Direitos Já: Frente ampla de todos por coisa nenhuma

por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Reprodução/Youtube)

Cuidado: os moderados estão à solta. No dia 8 deste mês foi lançado na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo, o movimento “Direitos Já! – Fórum pela Democracia”, mais uma grande promessa de frente ampla “em defesa da democracia”, que, num grande guarda-chuva, reune 16 partidos políticos diferentes em defesa do “Estado Democrático de Direito”. O evento contou com a participação de nomes como Flávio Dino (PCdoB), Márcio França (PSB), Marta Suplicy e Ciro Gomes (PDT). Fernando Henrique Cardoso (PSDB) enviou um vídeo em apoio, e as adesões ao movimento de Fernando Haddad (PT), Rodrigo Maia (DEM) e José Serra (PSDB) foram anunciadas, apesar de nenhum deles terem comparecido ao evento de lançamento. “No dia seguinte ao resultado da eleição do ano passado nós percebemos que havia um sentimento de muita aflição quando percebíamos que a agenda anticivilizatória do presidente eleito [Bolsonaro] era firmada e reafirmada”, disse Fernando Guimarães, coordenador nacional do movimento e líder do “Esquerda Para Valer” (PSDB).

Os liberais progressistas me emocionam. O sangue tem escorrido das favelas desde que elas brotaram da terra, sem que uma lágrima contra o radicalismo fosse derramada – a normalidade que mata pobres não os impressiona. A regra nas prisões, o destino assegurado àqueles pesados na balança do Estado Democrático de Direito, é a superlotação, a imundície, a marmita fria – e 35,9% dos que nelas habitam, sob o Estado Democrático de Direito, na verdade sequer foram democraticamente julgados sob o respaldo do Direito assegurado pelo Estado – a balança pesa para um lado, sem refletir no bronze luminoso o retrato da democracia morta. Desde 1985, ano em que as Diretas Já “recuperaram a democracia” sem sequer recuperar aquelas propostas pautadas pelo presidente golpeado em 1964, quase 2 mil pessoas morreram em conflitos pela terra; e 92% dessas mortes não levaram a nenhum julgamento ou prisão. Ho Chi Minh contou ao mundo, em 1924, sobre os linchamentos nos Estados Unidos, escrevendo: “Fedendo a gordura e fumaça, uma cabeça negra mutilada, queimada, deformada, ri sarcasticamente e aparenta se perguntar ao sol se pondo: ‘é isso a civilização’?” Caberia hoje perguntar aos que defendem a aliança de todos com todos por coisa nenhuma: a agenda anticivilizatória nasceu no Brasil em 2018?

Sei que não podemos ser radicais, ao menos não a ponto de achar que o Estado não pode matar à vontade em determinados bairros, que só pode estar preso quem for condenado, que camponeses devem ter terra. Peço perdão pela desfaçatez sectária: assim meus oponentes podem me chamar de iluminista! Mas é impressionante que só depois de o presidente declarar como política governamental o que já é assegurado há décadas por nossa política econômica que os nossos queridos progressistas se assustem.

Falemos, portanto, de temas leves: o tal Fórum pela Democracia terá como horizonte a reversão de todas as medidas aprovadas pelo governo Bolsonaro? Pautará um novo modelo, democrático, das concessões dos meios de comunicação? Reverterá o golpe de 2016 e as medidas que dele vieram, ou é esperar demais que aqueles que o moveram tenham disposição de revertê-lo? Tomará medidas para afastar do poder a redoma verde-oliva que dele vem se aproximando nos últimos anos? – Sobrou alguém?

Se sobrou mais de um, aí sim estará uma possibilidade de aliança. Ocorre que elas não foram inventadas só para reunir, num fórum de ética, homens que concordam – ainda que essa seja sua premissa, aparentemente ignorada pelos membros do “Direitos Já!” – mas por razões estratégicas. E cá está a pergunta de ouro: que saltos, táticos ou estratégicos, terá a esquerda ao participar de um fórum que fala da civilização em abstrato, como na estatueta da musa de olhos vendados que, incapaz da visão, parece receber ao pé do ouvido a instrução sobre que lado deve sofrer suas espadadas?

Nabil Bonduki, na Folha de São Paulo, nos informa: “Não é uma aliança eleitoral nem uma coalizão governamental. É uma articulação ampla, que reúne diferentes setores da sociedade, da centro-direita para a esquerda, preocupados em conter os retrocessos. Nesse amplo leque, existem diferentes projetos políticos e programas para o país, e ninguém precisa abrir mão de suas posições para participar.” Defendendo que “deixar Bolsonaro sangrar até 2022 é irresponsável com o país”, Nabil diz que a esquerda “não pode cair no erro de se isolar nesse momento de radicalização da extrema-direita.”

O texto de Bonduki parece uma cópia do de João Filho, que um dia antes, no The Intercept, denuncia que o PT “se recusa a dar as mãos na hora de defender o país.” Diz João: “Ou os democratas se unem agora contra o governo fascistoide, criando uma narrativa única em torno da defesa dos valores democráticos, ou na próxima eleição — se houver eleição! — elegeremos um presidente para administrar os escombros.”

Temos agora uma descrição mais concreta do que fará o tal Fórum: nas trincheiras pela democracia, a reunião de respeitáveis estará pronta para disparar narrativas! Ocorre que das palavras o nosso povo está cansado. O governo Bolsonaro é de fato uma ameaça à democracia brasileira – mas só na medida em que, declarando honestamente o que normalmente é feito nas sombras, rasga o véu odiento que encobre o real, incendiando as aparências democráticas. Se sequer pela liberdade do ex-presidente Lula, aprisionado num processo um tanto fraudulento – como revelou o próprio The Intercept -, o tal Fórum consegue convergir, não é de se espantar que partidos como o PT se mantenham desconfiados sobre os limites da aliança. Que fará o fórum se Bolsonaro ou os generais continuarem a avançar? Os progressistas do PSDB tomarão as ruas, para se confrontar com a polícia de João Dória? Os democratas estarão dispostos aos discursos duros e altos de um camarada Mauser? Ou o destino de um fórum pela democracia, em um regime ditatorial, é fazer oposição no exílio?

O povo é grande: muito maior do que poderia suportar o auditório da PUC. A tarefa da esquerda – mais, a tarefa de qualquer um que leve à sério a ideia de impedir o avanço do governo Bolsonaro – é o procurar, instruir, organizar e preparar. Se é questão de se afirmar sob um clichê do tipo “juntos somos mais fortes” ou “ninguém solta a mão de ninguém”, os sedentos por alianças formais deveriam garantir sua própria força, antes, pela aliança com o povo – não para as eleições de 2022, nem em defesa dos valores democráticos que respaldam a chibata. Será difícil fazê-lo, no entanto, declarando que a fome, a morte e a pobreza são aceitáveis, contanto que cultivadas numa democracia, por um presidente cheiroso e versado em francês, não em “tempos autoritários” por um desbocado ignóbil.