Mudança de alianças: A Turquia é agora “oficialmente” aliada da Rússia e sairá da OTAN?

por Michel Chossudovsky | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes

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(Foto: Kremlin)

A Turquia está recebendo o sistema de defesa antimísseis S-400 da Rússia. Isso significa que a Turquia e a Rússia são agora “oficialmente” aliadas. O primeiro carregamento do S-400 desembarcou em Ancara em 12 de julho, segundo o Ministério da Defesa da Turquia.

Mais duas remessas devem ser entregues, com uma terceira entrega de “mais de 120 mísseis antiaéreos de vários tipos programada provisoriamente para final do verão, por via marítima”.

Reportagens confirmam que “os operadores turcos do S-400 viajarão para a Rússia para treinamento em julho e agosto. Cerca de 20 militares turcos foram capacitados em um centro de treinamento russo em maio e junho…” (CNN, 12 de julho de 2019)

Como os EUA responderão? Muito provavelmente, a presidência de Erdogan será objeto de uma tentativa de mudança de regime, sem mencionar as represálias financeiras em curso contra a lira turca, bem como as sanções econômicas.

“Quando mísseis russos chegam à Turquia, Erdogan atravessa um Rubicão.” (Bloomberg)

O que está se desenrolando é uma crise total na estrutura das alianças militares. Não é razoável para a Turquia manter sua participação na OTAN e, ao mesmo tempo, firmar um acordo de cooperação militar com a Federação Russa. Lembrando a Primeira Guerra Mundial, as mudanças de alianças e a estrutura das coalizões são determinantes cruciais da história.

As alianças militares atuais, incluindo “coalizões transversais” entre as “Grandes Potências” são marcadamente diferentes e extremamente mais complexas em relação àquelas existentes na Primeira Guerra Mundial (ou seja, o confronto entre “a Tríplice Entente” e “a Tríplice Aliança”).

A saída de fato da Turquia da OTAN aponta para uma mudança histórica na estrutura das alianças militares, que poderia contribuir potencialmente para enfraquecer a hegemonia dos EUA no Oriente Médio, bem como criar condições que levariam ao colapso da própria OTAN.

A OTAN constitui uma força militar formidável composta por 29 Estados-membros, que é fortemente controlada pelo Pentágono. É uma coalizão militar e um instrumento da guerra moderna. Constitui uma ameaça à segurança global e à paz mundial.

As divisões na Aliança Atlântica podem assumir a forma de um ou mais Estados-membros que venham a decidir “sair da organização”. Inevitavelmente, um movimento de saída da OTAN enfraqueceria o crescente consenso imposto por nossos governos, que, neste momento histórico, diz respeito à ameaça de uma guerra preventiva contra o Irã e a Rússia.

Dormindo com o inimigo

Enquanto a Turquia ainda é “oficialmente” um membro da OTAN, o presidente Recep Tayyip Erdogan desenvolve há dois anos “relações amistosas” com dois dos inimigos mais convictos dos EUA: o Irã e a Rússia.

A cooperação militar EUA-Turquia (incluindo bases da força aérea dos EUA na Turquia) remonta à Guerra Fria. De longe, a Turquia tem as maiores forças convencionais (depois dos EUA) dentro da OTAN, ultrapassando a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha. De um modo geral, o racha EUA-Turquia e suas implicações para a Aliança Atlântica têm sido ignorados ou banalizados pela mídia.

A OTAN está potencialmente em frangalhos. A entrega do S-400 quase um ano antes do previsto contribuirá para desestabilizar ainda mais a estrutura das alianças militares em detrimento de Washington.

A Turquia também é aliada do Irã. Inevitavelmente, a posse do S-400 afetará os planos em curso de guerra dos EUA, dirigidos contra o Irã (que também vai adquirir o S-400). Isso significa que a Turquia se retirará do sistema integrado de defesa aérea EUA-OTAN-Israel? Tal decisão equivaleria a um NATOExit.

Sistema de defesa antiaérea S-400.

Além disso, a aliança de longa data da Turquia com Israel não é mais funcional. Por conseguinte, a “Tripla Aliança” EUA-Turquia-Israel estará extinta. Em 1993, Israel e Turquia assinaram um memorando de entendimento levando à criação de “comitês conjuntos” (turco-israelense) para lidar com as chamadas ameaças regionais. Sob os termos do memorando, a Turquia e Israel concordaram em “cooperar na coleta de informações sobre a Síria, Irã e Iraque e se reunir regularmente para compartilhar avaliações relativas ao terrorismo e às capacidades militares desses países”.

Ariel Sharon e Recep Tayyip Erdogan em 2004.

Essa aliança tripla também foi acoplada ao acordo de cooperação militar OTAN-Israel de 2005, que incluía “muitas áreas de interesse comum, como a luta contra o terrorismo e exercícios militares conjuntos”. Esses laços de cooperação militar com a OTAN eram vistos pelos militares israelenses como um “aumento na capacidade de dissuasão de Israel em relação a inimigos em potencial que a ameaçam, principalmente Irã e Síria”.

Tal aliança ligando os EUA, Israel e Turquia foi coordenada pelos chefes de Estado-Maior Conjunto dos EUA. Era uma estrutura de comando militar integrada e coordenada relativa ao Oriente Médio em geral. Baseou-se em estreitos laços militares bilaterais dos EUA, respectivamente com Israel e Turquia, em conjunto com uma forte relação militar bilateral entre Tel Aviv e Ancara. Nesse sentido, Israel e Turquia eram parceiras próximas dos americanos em ataques aéreos planejados contra o Irã desde 2005. (Ver Michel Chossudovsky, em maio de 2005). Desnecessário dizer que essa aliança tripla está extinta.

Com a Turquia apoiando os iranianos e os russo, seria “suicídio” para os EUA e Israel considerarem até a possibilidade de realizarem ataques aéreos ao Irã. Além disso, o acordo de cooperação militar OTAN-Israel em 2005, que dependia fortemente do papel da Turquia, tornou-se disfuncional. O que significa que as ameaças EUA-Israel dirigidas contra o Irã não são mais apoiadas pelos turcos.

Realinhamento mais amplo das alianças militares

A mudança nas alianças militares não se limita à Turquia. Após o racha entre o Catar e a Arábia Saudita, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) está em uma situação caótica com o Catar ao lado do Irã e da Turquia contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. O Catar é de extrema importância estratégica porque compartilha com o Irã no Golfo Pérsico os maiores campos de gás marítimo do mundo.

A base militar Al-Udeid, perto de Doha, é a maior base militar americana na região, que abriga a sede do Comando Central dos EUA no Oriente Médio. Por sua vez, a Turquia já estabeleceu suas próprias instalações militares no Catar.

Organização de Cooperação de Xangai (OCX)

Uma mudança profunda nas alianças geopolíticas também está acontecendo no sul da Ásia, com a aceitação em 2017 da Índia e do Paquistão como membros-plenos da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Inevitavelmente, essa mudança histórica constitui um golpe contra Washington, que tem acordos de defesa e comércio com o Paquistão e a Índia. “Enquanto a Índia permanece firmemente alinhada com Washington, a influência política americana no Paquistão (por meio de acordos militares e de inteligência) se enfraqueceu graças aos acordos de comércio e investimento do Paquistão com a China.” (Michel Chossudovsky, 1 de agosto de 2017)

Em outras palavras, esse crescimento da OCX enfraquece as ambições hegemônicas dos americanos no sul da Ásia e na região da Eurásia em geral. Isso tem influência em rotas de gasodutos de energia, corredores de transporte, fronteiras e segurança mútua e direitos marítimos.

O Paquistão é a porta de entrada para o Afeganistão e a Ásia Central, onde a influência americana se enfraqueceu ante a China, Irã e Turquia. Os chineses estão envolvidos em grandes investimentos em mineração, sem mencionar o desenvolvimento de rotas de transporte que buscam a integração do Afeganistão ao oeste da China.

Onde a Turquia se encaixa? A Turquia faz parte cada vez mais do projeto eurasiático dominado pela China e pela Rússia. Em 2017-18, Erdogan teve várias reuniões com os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin. A Turquia é atualmente um parceiro de diálogo da OCX.

O movimento antiguerra: #NATOExit

Com crucial importância, a crise na OTAN constitui uma oportunidade histórica para desenvolver um movimento popular #NATOExit por toda a Europa e América do Norte. Um movimento popular pressionando os governos a se retirarem da Aliança Atlântica para eventualmente desmantelarem e abolirem o aparato militar e político da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

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