A nova Guerra Fria contra a China [parte 1]

por Fred Goldstein | Struggle-LaLucha - Tradução de Matheus Ferreira para a Revista Opera

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(Foto: Shealah Craighead / White House)

Durante a Guerra Fria e o conflito que colocou a URSS e a China de um lado e o imperialismo liderado por Washington do outro lado, os revolucionários costumavam caracterizar o conflito como uma guerra de classes entre dois sistemas sociais irreconciliáveis.

Havia o campo socialista, baseado na propriedade socializada, no planejamento econômico das necessidades humanas e no monopólio governamental do comércio exterior no lado da URSS-China, e o capitalismo, um sistema de produção voltado para o lucro, do outro.

O fato de os dois sistemas serem irreconciliáveis ​​estava no fundo do conflito apelidado de Guerra Fria. À luz do atual aguçamento do conflito econômico, diplomático, político e militar entre o imperialismo norte-americano e a República Popular da China (RPC), é hora de reviver os conceitos que foram aplicados durante o auge da Guerra Fria.

É claro que é necessário fazer modificações nessas formulações em relação ao socialismo na China, com sua mistura de capitalismo controlado e socialismo planejado.

No entanto, o conflito entre o capitalismo imperialista, liderado por Washington, Wall Street e o Pentágono, e o sistema econômico socialista chinês, que tem a indústria estatal em seu núcleo e uma orientação econômica planejada, está se tornando mais aguçado e o imperialismo está se mostrando mais abertamente hostil.

O longo esforço do imperialismo norte-americano para derrubar o socialismo chinês, não obstante os elementos capitalistas da China, tem sido ocultado sob frases dóceis sobre os chamados “interesses comuns” e “colaboração econômica”. Mas esse tipo de discurso está chegando ao fim.

A primeira campanha de Washington para derrubar a China – 1949-1975

Essa luta está em andamento desde 1949, quando o Exército Vermelho chinês expulsou do continente o marionete dos EUA, Chiang Kai-shek e seu exército nacionalista, que se retirou para Taiwan sob a proteção do Pentágono.

O conflito continuou durante a Guerra da Coreia, quando o general Douglas MacArthur e o alto comando dos EUA levaram as tropas norte-americanas à fronteira chinesa e ameaçaram com uma guerra atômica. Somente a derrota dos militares norte-americanos pelo heróico povo coreano sob a liderança de Kim Il Sung, com a ajuda do Exército Vermelho Chinês, interrompeu a invasão da China pelos EUA.

A luta continuou com a guerra dos EUA contra o Vietnã. O objetivo estratégico da guerra era derrubar o governo socialista do Vietnã no norte e se dirigir até a fronteira chinesa para completar o cerco militar da República Popular da China. Foram os esforços históricos do povo vietnamita sob a liderança de Ho Chi Minh que interromperam o objetivo do Pentágono.

Os planos de conquista militar do Pentágono falharam

Com a ascensão de Deng Xiaoping e a abertura da China ao investimento estrangeiro a partir de dezembro de 1978, Wall Street começou a reavaliar sua estratégia. A classe dominante norte-americana começou a aproveitar a abertura da China aos investimentos estrangeiros e a permissão da existência do capitalismo privado para enriquecer as suas corporações no enorme mercado chinês, ao mesmo tempo em que penetrava na economia chinesa com o intuito de, gradualmente, derrubar o socialismo.

Empresas multinacionais dos EUA estabeleceram operações na China, contratando milhões de trabalhadores chineses por baixos salários, que se aglomeravam nas cidades costeiras das áreas rurais. Essas operações fizeram parte de um esforço mais amplo dos capitalistas norte-americanos para estabelecer cadeias de globais de baixos salários que integravam a economia chinesa no mercado capitalista mundial. A recente virada dos EUA, destinada a romper essa integração econômica com a economia chinesa, incluindo a “caça às bruxas” contra cientistas chineses e o comportamento agressivo da Marinha dos EUA no Mar da China Meridional (chamado Mar do Leste pelo Vietnã), é resultado da fracassada tentativa dos EUA de trazer a contrarrevolução à China.

A China é cada vez mais um contrapeso à Washington na economia mundial, na alta tecnologia, na diplomacia e no poderio militar regional do Pacífico, que o Pentágono sempre considerou ser um “lago americano” patrulhado pela Sétima Frota.

O ataque à Huawei

Uma ilustração dramática dos antagonismos em desenvolvimento é a maneira como os EUA prenderam Meng Wanzhou, vice-presidente e diretora financeira da Huawei, no Canadá, por supostas violações das sanções dos EUA contra o Irã – um exemplo escandaloso do imperialismo exercendo extraterritorialidade. O governo Trump também suspendeu as sanções contra a Huawei Electronics, o maior fornecedor mundial de sistemas operacionais de alta tecnologia no mundo. A Huawei emprega 180.000 funcionários e é a segunda maior fabricante de telefones celulares do mundo, depois da Samsung, com sede na Coreia do Sul.

As sanções fazem parte da campanha dos EUA para sufocar o desenvolvimento da China da versão mais recente da tecnologia de transmissão de dados, conhecida como Quinta Geração ou 5G.

O governo Trump impediu as empresas americanas de vender suprimentos para a Huawei, que usa o sistema operacional Android do Google para seus equipamentos e a Microsoft para seus produtos para laptops – ambas empresas com sede nos EUA. A Huawei está contestando a proibição dos EUA no tribunal.

Enquanto isso, como um plano de resguarda, no caso de Washington proibir todo o acesso ao Android e à Microsoft, a Huawei passou silenciosamente anos construindo seu próprio sistema operacional. A Huawei desenvolveu seu sistema operacional alternativo após uma constatação de Washington em 2012 de que a Huawei e a ZTE, outra gigante fabricante chinesa de celulares, estavam violando criminalmente a “segurança nacional” dos EUA. A ZTE foi forçada a desligar por quatro meses. (South China Morning Post, 24 de março de 2019)

Mas o conflito vai muito além da Huawei e ZTE.

O novo ‘perigo vermelho’ em Washington

O New York Times(NYT) em 20 de julho de 2019 publicou um artigo intitulado “The New Red Scare in Washington. Alguns trechos nos fornecem o teor:

“Em um salão de baile em frente ao prédio do Capitólio, um grupo de militares linha-dura, populistas, defensores da liberdade muçulmana na China e seguidores do Falun Gong estão se reunindo para alertar que a China representa uma ameaça para os Estados Unidos, e que essa ameaça não se esgotará até que o Partido Comunista seja derrubado.

[…] Se os avisos soam diretamente da Guerra Fria, é porque são. O Comitê sobre o Perigo Atual, um grupo há muito extinto que fez campanha contra os perigos da União Soviética nas décadas de 1970 e 1980, foi recentemente resgatado com a ajuda de Stephen K. Bannon, ex-estrategista-chefe do presidente Trump, para advertir contra os perigos da China.

[…] Uma vez taxados como xenófobos e elementos marginais, os membros do grupo estão vendo suas opiniões cada vez mais aceitas em Washington, onde o ceticismo e a desconfiança da China se firmaram. O medo da China se espalhou pelo governo, da Casa Branca ao Congresso e às agências federais.”

O governo Trump abriu uma guerra tarifária contra a República Popular da China, impondo uma tarifa de 25% sobre US $ 250 bilhões em exportações chinesas e ameaçando tarifas sobre outros US $ 300 bilhões. Mas há muito mais na campanha de Washington do que apenas tarifas.

O FBI e funcionários do NSC (Conselho de Segurança Nacional) estão realizando uma caça às bruxas, continua o artigo do New York Times, “particularmente em universidades e instituições de pesquisa. Oficiais do FBI e do Conselho de Segurança Nacional foram enviados para as universidades da Ivy League para alertar os administradores a ficarem de olho nos estudantes chineses.”

E, de acordo com o New York Times, há preocupações de que essa caça às bruxas “esteja fomentando um novo perigo vermelho, alimentando a discriminação contra estudantes, cientistas e empresas que possuem vínculos com a China e arriscando o colapso de uma relação comercial complicada, mas profundamente entrelaçada, entre as duas maiores economias do mundo.” (New York Times, 20 de julho de 2019)

FBI criminaliza pesquisa sobre câncer

De acordo com um artigo importante da Bloomberg News, “Maneiras de trabalhar há muito tempo incentivadas pelo NIH (Institutos Nacionais de Saúde) e por muitas instituições de pesquisa, particularmente o MD Anderson (um grande centro de tratamento de câncer e instituto de pesquisa, em Houston), agora são praticamente criminalizados. Agentes do FBI leem e-mails particulares, abordam cientistas chineses em aeroportos e visitam as casas das pessoas para perguntar sobre sua lealdade. […] Xifeng Wu, que foi investigado pelo FBI, ingressou no MD Anderson quando estava na pós-graduação e ganhou fama por criar vários agrupamentos de estudos com dados acumulados de centenas de milhares de pacientes na Ásia e nos EUA. Esses estudos, que combinam históricos de pacientes com biomarcadores pessoais, como características do DNA e descrições de tratamentos, resultados e até hábitos de vida, são uma mina de ouro para os pesquisadores. […] Ela foi marcada como um ‘agente duplo’.”

As acusações contra cientistas chineses nos EUA se fundamentam no fato de que suas pesquisas podem levar a remédios ou curas patenteáveis, que por sua vez podem ser vendidas por uma enorme quantidade de dinheiro.

O artigo da Bloomberg continua: “Nas últimas décadas, a pesquisa sobre o câncer tornou-se cada vez mais globalizada, com cientistas de todo o mundo reunindo dados e ideias para estudar em conjunto uma doença que mata quase 10 milhões de pessoas por ano. As colaborações internacionais são uma parte fundamental do programa Moonshot do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, a iniciativa de US$ 1 bilhão do governo para dobrar o ritmo das descobertas de tratamento até 2022. Uma das linhas do programa é: ‘O câncer não conhece fronteiras’. […] Exceto, ao que parece, as fronteiras em torno da China. Em janeiro, Wu, uma epidemiologista premiada e cidadã americana naturalizada, deixou o cargo de diretora no Centro de Saúde Pública e Genômica Translacional da Universidade do Texas MD Anderson Cancer Center, após uma investigação de três meses sobre seus laços profissionais na China. A renúncia de Wu e a saída nos últimos meses de outros três cientistas chineses-americanos do MD Anderson, com sede em Houston, decorrem de um esforço do governo Trump para combater a influência chinesa nas instituições de pesquisa dos EUA. O efeito colateral, no entanto, é o entrave da ciência básica, fundamental para novos tratamentos médicos. Tudo é mercantilizado na guerra fria econômica com a China, incluindo a luta para encontrar uma cura para o câncer.”

Grande surpresa… Uma epidemiologista chinesa muito famosa, tentando encontrar uma cura para o câncer, colabora com cientistas na China!

Procurando os ‘reformistas’ e a contrarrevolução

Durante décadas, o Partido Comunista Chinês teve mudanças de liderança de cinco em cinco anos. Essas mudanças foram estáveis ​​e gerenciadas pacificamente. A cada troca, os chamados “especialistas em China” do Departamento de Estado de Washington e nas universidades dos EUA previram a chegada ao poder de uma nova ala “reformista” que aprofundaria as reformas capitalistas e lançaria as bases para uma eventual contrarrevolução capitalista.

Certamente, houve uma erosão das instituições socialistas da China. A “tigela de arroz de ferro”[1], que garantia a vida aos trabalhadores chineses, foi eliminada nas empresas privadas. Numerosas fábricas e empresas estatais foram vendidas em detrimento dos trabalhadores e, nas áreas rurais, a terra foi “descoletivizada”.

Um dos maiores contratempos do socialismo na China e que realmente alegrou os corações dos profetas da contrarrevolução, foi a decisão de Jiang Jemin de permitir que capitalistas entrassem no Partido Comunista Chinês em 2001.

Como o New York Times escreveu na época, “essa decisão aumenta a possibilidade de comunistas cooptarem capitalistas – ou de capitalistas cooptarem o partido”. Foi “a vitória” que a classe capitalista aguardava ansiosamente há quase quatro décadas.

Mas, no geral, essa cooptação capitalista não se materializou. O socialismo chinês, apesar das incursões capitalistas na economia, provou ser muito mais durável do que Washington jamais imaginou.

E, sob a liderança de Xi Jinping, a contrarrevolução parece estar ficando cada vez mais distante. Não é que Xi Jinping tenha se tornado um internacionalista revolucionário e um defensor do controle proletário. Mas ficou aparente que o status da China no mundo está completamente conectado ao seu planejamento social e econômico.

Notas do tradutor:

1 – “Tigela de arroz de ferro” é uma tradução da expressão “鐵飯碗” que em mandarim traz a ideia de trabalhos que possuem boas condições, renda e benefícios