como Max Boot reconhece que seriam necessários “mais de 1,6 milhão de tropas” para invadir o Irã, e que:

“Mesmo se limitando a ataques aéreos… não seria um exercício antisséptico limitado a só apertar um botão… O Irã poderia empregar uma combinação de mísseis antiaéreos, drones, submarinos, pequenas embarcações e minas para ‘congestionar’ os navios da Marinha dos EUA nas águas confinadas do Golfo Pérsico. Poderia atacar as bases dos EUA na região com seu arsenal de cerca de 2.000 mísseis. Poderia prejudicar as redes de computadores dos EUA com ataques cibernéticos. Poderia utilizar o Hezbollah e outros grupos para encenar ataques terroristas no exterior. Poderia enviar milícias locais, armadas com mísseis e carros-bomba, para atacar as 19 mil tropas americanas no Iraque, na Síria e no Afeganistão. Poderia dizer aos houthis no Iêmen para lançarem uma parede de mísseis contra a Arábia Saudita e poderia ordenar que o Hezbollah disparasse 150 mil foguetes e mísseis contra Israel.

Em resposta, os Estados Unidos fariam o que?”

Tudo o que os EUA podem fazer é explodir muita coisa, mas ambos podem jogar esse jogo, e o Irã não tem medo disso. Notavelmente, o neocon Boot ecoa o líder do Hezbollah, Sayyed Nasrallah, que diz que “toda a região vai arder se os EUA entrarem em guerra contra o Irã”, e o anti-imperialista Magnier, que adverte que “o Irã está pronto para incendiar o Oriente Médio se for impedido de exportar seu petróleo”.

Metas de oportunidade

Como o Irã entende, eles já estão em guerra. Trump começou o fogo quando saiu do JCPOA e impôs um cerco econômico de “pressão máxima” ao Irã. Esse fogo pode facilmente se tornar uma conflagração – e o Irã entende cada sobressalto das chamas.

Para ser específico sobre um perigo da escalada para os EUA, sobre o qual o Irã sabe e o Pentágono sabe – e o Irã sabe que o Pentágono sabe –, eu me lembro de uma observação contra-intuitiva do site de análise militar The Saker, no sentido de que saberemos quando os EUA estarão prestes a atacar o Irã: não será quando os EUA enviarem seus porta-aviões, mas quando eles forem retirados do Golfo. Os porta-aviões são plataformas muito eficazes para projeção de força contra países que não dispõem de recursos avançados de defesa contra navios (Líbia, Síria). Contudo, é um segredo conhecido que os avançados mísseis antinavios (ASMs) de tipo fabricado pela Rússia e pela China – incluindo mísseis balísticos, antirradiação, lançados por submarinos e super ou hipersônicos – podem rapidamente transformar um porta-aviões em um grande caixão flutuante. Ao contrário da Líbia ou da Síria, o Irã obteve ou produziu versões locais de todos os ASMs, mas totalmente hipersônicos, e pode lançá-los do ar, a partir de dispositivos móveis, de submarinos e de uma rede de locais inacessíveis e ocultos em torno do Golfo Pérsico e do estreito Estreito de Ormuz – áreas marítimas confinadas, onde um porta-aviões da Classe Nimitz é, de fato, um alvo muito grande e próximo.

Vale a pena notar que: “Uma característica dos drones Global Hawks é que voam muito alto e estão normalmente a salvo de serem abatidos”.

É por isso que não devemos, de forma descuidada, ignorar o que disse o chefe da Força Aérea da Guarda Revolucionária do Irã: “No passado, um porta-aviões era, para nós, uma séria ameaça. Mas agora é um alvo em potencial, e o que eram ameaças hoje são oportunidades”.

Talvez ele esteja blefando. Não há dúvida de que os EUA têm uma poderosa mão militar, e talvez seja absolutamente claro que eles sabem onde todos os mísseis estão e como podem se defender deles (É para isso que servem esses Global Hawks que voam a grandes altitudes!). Entretanto, há um inferno sobre a mesa para considerarmos que a fala dele seja só um “talvez”. As boas mãos são também as que mais perdem.

O Irã não está escondendo suas declarações. Não há “talvez” sobre o fato de que, caso houver um porta-aviões decolando jatos sobre o Golfo Pérsico, o Irã tentará afundá-lo. Quantos os mísseis você já viu o Irã recebendo da Rússia ou da China? Há uma bad beat [jogada de pôquer] chegando para alguém.

Como diz o analista militar Andrei Martyanov, mesmo nos anos 1970, o almirante Elmo Zumwalt estava preocupado com “os efeitos estratégicos e psicológicos que a perda de até mesmo um único porta-aviões nuclear teriam sobre a Marinha dos EUA”. E sobre todo o seu excepcional e invencível país. Se o Irã afundar – ou até atingir e prejudicar seriamente –  um porta-aviões americano, haverá uma enorme pressão sobre Trump para devastar definitivamente o Irã. O Irã sabe disso e está pronto para reagir com uma força tão devastadora quanto possível, atingindo todos os alvos que puder.

E nós nem sequer mencionamos o que acontece se o Irã ou, como Boot comenta, seu aliado Hezbollah fizerem chover mísseis sobre Tel Aviv, causando sérios danos e baixas. Minha aposta é que Israel aproveitaria a oportunidade que já vem procurando para bombardear Teerã ou Qom, estabelecendo sua implacável e irreversível hiperdominância sobre a região de uma vez por todas (Vai pensar em fazê-lo.). Afinal, trata-se de Israel. Quem dentro dos EUA, durante uma guerra contra o Irã, irá protestar?

Porque Israel, tal qual o Irã – ao contrário da população americana de quem esse conhecimento é assiduamente oculto –, sabe do que se trata esse conflito. E não se trata de impedir que o Irã consiga suas míticas armas nucleares. Novamente, até Boot sabe que “o acordo nuclear era muito melhor”, e os EUA, ao jogar fora esse acordo, provam que não estão interessados em armas nucleares iranianas.

Jogada de cartas

Como Bolton e Pompeo continuam dizendo, as traves do gol foram completamente mudadas de lugar (Ou, deveríamos dizer, finalmente reveladas?). Tudo é sobre o “mau comportamento” do Irã na região e sua ameaça aos “aliados e interesses” americanos. Esse é o governo Trump repetindo a definição de Hillary Clinton sobre o Irã como uma “ameaça existencial a Israel” – o que significa precisamente que a sua própria existência como a principal potência capaz de resistir material e militarmente à hiperdominância de Israel na região é inaceitável.

É por isso que Trump também executou o pedido de Hillary para que a Guarda Revolucionária Iraniana fosse designada como uma organização terrorista. O Irã deve cessar seu apoio ao Hezbollah, a força de combate mais eficaz na linha de frente, que impediu a tomada do sul do Líbano por Israel. Deve abandonar os palestinos, os sírios e os libaneses e se neutralizar militarmente, abandonando quaisquer armas estratégicas. O Irã deve concordar em se tornar um país que pode ser bombardeado à vontade por Israel e pelos EUA, como a Síria é (no momento).

Acima de tudo, trata-se de uma admoestação de Hillary (que, mais uma vez, Trump tem aceitado alegremente): “quero que os iranianos saibam que, se eu for presidente, atacaremos o Irã… os destruiremos totalmente”. Falando por toda a elite política bipartidária dos EUA, ela quis dizer “por qualquer motivo”, incluindo autodefesa.

É disso que se trata, como o Irã bem sabe. O resto, incluindo as armas nucleares iranianas, é uma bobagem diversionista.

Sim, os EUA também querem impedir que o Irã tenha qualquer poder para resistir ao domínio da Arábia Saudita como potência petrolífera e como garantidora do governo reacionário sunita contra o nacionalismo secular e o socialismo em todo o mundo muçulmano. Contudo, a total aceitação da Arábia Saudita por parte dos americanos depende da aliança desta com Israel. O establishment político e midiático dos EUA se voltaria abruptamente contra a Arábia Saudita caso Israel considerasse que isso fosse de seu interesse nacional essencial. Não há possibilidade de que esse establishment se voltasse contra Israel porque a Arábia Saudita queira isso. O establishment político e midiático dos EUA está totalmente comprometido com o sionismo; eles nunca estarão comprometidos com o wahabismo. Os interesses e as demandas de Israel e do sionismo são determinantes da política americana de uma forma que os interesses e demandas sauditas nunca serão.

Então, em última análise, como Ray McGovern diz: “O ‘PORQUE’, simplesmente, é Israel. É impossível entender a política dos EUA para o Oriente Médio sem perceber a influência esmagadora de Israel sobre ela e sobre os formadores de opinião”. Essa influência é o principal fator que conduz a enorme destruição que já foi causada na região pelos EUA no Iraque, Líbia, e a Síria, e estará forjada em uma guerra contra o Irã. Embora sempre haja outras considerações, não teríamos empreendido nenhuma dessas guerras, se não fosse o compromisso dos EUA com Israel e o sionismo. E é falso fingir o contrário.

E Israel – e aqueles no establishment dos EUA para quem os interesses de Israel são centrais – não se importa se um porta-aviões for afundado, ou se a região arder (já que os porta-aviões não poderão sair da zona de risco.). É isso que eles querem! Eles estão tentando provocar uma guerra na qual eles – os EUA por conta própria ou Israel diretamente, com suas armas nucleares – podem “extinguir” o Irã. Eles não se importam com quem mais será extinto nesse processo, e eles não conseguem imaginar que poderiam ser eles próprios. Eu mencionei – alguém já? – as armas nucleares israelenses?

Mão do homem morto

A anulação de Trump de sua ordem de ataque, bem como a desistência do Irã de abater um avião tripulado americano, é boa e tudo mais, mas esse jogo não terá acabado enquanto o cerco econômico ao Irã continuar. E dada a política americana atual, acho que um conflito enormemente destrutivo com o Irã é virtualmente inevitável.

O que pode impedir a insanidade é se os principais “aliados” tiverem a espinha dorsal para dizer ao presidente dos EUA (como Putin fez) que qualquer guerra com o Irã será uma “catástrofe” para todos, e que eles não só não concordarão com ela, mas vão denunciá-la explicitamente.

O que também ajudaria a impedir essa calamidade é se mais americanos compreenderem, junto ao Irã (e a Israel), qual é o objetivo desse jogo e deixassem claro que não querem jogá-lo. Isso exige que um número suficiente de americanos, incluindo a população americana e os tomadores de decisão – especialmente os militares –, abandone a ideologia da invencibilidade e do excepcionalismo, observe e alerte quanto aos perigos reais e apenas diga “Não!”

Isso pode estar acontecendo. Esse episódio sem precedentes, em que o presidente ordena um ataque militar e, em seguida, o cancela publicamente no último minuto, pode indicar que há algumas sérias reflexões ocorrendo. Washington Post nos diz: “A decisão do ataque dividiu seus principais assessores, com altos funcionários do Pentágono se opondo à ela, e o assessor de Segurança Nacional, John Bolton, a apoiando fortemente”.

O que é mais plausível: que Trump estava absolutamente certo de que os EUA poderiam “extinguir” o Irã, e apenas cancelou o ataque porque se sentiu incomodado com a ideia de matar 150 pessoas? Ou que alguém – entre influenciadores estrangeiros ou domésticos, que tinham conhecimento real e desapaixonado das forças em jogo e que se importavam com sepulturas em alto mar e cidades e campos de petróleo em chamas – teve a coragem de dizer: “Faça isso e estaremos fodidos”?

Ou Trump é um comandante em chefe extraordinariamente razoável e compassivo, ou ele recuou.

Fico satisfeito com qualquer uma das opções (e eu só tenho que dizer: não estamos falando de nada em um nível inimaginável. Definitivamente, não é Barack ou Hillary!)

Porém, o que o Irã pensa? Ou o que pensa o Deep State americano, com todos os seus compromissos consumados?

Dessa vez, alguém – ou um conselheiro sábio ou seu jovem gafanhoto – disse a Trump para não agir. Mas a jogada verdadeiramente inteligente seria cancelar todo o jogo, e isso não acontecerá.

Vamos aguardar a próxima cartada.