Desinformação: nazistas presos na Itália e o conflito ucraniano

Mídia do Brasil e do mundo inverte declaração de polícia italiana: combatentes favoráveis ao Estado ucraniano viraram "separatistas pro russos". Brasileiros ignoram ameaça de morte contra Salvini enquanto espalham notícia falsa. Por André Ortega | Revista Opera

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Andrey Biletsky
Andrey Biletsky, fundador do Batalhão Azov e líder do partido National Corps. Foto: Carl Ridderstråle / Wikimedia Commons (Edição: André Ortega)

“Verificamos: é fato ou é fake?”

Esta frase vem sendo muito usada hoje em dia, mas ela é mais do que válida no dia de hoje.

Há dois dias foi notícia mundial que um grupo especial de polícia em Torino, na Itália, apreendeu um arsenal com diversos tipos de armas, incluindo automáticas e até um míssil de fabricação francesa junto de material neonazista. O galpão pertenceria a Fabio del Bergolo, ex-agente alfandegário e que concorreu em eleições por uma lista do partido ultra-nacionalista Forza Nuova. Outras duas pessoas foram presas.

A investigação envolveu um grupo de skinheads e parte da torcida do Juventus. A pista que levou ao galpão, pelo visto, veio de uma apreensão de bandeiras neonazistas de torcedores da Juve.

O míssil, sem carga mas funcional, é de fabricação francesa e seria de origem qatari. Os criminosos pretendiam vendê-lo.

O que nos chama a atenção é que alguns jornais publicaram que esses neonazistas foram presos na condução de investigações contra “ex-combatentes que lutaram na Ucrânia ao lado dos russos”.

Esta afirmação é falsa. É o exato oposto do que foi declarado pelas autoridades italianas.

É necessário registrar em coluna.

A polícia italiana não fez nenhuma declaração ligando os neonazistas aos rebeldes federalistas, nem mesmo à operação de monitoramento. A rigor, o que fizeram foi exatamente o contrário. No primeiro comunicado publicado em seu sítio, diziam que isso foi resultado de um monitoramento de pessoas que haviam combatido na região ucraniana do Donbass “contra os independentistas”.

Segue imagem:

Italy police ALTER news on neo-Nazi missile for Ukraine after MSM misreport busted cell as pro-rebelA imagem é necessária, pois apesar deste comunicado, algumas das maiores organizações de mídia do Brasil e do mundo noticiaram o contrário, de que essa operação de monitoramento era de “combatentes pró-russos”, dentre outras definições como “mercenários pró-russos”, “combateram apoiados pela Rússia”, ou linguagem mais leve de que “participaram” ao invés de “combater”. “Algumas” inclui: CNN, BBC, The Guardian, Politico, ABC News, Sky News, CBS e até a Reuters.

O sítio da polícia, então, alterou seu próprio comunicado e usou uma linguagem um pouco menos precisa: a operação agora monitorava indivíduos que “tomaram parte” no conflito armado na região ucraniana do Donbass.

Diluíram em dois pontos: “combater” virou “tomar parte” e um lado definido foi substituído por uma indefinição. Quer dizer, mesmo assim não diziam nada sobre “combateram do lado pró-russo”.

Além disso, em coletiva de imprensa, o chefe do Serviço de Contraterrorismo de Turin, Luigi Spina, já havia declarado que o grupo “ajudou grupos nacionalistas ucranianos na luta contra grupos filo-russos do Donbass”, conforme relatou Roberto Vivaldelli no Il Giornale nesta manhã.

Coisa diferente escreveu o G1: “A operação antiterrorista investigava italianos de ‘ideologia extremista’ [aspas do G1!] que lutaram ao lado de rebeldes pró-russos contra tropas ucranianas”.

O Estadão disse o mesmo.

É incrível: conseguiram inverter a declaração dos policiais. E não foram os únicos, como dissemos acima. Afinal, a nota do G1 está assinada pela agência “France Presse”, é uma fabricação de outra agência de notícias. Quer dizer, tanto a Reuters como a France Presse estão com dificuldades de compreender o italiano, por isso disseram o oposto?

A coisa não parece ser uma dificuldade de tradução quando navegamos pelos jornais italianos e, apesar de uma parte considerável ter correspondido aos fatos que enumeramos, outra parte, infectada pela polarização política e ao mesmo tempo enterrada na afetação do “jornalismo sério”, reproduziu a mesma coisa!

Em época de conflitos com a Rússia, de neomacartismo baseado em acusações de que a Rússia tem intervido em países europeus e até nas eleições dos Estados Unidos, a narrativa que ataca a Rússia de alguma maneira pode soar mais atraente. Políticos de oposição ao governo reproduziram a acusação: uma liderança do Partido Democratico, Lia Quartapelle, fez protestos e misturou na acusação uma conspiração que envolvia o apoio russo ao partido governante, a Lega.

Essa conspiração já foi devidamente noticiada por nossa mídia: “MP investiga suposto repasse russo para partido de Salvini” (Terra, 11 de julho), “Oposição quer criar CPI sobre suposto apoio russo a Salvini (Istoé, hoje, 16 de Julho, há somente três horas atrás).

Há três horas atrás noticiaram isso. O que impressiona é que já faz mais de 12 horas que foi noticiada uma declaração de Matteo Salvini dizendo que a investigação era por ele ser alvo de um atentado de grupos neonazistas. Uma conspiração para assassinar o vice primeiro-ministro e Ministro do Interior, que é atualmente a principal figura política da Itália, o homem forte do governo.

A notícia de uma conspiração para seu assassinato é de primeira importância, mas o nosso “jornalismo de primeira” ainda não noticiou.

A única publicação em português que noticiou isso até agora foi o Sputnik, há seis horas. O Sputnik falhou, no entanto, em esclarecer que se tratavam de fato de combatentes pró-Kiev os monitorados, mas apontou que as acusações que falavam do lado pró-russo não passavam de “especulações sem confirmação”.

A declaração de Salvini pôs fim às especulações pois, junto dela, vieram novas revelações – o que não motivou notas de erratas em nossa mídia, nem novas publicações. Os cidadãos monitorados eram cinco ex-combatentes do Batalhão Azov, batalhão da Guarda Nacional Ucraniana, pró-Kiev, anti-Rússia e francamente neonazista.

A informação sobre a conspiração teria vindo de um “ex-agente da KGB”. Salvini já era alvo de ameaças públicas por parte de nacionalistas ucranianos, entretanto.

Essas informações foram confirmadas e explicadas pelo Chefe da Direção Central de Polícia de Prevenção,  Lamberto Giannini, em entrevista de vídeo para o portal Sky – TG24. A entrevista é feita dentro de um ambiente formal, oficial.

Ontem, no dia 15 de Julho, há mais de 24 horas, o La Stampa já havia publicado uma nota do jornalista Massimiliano Peggio intitulada “Svastiche, fucili e un missile. Trovato in un garage l’arsenale dei neofascisti“. No texto, é informado que a mensagem de WhatsApp interceptada em que se tentava vender o míssil de fabricação francesa era dirigida “a um combatente italiano no Donbass, filogovernativo”, isto é, traduzindo a curiosa expressão, pró-governo.

The Guardian e Politico são considerados portais “de esquerda” mas possuem um carinho especial na hora de atacar os russos – nesse caso o carinho ultrapassou todos os limites da boa informação dos fatos.

A ironia é pensar que políticos como Lia Quartapelle, ao se manifestar muito cedo contra os “pró-russos” e se solidarizando com o Estado ucraniano, acabou vendo esta manhã que os presos eram sim milicianos a serviço do Estado ucraniano que ela mesma defendeu.

O portal Russia Today, como de costume interessado em defender a Rússia e entrar em duelos com a mídia ocidental, expôs essas incoerências em seu portal anglófilo no decorrer do dia.

“Os neonazistas lutando por Kiev magicamente morfaram em militantes pró-russos ajudando a causa separatista”, escreveu a jornalista freelancer irlandesa Danielle Ryan.

Tudo isso e até agora nem uma notícia no Brasil; sequer uma errata pela desinformação, o que é coisa grave.

A Revista Opera publicou um documento em duas partes sobre o problema que estamos contemplando aqui: A Propagação Hegemônica: como as agências globais e a mídia ocidental cobrem a geopolítica.  O texto fala sobre o poder das agências internacionais de moldar a nossa percepção da realidade através dos fatos, notícias e termos que escolhem. Este poder é tão grande e acentuado que ele não está fora das considerações daqueles que são responsáveis não por informar, mas por fazer guerra.

É verdade que seria um passo em falso dizer que na redação do G1 existe uma conspiração para distorcer a notícia da Itália. O problema é que a incompetência se une à irresponsabilidade e, ao não fazer uma verificação básica, um trabalho de pesquisa básico, ao não ter quadros bem informados, por inércia o G1 vira um propagador de mentiras de guerra.

Me desculpem, e com licença: talvez não seja um problema de incompetência, a despeito do jornalismo corporativo adorar ostentar sua superioridade em relação a nós, independentes, “blogueiros“, devo considerar outra questão. A exploração do trabalho nas redações “industrializadas” e a falta de autonomia para jovens jornalistas.

Precisam saber que são trabalhadores “que não sabem de nada” e, no pior dos casos, sofrem assédio moral ou coisa pior.

Nem todos incorreram no absurdo. A desinformação só ficou mais intensa pelo fato de que alguns meios deram a informação correta. No Brasil, menção honrosa para a Revista Veja, que noticiou cedo e noticiou certo. No México, o Tiempo de Ciudad Chihuahua. Na Inglaterra da gigante BBC, o jornal socialista The Morning Star.

Isso resume, de um jeito ridículo e escrachado, o que a Revista Opera sempre falou sobre jornalismo internacional no Brasil: de que somos vítimas de um discurso hegemônico ocidentalista, mas que está além do plano “ideológico puro” já que se infiltra na própria técnica, já que ele se reproduz em um sistema da fabricação de notícias que de tempos em tempos está diretamente submetido a interesses escusos e falsificações grosseiras.

Talvez esse seja mais um episódio da tal “guerra híbrida”.

Isso rebaixa até o nível de propaganda, de participação em um determinado status quo ideológico. Estamos falando de um erro crasso que gera uma mentira aberta…. mas segue a vida, erro maior deve ser o meu, de violar as sagradas regras da escrita jornalística.

Post Scriptum I:

Três ex-combatentes italianos (dois com outras nacionalidades) que lutaram ao lado dos rebeldes separatistas já foram condenados pela justiça italiana como “mercenários”. Os que combateram ao lado do Estado ucraniano e do Batalhão Azov seguiram em liberdade (o que possivelmente tem a ver com o fato do Estado ucraniano ser reconhecido), salvo uma exceção.

A exceção ocorreu nesta semana, logo antes dos acontecimentos que tratamos aqui: o italo-ucraniano Vitaliy Markiv foi condenado na sexta-feira do 12 de julho por sua participação no assassinato do jornalista italiano Andrea Roccheli no Donbass (também morreu o colega russo Andrey Mironov e um fotógrafo francês saiu ferido). Foi condenado a 24 anos de prisão. Markiv combateu em uma unidade da Guarda Nacional, Batalhão Kulchytsky. Durante a sentença, o condenado gritou “Glória a Ucrânia!”, mote do nacionalismo ucraniano.

Post Scriptum II:

As revelações acerca do envolvimento com o Batalhão Azov não são impressionantes. Os “grupos de extrema-direita no Donbass” são adeptos do ultra-nacionalismo ucraniano e desde o Euromaidan, o movimento que derrubou o Presidente Viktor Yanukovich com apoio dos países ocidentais e cobertura favorável da grande mídia global, abriu-se espaço para grupos adeptos de uma simbologia estritamente neonazista. Os rebeldes do Donbass, por outro lado, adotaram bandeiras antifascistas, com uma dimensão cultural em referência à resistência anti-alemã da Segunda Guerra Mundial.

Em outubro de 2015, um italiano membro do Batalhão Azov veio ao Brasil entregar “ínsignias reconhecimento” a neonazistas brasileiros. Franceso Saverio Fontana (ou só Francesco Fontana) se reuniu com militantes em público em uma churrascaria de São Paulo e também visitou estados sulistas. Fontana, oriundo da Avanguardia Nazionale, se envolveu no Maidan em janeiro de 2015, se juntando ao grupo de extrema direita Pravyy Sektor, para depois se unir ao Batalhão Azov – dentro do Batalhão Azov, se aproximou de um grupo ainda mais radical de origem skinhead, a Misantropic Division (MD).

A MD se pretende um movimento internacional. Em seu site, defendem o “terrorismo branco”. O italiano veio para o Brasil “reconhecer” os membros da MD Brasil, que já se organizavam desde o ano anterior, incluindo grupos como a gangue skinhead “Impacto Hooligan” (famosa por uma agressão contra um mendigo no centro de São Paulo). O grupo brasileiro compartilhava um vídeo compilando treinamento com armas, agressões de rua e um vídeo de uma bomba sendo arremessada na sede do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) na Vila Buarque, centro de São Paulo.

Em suas rede social do VKontakte, Fontana postou a seguinte mensagem:

MD International
Oct 31, 2015 at 1:06 pm
#MD_event #MD_brotherhood
Brasil
São Paulo

A big OBRIGADO ( thank you )to all our Brasilian brothers
I could meet only a few of them
But I was delighted to meet such a nice community
A big sign of respect must go to Guilhermmo Yaroshz the head of MD Brazil
A great man is sometimes blessed by the presence of a great Woman, Chuck, is
Pamela is the woman that every fascist should have, caring of him at every moment he could need. Maximum respect .

To my brothers Hermann Voyin , Mariana,Welker, Dod,Magno, Lukas,Juliana and Julius ( not even in Ukraine they have such beautiful Kolovrat and black sun on their bodies ) and all the others to whom I ask sorry because after few caipiroska I can’t remember their names but only , and forever their faces ,
WE have in you a fantastic chapter full of proud.
I will say in Italian , GRAZIE DI ESISTERE.
SH and Hail Paulistas !”

No final de 2016, a organização veio a tona devido a uma operação da Polícia Civil em sete cidades do Rio Grande do Sul, a “Operação Azov”. Em janeiro de 2017, o delegado responsável, Paulo César Jardim, declarou que estavam “cientes” da visita de um italiano para “recrutar e distribuir dinheiro”.

Na Itália, houve um forte envolvimento do movimento antifascista tradicional com o movimento de solidariedade ao Donbass rebelde (os “pró-russos”). Também pude constatar isso conhecendo combatentes voluntários italianos, quando eu mesmo estive no território dos rebeldes. O envolvimento culminou em um conjunto de ações de voluntarismo humanitário (na forma de ajuda e voluntariado) e em mais de uma “Caravana Antifascista” formada por italianos, notável pela presença do grupo musical Banda Bassotti, que fez uma turnê-manifesto pelas zonas controladas pelos rebeldes. O vínculo dos italianos antifascistas é especialmente estrito com a cidade de Alchevsk, onde os comunistas possuem mais força e o comandante principal, Markov, é um médico comunista. Ademais, comunistas italianos também foram voluntários em pelotões do Batalhão Vostok.

O Comitato per il Donbass Antinazista já havia se manifestado refutando as acusações relacionando os neonazistas aos rebeldes e afirmando que se tratavam sim de associados ao lado ucraniano.

No início de Julho, promoveram com a organização de comunistas italianos, um filme da psicóloga Sara Reginella, “Start Up a War“, que apresenta uma visão mais próxima dos rebeldes do Donbass.