No dia 16 de abril de 2015, no número 58 da rua Degtiarivska, no centro de Kiev, Ucrânia, o jornalista Oles Buzina foi morto a tiros por ao menos dois homens mascarados nos arredores de sua residência. Buzina nasceu em 13 de julho de 1969, em Kiev, e se formou em filologia na Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kiev. A partir daí, começou a escrever para uma série de publicações ucranianas. Opositor da chamada Revolução Laranja (2005) e do Euromaidan (2013), Buzina foi considerado na Ucrânia um jornalista “pró-russo”. Denunciou por diversas vezes a censura prevalente na sociedade ucraniana após 2005, e fez campanhas pela adoção de leis proibindo organizações e propaganda neonazistas, bem como a propaganda de símbolos ligados à Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN). Calou-se, enfim, pelo estrondo das pistolas.

Menos de 24 horas antes, no dia 15, outros disparos haviam tirado a vida do ex-deputado Oleg Kalashnikov, também em Kiev. Oleg era um membro do Partido das Regiões, do presidente Viktor Yanukovych, deposto em 2014 durante as manifestações do Euromaidan. Naquela altura, foi o oitavo político considerado “aliado” a Yanukovich a ser morto. 

No centro da guerra, o “Pacificador”

Além de serem opositores do governo criado a partir do golpe contra Yanukovich, em 2014, outra coincidência uniu os assassinatos de Buzina e Kalashnikov: as informações pessoais de ambos, inclusive endereços, haviam sido publicadas no site ucraniano Myrotvorets (“Pacificador”) dias antes dos assassinatos.

O Myrotvorets se apresenta como uma ONG criada pelo político Georgy Tuka, ex-governador biônico (apontado por Petro Poroshenko) da região de Lugansk, e desde 2016 vice-ministro do Ministério dos Territórios Temporariamente Ocupados e Populações Internamente Deslocadas.

O objetivo do site, que em sua capa ostenta um logo da Agência Central da Inteligência norte-americana (CIA), é ser um “centro de pesquisa” que “registra e armazena com segurança informações sobre os objetos de pesquisa que contêm sinais de crimes contra a segurança nacional da Ucrânia, vida humana e saúde , paz, segurança humana e ordem jurídica.“ O site diz ainda que “não se opõe” ao uso dos dados recolhidos por “funcionários do Conselho de Segurança da Ucrânia, o Ministério da Administração Interna da Ucrânia, o Serviço de Fronteiras do Estado da Ucrânia, as Forças Armadas da Ucrânia em atividades operacionais e investigativas.” Além disso, diz que, “a fim de identificar os objetos de nossa pesquisa (traidores da Pátria, militantes, mercenários e terroristas, militares russos – criminosos de guerra) nos territórios de outros países, convidamos os órgãos de segurança pública dos países estrangeiros a cooperar.”

Capa do site “Pacificador”.

O site é operacionalizado pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), e desde 2017 está hospedado em um servidor nos Estados Unidos. Desde então o Ministério das Relações Exteriores da Rússia tem pressionado o governo norte-americano a retirá-lo do ar, sem resultados. Além de jornalistas ucranianos considerados “pró-russos”, o site publicou em maio de 2016 informações de mais de 4 mil jornalistas de diversos veículos, dentre eles AFP, AP, Reuters, BBC, CNN, CCTV, DW, Al Jazeera, New York Times, Vice e RT, acusados de “colaborar com terroristas” ou “adentrar ilegalmente no território ucraniano” para cobrir a guerra no leste do país. O G7, grupo que inclui Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, disse em junho de 2016 que seus embaixadores estavam “profundamente preocupados” com a publicação das informações, que “contradiz o espírito e a letra da lei ucraniana”. O Comitê para a Proteção de Jornalistas, baseado em Nova York, também condenou o site, dizendo que “publicar detalhes privados de jornalistas os põem em risco. No pior dos casos, essa ação poderia ser vista como uma maneira velada de fazer um chamado para que sejam alvos.” O Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos também recomendou às autoridades ucranianas que investigassem imediatamente a atividade do site.

Site fala em “traidores da pátria”, “mercenários e terroristas” e busca que “órgãos de segurança pública dos países estrangeiros” cooperem.

Revista Opera é alvo

Não são só grandes veículos ocidentais de mídia ou jornalistas “pró-russos” ucranianos que constam no “Pacificador”, no entanto. O correspondente da Revista Opera no leste da Ucrânia durante 2015, André Ortega, também consta na base de dados do site organizado pelo serviço de inteligência da Ucrânia como um “mercenário estrangeiro”.

De acordo com o site, André “participou de ações militantes do lado dos grupos armados ilegais da República Popular de Lugansk” e “cruzou ilegalmente a fronteira do Estado da Ucrânia na área descontrolada”. 

O “Pacificador” reúne fotos do jornalista e um vídeo de uma palestra realizada em Curitiba, em 2016. Além disso, diz que “pede que às agências de segurança considerem esta publicação no site como uma declaração dos atos deliberados deste cidadão contra a segurança nacional da Ucrânia, a paz, a segurança da humanidade e a ordem legal internacional, bem como outras ofensas”.

Página dedicada a André Ortega no “Pacificador”.

“Eu fui para lá para cumprir a função de correspondente. E quem se lembra, a Revista Opera fez uma campanha de financiamento coletivo que levantou 5 mil reais para me mandar para lá; eu não recebi praticamente nenhuma moeda. Inclusive pelo tempo que eu fiquei, a acusação de mercenário não faz nenhum sentido. Não pertenci a nenhuma corporação militar, sou filiado a uma revista”, declarou o jornalista. “A acusação de ter cruzado a fronteira ilegalmente é outra que mostra o nível de absurdo no qual os ucranianos podem chegar. O meu objetivo é ir atrás da informação; eu fui atrás da informação. Não cabe a mim controlar as fronteiras do país, e eu não fiz nada que jornalistas não façam no mundo todo, inclusive na Ucrânia; foram centenas, talvez milhares de jornalistas que passaram por aquela fronteira.”

Ortega qualifica a ação do “Pacificador” como uma tentativa de tentar criminalizar o trabalho jornalístico. “Querem tanto fazer um bloqueio de necessidades humanitárias quanto um bloqueio de informação naquela região”, diz. “A própria existência desse site mostra os riscos que eu corria se fosse ao leste pelo ocidente da Ucrânia”, completa. “É uma obscenidade neofascista dentro de uma agência do Estado ucraniano.”

A Revista Opera pediu à Embaixada do Brasil em Kiev para que nos desse uma posição oficial sobre o caso, mas até a publicação desta matéria não obteve resposta.

De qualquer forma, declaramos pública nossa inquietação com as efetivas injúrias cometidas contra André Ortega e a Revista Opera, que buscam criminalizar e sufocar nossa atividade jornalística, efetivamente fazendo um chamado, como declarou o Comitê para a Proteção de Jornalistas, para que sejamos feitos alvo.