Poder global dos EUA: O período Trump e o fim do mundo unipolar

por James Petras | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera

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(Foto: India Garrish / White House)

O poder global dos Estados Unidos na Era Trump reflete as continuidades e mudanças que estão se desdobrando de forma rápida e profunda em todo o mundo e que estão afetando a posição de Washington. Avaliar a dinâmica do poder global americano é um problema complexo que requer um exame de múltiplas dimensões.

Nós procederemos por:

  • Conceituar os princípios que determinam a construção do Império, especificamente as bases de poder e as mudanças dinâmicas nas relações e estruturas que moldam a posição presente e futura dos EUA.
  • Identificar as esferas de influência e poder e seu crescimento e declínio.
  • Examinar as regiões de conflito e contestação.
  • As rivalidades principais e secundárias.
  • As relações estáveis e mutáveis entre os centros de poder existentes e em ascensão.
  • A dinâmica interna que molda a força relativa dos centros concorrentes do poder global.
  • A instabilidade dos regimes e Estados que buscam reter e expandir o poder global.

Conceituação do poder global

O poder global dos EUA é construído sobre vários fatos significativos. Estes incluem: a vitória dos EUA na Segunda Guerra Mundial, sua subsequente economia avançada e sua posição militar dominante nos cinco continentes.

Os EUA avançaram seu domínio por meio de uma série de alianças na Europa via OTAN; na Ásia por meio de sua relação hegemônica com o Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, bem como Austrália e Nova Zelândia na Oceania; na América Latina via regimes-clientes tradicionais; na África via governantes neocoloniais impostos após a independência.

O poder global dos EUA foi construído em torno do cerco da URSS e da China, minando suas economias e derrotando seus aliados militarmente por meio de guerras regionais.

Sua superioridade econômica e militar pós-Segunda Guerra Mundial criou aliados subordinados e estabeleceu seu poder global, mas lançou as bases para mudanças graduais nas relações de dominação. O poder americano era formidável, mas sujeito a mudanças econômicas e militares no decorrer do tempo e no espaço.

Esferas de poder dos EUA: antes e agora

O poder global americano explorou oportunidades, mas também sofreu retrocessos militares desde o início, particularmente na Coreia, na Indochina e em Cuba. Suas esferas de poder estavam claramente estabelecidas na Europa Ocidental e na América Latina, mas foram contestadas na Europa Oriental e na Ásia.

O avanço mais significativo do poder global dos EUA ocorreu com o desaparecimento e a desintegração da URSS e seus Estados-clientes na Europa Oriental, bem como a transformação econômica da China e da Indochina durante os anos 1980.

Os ideólogos americanos proclamaram então a chegada de um Império unipolar livre de restrições e obstáculos ao seu poder global e regional. Os EUA se voltaram para a conquista de adversários periféricos. Washington destruiu a Iugoslávia e depois o Iraque – fragmentando-os em mini-Estados. Wall Street promoveu uma turba de corporações multinacionais para invadir a China e a Indochina, que obtinham bilhões de lucros explorando a mão de obra barata.

Os crédulos no duradouro poder global americano imaginaram um século de domínio imperial dos EUA. Na realidade, essa foi uma visão de curto prazo de um breve intervalo de tempo.

Fim da unipolaridade, novas rivalidades e centros globais e regionais de poder: uma visão geral

O poder global dos EUA levou Washington a uma “sobrecarga” em várias áreas cruciais. Lançaram uma série de guerras prolongadas e caras, especificamente no Iraque e no Afeganistão, que tiveram três consequências negativas: a destruição das Forças Armadas e da economia do Iraque levou à ascensão do Estado Islâmico, que ocupou a maior parte do país; a ocupação no Afeganistão que levou à ascensão do Talibã e uma guerra de 20 anos em andamento que custou centenas de bilhões de dólares e vários milhares de soldados americanos feridos e mortos; como resultado, a maioria do público americano se tornou contrário a guerras e construção de impérios.

A pilhagem e o domínio dos EUA na Rússia terminaram quando o presidente Putin substituiu o vassalo Iéltsin. A Rússia reconstruiu sua indústria, ciência, tecnologia e poder militar. A população da Rússia recuperou seus padrões de vida.

Com a independência da Rússia e seu armamento militar avançado, os EUA perderam seu poder militar unipolar. Entretanto, Washington financiou um golpe que praticamente anexou 2/3 da Ucrânia. Os EUA incorporaram os “Estados” iugoslavos fragmentados na OTAN. A Rússia reagiu anexando a Crimeia e garantiu um mini-Estado adjacente à Geórgia.

A China converteu a invasão econômica de corporações multinacionais americanas em experiências de aprendizado para construir sua economia nacional e plataformas de exportação, que contribuíram para que ela se tornasse uma rival e concorrente econômica para os EUA.

A construção do Império global dos EUA sofreu retrocessos importantes na América Latina, resultantes do chamado Consenso de Washington. A imposição de políticas neoliberais privatizou e saqueou suas economias, empobreceram a classe trabalhadora e a classe média e provocaram uma série de levantes populares e a ascensão de movimentos sociais radicais e governos de centro-esquerda.

O Império americano perdeu esferas de influência em algumas regiões (China, Rússia, América Latina e Oriente Médio), embora tenha mantido influência entre as elites em regiões disputadas e até mesmo lançado novas guerras imperiais em terreno contestado. Mais notavelmente, os EUA atacaram os governos independentes na Líbia, Síria, Venezuela, Somália e Sudão por meio de guerras por procuração.

A mudança de um mundo unipolar para um multipolar e o surgimento gradual de rivais regionais levaram os estrategistas globais americanos a repensarem sua estratégia. As políticas agressivas do governo Trump definem o cenário para a divisão política dentro do regime e entre seus aliados.

Convergência e diferenças Obama-Trump na construção do Império

Na segunda década do século XXI, surgiram vários novos alinhamentos de poder global: a China se tornou a principal concorrente econômica do poder mundial, e a Rússia foi a principal desafiante da supremacia militar dos EUA a nível regional. Os EUA substituíram o antigo império colonial europeu na África, e a esfera de influência de Washington se estende especialmente na África do Norte e subsaariana: Quênia, Líbia, Somália e Etiópia. Trump ganhou influência no Oriente Médio – no Egito, Arábia Saudita, Emirados e Jordânia.

Israel reteve seu papel peculiar, convertendo os EUA como sua esfera de influência, mas os EUA enfrentaram rivais regionais no Líbano, Síria, Irã, Iraque e Argélia. No Sul da Ásia, os EUA enfrentaram a competição por esferas de influência da China, Índia, Afeganistão e Paquistão. Na América Latina, mudanças bruscas e abruptas eram a norma. A influência americana diminuiu entre 2000 e 2015 e se recuperou de 2015 para o presente.

Alinhamentos do poder imperial sob o presidente Trump

O presidente Trump enfrentou desafios políticos e econômicos complexos globais, regionais e locais. Trump seguiu e aprofundou muitas das políticas lançadas por Obama-Hillary Clinton em relação a outros países e regiões. Contudo, Trump também radicalizou e/ou reverteu políticas de seus antecessores, que combinavam bajulação e agressão ao mesmo tempo.

Em nenhum momento Trump reconheceu os limites do poder global dos EUA. Como os três presidentes anteriores, ele persistiu na crença de que o período transitório de um Império global unipolar poderia ser reimposto.

Para a Rússia, uma concorrente global, Trump adotou uma política de “reversão”. Trump impôs sanções econômicas, com a “esperança” estratégica de que, ao empobrecer a Rússia, degradaria seus setores financeiro e industrial, o que poderia forçar uma mudança de regime que converteria Moscou em um Estado vassalo.

No início de sua campanha presidencial, Trump flertou com a ideia de uma acomodação de negócios com Putin. Porém, as nomeações ultrabeligerantes e a oposição interna a Trump logo a transformaram em uma estratégia altamente militarizada, rejeitando acordos – incluindo os nucleares – em favor da escalada militar.

Quanto à China, Trump enfrentou uma concorrente tecnológica dinâmica e avançada. Trump recorreu a uma “guerra comercial” que foi muito além do “comércio” para abranger uma guerra contra a estrutura econômica e as relações sociais de Pequim – sanções impostas pelo governo de Trump e ameaça de um boicote total às exportações chinesas.

Trump e sua equipe econômica exigiram que a China privatizasse e desnacionalizasse toda a indústria apoiada pelo Estado. Eles exigiram o poder de decidir unilateralmente quando violações das regras comerciais americanas ocorrem e de reintroduzir sanções sem consultas. Trump exigiu que todos os acordos tecnológicos chineses, setores econômicos e inovações estivessem sujeitos e abertos aos interesses comerciais americanos. Em outras palavras, Trump exigiu o fim da soberania chinesa e a reversão da base estrutural de seu poder global. Os EUA não estavam interessados em mero “comércio” – almejavam um retorno ao domínio imperial sobre uma China colonizada.

O regime de Trump rejeitou as negociações e o reconhecimento de uma relação de poder compartilhada: via seus rivais globais como clientes potenciais. Inevitavelmente, a estratégia do regime Trump nunca chegaria a acordo algum duradouro sobre quaisquer questões substanciais em negociação. A China tem uma estratégia bem-sucedida para o poder global baseada em uma política de desenvolvimento mundial – a Iniciativa Um Cinturão, Uma Estrada – de US$ 6 trilhões, que interliga 60 países e várias regiões. A Iniciativa Um Cinturão, Uma Estrada está construindo sistemas de portos, trens e transporte aéreo que ligam indústrias financiadas por bancos de desenvolvimento.

Em contraste, os bancos americanos exploram a indústria, especulam e operam dentro de circuitos financeiros fechados. Os EUA gastam trilhões em guerras, golpes, sanções e outras atividades parasitárias que nada têm a ver com competitividade econômica. Os “aliados” do regime de Trump no Oriente Médio, a Arábia Saudita e Israel, são parasitas que compram proteção e provocam guerras caras.

A Europa se queixa do crescimento chinês nas exportações industriais e ignora as importações de bens de consumo. No entanto, a União Europeia planeja resistir às sanções de Trump, que a levam a um beco sem saída de estagnação!

Conclusão

O período mais recente do pico do poder global dos EUA, a década entre 1989-1999, continha as sementes de seu declínio e o atual recurso para guerras comerciais, sanções e ameaças nucleares.

A estrutura do poder global dos EUA mudou nas últimas sete décadas. O Império mundial dos EUA começou com o comando americano sobre a reconstrução das economias da Europa Ocidental e a destituição da Inglaterra, França, Portugal e Bélgica na Ásia e da África.

O Império norte-americano se espalhou e penetrou na América do Sul por meio de corporações multinacionais dos EUA. Todavia, a construção do Império não foi um processo linear, como pode ser visto em seu confronto fracassado com os movimentos de libertação nacional na Coreia, Indochina, Sudeste da África (Angola, Congo etc.) e Caribe (Cuba). No início dos anos 1960, os EUA haviam substituído seus rivais europeus e os incorporado com sucesso como aliados subordinados.

Os principais rivais de Washington para esferas de influência foram a China comunista e a URSS, com seus aliados entre os Estados-clientes e os revolucionários mundo afora. Os sucessos dos construtores do Império dos EUA levaram à transformação de seus rivais comunistas e nacionalistas em concorrentes capitalistas emergentes. Em uma palavra, o domínio dos EUA levou à construção de rivais, especialmente a China e a Rússia.

Posteriormente, após derrotas militares dos EUA e guerras prolongadas, os poderes regionais proliferaram no Oriente Médio, Norte da África, Sul da Ásia e América Latina. Blocos regionais competiram com clientes dos EUA por poder. A diversificação dos centros de poder levou a novas e dispendiosas guerras. Washington perdeu o controle exclusivo de mercados, recursos e alianças, e a competição reduziu as esferas do poder americano.

Diante desses constrangimentos, o regime Trump imaginou uma estratégia para recuperar o domínio dos EUA – ignorando a capacidade e estrutura limitadas das relações políticas, econômicas e de classe dos EUA. A China absorveu a tecnologia americana e passou a criar novos avanços sem seguir cada etapa anterior.

A Rússia se recuperou de suas perdas e sanções e assegurou relações comerciais alternativas para enfrentar os novos desafios do Império global dos EUA. O regime de Trump lançou uma “guerra comercial permanente” sem aliados estáveis. Além disso, ele não conseguiu minar a rede de infraestrutura global chinesa; a Europa exigiu e garantiu autonomia para firmar acordos comerciais com a China, Irã e Rússia. Trump pressionou muitas potências regionais que ignoraram suas ameaças.

Os EUA ainda continuam sendo uma potência global, mas, ao contrário do passado, os americanos não têm a base industrial para “tornar a América forte”. A indústria está subordinada às finanças; as inovações tecnológicas não estão ligadas à mão de obra qualificada para aumentar a produtividade.

Trump depende de sanções, e elas não conseguiram prejudicar potências regionais influentes. As sanções podem reduzir temporariamente o acesso aos mercados americanos, mas observamos que novos parceiros comerciais tomam o seu lugar. Trump ganhou regimes-clientes na América Latina, mas os ganhos são precários e sujeitos à reversão.

Sob o regime Trump, grandes empresas e banqueiros têm aumentado os preços no mercado de ações e até mesmo a taxa de crescimento do PIB, mas o presidente enfrenta uma grave instabilidade política doméstica e os altos níveis de turbulência entre as alas de seu governo. Em busca de lealdade sobre competência, as nomeações de Trump levaram à supremacia dos funcionários de gabinete que buscam exercer um poder unilateral que os EUA não mais possuem.

Elliot Abrams pôde massacrar 1/4 de milhão de centro-americanos impunemente, mas ele não conseguiu impor o poder americano sobre a Venezuela e Cuba. Pompeo pode ameaçar a Coreia do Norte, Irã e China, mas esses países fortalecem alianças com rivais e concorrentes dos EUA. Bolton pode promover os interesses de Israel, mas suas conversas acontecem em uma cabine telefônica – falta ressonância com quaisquer grandes potências.

Trump ganhou uma eleição presidencial, garantiu concessões de alguns países, mas alienou aliados regionais e diplomáticos. Alega que está fortalecendo a América, mas prejudicou lucrativos acordos comerciais multilaterais estratégicos.

O “poder global” americano não prospera com táticas de intimidação. Projeções de poder individual tem fracassado – elas exigem o reconhecimento realista das limitações econômicas e as perdas das guerras regionais.