Portos chineses são usados para burlar sanções dos EUA ao petróleo iraniano

por Zero Hedge | Tradução de Gabriel Deslandes

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No que parece ser um gesto de desprezo a Washington, empresas chinesas continuam a importar petróleo bruto iraniano, mas, em vez de divulgar tais importações, que violariam as sanções dos EUA, estão estocando esse óleo em tanques de armazenamento situados em portos chineses.

O fenômeno começou quando Washington restabeleceu as sanções ao Irã em maio. E dois meses depois, o petróleo bruto iraniano ainda continuava sendo enviado para a China apenas para ficar estocado em tanques. Possivelmente, o aspecto mais estranho de todo esse arranjo é que o óleo permanece nos tanques, sem uso. Até agora, nada foi liberado pela alfândega chinesa. Assim, o petróleo ainda se encontra tecnicamente “em trânsito”.

Até agora, Washington não comentou como vê esse armazenamento de petróleo pairando por cima dos mercados globais. Se as empresas chinesas explorassem esse estoque de petróleo, isso poderia reduzir a demanda por óleo na segunda maior economia do mundo, o que poderia abalar os mercados globais.

O arranjo claramente beneficia o Irã, que manteve, ao menos, um grande comprador de seu petróleo bruto.

“As remessas de petróleo iraniano estão sendo armazenadas há alguns meses, e os iranianos continuam a fazê-lo, apesar do aumento da inspeção internacional”, disse Rachel Yew, analista da consultoria FGE em Cingapura. “Podemos observar porque o país-produtor iria querer fazê-lo, já que um armazenamento de suprimentos perto de compradores-chave é claramente benéfico para quem está vendendo esse petróleo, especialmente se as sanções forem flexibilizadas em algum momento”.

Dados de rastreamento de navios da Bloomberg mostram que pode haver ainda mais petróleo iraniano nesses enormes tanques. Pelo menos dez transportadoras de petróleo bruto de grande porte e dois petroleiros menores pertencentes à estatal Companhia Nacional de Petróleo do Irã (NIOC) e seu braço de navegação estão atualmente cruzando mares em direção à China ou a seu litoral. Combina-se a isso o fato de que esses navios podem transportar cerca de 20 milhões de barris. A maior parte desse petróleo ainda é de propriedade de Teerã, o que cria uma zona cinzenta em termos de se a China está violando ou não as sanções americanas. Acredita-se que a maior parte do petróleo consiste em pagamento de um acordo petróleo-por-investimento, algo bastante corriqueiro envolvendo a China.

“A maior parte do petróleo iraniano nos tanques chineses ainda é de propriedade de Teerã e, portanto, não infringe as sanções. O petróleo não atravessou a alfândega chinesa e, teoricamente, está em trânsito. Todavia, parte do petróleo é de propriedade de firmas chinesas que podem tê-lo recebido como parte de esquemas de investimento em petróleo. Por exemplo, uma companhia petrolífera chinesa pode estar ajudando a financiar um projeto de produção petrolífera no Irã sob um acordo a ser pago em espécie. Não está claro se esse tipo de transação viola as sanções. Portanto, as empresas chinesas mantêm o armazenamento alocado para evitar a inspeção oficial que receberia quando o petróleo fosse registrado na alfândega.”

A Bloomberg vem acompanhando há meses a discrepância entre o volume de petróleo bruto iraniano embarcado rumo à China e o volume liberado pela alfândega chinesa. A China recebeu cerca de 12 milhões de toneladas de petróleo cru iraniano de janeiro a maio, segundo os dados de rastreamento de navios, contra cerca de 10 milhões liberados pela alfândega nesse período.

E a recusa da Casa Branca em lidar com o fluxo do petróleo iraniano criou uma confusão, afirma a Bloomberg.

No dia 2 de maio, a Casa Branca cancelou todas as renúncias que permitiam que alguns países continuassem importando petróleo bruto iraniano. Qualquer nação “pega” importando petróleo iraniano estaria, presumivelmente, violando as sanções iranianas.

Mas mais petróleo chega quase todos os dias.

“Vários outros petroleiros de propriedade iraniana descarregaram na China ou estavam indo para lá, segundo os dados de rastreamento de navios. O VLCC Stream aportou em Tianjin em 19 de junho, enquanto Amber, Salina e C. Infinity descarregaram petróleo bruto nos portos de Huangdao, Jinzhou e Ningbo. Os petroleiros Snow, Sevin e Maria III foram vistos pela última vez navegando em direção da China.”

Em algum momento, Washington precisará esclarecer se isso constitui uma violação das sanções americanas.

“Os EUA precisarão agora definir como vão quantificar a violação de sanções”, afirmou à Bloomberg Michal Meidan, diretor do Programa de Energia da China na Instituto para Estudos de Energia de Oxford. Há uma falta de clareza sobre se os EUA examinarão “transações financeiras ou o carregamento e descarregamento de petróleo por empresas ou firmas”, disse ela.

Além de fornecer um rendimento estável, um acordo dos EUA com a China liberaria os petroleiros iranianos, em vez de pressioná-los a servirem de centros de armazenamento. De modo que abordar esse tema agora pode fazer parecer que Washington está deliberadamente tentando sabotar suas negociações comerciais com Pequim.

Ou talvez o petróleo iraniano faça parte de um acordo final.