“Canadá adotou política exterior de ‘America First'”, comemorou Departamento de Estado em 2017

por Ben Norton | The Grayzone - Tradução de Igor Galvão para a Revista Opera

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(Foto: Casa Branca)

O Departamento de Estado dos EUA exaltou em um memorando desclassificado de março de 2017 que o Canadá adotou uma política externa que prioriza os interesses estadunidenses, conhecida como “America first”.

O telegrama foi escrito algumas semanas depois que o governo de Centro do primeiro ministro Justin Trudeau nomeou Chrystia Freeland como Ministra das Relações Exteriores. Ex-editora da Reuters, principal agência de notícias internacional, Freeland pressionou por políticas agressivas contra Estados alvos de Washington para mudança de regime, incluindo Venezuela, Rússia, Nicarágua, Síria e Irã.

O Departamento de Estado acrescentou que Trudeau promoveu Freeland “em grande parte por conta de seus fortes contatos nos Estados Unidos,” e que sua “prioridade número um” era trabalhar próxima com Washington.

Com Freeland, a neta de uma um propagandista ucraniano nazista, o Canadá tem feito uma forte campanha contra a Rússia, fortalecendo laços com a Arábia Saudita e Israel, e teve papel fundamental na tentativa de golpe na Venezuela encabeçada pelos Estados Unidos.

O memorando oferece as mais concretas evidências até hoje de que os Estados Unidos veem o Canadá como um sujeito imperialista e considera a política externa canadense subordinada à sua própria.

Canadá ‘Priorizará as Relações com os EUA, o mais rápido que possível’

Em 6 de março de 2017, a embaixada dos EUA na capital canadense, Ottawa, enviou um despacho rotineiro para Washington entitulado “Canadá adota política externa ‘America First’”. Quase todos os documentos hoje desclassificados são editados. Mas este inclui várias partes com informações reveladoras. O telegrama aponta que o governo canadense iria “Priorizar as relações com os EUA, o mais rápido possível”. Também fala de um “expectativa de maior engajamento”.

A única sessão que não está editada aponta que o governo Trudeau “melhorou a aproximação do Canadá nas relações bilaterais”.

“O primeiro ministro Trudeau promoveu a ex-ministra de Comércio Exterior Chrystia Freeland para ministra das Relações Exteriores em grande parte por conta de seus fortes contatos nos EUA, muitos deles estabelecidos antes dela ter entrado na política” diz o telegrama.

“Sua carta de atribuições do Primeiro Ministro listou como prioridade número um manter ‘relações construtivas’ com os Estados Unidos,” continua o documento. “Trudeau adicionou a ela obrigações com a relação diplomática com os EUA, dada sua responsabilidade com o comércio EUA-Canadá, uma movimentação sem precedentes no contexto canadense,” escreveu o Departamento de Estado.

O papel chave de Chrystia Freeland na tentativa de golpe na Venezuela

A ministra Freeland trabalhou bem próxima com o governo americano para avançar com sua política beligerante, especialmente com aqueles que buscavam a independência e governos de esquerda que se recusavam a se submeter aos ditames de Washington.

Sob a liderança de Freeland, o Canadá tomou as rédeas nos planos para desestabilizar a Venezuela em janeiro. A Associated Press noticiou como Ottawa se juntou a Washington e a governos Latino Americanos de direita para planejar cuidadosamente o golpe de Estado.

Duas semanas antes do líder golpista Juan Guaidó se autodeclarar “presidente interino”, Freeland pessoalmente ligou para ele para “parabenizá-lo por unificar as forças da oposição na Venezuela”.

Segundo a Associated Press: “O Canadá, membro do Grupo de Lima, executou um papel chave por trás das câmeras, país cuja ministra das Relações Exteriores, Chrystia Freeland, falou com Guaidó na noite anterior à cerimônia de tomada de posse de Maduro, para lhe oferecer apoio caso ele confrontasse o líder socialista”.

Em 2017, Freeland ajudou a fundar o Grupo de Lima, uma aliança do Canadá e governos latino-americanos de direita, que se uniram para forçar uma mudança de regime na Venezuela. Por conta dos EUA não ser membro, Freeland garantiu que o Grupo de Lima iria agir de acordo com os interesses de Washington e promover o poder imperialista da América do Norte na região.

O ex-embaixador do Canadá na Venezuela, Ben Rowswell, criticou o plano golpista para o jornal The Globe and Mail. “É uma movimentação estranha para qualquer país comentar quem o presidente de outro país deveria ser,” ele disse. “Ter países que representam dois terços da população da América Latina fazendo isso em minutos demonstra que havia um notável alinhamento que não deve ter precedentes na história da América Latina”.

Trudeau e Freeland repetidas vezes defenderam a deposição do presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro. As corporações de mineração canadenses, que já estão explorando bastante Honduras, estão desesperadas para ter acesso às substanciais reservas minerais da Venezuela.

Um falcão canadense

Chrystia Freeland apoia fortemente as sanções contra os inimigos do Ocidente e é defensora do confisco unilateral de bens de líderes estrangeiros considerados por Washington como “ditadores”.  Ela tem forçado a política de “America first” especialmente na América Latina e no Oriente Médio.

Além de impor sanções brutais à Venezuela, de ajudar os EUA a manter um bloqueio econômico terrível ao país, o governo Trudeau também sancionou a Nicarágua, cujo governo socialista democraticamente eleito sobreviveu a uma violenta ofensiva da direita em 2018. Freeland tem reiterado a retórica hostil do governo Trump contra o governo Sandinista da Nicarágua.

O Canadá também seguiu os EUA ao ampliar o ataque econômico contra a Síria, parte de um novo esforço para desestabilizar o governo de Bashar al-Assad. Semanas depois que Freeland fora promovida, Ottawa iniciou uma nova rodada de sanções contra Damasco.

Freeland também se juntou à Washington em sua campanha para sufocar o Irã. A ministra de Relações Exteriores canadense se recusou a restabelecer relações diplomáticas com Teerã. Ao mesmo tempo, Freeland fortaleceu as relações com o governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu, prometendo um forte apoio do Canadá à Israel.

Neta de propagandista nazista

No Canadá, Chrystia Freeland é talvez melhor conhecida por sua atuação anti-Rússia. Ela expressou forte apoio à Ucrânia e disse estar “pronta para impor custos à Rússia”. O governo de Trudeau impôs diversas sanções duras contra a Rússia.

Enquanto tem apoiado ferrenhamente à Ucrânia, Freeland omitiu o fato de que ela é neta de um colaborador nazista ucraniano, quem editou um jornal propagandístico que foi fundado e controlado pela Alemanha nazista. Revoltantemente, o jornal fora fundado depois de o regime nazista ter roubado as prensas e os escritórios de publicação de um editor judeu, que fora morta num campo de concentração.

Freeland sabia da colaboração de seu avô nazista, mas tentou esconder esse fato vergonhoso, falsamente chamando-o de uma “desinformação russa”. O governo canadense chegou ao ponto de expulsar o diplomata russo que ameaçou divulgar a verdade sobre sua linhagem nazista.

Do mundo do jornalismo para a política eleitoral

Antes de entrar formalmente para a política como membro do partido de centro canandense, o Liberal Party, em 2013, Chrystia Freeland passou décadas no jornalismo. Ela trabalhou nas principais mídias corporativas americanas, britânicas e canadenses.

Depois de anos moldando a cobertura midiática Ocidental dentro da Ucrânia e da Rússia, Freeland foi promovida em 2010 para a mais alta posição de todas: editora-geral global da Reuters, a principal agência de notícias internacional que tem vasta influência no mundo.

Freeland iniciou sua carreira escrevendo reportagens anti-Rússia para a mídia corporativa. Ela ganhou prêmios por suas matérias exageradas sobre o oligarca anti-Putin, Mikhail Khodorkovsky.

Em 2000, Freeland publicou um livro chamado “Sale of the Century: The Inside Story of the Second Russian Revolution” (A Venda do Século: A história por dentro da segunda Revolução Russa). A sinopse do livro diz que este documenta “a transição dramática e dolorosa do país comunista da planificação para uma economia de mercado”, elogiando a “revolução capitalista da Rússia”.

Isso foi depois que a Rússia foi saqueada pelos oligarcas financiados por Washington, e depois da morte de 3 a 5 milhões de seus cidadãos mais vulneráveis, devido à demolição – orquestrada pelos EUA – do Estado de bem-estar social do país.

Mais ações pró-EUA no governo de Trudeau

O telegrama desclassificado do Departamento de Estado também aponta várias pessoas nomeadas no governo do primeiro ministro Justin Trudeau como “representantes” dos EUA.

O governo canadense selecionou um tenente-general aposentado, Andrew Leslie, de quem o memorando diz ter “profundos laços com líderes militares dos EUA por conta de sua passagem pelo Afeganistão”, como secretário parlamentar do Global Affairs Canada, dando-lhe “responsabilidades pelas relações com os Estados Unidos”.

 “O primeiro ministro Trudeau também promoveu o ministro dos Transportes Mare Garneau – quem também possui fortes laços com os EUA por sua carreira como astronauta e nove anos em Houston – para cuidar do Comitê de Gabinete Canadá-EUA [1]” adiciona o documento.

O governo Trudeau fez o que o Departamento de Estado alegremente chama de uma decisão “sem precedentes” ao convocar reuniões semanais com o Comitê de Gabinete Canadá-EUA, “mesmo sem uma agenda formal, já que os ministros fazem uma discussão livre de estratégias e compartilham informações, além de tomarem decisões políticas”.

O primeiro ministro Trudeau fez campanha com uma plataforma progressista, mas continuou governando o Canadá com muitas das mesmas políticas de centro, neoliberais, dos governos anteriores. Ele, quase sem exceções, seguiu os EUA nas principais decisões de política externa, enquanto construiu de forma agressiva oleodutos de combustíveis fósseis em casa.

Por Trudeau ser do partido Liberal – partido de centro – e ter que manter uma aparência de resistência contra o presidente de extrema-direita dos EUA, o memorando do Departamento de Estado aponta que o ex-primeiro-ministro do partido Conservador, Brian Mulroney, serve à Trudeau como “Encantador [2] de Donald Trump”.

Totalmente ignorado pela mídia

O telegrama do Departamento de Estado dos EUA foi descoberto e divulgado primeiro pelo Partido Comunista do Canadá no dia 2 de julho. O memorando, que foi escrito por Nathan Doyel, funcionário político da embaixada na época, foi desclassificado e publicado no dia 31 de maio de 2019, em resposta a uma solicitação feita a partir da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act).

Ele pode ser consultado no site do Departamento de Estado, com o assunto “CANADA ADOPTS ‘AMERICA FIRST’ FOREIGN POLICY”.

Nenhum meio de comunicação noticiou este telegrama. Na verdade, sua descoberta foi completamente ignorada pelas agências de notícias norte-americanas.

Ao comentar o documento, o Partido Comunista do Canadá escreveu em sua rede social: “Se um memorando interno viesse a público do Ministério de Relações Exteriores russo ou chinês intitulado CANADÁ ADOTA POLÍTICA EXTERNA ‘RUSSIA FIRST’ ou CANADÁ ADOTA POLÍTICA EXTERNA ‘CHINA FIRST’, será que a mídia canadense ficaria interessada nessa história?”

O partido acrescentou: “À luz da repetida insistência do governo federal de que os canadenses possam esperar interferência estrangeira em eleições e instituições, será que tal memorando merece uma investigação mais aprofundada pela mídia canadense?”

Notas:

[1] – O Comitê de Gabinete é um conjunto de comitês do governo canadense que tem como principal função executar a agenda governamental. Atualmente conformam um total de 10 comitês, sendo um deles o Canada-US Gabinet Committee, responsável pela relação entre os dois países. Os Estados Unidos é o único país com o qual o Canadá possui um Comitê de Gabinete específico.

[2] – Do inglês “Whisperer”, ou seja, aquele capaz de tranquilamente guiar, influenciar ou manejar outras pessoas; como um Encantador de cães problemáticos.

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