Após fracassos na Síria, Iraque, Palestina e Iêmen, a guerra não é opção para Israel desde 2006

por Elijah J. Magnier | Elijah Magnier Blog - Tradução de Gabriel Deslandes

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Durante a guerra de verão de 2006, Israel conseguiu destruir um grande número de foguetes e mísseis do Hezbollah. A maioria das unidades de mísseis do Hezbollah foi neutralizada e, no subúrbio da capital Beirute, mais de 250 prédios (principalmente de escritórios do Hezbollah, armazéns e casas de oficiais) foram destruídos por bombas israelenses de precisão (junto a muitos civis). Centenas de casas foram completamente destruídas no sul do Líbano. Todavia, Israel foi incapaz de lograr seus objetivos devido à derrota de sua infantaria, que enfrentou forte resistência e não conseguiu adentrar o interior do país. Além disso, os mísseis guiados a laser antitanques Kornet e os mísseis antinavio “Nour” do Hezbollah surpreenderam o inimigo, indicando uma séria falha da inteligência israelense e confirmando as fortes habilidades de combate do Hezbollah.

Treze anos depois, o fracasso da política americana e israelense na região significa que não é mais possível para Israel contemplar um confronto direto com o Hezbollah no Líbano. Os EUA e Israel não conseguiram atingir quatro objetivos principais: a mudança de regime na Síria, a divisão do Iraque, a derrota dos houthis no Iêmen e o “Acordo do Século” palestino. Além disso, a rejeição israelense-americana a qualquer Estado palestino justo fortaleceu a determinação dos palestinos contra Israel.

Israel aumentou seu poder de fogo e suas capacidades militares, mas o Hezbollah também deixou de ser uma organização tática local para se tornar um participante estratégico no Oriente Médio. As habilidades superiores de combate do grupo foram aprimoradas por novos equipamentos militares. Isso teve o efeito de tornar a guerra no Oriente Médio improvável a qualquer momento no futuro próximo (ou de médio prazo).

A tentativa dos EUA e seus parceiros de derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad e transformar o país em um Estado falido, governado por jihadista takfiris (grupos como ISIS e al-Qaeda, que oprimiram todas as outras organizações rebeldes e não jihadistas) forçou o Hezbollah libanês, o Irã e o Iraque a se envolverem militarmente por todo o Levante. O mesmo cenário se repetiu no Iraque, quando os EUA observaram o Estado Islâmico crescendo forte e mantiveram informações robustas – cuja precisão foi mais tarde confirmada – de que o ISIS estava migrando para a Síria após ocupar grande parte do Iraque. O Hezbollah, grupos iraquianos e forças iranianas lutaram na Síria e no Iraque para impedir que os jihadistas se expandissem e prevenir um perigo direto para o Líbano, Síria, Iraque e Irã.

No Iraque, em contraste com a desinformação predominante, o ISIS não ocupou Mosul, a segunda maior cidade da Mesopotâmia. Foi um grupo de organizações, em conjunto com algumas centenas de combatentes do ISIS, que roubaram a vitória de outros grupos sunitas (principalmente os Naqshbandi). Elas foram apoiadas por países vizinhos e pelo líder curdo iraquiano, Masoud Barzani, cujas aspirações teriam sido cumpridas caso houvesse a balcanização do Iraque em Curdistão, Sunistão e Xiistão.

O presidente da Turquia queria recuperar Mosul como parte de seu antigo Império Otomano; a Turquia se beneficiou da ocupação de Mosul e do norte do Iraque por um grupo como o ISIS. Não teria sido difícil em algum momento no futuro derrotar essa organização sem qualquer reconhecimento internacional.

O líder curdo Barzani queria o controle de Kirkuk, rica em petróleo, e almejava um Estado autoproclamado para os curdos iraquianos – um Estado que ele mais tarde proclamou (mas não conseguiu manter), apesar da derrota do Estado Islâmico. De fato, Barzani elogiou o ISIS durante sua ocupação de Mosul como uma “revolução sunita” – mas não conseguiu contar com o fato de que o grupo terrorista também pretendia controlar o Curdistão e Kirkuk.

Os EUA queriam que o norte do Iraque fosse dividido em um Estado sunita e um Estado curdo. Eles nunca permitiram que o EI se expandisse para além de Bagdá, já que precisam manter o petróleo sob controle americano. O sul do Iraque teria sobrevivido como um pequeno, mas desesperado, cantão xiita, apesar de sua riqueza em petróleo e gás, e o Iraque sumiria do mapa de seus “aliados iranianos”, não mais uma ameaça potencial à Arábia Saudita e Israel.

Caso a Síria se desintegrasse e se transformasse em um abrigo seguro para jihadistas, a lista de vantagens para os EUA e seus aliados seria muito longa. Um Estado falido teria impedido a Rússia de fornecer seu petróleo para a Europa via Síria e Turquia. Teria removido o acesso da Rússia às águas quentes do Mediterrâneo e desalojado sua base naval em Tartus. Teria quebrado o “Eixo da Resistência” entre o Irã, a Síria e o Líbano. Teria interrompido o fluxo de armas do Irã para o Hezbollah no Líbano, e assim impedido o grupo de se rearmar e atualizar seu equipamento militar. Teria isolado os xiitas no sul do Iraque da Síria.

A coalizão dos EUA poderia então observar o movimento de grupos jihadistas takfiri da Síria ao Líbano e manter o Hezbollah ocupado com uma luta sectária que poderia durar anos e enfraquecer os inimigos de Israel. Isso levaria os cristãos libaneses e sírios a migrarem para países ocidentais e deixarem o Oriente Médio para as futuras décadas de luta sectária. Os jihadistas não teriam objeção ao presente de Golã a Israel. O desmantelamento do Exército sírio teria deixado os palestinos sem qualquer apoio do Hezbollah, da Síria, do Irã ou do Líbano. Sem exércitos sírios ou iraquianos para temer, com o Hezbollah ocupado domesticamente e sua linha de suprimento de armas cortada, com jihadistas se apresentando como um alvo fácil e um pretexto para a guerra, e com a Arábia Saudita a seu lado, Israel poderia ter expandido e ampliado seu território às custas dos palestinos e dos países vizinhos: nenhum país ou força poderia se colocar em seu caminho.

Porém, esses planos fracassaram: o Hezbollah se deslocou para o Iraque e a Síria para combater o ISIS e a al-Qaeda. Conseguiu proteger o Líbano ao derrotar a al-Qaeda e ISIS em Arsal e ao longo das fronteiras libanesas-sírias. Garantiu uma passagem de terra e ar da Síria para o Líbano para o fornecimento de armas e renovação de seu arsenal. Adquiriu tremendas habilidades em guerra urbana, convencional e guerrilha e treinou em cenários reais de combate operando sozinho, com o Exército sírio e com os russos e sírios, usando habilidades de luta clássicas e apoio aéreo e de artilharia. O Hezbollah, acostumado a combater Israel em uma área de menos de 1.500 quilômetros quadrados no sul do Líbano, agora lutava na Síria em mais de 80 mil quilômetros quadrados de território.

Só que isso não é tudo: durante a guerra imposta à Síria, o Hezbollah inventou um foguete com uma tonelada de explosivos em sua ogiva (Burkan-Vulcano) e o operacionalizou. Fez cursos intensivos no uso de seus drones, empregou corretamente seus mísseis de precisão, produziu milhares de Forças Especiais altamente treinadas e lutou contra um inimigo (al-Qaeda) que está muito mais motivado a lutar até a morte do que quaisquer unidades das Forças Especiais de Israel. Além disso, o Hezbollah estabeleceu seus mísseis de precisão de longo alcance nas bem-protegidas fronteiras libanesas-sírias para aliviar as consequências de qualquer guerra futura para as cidades e aldeias libanesas.

O fracasso da mudança de regime consolidou a posição do Hezbollah e do Irã na Síria no nível de cooperação total com o Estado, um nível nunca alcançado no passado. O governo sírio foi apoiado economicamente pelo Irã e protegido militarmente pelas intervenções iranianas, libanesas, iraquianas e russas.

Hoje, as forças americanas ocupam o território que detém a maior parte dos recursos petrolíferos sírios no nordeste do país, e a Síria está sob pesadas sanções econômicas. Somente o Irã está correndo para apoiar a economia síria para evitar que ela desmorone, fornecendo petróleo, construindo indústrias farmacêuticas e outras mais a fim de dar suporte à economia local e suprir algumas necessidades básicas. A política EUA-Israel para paralisar o governo de Damasco está fortalecendo a relação Irã-Hezbollah-Síria, particularmente desde que os EUA impediram os Estados árabes e do Golfo de retornarem a Damasco para reabrirem suas embaixadas, deixando a estrada aberta para o Irã e Rússia serem apresentarem de forma exclusiva no Levante.

O Irã também está construindo a capacidade de mísseis da Síria. As tensões atuais entre Irã e EUA provaram que mísseis podem enfrentar uma força aérea e naval superior e são capazes de estabelecer regras de engajamento com um investimento muito pequeno em comparação ao preço de jatos e fragatas. De fato, a guerra no Iêmen e a crise entre o Irã e os EUA mostraram como drones e mísseis armados podem atingir alvos distantes e cumprir seus objetivos.

É exatamente isso que o Hezbollah adotou no Líbano e ao longo das fronteiras sírio-libanesas. Em 2006, o comando do Hezbollah cometeu o erro de construir armazéns estratégicos na Síria. A superioridade aérea israelense tornou perigoso o fornecimento de armas, pois Israel poderia atingir qualquer coisa que se movesse do céu. A guerra da Síria proporcionou ao Hezbollah uma forte presença nas fronteiras com bases de mísseis de precisão de longo alcance; eles estão agora prontos para ampliar seu teatro operacional em caso de guerra. Não há, portanto, necessidade desse ator não estatal mover seus mísseis da Síria para o Líbano.

Nos últimos anos, Israel bombardeou centenas de alvos na Síria, incluindo caminhões de armas em trânsito para o Líbano, mas nunca sem aviso prévio ao motorista antes do ataque. Israel queria evitar baixas humanas entre os oficiais do Hezbollah, já que os israelenses são totalmente cientes do preço da retaliação. Apesar dos ataques repetitivos, os armazéns do Hezbollah continuam cheios, de acordo com uma estimativa israelense. Isso significa que o grupo tem capacidade para disparar milhares de foguetes e mísseis diariamente durante uma longa guerra. Israel reconhece seu fracasso em limitar os suprimentos e capacidades de armamento do grupo.

Lições foram aprendidas com as guerras no Iraque, Síria e Iêmen. Mais lições militares estão sendo extraídas do confronto EUA-Irã no Golfo. Mísseis de baixo custo direcionados a plataformas de petróleo, portos, navios em trânsito, aeroportos, instalações de eletricidade, estações de água potável e bases militares são hoje muito mais eficazes política e militarmente do que atingir alvos civis. Os drones armados e os mísseis de precisão podem ser mortais para o Estado militar mais avançado e altamente equipado. Foguetes podem ser usados ​​para saturar os sistemas de mísseis defensivos interceptadores israelenses. Dezenas de foguetes podem ser lançados simultaneamente, seguidos pelo lançamento de alguns mísseis de precisão contra um alvo. O sistema de interceptores ficará saturado, incapaz de derrubar todos os foguetes e os mísseis que estão chegando, permitindo assim que, ao menos, 30-40% dos mísseis passem e atinjam o alvo desejado, o suficiente para criar um dano real e ser considerado uma troca equilibrada. Tais técnicas de saturação podem ser extremamente eficazes, como todas as partes reconhecem.

A nova guerra é essencialmente econômica; é uma guerra de sanções e limitação da livre circulação de movimentos de navios em todo o mundo. É uma guerra de petroleiros e plataformas de petróleo. É uma guerra de fome, em que ninguém pode ameaçar o inimigo com um retorno à “Idade da Pedra”, porque o poder de fogo está agora universalmente disponível. O Iêmen é o melhor exemplo: a ameaça de bombardeio em Dubai forçou os Emirados a buscar a mediação iraniana para impedir um ataque de míssil contra eles. Os houthis, apesar dos anos de bombardeio saudita ao Iêmen, também conseguiram bombardear aeroportos sauditas, bases militares e postos de petróleo no coração da Arábia Saudita, usando mísseis de cruzeiro e drones armados.

Gaza, juntamente com Beirute, Damasco e Bagdá, estão sendo todas altamente equipadas por Teerã com mísseis capazes para infligir danos reais a Israel e às forças americanas posicionadas no Oriente Médio. Israel está brincando, alvejando vários objetivos taticamente, mas sem nenhum propósito estratégico real – apenas para Netanyahu se manter ocupado e treinar sua Força Aérea e ganhar publicidade midiática. Logo, quando a Síria se recuperar e o Iraque for mais forte, o passeio israelense terá que cessar. O Hezbollah no Líbano também pode encontrar um caminho no futuro próximo para manter seu exército irregular, mas organizado, movimentando mísseis antiaéreos contra jatos israelenses e impondo novas regras de engajamento. É, todavia, muito cedo para desafiar Israel no ar, pois a aliança “Eixo da Resistência” funciona de acordo com suas prioridades, e esse estágio da crise Irã-EUA ainda está somente começando. Entretanto, à medida que a crise se desenvolve, o novo efeito estabilizador da geração precisa e mortal de drones e a ameaça de mísseis tornarão uma guerra aberta improvável.

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