Os comunistas em Moscou e a Rússia de Putin

por André Ortega | Revista Opera

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(Foto: Vladimir Fedorenko / Владимир Федоренко)

No dia 8 de setembro ocorreram as eleições para a câmara municipal (Duma) de Moscou, que foram marcadas pela informação de um revés sofrido pelo partido Rússia Unida (Edinaya Rossiya), o partido de Vladimir Putin. No parlamento de 45 cadeiras, onde ocupavam 38, perderam 13. É bom ressaltar, no entanto, que o partido não postulou candidatos oficialmente – eles saíram como “independentes”.

O Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), liderado por Gennady Andreievitch Zyuganov, foi o partido que mais cresceu nas eleições, fato que gerou especulações sobre o futuro do putinismo na Rússia. Lideranças partidárias dos comunistas realizaram uma coletiva de imprensa no dia 11 de setembro, na qual expuseram um pouco da suas ambições para além da cidade de Moscou.

“Eu vejo o evento de hoje mais do que como uma coletiva de imprensa”, declarou Zyuganov, no que seria uma apresentação de sua estratégia.

A campanha foi feita com o programa “10 passos para uma vida digna para todos”, usado nas eleições presidenciais de 2018. “Não só 13 candidatos ganharam, mas 10 chegaram perto da vitória, em excelentes posições e apoio massivo dos votantes de Moscou”, declarou Zyuganov. Já o dirigente do partido em Moscou, Valery Fedorovich, falou de “20 candidatos próximos da vitória”, e outros sete que considera que venceram e tiveram a vitória roubada, o que se desdobrará na justiça. Eles defendem a recontagem manual, reclamam de fraude e do que consideram um fracasso do sistema de votação eletrônica (KOIB).

Apesar do Partido Comunista da Federação Russa ocupar um papel importante no sistema eleitoral, as reclamações sobre fraudes não são incomuns. Zyuganov, em seu primeiro discurso nos trabalhos da Duma nacional no outono, também denunciou casos diversos de fraude, dentre elas um recurso que teria sido usado em Moscou: o registro de uma organização acusada por Zyuganov de ser um espelho, inexistente, identificada como “Comunistas da Rússia” (liderada por Maxim Suraykin), feita para roubar votos do partido organizado.

Na coletiva de imprensa, também denunciaram perseguições contra ativistas comunistas dentro e fora das eleições. Exigiram o fim de processos criminais contra os que participaram de protestos e falaram de pressão política contra o candidato presidencial, Grudinin, a “perseguição de anos” contra Vladimir Bessonov “por razões políticas” e se referiram a Sergey Reznik, que teria cumprido um ano e meio de prisão injustamente por policiais terem plantado drogas contra ele. Em janeiro, em Novomoskovsk (região de Tula), Vadim Bagyagin foi detido e isolado em um prédio do Ministério do Interior por carregar cartazes do partido. Há também denúncias de policiais acompanhando reuniões do partido.

Os comunistas declararam que não existe efetivamente o partido Rússia Unida em Moscou, que o partido “se enterrou” – outros partidos, como o Rússia Justa (Spravedlivaya Rossiya) e o Partido Liberal Democrático de Vladimir Zhirinovsky seriam “candidatos do prefeito”. O Partido Comunista da Federação Russa, portanto, seria o único partido de oposição real.

No entanto, essas eleições também foram marcadas por manifestações em julho e agosto em virtude da desqualificação de 57 candidatos pela Comissão Eleitoral, por irregularidades envolvendo a coleta de assinaturas – parte deles ligados à rede oposicionista de Alexey Navalny, liberal anti-Putin com bastante projeção na mídia ocidental.

O fantasma da desintegração

Em tom de gravidade, Zyuganov observou que os candidatos de seu partido dividiram os recursos e “trabalharam diretamente com os cidadãos”: “Por que estou enfatizando isso? Pois a Duma do Estado criou uma comissão para investigar possíveis distúrbios que estariam sendo preparados em Moscou […] com interferência externa nesse treinamento”.

O líder do partido comunista relembrou que houveram poucas comissões desse tipo na história da Duma, três, sem contar a atual: sobre a Chechênia, sobre o impeachment de Yeltsin e o acidente da hidrelétrica Sayano-Shushenskaya. “Essa nova comissão foi criada pois há uma ameaça real à segurança de nosso país”, disse. Zyuganov explicou que isso ocorre como parte de um “projeto de destruição” que começa com a Perestroika, passa pelas Reformas e chegaria na sua fase final com a liquidação da Federação Russa como um sujeito da política mundial, o que incluiria a utilização de desestabilização interna da política russa (esse assunto é tratado pelo pensador brasileiro Moniz Bandeira em seu livro “A Segunda Guerra Fria” e os métodos retomados em seu outro volume, “A Desordem Mundial”).

A fala de Zyuganov tem um sentido político amplo, abrangente. Apologistas estritos de Vladimir Putin, adeptos do “campo patriótico” e anticomunistas defendem que os comunistas representam parte do risco de desintegração para a Federação Russa, risco que foi contido pela primeira vitória de Vladimir Putin. No caso dos mais putinistas, o elogio ao presidente consiste em dizer que ele teve que lidar com ameaças múltiplas: extremistas de várias cepas, nacionalistas, separatistas políticos e étnicos, islamistas e comunistas. No geral, existe a acusação de que uma vitória dos comunistas implicaria em uma convulsão na Rússia, já que muitos não aceitariam o retorno dos vermelhos ao poder.

Quanto à demissão de John Bolton, ex-conselheiro nacional de segurança de Trump, Zyuganov a considerou positiva e disse que Bolton era o maior dos “russófobos”, um organizador de provocações militares que queria fazer um massacre ao redor da Venezuela, mas complementou que a equipe de Trump no geral é agressiva e perigosa, dizendo que os russos devem de qualquer maneira se prevenir.

Pobreza e soberania

Zyuganov discorreu sobre política interna evocando os motes principais de seu partido: as questões da pobreza da população e a falta de soberania da nação. Referiu-se a um ritmo de crescimento de 0,7% que seria “cinco vezes menor” do que declarado por Vladimir Putin, argumentando que, nesse ritmo, a Rússia ficaria ainda mais para trás em relação aos países mais desenvolvidos, além de estar enfrentando um problema grave de depreciação dos equipamentos na indústria de gás e petróleo.

Falou também da redução demográfica no país, que marcou uma diminuição de 200 mil pessoas no período 2017-2018, se referindo também a 20 milhões de russos perdidos durante a época das reformas, o que seria pior do que a Segunda Guerra Mundial, um “desastre”. Na tônica do nacionalismo, Zyuganov disse que a parte do capital estrangeiro em “setores chave” da economia já chegou a 90%, o que significaria que a Rússia “não possui soberania”. Ao expor esse cenário, propôs que só existem dois caminhos: a “revanche liberal” como já passaram nos anos 90, ou um amplo movimento nacional patriótico liderado pelos comunistas.

No plano das medidas concretas, falou de elevação do orçamento nacional de 18 para 25 trilhões de rublos, também disse que a bancada do partido preparou doze leis e dentre elas uma para aumentar o salário mínimo, o que segundo ele beneficiaria principalmente pensionistas de guerra.

O “Plano Quinquenal” de Levchenko, governador de Irkutsk, do Partido Comunista da Federação Russa, também foi citado pelo líder do partido. Nascido em julho de 2018 com a criação de um Comissão de Planejamento Estadual e um Comitê do Estado para o Planejamento do Desenvolvimento Socio-Econômico, o plano foi acusado por críticos e opositores de ser “propaganda eleitoral”, “um monte de papel com arte folclórica e promessas populistas”.

O plano tem como objetivos principais a redução dos preços da cesta básica, controle das tarifas de energia e a construção de apartamentos (cinco milhões de metros quadrados, através de uma espécie de sistema de crédito barato). Outro item é sobre agricultura e segurança alimentar, propondo a criação de 20 novas fazendas de pecuária para alcançar autossuficiência regional de leite e carne. Também propõe a construção de estradas – apesar de até o momento o Serviço de Estradas da Região de Irkutsk estar abalado por prisões e investigações dos serviços de segurança – e um sistema de bonificação e aumentos para funcionários públicos (o partido a nível regional defende isso em função do aumento superavitário dos rendimentos, mas alerta que “o partido Rússia Unida [de Putin] pode bloquear isso na Duma regional, pois só protegem os grandes negócios”; o Estado é um empregador importante na região).

Outros objetivos incluem a fiscalização ambiental contra “empresas criminosas” e combate a madeireiros ilegais (multas especiais a serem revertidas a saúde pública – mais uma vez, linguagem politizada dirigida contra o Rússia Unida, como protetor de criminosos que “mandam super lucros para o offshore enquanto respiramos poluição”). Essa proposta é defendida em materiais de agitação e propaganda do partido, além do governador protagonista da medida ter feito um elogio da planificação, se referindo ao modelo chinês e até mesmo a Belarus.

No campo político, o PCFR também usou seu plano quinquenal regional para defender que na cidade de Irkutsk voltem as eleições diretas para prefeito, direito retirado pela assembleia legislativa. Os comunistas acusam o partido Rússia Unida de ser responsável por essa “decisão anti-povo”.

Zyuganov também se referiu à experiência de Novosibirsk, governada por seu partido. Lá, além do “plano quinquenal”, criaram “prioridades” que orientam o tal plano, também referidos por Zyuganov (giram ao redor de coisas como moradia/regularização de terrenos e infraestrutura de transporte, desenvolvimento de veículos elétricos no transporte público, criação de uma escola e uma clínica por bairro até 2025, etc.)

A nível nacional, o PCRF também propõe referendos nas áreas relativas a riquezas minerais, empresas estratégicas, uma escala de impostos progressiva, reforma da previdência, educação e saúde.

Pela coletiva de imprensa, o foco da atividade parlamentar dos comunistas será em questões relacionadas à moradia. Também foi feita referência ao combate ao uso de drogas entre crianças e jovens.

Rússia sem Putin? As ambições de um partido

Na Rússia paira a questão sobre o fim da Era Putin e as eleições presidenciais de 2024. Uma das possibilidades seria a manutenção de Putin na presidência, o que exige uma reforma constitucional (há o limite de dois mandatos consecutivos) ou a possível jogada de criar uma união com Belarus, à qual o Presidente de Belarus, Lukashenko, resiste de forma aberta e estridente.

Putin seguindo na liderança do país ou não, fato é que o sistema sobre o qual ele preside passa por turbulências. Nas altas cúpulas, inicia-se uma “corrida de ratos” por pedaços do poder, em que grupos da elite buscam se afirmar e já reivindicar territórios em um possível cenário pós-Putin. As prisões de Arashukov (ligado a clãs do Cáucaso), Abyzov (como um representante de um setor liberal da elite), Ishaev (que foi um enviado presidencial no oriente do país, envolvido em redes de poder do leste), Ulyukayev (ex-ministro da economia de Putin, pego em um caso de suborno envolvendo outro aliado de Putin, Igor Sechin, executivo chefe da estatal de petróleo Rosneft) são fraturas expostas do conflito.

Os comunistas são conscientes disso. Sergey Obukov, membro do Comitê Central e deputado na Duma nacional, por exemplo, assina artigos desde 2019 falando dos mecanismos anti-corrupção sendo usados na luta de poder entre facções oligárquicas no Kremlin.

Como devemos entender a atuação do partido de Zyuganov, então? A Rússia passa por um processo de reorganização do poder e pela antecipação do fim do governo de Putin. Enquanto figurões são presos, a economia não cresce (cresce mais do que a brasileira, na verdade) e a sociedade passa por mudanças ideológicas.

Algumas pesquisas realizadas pelo Instituto Levada recentemente devem ser lembradas. Stálin atingiu um ápice de aprovação enquanto figura histórica positiva, a popularidade de Putin caiu e atingiu o nível mais baixo desde 2013 (está em 66%), enquanto o exército aparece como uma instituição mais digna de confiança do que a presidência.

A aprovação da figura de Stálin pode ser interpretada como insatisfação com o governo (como bem notou, dentre outros, Maxim Trudolyubov, jornalista liberal membro do Wilson Center). Mais do que isso, é sintoma de um fenômeno mais geral de preocupação com a integridade e o desenvolvimento da Rússia. Putin intensificou a propaganda patriótica desde o início desta década, para contornar opositores e justificar o próprio governo, recorrendo à imagem sagrada da Grande Guerra Patriótica (a resistência contra “o fascismo alemão e o militarismo japonês”). Ainda que o presidente possa se beneficiar disso, é difícil para os políticos ao redor dele (ainda mais os engravatados, os politiqueiros e os tecnocratas). Os comunistas são os principais depositários da simbologia da guerra e constroem toda uma história soviética em seu entorno – as tentativas de desvencilhar a vitória russa da URSS e seus líderes feita por Putin e associados conservadores pode muito bem fracassar, enquanto os comunistas se beneficiam da elevação moral e da memória do esforço de guerra.

Dentre os engravatados, unindo às figuras de burocratas, politiqueiros e tecnocratas, se destaca “o terceiro homem do Kremlin”, Vladislav Surkov.

Surkov foi um dos engenheiros políticos do putinismo e do seu partido Rússia Unida, que para ele já possui condições de seguir sem Putin no futuro (o que é esperar que sua máquina triunfe).

Isso preocupa os putinistas mais patriotas, que tendem a cruzar os dedos e esperar que Sergey Shoygu, atual ministro da Defesa, seja o sucessor de Putin na presidência. Há também a possibilidade de Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior desde 2012, seja lançado como um político.

Apoiadores tendem a entender mal uma saída de Putin, especialmente se ela significar a entrada de um dos figurões próximos a ele hoje como substituto. Medvedev, que já foi presidente, é o mais provável – tanto que o ocidente lamentou sua saída, como alguém mais “moderado” e “disposto a negociar”.  Medvedev é visto como alguém de confiança por Putin e provavelmente faria a dobradinha com Surkov.

Para os comunistas, de toda maneira, é mais fácil bater em Surkov, Medvedev ou em qualquer burocrata jovem que Putin inventar a partir do aparato (como ele mesmo saiu do nada e como Medvedev também saiu do nada).

Lembremos: quando os “analistas ocidentais” fazem comentários sobre as eleições de 2012 terem sido fraudadas para Putin vencer no primeiro turno uma eleição que de toda maneira ele venceria no segundo, o adversário que disputaria o próximo round com ele era Zyuganov. Foi Zyuganov também que quase levou as eleições em 1996, com 40,7% dos votos no segundo turno contra Boris Yeltsin, com dez milhões de votos a menos, tendo sofrido uma campanha irregular, desproporcional, marcada por crimes de Yeltsin e possível fraude eleitoral.

Naquele momento, os ocidentais interferiram nas eleições ao lado de Yeltsin (que já tinha poderes efetivamente ditatoriais, no desenrolar do episódio em que ele bombardeou o parlamento) e seu grupo de oligarcas. A mídia russa, controlada pelos oligarcas, fez um coro uníssono contra Zyuganov, aplicando técnicas para espalhar histeria e notícias falsas orientados por empresas de publicidade dos Estados Unidos. Um dos patrocinadores dessa operação foi o bilionário George Soros.

Nas eleições de 2018, os oito milhões do candidato comunista Pavel Grudinin não chegaram nem perto dos mais de 50 milhões de votos para Putin, mas ainda assim é o segundo lugar. Grudinin aparece nas especulações de cidadãos russos como um nome “provável” ao lado de Medvedev e Shoygu. Só nisto os comunistas de Zyuganov conquistam mais um sucesso de manter a própria projeção e ocupar o imaginário dos russos.

Criam uma fortaleza, um barco forte enquanto a tempestade devasta a política russa e não poupa sequer o parlamento nacional. Se fortalecem enquanto assistem os outros se digladiar e, enquanto eles se matam, mantêm uma identidade coesa, bem alimentada pelos anos soviéticos, pelos temas vermelhos, os discursos previsíveis. Na política real, continuam fazendo propostas concretas mas bem apimentadas pelo discurso utópico – um plano de governo de repente é batizado de “plano quinquenal”, e até para a questão do desenvolvimento aparecem como uma resposta.

Os comunistas tem vantagens em se dizerem comunistas, mesmo que também paguem um preço; o passado afinal não é de todo um fardo. Para cada proposta no ramo da educação, dos esportes e das juventudes, com características prosaicas ou nada espalhafatosas, eles evocam a memória dos tempos soviéticos em que esses aspectos funcionavam melhor. Para cada discurso inflamado sobre a situação da indústria de defesa, vem a memória de uma complexo armamentista pujante nos tempos de Brezhnev. Quando se apresentam como campeões da aposentadoria e dos salários mínimos, reivindicam as glórias da seguridade social dos tempos socialistas. Querem brilhar como os herdeiros legítimos dos tempos soviéticos e triunfar por associação ao que havia de positivo – principalmente o que a memória guardou como positivo, enquanto grudam no Rússia Unida e em quem for necessário a pecha de burgueses, fora a vinculação com os “traidores dos anos 90”.

Qualquer pessoa que acredite que o Partido Comunista da Federação Russa é uma espécie de “fantoche” do Putin, se engana. O suposto “realismo” dessas falas é na verdade uma narrativa russofóbica (“os russos controlados pelo despotismo oriental”) que gera uma ingenuidade: os comunistas continuam com os olhos na possibilidade de um dia ocupar a posição central do poder na Rússia.

O PCFR é o principal herdeiro eleitoral do poder de imagem da União Soviética. É também o principal partido de esquerda nas pautas econômicas. Possui uma postura sólida em relação ao nacionalismo, à política externa e o setor de defesa.  O partido de Zyuganov conta que só eles possuem uma estrutura coesa e forte o suficiente para sobreviver ao putinismo e dar o salto de ataque quando for sua hora. Um “partido de tenda” como o Rússia Unida não teria o mesmo nível de organização, nem a mesma força no plano da identidade – no plano da grande política, só eles seriam consequentes para responder às contradições sociais crescentes (ou o quase-eterno grito por pensões, para os velhinhos, as mães e os veteranos), só eles seriam consequentes no campo internacional, da Rússia forte – só um renascimento soviético para corresponder ao clima combinado de Guerra Fria e capitalismo decadente.

Enquanto isso, os putinistas acreditam no pêndulo do presidente, que ora vai para esquerda, ora para direita, de acordo com as inclinações do povo russo. A pergunta é até quando é possível ficar à deriva, fazendo concessões diversas e vivendo de vacilações pragmáticas.