Enquanto Brexit e Trump vêm ocupando as manchetes, a economia italiana está caindo em uma recessão técnica (de novo). Tanto a OCDE quanto o Banco Central Europeu (BCE) reduziram as previsões de crescimento da Itália para números negativos, e, naquilo que os analistas consideram ser uma medida cautelar, o BCE está reiniciando seu programa de compra de títulos soberanos do país, algo que havia deixado de fazer apenas cinco meses antes.

“Não subestime o impacto da recessão italiana”, disse o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, à Bloomberg News (Horobin, 2019). “Falamos muito sobre o Brexit, mas não falamos muito sobre uma recessão italiana, que terá um impacto significativo sobre o crescimento da Europa e pode afetar a França, pois é um dos nossos parceiros comerciais mais importantes.” Mais importante, todavia, que o comércio – e o que Le Maire está omitindo – é que os bancos franceses detêm cerca de € 385 bilhões de dívida italiana, derivativos, créditos compromissados e garantias em seus balancetes, enquanto os bancos alemães detêm € 126 bilhões da dívida italiana (a partir do terceiro trimestre de 2018, segundo o Bank for International Settlements).

À luz dessas exposições sobre a dívida italiana, não é de admirar que Le Maire, juntamente com a Comissão Europeia, esteja preocupado com a terceira recessão da Itália em uma década – bem como com a crescente retórica anti-euro e a postura do governo de coalizão da Itália, composto pelo Movimento das Cinco Estrelas (M5E) e pela Liga. O conhecimento de que a Itália é grande demais para fracassar está alimentando a audácia do governo de coalizão italiano em sua tentativa de recuperar o espaço da política fiscal, desrespeitando abertamente as regras orçamentárias da União Econômica e Monetária (UEM) da União Europeia.

O resultado é um dilema difícil de escapar. Quanto mais a Comissão Europeia tentar enquadrar o governo italiano, mais alimentará as forças anti-establishment e anti-euro na Itália. Por outro lado, quanto mais a Comissão Europeia ceder às exigências do governo italiano, mais irá desperdiçar a sua credibilidade como guardiã do Pacto de Estabilidade e Crescimento da UEM. Esse impasse não desaparecerá enquanto a economia italiana permanecer paralisada.

Uma crise da ordem pós-Tratado de Maastricht do capitalismo italiano

É portanto vital entender as verdadeiras origens da crise econômica da Itália, a fim de encontrar caminhos para fora da estagnação permanente da Itália. Em um novo artigo, eu apresento, com base em evidências, a patologia da recessão da Itália – que, eu argumento, deve ser considerada como uma crise da ordem pós-Tratado de Maastricht do capitalismo italiano, como o economista Thomas Fazi (2018) a chama.

Até o início da década de 1990, a Itália desfrutou de décadas de crescimento econômico relativamente robusto, durante o qual conseguiu alcançar outras nações da Zona do Euro em termos de renda (per capita) (Figura 1). Em 1960, o PIB per capita da Itália (a preços constantes de 2010) era 85% do PIB per capita francês e 74% do PIB per capita (média ponderada) da Bélgica, França, Alemanha e Holanda (o Euro-4, isto é, as quatro grandes economias do euro). Em meados da década de 1990, a Itália quase alcançara a França (o PIB italiano per capita equivalia a 97% da renda per capita francesa) e também o Euro-4 (o PIB per capita italiano era 94% do PIB per capita do Euro-4).

Três décadas de recuperação, 25 anos de atraso: o PIB real por pessoa na Itália em relação à França/Euro-4, entre 1960 e 2018

Contudo, um declínio em curso constante começou (ver Figura 1), apagando décadas de convergência de renda. A diferença de renda entre a Itália e a França é agora (em 2018) 18%, superior ao que era em 1960; o PIB per capita italiano é 76% do PIB per capita das economias do Euro-4. Em meados da década de 1990, a economia da Itália começou a tropeçar e ficar ultrapassada, à medida que todos os principais indicadores – renda por pessoa, produtividade do trabalho, investimento, participação no mercado de exportação etc. – passaram a ter um declínio constante.

Não é por coincidência que a súbita reversão das fortunas econômicas italianas tenha ocorrido após a adoção pelo país da “superestrutura legal” imposta pelo Tratado de Maastricht de 1992, que abriu caminho para o estabelecimento da UEM em 1999 e a introdução da moeda comum em 2002. A Itália, como mostro no artigo, tem sido a aluna pupila da classe na Zona do Euro – a única economia que se comprometeu mais forte e consistentemente com a austeridade fiscal e as reformas estruturais que formam a essência do conjunto de regras macroeconômicas da UEM.

A Itália se manteve mais próxima das regras do que a França e a Alemanha e pagou pesadamente por isso: a consolidação fiscal permanente, a contenção salarial persistente e a taxa de câmbio sobrevalorizada mataram a demanda agregada italiana – e a escassez de demanda asfixiou o crescimento da produção, produtividade, emprego e renda. A estagnação da Itália é uma lição objetiva para todas as economias da Zona do Euro, mas – parafraseando G.B. Shaw – como um aviso, não como um exemplo.

Austeridade fiscal perpétua

A Itália fez mais do que a maioria dos outros membros da Zona do Euro em termos de austeridade e reforma estruturais auto-impostas, a fim de satisfazer as condições da UEM. Isso fica claro quando se compara a política fiscal da Itália pós-1992 à da França e da Alemanha. Vários governos italianos administraram superávits orçamentários primários contínuos (definidos como gastos públicos, excluindo pagamentos de juros da dívida pública, menos a receita pública), com média de 3% do PIB por ano durante 1995-2008. Os governos franceses, em contraste, apresentaram déficits primários de 0,1% do PIB em média a cada ano durante o mesmo período, enquanto os governos alemães conseguiram gerar um superávit primário de 0,7% em média por ano durante esses mesmos 14 anos.

Os superávits primários permanentes da Itália durante 1995-2008 teriam reduzido sua relação dívida pública/PIB em cerca de 40% – de 117% em 1994 para 77% em 2008 (mantendo constantes todos os outros fatores). Porém, o lento crescimento (nominal) em relação às altas taxas de juros (nominais) elevou o índice de endividamento em 23% e eliminou mais da metade das reduções de 40% da relação dívida pública/PIB, alcançadas pela austeridade. Poderia ser verdade que a austeridade permanente da Itália, destinada a reduzir a proporção da dívida gerando superávits primários permanentes, saiu pela culatra porque ela desacelerou o crescimento econômico?

Os governos italianos (incluindo a coalizão de Matteo Renzi, de centro-esquerda) continuaram a gerar expressivos superávits orçamentários primários (de mais de 1,3% do PIB em média por ano) durante o período de crise de 2008-2018. Mostrar disciplina fiscal permanente era uma prioridade, como o primeiro-ministro Mario Monti admitiu em uma entrevista de 2012 à CNN, mesmo que isso significasse “destruir a demanda doméstica” e empurrar a economia para o declínio.

O compromisso quase “suábio” da Itália com a disciplina fiscal contrasta com as práticas francesas (“laissez-aller”): o governo francês registrou déficits primários em uma média de 2% do PIB durante 2008-2018 e permitiu que sua relação dívida pública/PIB aumentasse para quase 100% em 2018. O acumulado estímulo fiscal fornecido pelo Estado francês chegou a € 461 bilhões (a preços constantes de 2010), enquanto a redução fiscal acumulada na demanda doméstica da Itália foi de € 227 bilhões. Os cortes orçamentários italianos demonstram reduções nada triviais em suas despesas públicas com gastos sociais per capita, o que é agora (em 2018) cerca de 70% do gasto social público per capita alemão e francês. Não se ousa especular como seriam os protestos dos “coletes amarelos” na França caso o Estado francês estivesse implementando uma política fiscal como a da Itália pós-2008.

Restrição permanente dos salários reais

Quando a Itália assinou o Tratado de Maastricht, suas altas taxas de inflação e desemprego eram consideradas um grande problema. A inflação foi atribuída ao “excessivo” poder dos sindicatos italianos e a um sistema de negociação salarial “excessivamente” centralizado, que resultou em uma forte inflação empurrada por salários e compressão de lucros – à medida que o crescimento salarial tendeu a exceder o crescimento da produtividade do trabalho, o que reduziu a quota de lucros.

Visto dessa maneira, a culpa pelo alto desemprego na Itália poderia ser transferida para seus “rígidos” mercados de trabalho e a fortemente protegida da “aristocracia operária”. Reduzir a inflação e restaurar a lucratividade exigiriam moderação salarial, o que só poderia ser conseguido por meio de uma desregulação radical dos mercados de trabalho, ou seja, aquilo que é chamado eufemisticamente de “reformas estruturais”.

Na Itália, não existe um salário mínimo legal (diferentemente da França), e o país também não conta com um sistema generoso de subsídio de desemprego (em termos de taxas e duração do seguro-desemprego e condições de aquisição de direitos) em comparação com a média da UE. A proteção do emprego para os trabalhadores regulares na Itália está aproximadamente no mesmo nível de proteção ao emprego na França e na Alemanha.

As reformas estruturais do mercado de trabalho italiano envolveram a redução drástica da proteção do emprego para trabalhadores temporários e, como resultado, a parcela de trabalhadores temporários no emprego total italiano aumentou de 10% em 1991-1993 para 18,5% em 2017. Entre 1992 e 2008, o emprego total (líquido) em Itália aumentou em 2,4 milhões de novos postos de trabalho, dos quais quase 3/4 (73%) eram empregos de prazo determinado. Na França, em comparação, o emprego (líquido) cresceu 3,6 milhões de empregos durante 1992-2008, dos quais 84% eram empregos regulares (permanentes) e apenas 16% eram temporários.

Além disso, o poder de barganha dos sindicatos foi reduzido pelo abandono da meta de pleno emprego em favor da redução da dívida pública e por uma política do banco central muito mais restritiva (anti-inflacionária) e pela taxa de câmbio fixa. Como resultado, o crescimento dos salários reais por trabalhador – que, em média, foi de 3,2% por ano durante 1960-1992 – foi reduzido para meros 0,1% ao ano durante o período 1992-1999 e para 0,6% ao ano durante 1999-2008.

Dentro da UE, a reviravolta da Itália foi notável: de 1992 a 2008, o crescimento dos salários reais por trabalhador (0,35% ao ano) foi somente metade do crescimento dos salários reais nos países do Euro-4 (0,7% ao ano) e foi menor até mesmo em comparação com o crescimento dos salários reais na França (0,9% ao ano). Curiosamente, de 1992 a 2008, o crescimento do salário real por empregado na Itália foi ligeiramente menor do que o (já mesquinho) crescimento dos salários reais alemães (0,4% ao ano).

Para ver a projeção de longo prazo, a Figura 2 mostra a relação entre o salário real de um trabalhador italiano e o salário real do trabalhador médio francês, alemão e do Euro-4, de 1960 a 2018. No início dos anos 1960, o salário médio dos trabalhadores italianos era de cerca de 85% do salário francês, e esse índice aumentou para 92% em 1990-1991. A partir de 1992, o salário real italiano iniciou um declínio constante em termos do salário médio francês – e em 2018, o empregado médio italiano ganhava apenas 75% do salário ganho por seu colega francês. A diferença salarial entre a Itália e a França é maior hoje do que na década de 1960. O mesmo padrão ocorre quando se comparam os salários italianos aos salários alemães e/ou do Euro-4.

Três décadas de recuperação, 25 anos de atraso: salário real por empregado na Itália em relação à França / Alemanha / Euro-4, 1960-2018

A moderação salarial da Itália provou ser uma estratégia eficaz para matar três (não apenas dois) pássaros com uma pedra só. Primeiro, a contenção salarial ajudou a reduzir a inflação – para 3,4% em média ao ano de 1992 a 1999 (de uma média de 9,6% por ano de 1960-1992) e mais para 2,5% ao ano de 1999 a 2008 e 1,1% de 2008 até 2018. A Itália não está mais propensa, em um sentido estrutural, a uma inflação alta e acelerada.

Em segundo lugar, a contenção salarial aumentou a intensidade da mão de obra do crescimento do PIB da Itália – e, portanto, reduziu o desemprego. A taxa de desemprego na Itália atingiu o pico em meados dos anos 1990, mas a desregulamentação do mercado de trabalho e a contenção salarial derrubaram com sucesso o desemprego para 6,1% em 2007 e 6,7% em 2008 – que foi inferior às taxas de desemprego da França (8% em 2007 e 7,4% em 2008) e na Alemanha (onde o desemprego foi de 8,5% em 2007 e 7,4% em 2008).

Finalmente, como pretendido, a moderação salarial levou a um aumento substancial na participação nos lucros do PIB da Itália: a participação nos lucros aumentou mais de 5,5% – de 36% em 1991 para cerca de 41,5% de 2000 a 2002 –, estabilizando em 40% até 2008. Durante a década de 1990, a recuperação da participação nos lucros foi consideravelmente mais forte na Itália do que na França e comparável ao que aconteceu na Alemanha – não obstante o fato de que a da Itália já era relativamente alta.

As reformas estruturais italianas na década de 1990 foram compensadoras, em termos de maior participação nos lucros. Em outras palavras, a participação dos lucros italiana permaneceu substancialmente mais alta que a da França e da Alemanha. Com a inflação mais baixa, a contenção salarial efetiva, o desemprego em declínio, o endividamento público em declínio e a participação nos lucros consideravelmente crescente, a Itália parecia estar preparada para um longo período de forte crescimento. Isso não aconteceu. A operação foi realizada com sucesso, mas o paciente morreu. De acordo com a perícia post-mortem do legista, a causa da morte foi uma falta estrutural de demanda agregada.

A sufocação da demanda agregada italiana após 1992

Mantendo-se perto do livro de regras da UEM, a política econômica italiana criou uma escassez crônica de demanda (doméstica). O crescimento da demanda doméstica por italiano teve uma média de 0,25% ao ano entre 1992 e 2018 – um declínio acentuado comparado ao aumento da demanda doméstica (de 3,3% ao ano) registrado entre 1960 e 1992 e também muito abaixo do crescimento (de 1,1% por pessoa ao ano) nos países do Euro-4.

O crescimento real das exportações da Itália (por pessoa) também declinou de 6,6% em média ao ano de 1960 a 1992 para 3% ao ano de 1992 a 2018. O crescimento médio anual das exportações (por pessoa) foi de 4,4% nos países da Euro-4 entre 1992 e 2018. A escassez de demanda crônica da Itália reduziu a capacidade instalada (especialmente na indústria), e isso, por sua vez, diminuiu a taxa de lucro. De acordo com minhas estimativas, a utilização da capacidade na indústria italiana declinou em impressionantes 30% em relação à utilização da capacidade da indústria francesa entre 1992 e 2015.

A taxa de utilização da indústria italiana em relação à indústria alemã caiu de 110% em 1995 para 76% em 2008 e caiu para 63% em 2015 – um declínio de impressionantes 47%. A menor utilização de capacidade reduziu a taxa de lucro na indústria italiana em 3% a 4% em relação às taxas de lucro francesas e alemãs. Isso deve ter deprimido consideravelmente o investimento e o crescimento da indústria da Itália. Deixe-me enfatizar o fato de que a taxa de lucro na Itália diminuiu mesmo quando a participação nos lucros aumentou. Isso significa que a estratégia italiana de austeridade fiscal e de restrição salarial provou ser contraproducente, pois não conseguiu melhorar a taxa de lucro: a queda na demanda e na utilização da capacidade tiveram um maior impacto (negativo) sobre a lucratividade das empresas do que o aumento da participação nos lucros.

Como defendo no artigo, essa condição de escassez crônica de demanda foi criada, em particular, pela (a) austeridade fiscal perpétua, (b) compressão permanente dos salários reais, e (c) falta de competitividade tecnológica que, em combinação com taxa de câmbio desfavorável (euro), reduz a capacidade das firmas italianas de manterem suas quotas de mercado de exportação em face da competição crescente de países com salários menores (em particular, a China). Esses três fatores estão deprimindo a demanda; diminuindo a utilização da capacidade instalada e reduzindo a lucratividade da empresa; e prejudicando o investimento, a inovação e o crescimento da produtividade. Eles estão, portanto, travando o país em um estado de declínio permanente, caracterizado pelo empobrecimento da matriz produtiva da economia italiana e da composição da qualidade de seus fluxos comerciais.

O setor fabril da Itália não é “intensivo em tecnologia” e sofre com a estagnação da produtividade. Como as Figuras 3 e 4 ilustram, a competitividade de custos dos produtores italianos em relação aos países do Euro-4 depende de baixos salários e não de um desempenho superior de produtividade. Enquanto os trabalhadores industriais na França e na Alemanha ganhavam € 35 por hora (a preços constantes de 2010) em 2015, e seus colegas na Bélgica e na Holanda ganhavam ainda mais, os trabalhadores italianos na indústria estavam levando para casa apenas € 23 por hora (a preços constantes de 2010) – ou um terço a menos (ver Figura 3). Contudo, ao mesmo tempo, a produtividade industrial por hora de trabalho é consideravelmente maior na França e na Alemanha (a € 53 por hora a preços constantes de 2010) do que na Itália, onde está em torno de € 33 por hora (Figura 4). Os produtores italianos estão, assim, seguindo o pior caminho, enquanto as empresas dos países do Euro-4 seguem viajando na estrada. Ou, em outras palavras, em comparação com os produtores alemães e franceses, as empresas italianas sofrem com a falta de potencial tecnológico, que, na Alemanha, tem suas bases na alta produtividade, esforços de inovação e alta qualidade do produto.

É verdade que as firmas italianas se destacam por sua alta qualidade relativa em produtos de exportação mais tradicionais e de baixa tecnologia, como calçados, têxteis e outros produtos minerais não metálicos. Acontece que os italianos vêm perdendo terreno nos mercados de exportação de produtos mais dinâmicos, caracterizados por níveis mais altos de P&D e intensidade de tecnologia, como produtos químicos, farmacêuticos e equipamentos de comunicação.

Trancada em uma posição de fraqueza estrutural

Por duas razões, essa especialização em atividades de baixa e média tecnologia limita o país a uma posição quase permanente de fraqueza estrutural. Primeiramente, a elasticidade cambial da demanda de exportação é maior para as exportações tradicionais do que para as exportações de média e alta tecnologia. Como resultado, a valorização do euro prejudicou mais os exportadores italianos de produtos tradicionais do que as empresas alemãs e francesas que exportam bens e serviços mais “dinâmicos”. Assim, o euro sobrevalorizado penaliza mais o crescimento das exportações italianas do que prejudica as exportações nas economias do Euro-4.

O segundo fator é que as firmas italianas estão operando em mercados globais, que estão mais expostos à crescente concorrência dos países de baixos salários e da China em particular. Em 1999, 67% das exportações da Itália consistiam em produtos (tradicionais) expostos à média e alta concorrência das empresas chinesas – em comparação com uma exposição semelhante à concorrência chinesa de 45% das exportações na França e 50% das exportações na Alemanha.

A participação das exportações da Itália nas importações mundiais caiu de 4,5% em 1999 para 2,9% em 2016 – e a perda de participação de mercado se concentrou fortemente nos segmentos de mercado mais tradicionais caracterizados pela alta exposição à concorrência chinesa. À medida que as empresas chinesas e outras empresas de economias em desenvolvimento continuarem a expandir suas capacidades de produção e aumentar o nível de competitividade, pressões competitivas crescerão também nos segmentos de média e alta tecnologia. As firmas italianas têm dificuldades em enfrentar a concorrência dos países com menores salários: geralmente são países pequenos demais para exercerem qualquer poder de fixação de preços, muitas vezes produtores de um único produto, incapazes de diversificar os riscos de mercado e muito dependentes dos mercados estrangeiros, pois seu mercado doméstico se encontra em crise.

Salário real por hora de trabalho fabril: Itália versus os países do Euro-4, 1970-2015 (preços constantes de 2010 em euro)

Produtividade de mão de obra fabril por hora de trabalho: Itália contra os países da Euro-4, 1970-2015 (preços constantes de 2010 em euro)

A crise permanente da Itália é um alerta para a Zona do Euro

Há maneiras racionais de tirar a economia italiana da atual paralisia – nenhuma delas é fácil, e todas elas estão baseadas em uma estratégia de longo prazo de “andar sobre duas pernas”: (a) revitalizar a demanda doméstica (e exportadora), e (b) diversificar e melhorar a estrutura produtiva e as capacidades inovadoras e fortalecer a competitividade tecnológica das exportações italianas (para fugir da competição direta pelos custos salariais com a China). Isso significa que a austeridade e a supressão do crescimento dos salários reais devem parar. Em vez disso, o governo italiano deveria se preparar para direcionar inequivocamente a economia por meio de maior investimento público (em infraestrutura pública, “economia verde” e descarbonização de sistemas de energia e transporte) e novas políticas industriais para promover a inovação e a competitividade tecnológica mais forte.

Não há escassez de propostas construtivas de economistas italianos para ajudar sua economia a sair da atual confusão – incluindo Guarascio e Simonazzi (2016), Lucchese et al. (2016), Pianta et al. (2016), Mazzucato (2013), Dosi (2016) e Celi (2018). Todas essas propostas se concentram na criação de um processo de crescimento autorreforçado, impulsionado por investimentos e inovação, orquestrado por um “Estado empreendedor” e fundado em relações firma-empregado reguladas e coordenadas, em vez de mercados de trabalho desregulados e relações empregatícias hiperflexíveis. Essas propostas devem funcionar bem.

O mesmo não pode ser dito, todavia, do estímulo fiscal “de uma etapa” proposto pelo governo de coalizão M5E-Liga, cujo objetivo é um renascimento da demanda doméstica por meio de gastos públicos (consumo) mais altos. Nenhum dos gastos propostos ajudará a resolver os problemas estruturais da Itália. O que falta completamente é qualquer impulso direcional de longo prazo, ou a segunda etapa de uma estratégia viável – que a neoliberal Liga não estaria disposta a fornecer, e o M5E (progressista só no nome) parece incapaz de conceber. Plus ça change, plus c’est la même chose.

Mais importante ainda, qualquer estratégia racional de desenvolvimento de “duas etapas” será incompatível com a adesão ao conjunto de regras macroeconômicas da UEM e a calma dos mercados financeiros, que supostamente agem como fator disciplinador das soberanias da Zona do Euro. Isso fica claro a partir do que aconteceu quando o governo M5E-Lega apresentou um Plano Orçamentário (PAD) expansionista para 2019. O impacto total do estímulo fiscal de uma etapa inicialmente proposto no PAD 2019 foi estimado em 1,2% em 2019, 1,4% em 2020 e 1,3% em 2021 – e até mesmo essa pequena expansão orçamentária gerou duras respostas negativas da Comissão Europeia e aumentos nos rendimentos dos títulos italianos.

Blanchard et al. (2018, p. 2) formalizam esse status quo em um modelo mecânico de dinâmica de dívidas e concluem que o Plano Orçamentário 2019 pode desencadear “spreads não gerenciáveis ​​e graves crises, incluindo a saída involuntária da Zona do Euro”. Blanchard et al. (2018, p. 16) defendem um “orçamento fiscalmente neutro”, que eles acham que levaria a taxas de juros mais baixas e “provavelmente” (em suas palavras) a um maior crescimento e emprego. Equações, gráficos e discursos econômicos tecnocráticos são usados ​​com competência para transformar aquilo que, de fato, constitui uma transgressão muito modesta do manual de regras da UEM em um evento catastrófico de baixa probabilidade – que todos gostariam de evitar. O que é trágico é que o Plano Orçamentário 2019 não chega perto do que seria necessário para uma estratégia racional. Todo o som e fúria são para nada.

Pior ainda é o fato de que manter o status quo da Itália, que é o que significa um “orçamento fiscalmente neutro”, carrega um risco real, mas não reconhecido de baixa probabilidade e alto impacto: um colapso da estabilidade política e social no país. A estagnação continuada alimentará o ressentimento e as forças anti-establishment e anti-euro na Itália. Isso vai desestabilizar não apenas a Itália, mas toda a Zona do Euro.

A crise da Itália constitui, portanto, uma advertência à Zona do Euro como um todo: a austeridade contínua e a restrição salarial real, combinadas com a desdemocratização da formulação de políticas macroeconômicas, criam um “jogo perigoso” – um jogo que arrisca ainda reforçar as forças anti-establishment também em outros lugares da Zona do Euro.

Isso é como abrir a caixa de Pandora. Ninguém é capaz de dizer onde isso vai terminar. Os economistas (incluindo os italianos) carregam uma enorme responsabilidade em tudo isso, tanto porque são muito culpados pelo caos quanto porque não conseguem se unir por trás de soluções estratégicas racionais para resolver a crise italiana. “Talvez”, escreveu John Maynard Keynes, “seja historicamente verdade que nenhuma ordem social perece, a não ser por suas próprias mãos” (Keynes, 1919). Economistas racionais têm que provar que o veredicto de Keynes está errado, começando na Itália – pelo menos porque a bagunça do Brexit parece estar além da redenção.

* Servaas Storm é um economista e autor holandês que pesquisa macroeconomia, progresso tecnológico, distribuição de renda e crescimento econômico, finanças, desenvolvimento e mudança estrutural e mudança climática.