Rússia na América Latina: ameaça aos EUA?

Por Arantxa Tirado e Félix Caballero Escalante | Celag - Tradução de Marianna Braghini para a Revista Opera

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(Imagem: Celag)

A “ameaça russa” retomou um papel protagonista na agenda midiática nos últimos tempos. Apesar da suposta ajuda, nunca comprovada – como se destaca o Informe Mueller, de Moscou a Donald Trump para ganhar as eleições presidenciais em 2017, ou das declarações ambivalentes de Trump sobre Vladimir Putin ou da Federação da Rússia (FR) em geral- a verdade é que o establishment estadunidense segue mantendo uma postura hostil em relação à Rússia.[1] A retirada, no dia 2 de agosto passado, do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, por parte dos EUA, sob o argumento de que a Rússia não o vinha cumprindo, é o último capítulo de uma série de desentendimentos,[2] aos quais se somam reiteradas sanções dos EUA contra a FR.[3]

Na Estratégia de Segurança Nacional estadunidense de 2017, a FR é acusada, junto da China, de “expandir os vínculos militares e a venda de armas em toda a região” além de destacar sua “política fracassada de Guerra Fria” por apoiar os governos de Cuba e Venezuela.[4] De fato, com a última crise aberta entre o governo dos EUA e o da Venezuela, na esteira do apoio estadunidense ao autoproclamado “presidente interino” Juan Guaidó, os EUA denunciaram o respaldo da Rússia à Venezuela e alertaram sobre a desestabilização hemisférica que supunha, segundo seus critérios, a presença de cooperantes russos em território venezuelano.

Entretanto, para além da propaganda, qual é o alcance da presença russa no conjunto da América Latina e Caribe (ALC)? O que motiva a Rússia a estabelecer vínculos políticos, econômicos ou militares com países que estão longe de sua área natural de expansão e influência política?

A Rússia e o mundo

Tanto a ALC como a FR concordam na defesa de um mundo multipolar, doutrina cujo maior expoente no caso russo foi o antigo Ministro de Relações Exteriores da FR, Yvgeny Primakov (1996-98). Partilham, portanto, da rejeição ao unilateralismo na solução dos problemas internacionais como um passo decisivo para equilibrar a correlação de forças na arena internacional e estabelecer as bases para a criação de mecanismos de regulação global mais representativos. Para os países latino americanos, a ordem multipolar significa a ampliação de sua margem de manobra na arena internacional e a possibilidade de assumir projetos alternativos de desenvolvimento.

A Estratégia de Segurança Nacional (ESN)[5], atualizada pela última vez em 2015, mostra esta tendência. Este documento a diferencia do homólogo empreendido pelos EUA, coloca em questão o incremento de sua capacidade política, militar e espiritual para influenciar na arena mundial e construir um mundo “pluricentral” e multipolar. Reitera a importância de garantir a soberania e a autodeterminação própria e de outros países, para que deste modo não sejam impostos os interesses unilaterais dos EUA e da OTAN, pois como mostra o ponto 13, a política intervencionista dos EUA e da OTAN aumentou, e, com ela, a instabilidade global.

Não é um detalhe que o ano de elaboração do documento (2015) tenha sido o do apogeu das “primaveras árabes”. Estas revoluções ou supostas revoluções acabaram posicionando as forças ocidentais em regiões prioritárias em termos geopolíticos, como Oriente Médio, Magreb e os estados que fazem fronteira com a Rússia. A FR enxerga estes processos como um exemplo de intervenção e uma ameaça contrária aos princípios de autodeterminação e soberania (ponto 15).

As alianças políticas com a ALC

No documento “Concepção da política externa da Federação da Rússia”, se expõe a importância do estreitamento de relações com os países da ALC “por todos os meios possíveis, dada a crescente importância desta região em assuntos internacionais”. Segundo ele, a proposta é consolidar os vínculos com estes países e “ampliar a cooperação com alianças multilaterais e associações integracionistas da ALC, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, o Mercado Comum do Sul, a União de Nações Sul-Americanas, o Sistema de Integração Centro-Americana, a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, a Aliança do Pacífico e a Comunidade do Caribe”.[6]

A Rússia vem estendendo e aprofundando suas relações diplomáticas com países da ALC desde princípios do século XXI. No ano 2000, o presidente Putin realizou a primeira visita oficial de alto nível à região, especificamente à Cuba e em 2004, ao México. Por outro lado, o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez Frías visitou a Rússia no ano de 2001, como fizeram os ex-presidentes do Chile, Ricardo Lagos e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil (2002).

De 2002 a 2004, a Rússia estabeleceu relações diplomáticas com algumas das Antilhas menores como Granada, São Vicente e Granadinas, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia e as Bahamas. Entre em 2000 em 2017, os países mais visitados foram Cuba, Venezuela, Brasil e Nicarágua.

Entre 2002 e 2003 houve intercâmbio de visitas dos presidentes das altas câmaras da Rússia e México. As delegações parlamentares russas também visitaram a Argentina, Brasil, Colômbia, Panamá, Peru, Equador, e as delegações dos parlamentares da Venezuela, Guatemala, Costa Rica, Chile e Equador visitaram a Rússia.

Isso gerou as bases para alimentar as relações extra-regionais e o fortalecimento da posição russa na ALC, permitindo criar um cenário ideal para o desenvolvimento de diversos projetos.

Acordos Militares

No âmbito militar, a Rússia se tornou o segundo maior exportador de armas no mundo e conseguiu se inserir no mercado latino-americano, alcançando seu máximo em 2007 (14%).[7] As exportações de equipamento militar russo para a ALC passaram de 1,24 bilhões de dólares em 2005 a 6,34 bilhões em 2012.[8] Na ALC, a tecnologia militar tradicionalmente era de origem estadunidense, israelense e europeia.

Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, México, Nicarágua, Uruguai e Venezuela são os compradores de armas, máquinas e tecnologia russa, e nos últimos anos, as cifras da Tendencia de Indicador de Valor  (TIV) [em espanhol] do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI) demonstra um aumento considerável no valor total das compras de países latino-americanos.[9]

A Venezuela, com 73% no período 1992-2017, é a maior compradora de armas russas desde 2006 na região, e conta com uma estreita cooperação técnico-militar em termos de transferência tecnológica e capacitação.[10] Não só é o caso de maior destaque da influência da Rússia sobre a região – inclusive abordado na última reunião de Sergey Lavrov e Mike Pompeo, onde mostraram posicionamentos totalmente opostos[11] – como é também considerado por alguns autores russos como “a porta para a América Latina”[12] para o gigante euroasiático. É deste ponto de vista que se podem ler as reiteradas expressões de preocupação de altos cargos da Administração Trump sobre a “intervenção” russa neste país.

Não obstante, se revisarmos os percentuais de venda de armas da Rússia para a ALC podemos ver uma redução nos percentuais, sobretudo a partir de 2014, que poderiam dissipar os alarmes estadunidenses.

Gráfico 1 – Venda de armas russas para a América Latina entre o total de vendas de armas russas global (%) – 1992-2017

Além disso, vale a pena mencionar algumas jogadas da FR na América Central, uma zona estratégica para a segurança dos EUA, como a inauguração do Centro de Capacitação Antidrogas da América Central [tradução livre] no ano de 2017, construído pelo Ministério do Interior da Rússia e a Polícia Nacional da Nicarágua em Manágua.[13]

Intercâmbio econômico

Com a desintegração da URSS, o intercâmbio comercial da Rússia com os países da ALC diminuiu abruptamente. Em 1992, o intercâmbio, segundo o Dr. Vladímir M. Davydov, chegou ao menor nível médio anual alcançado pela URSS na década anterior, por conta dos efeitos catastróficos da destruição do aparato econômico de um Estado integrado por 15 repúblicas.

Desde meados dos anos 1990 se inicia uma paulatina recuperação. A tendência tem sido crescente. Se compararmos o saldo total do comércio de 1992 (306 milhões de dólares), nos damos conta de que para 2017 (10.21 bilhões de dólares) há um aumento significativo da base econômica comercial entre Rússia e ALC.

A América Latina representou 1,2% das exportações totais da Rússia em 2017, um leve aumento em comparação com o ano de 2000 (0,81%), desde que este país começou a aprofundar sua geopolítica multipolar de Yevgeny Primakov. Alguns dos produtos russos que são comercializados na ALC são materiais e máquinas de construção, produtos químicos, transporte, plásticos e borracha, armas e trigo. No que se refere às importações totais, também se pode observar um ligeiro aumento, representado para o ano de 2000 em 2,1% e para 2017 em 2,8%, sendo seus principais parceiros comerciais a Argentina, o México e o Brasil. As importações dos países da ALC são produtos intermediários em sua maioria, geralmente da indústria petroquímica (papel alumínio, óleos, aço laminado, etc.), mas também há um fluxo crescente de outros tipos de mercadorias, como vinho, frutas ou café.

Gráfico 2 – Exportações e importações russas com os principais parceiros comerciais da América Latina (U$ bilhões) – 2016

Cooperação energética

Em matéria energética, as maiores companhias da Rússia no setor, Rosneft e Gazprom, também conseguiram se inserir no mercado latino-americano. Existem estreitas relações entre a Gazprom e a Bolívia nos projetos que incluem os campos de gás e petróleo de Ipati e Akio.[14] A Gazprom vem desenvolvendo projetos neste país desde 2007 e firmou um acordo para o desenvolvimento da indústria gasífera que vai até 2040.

A Rosatom, instituição oficial encarregada da energia atômica no gigante euroasiático, realizou um acordo em 2016 com a Agência Boliviana de Energia Nuclear (ABEN),[15] em que acordaram a criação do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Tecnologia Nuclear, o qual se encontra em processo de construção em El Alto. Na última visita oficial de Evo Morales a Moscou, em 11 de julho de 2019, se deu continuidade a esta obra de grande envergadura.

Igualmente, a gigante petrolífera Rosneft tem estado estreitamente envolvida com os projetos da Faixa Petrolífera “Hugo Chávez”, de Orinoco, tendo 80%[16] de ações russas em ao menos três projetos nesta zona. No marco da confronto político na Venezuela torna-se especialmente importante o fato de que a petroleira venezuelana cedeu à Rosneft, em 2016, 49,9% de ações da CITGO, filial localizada em território estadunidense e que atualmente é assunto do bloqueio do governo norte-americano.

Estas relações vêm se aprofundando com a decisão de abrir uma filial da PDVSA na Rússia, com o objetivo de substituir o escritório que se encontrava na capital de Portugal, Lisboa, e ancorar as atividades relacionadas deste setor a mecanismos de pagamento que evitem o dólar ou o euro, e se diversifiquem as alianças no bloco euroasiático.[17]

Vale mencionar também o projeto de instalação de um Centro de Navegação do sistema russo GLONASS em Cuba, [18] o que significa uma competição direta com o sistema GPS norte-americano, a aproximação entre Rússia e Nicarágua, em matéria econômica, mais cooperação em situações de crise e segurança, como mencionamos anteriormente.[19] Estes fatores posicionam a Rússia em pleno coração do “espaço vital” estadunidense.

Algumas reflexões para concluir

Se bem a expansão russa na ALC tem crescido nos últimos anos, esta presença política e sua cooperação militar não deveriam ser motivo de alerta para os EUA. De fato, a FR não estabeleceu bases militares na área natural de influência estadunidense, a ALC, diferentemente do que os EUA tem feito na área de influência russa, permeada por bases da OTAN. Neste sentido, poderia parecer que os EUA seriam mais uma ameaça para a segurança da Rússia, do que a Rússia uma ameaça para a segurança estadunidense. 

O debate de fundo, portanto, é que qualquer avanço de uma potência que desafie a hegemonia estadunidense no mundo, especialmente se ocorrer na “reserva estratégica” dos EUA, se converte em uma ameaça para os interesses econômicos estadunidenses, em um contexto de transição geopolítica e de luta pelos recursos energéticos e minerais entre EUA, China e a FR. Alguns recursos que se encontram de maneira destacada na ALC e cujo controle será chave para determinar qual será a nova configuração do sistema internacional do futuro. Rússia e China constituem os principais desafiantes hegemônicos dos EUA; talvez aí resida sua ameaça e periculosidade ao governo estadunidense. 

Notas:

[1]https://www.celag.org/eeuu-rusia-guerra-fria-america-latina-caribe/

[2]https://translations.state.gov/2019/08/02/ee-uu-se-retira-del-tratado-inf-el-2-de-agosto-de-2019

[3]https://mundo.sputniknews.com/politica/201908051088264242-las-nuevas-sanciones-de-eeuu-a-rusia-entran-en-vigor-el-26-de-agosto/

[4]https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf

[5]http://www.consultant.ru/cons/cgi/online.cgi?req=doc&base=LAW&n=191669&fld=134&dst=100071,0&rnd=0.9962866484409987#0

[6]http://www.mid.ru/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/2542248

[7]Miles R. (2018) “Virtual Russian Influence in Latin America” en Center For Strategic & International Studies. https://www.csis.org/analysis/virtual-russian-influence-latin-america

[8]https://www.armyupress.army.mil/Portals/7/military-review/Archives/Spanish/Mielniczuk-El-retorno-del-oso-La-interaccion-rusa-con-America-Latina-El-caso-de-Brasil-SPA-Q2-2019.pdf

[9]http://armstrade.sipri.org/armstrade/html/export_values.php

[10]http://armstrade.sipri.org/armstrade/html/export_values.php

[11]https://www.5-tv.ru/news/250548/okazyvaetsa-tak-mozno-bylo-ssa-neozidanno-povernulis-vstoronu-rossii/

[12]Розенталь Д.М. (2018) Венесуэльский узел в латиноамериканской политике Москвы, “Латинская Америка” Н°10, Москва, p.50.

[13]https://nicaragua.mid.ru/novosti-posol-stva/-/asset_publisher/MDcaEvKjwH2j/content/ob-otkrytii-v-managua-ucebnogo-centra-mvd-rossii?_101_INSTANCE_MDcaEvKjwH2j_languageId=es_ES

[14]https://www.vestifinance.ru/articles/95876

[15]https://mundo.sputniknews.com/politica/201907101087960387-relaciones-de-rusia-y-bolivia/

[16] Caballero, F. Relaciones Bilaterales Rusia-Venezuela (1999-2018). Tesis de maestría de Relaciones Internacionales, Universidad Rusa de Amistad de los Pueblos, p.75. Moscú, Rusia

[17]https://mundo.sputniknews.com/america-latina/201903011085807082-pdvsa-se-traslada-a-moscu/

[18]https://mundo.sputniknews.com/tecnologia/201805281079078482-tecnologia-rusia-amplia-sistema-glonass-en-cuba/

[19]https://www.hispantv.com/noticias/nicaragua/411377/rusia-relaciones-diplomaticas-cooperacion-economica