Allende: “El pueblo unido jamás será vencido”

por Yuri Lorscheider | Revista Opera

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O mês de setembro tem uma importância histórica para a América Latina. Considero-o como o mês da memória chilena. Ele é marcado pelo dia 4, em 1970, e pelo dia 11, em 1973.

Reproduzindo as palavras de Carlos Altamirano, advogado socialista que foi Secretário Geral do Partido Socialista Chileno:

“O dia 4 de setembro chegava ao fim. O povo encontrava-se na alameda Bernardo O’Higgins, artéria principal de Santiago, comemorando uma vitória que fora adiada por longas décadas. Allende era virtualmente o presidente do Chile, ainda que o governo Frei atrasasse o reconhecimento oficial dos eleitores. Trabalhadores, jovens estudantes, mulheres dos subúrbios e camponeses da periferia deixavam explodir sobre a larga avenida o júbilo do movimento popular triunfante. A burguesia estava aterrorizada: intoxicada pela sua própria propaganda, refugiara-se em suas mansões, à espera do assalto das turbas vencedoras. A culpa, acumulada durante um século e meio de dominação e exploração, obscurecia e silenciava os bairros elegantes.
Aquela noite foi de grande alegria.  O povo cantou e dançou até de madrugada. Nem um só vidro foi quebrado em Santiago. nem uma só bofetada castigou a arrogância do inimigo derrotado. Os trabalhadores atingiam o seu objetivo com uma incrível demonstração de generosidade e maturidade cívica.[…]
Quando setembro foi do povo, as autoridades policiais não registraram nenhuma desordem.. Quando foi da burguesia, terminou enegrecido pela morte de quase 40 mil pessoas.”

Trabalhadores em apoio a Allende.

A vitória chilena em 1970 foi o resultado de mais de 50 anos de lutas da esquerda nacional. A  classe trabalhadora chilena era uma das melhores organizadas no continente, tendo o Partido Comunista sempre contado com uma taxa interessante de adesão dos trabalhadores. Mas a vitória de Allende não contou somente com a organização da esquerda. Agustín Cueva, importante teórico equatoriano, aponta em seus estudos que um fator importante para a vitória popular nas eleições de 1970 foi o racha político da classe dominante entre o Partido Nacional (fusão do Partido Liberal e do Partido Conservador, que mantinham suas raízes no século XIX) e a Democracia Cristã. O Partido Nacional se caracterizava pelas posturas conservadoras, tinha entre seus membros a oligarquia fundiária, alguns financistas e a burguesia associada ao capitalismo monopólico. E este é um fator chave: a burguesia se fragmentou (momentaneamente) enquanto frentes de esquerda uniram-se para as eleições.

Foi  neste 4 de setembro de 1970 que Salvador Allende foi eleito pelo povo do Chile. O primeiro presidente marxista eleito pelo sistema democrático-burguês. Um homem do povo, um médico que por ele lutou, que chegou ao Palácio de La Moneda prometendo lutar pela soberania nacional diante da força externa do imperialismo que almejava extrair mais sua riqueza nacional, o cobre – principal produto exportador do Chile –  e retirar mais lucros do país. “Aumentar o desenvolvimento do subdesenvolvimento”, como diz Gunder Frank. 

Um homem que não teve medo de enfrentar as forças externas e nacionalizar seu principal produto exportador. Mas homem que, pelo seus ideais, foi morto na residência que ocupava pelo direito do voto, o Palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973. Um homem que não almejava o sangue de seu povo, e que foi morto pelo Imperialismo. Morto por almejar uma soberania nacional para o Chile. Morto por querer o melhor para o povo do Chile, não o melhor segundo os interesses externos. Allende almejava um Chile pacífico e sem exploração.

Isabel Allende em sua magnífica obra “A casa dos espíritos” expôs a vitória de 4 de setembro da seguinte maneira:

Allende em dezembro de 1971, discursando no 6º Congresso da Central Unitaria de Trabajadores. (Foto: Portada Biblioteca del Congreso Nacional de Chile)

“Dos povoados da periferia e dos bairros operários, entretanto, saíram para a rua famílias inteiras, pais, filhos, avós, com suas roupas de domingo, caminhando alegremente em direção ao Centro. Levavam rádios portáteis para ouvir os últimos resultados. No Bairro Alto, alguns estudantes, inflamados pelo idealismo, fizeram troça com seus pais, reunidos diante da televisão com uma expressão fúnebre, e foram também para a rua. Dos cinturões industriais, chegaram trabalhadores em colunas ordenadas, punhos erguidos, cantando os versos da campanha. Reuniram-se todos no Centro, gritando, a uma só voz, que o povo unido jamais será vencido. Agitaram seus lenços brancos e esperaram. À meia noite, soube-se que a esquerda vencera. Num abrir e fechar de olhos, os grupos dispersos engrossaram, incharam, estenderam-se, e as ruas encheram-se de gente eufórica, que pulava, gritava, abraçava-se e ria. Acenderam as tochas em meio ao alarido de vozes, e o baile de rua transformou-se numa alegre e disciplinada passeata que começou a avançar até as belas avenidas da burguesia. E, então, viu-se o espetáculo inédito da gente do povo – homens com suas rústicas alpargatas, mulheres com os filhos nos braços, estudantes em mangas de camisa – percorrendo tranquilamente a zona reservada e preciosa onde pouquíssimas vezes se tinham aventurado e onde eram estranhos. […]
A excitada multidão, contudo, não forçou nenhuma porta nem pisoteou seus impecáveis jardins. Passou alegremente sem encostar nos luxuosos veículos estacionados a rua, deu voltas pelas praças e parques que nunca havia pisado, parou, maravilhada, diante das vitrinas do comércio, que brilhavam como no Natal e ofereciam objetos cujo sequer poderiam imaginar, e seguiu sua rota pacificamente.”

Nas palavras de Allende, em seu último discurso para a Rádio Magallanes, às 09:03 da manhã, momentos antes do bombardeio ao Palácio de La Moneda:

“Diante desses fatos, só posso dizer aos trabalhadores: não vou renunciar! Colocado em um trânsito histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo que tenho certeza de que a semente que entregamos à consciência, digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá finalmente ser colhida.
Eles têm força, podem nos dominar, mas não param os processos sociais nem com o crime, nem com a força. A história é nossa e quem a faz são os povos.”