O FED está se preparando para a ruína do dólar?

por Frederick William Engdahl* | Global Research - Tradução de Gabriel Deslandes

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Observações e ações incomuns do presidente do Banco da Inglaterra e de outros membros do banco central sugerem haver pela frente um cenário bem desagradável no processo para acabar com o papel do dólar como moeda de reserva mundial. Nesse processo, o FED desencadearia deliberadamente uma dramática depressão econômica. Se esse cenário for realmente acontecer nos próximos meses, Donald Trump entrará nos livros de história como o segundo Herbert Hoover [31º presidente norte-americano que governou durante a crise de 1929], e a economia mundial será empurrada para seu pior colapso desde a década de 1930. Aqui estão alguns elementos que valem a pena serem considerados.

Fala do presidente do Banco da Inglaterra

O presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, que está prestes a se aposentar, proferiu um discurso notável na recente reunião anual de banqueiros centrais e das elites financeiras em Jackson Hole Wyoming, em 23 de agosto. O discurso de 23 páginas para seus colegas de bancos centrais e especialistas financeiros é claramente um sinal importante de como os poderes dominantes, que dirigem os bancos centrais, planejam conquistar o mundo.

Carney disserta sobre falhas óbvias no sistema de reservas de dólares pós-1944, observando que:

“Uma assimetria desestabilizadora no coração do SMFI (Sistema Monetário e Financeiro Internacional) está crescendo. Embora a economia mundial esteja sendo reordenada, o dólar americano permanece tão importante quanto na época em que Bretton Woods colapsou.”

Ele afirma sem rodeios: “[…] A longo prazo, precisamos mudar o jogo […] Os riscos estão aumentando e são estruturais“.

O que ele passa a esboçar é um plano notavelmente detalhado para a transformação global da ordem do dólar nos bancos centrais, uma mudança revolucionária.

Carney discute o fato de que a China, como país líder mundial em matéria de comércio, é a candidata óbvia a substituir o dólar como principal reserva. Contudo, ele observa:

“[…] para que o renminbi se torne uma moeda verdadeiramente global, é necessário muito mais. Além disso, a história ensina que a transição para uma nova moeda de reserva mundial não deve ocorrer sem problemas.”

Carney indica que isso demandaria, muitas vezes, guerras ou depressões, enquanto cita o papel da Primeira Guerra Mundial, pressionando a libra esterlina a favor do dólar americano. O que ele considera mais imediato é um novo sistema monetário baseado no FMI para substituir o papel dominante do dólar. Carney declara,

“Embora a ascensão do renminbi possa, no decorrer do tempo, fornecer uma segunda melhor solução para os problemas atuais do SMFI, primeiramente o melhor seria construir um sistema multipolar. A principal vantagem de um SMFI multipolar é a diversificação[…]”

Ele acrescenta: “[…] Quando a mudança chegar, ela não deve representar a troca de uma hegemonia por outra. Qualquer sistema unipolar não serve para um mundo multipolar[…]” Em outras palavras, ele diz: “Desculpe, Pequim, você deve esperar”.

O presidente do Banco da Inglaterra propõe que o FMI, com seus Direitos Especiais de Saque (DES) em várias moedas, isto é, uma cesta de cinco moedas – dólar, libra, iene, euro e agora renminbi –, desempenhe o papel central na criação de um novo sistema monetário:

“O FMI deve desempenhar um papel central na orientação das políticas domésticas e transfronteiriças. […] Reunindo recursos no FMI e, assim, distribuindo os custos entre todos os 189 países-membros […]”

Para que isso funcione, ele propõe triplicar os fundos DES do FMI para US$ 3 trilhões (12,47 trilhões de reais) como o núcleo de um novo sistema monetário.

Dessa forma, Carney propõe que o FMI supervisione a criação de uma nova infraestrutura de pagamentos baseada em uma “moeda estável internacional”. Referindo-se à Libra privada, ele afirma claramente que uma “nova moeda hegemônica sintética (SHC) seria melhor fornecida pelo setor público, talvez através de uma rede de moedas digitais emitidas pelo banco central”. Observe que Carney, ex-banqueiro do Goldman Sachs, é mencionado como candidato a substituir Christine Lagarde como chefe do FMI. Seu discurso é uma admissão aberta do que está sendo planejado pelos principais presidentes de bancos centrais no mundo como o próximo passo para uma moeda mundial e um controle econômico global? Vamos olhar mais longe.

Christine Lagarde para BCE

O discurso de Carney, quando decifrado de sua linguagem de banqueiro, nos oferece, pela primeira vez, um roteiro claro para o qual os poderes que controlam os bancos centrais do mundo gostariam de nos levar. O papel de reserva mundial do dólar americano deve terminar; ele deve ser substituído por alguma forma de DSE do FMI, tendo como base uma reserva multimoeda. Por sua vez, tal reserva acabaria por se basear em dinheiro digital, as chamadas “moedas blockchain”. Tais moedas, não se enganem, seriam completamente controladas pelas autoridades do banco central e pelo FMI. Isso exigiria a proposta de eliminação de todo o dinheiro em favor de moeda digital, onde cada centavo que gastamos poderá ser monitorado pelo Estado. Essa sociedade sem dinheiro também prepararia o cenário para a próxima grande crise financeira e o confisco pelos governos de depósitos bancários de cidadãos comuns sob as novas leis de “resgate bancário” em vigor desde 2014 em todos os principais países industriais, incluindo a UE e os EUA.

O FMI está totalmente atrasado na mudança para as moedas digitais “blockchain” e no uso de DES para substituir o dólar dominante. Em um discurso pouco notado em 14 de novembro de 2018, a chefe do FMI, Christine Lagarde, indicou fortemente que o FMI estava por trás das moedas digitais dos bancos centrais, bem como das sociedades sem dinheiro. Ela observou com muito cuidado:

“Acredito que devemos considerar a possibilidade de emitir moeda digital. É possível que haja um papel para o Estado no fornecimento de dinheiro para a economia digital”.

Ela acrescentou: “Um novo vento está soprando, o da digitalização […] Que papel terá o dinheiro nesse mundo digital? […] A demanda por dinheiro está diminuindo – como mostra o trabalho recente do FMI. E em dez, vinte, trinta anos, quem ainda estará trocando pedaços de papel?”

Observações de Dudley

A introdução do novo mundo da moeda digital dos chefes de bancos centrais exigirá, como sugere Carney, mudanças dramáticas no status quo, mudanças que levariam ao fim do papel dominante do dólar americano desde o Acordo de Bretton Woods de 1944. Como o papel de moeda de reserva do dólar é um pilar do poder americano no mundo, isso acontecer exigiria nada menos que uma catástrofe. É isso que o Federal Reserve (Reserva Federal) está planejando silenciosamente com suas políticas monetárias?

Uma dica notável do que poderia estar em andamento veio de um artigo pela pessoa que até 2018 era um importantíssimo presidente do Federal Reserve de Nova York, Bill Dudley, que, tal como Mark Carney, é um ex-aluno da Goldman Sachs. Dudley não é ator menor no mundo dos chefes de bancos centrais. Até o ano passado, ele também era membro do Conselho de Administração do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e presidia o Comitê de Sistemas de Liquidação de Pagamentos do BIS e o Comitê do Sistema Financeiro Global.

Ao apontar para as políticas de guerra comercial de Trump e os perigos econômicos das mesmas, Dudley, em seguida, emite a seguinte declaração rara e simples:

“A reeleição de Trump representa, sem dúvida, uma ameaça para a economia global e dos EUA, para a independência do FED e sua capacidade de alcançar seus objetivos de emprego e inflação. Se o objetivo da política monetária é alcançar o melhor resultado econômico a longo prazo, as autoridades do FED devem considerar como suas decisões afetarão o resultado político em 2020.”

Embora tenha chocado muitos, Dudley está apenas divulgando publicamente o que o FED fez desde a sua criação em 1913 – influenciando furtivamente o curso da política americana e mundial por trás do disfarce de políticas monetárias “neutras”. Dudley sugere não uma “interferência russa”, mas a interferência do FED.

O FED poderia facilmente levar os EUA à crise. Os níveis de dívida da economia americana estão batendo recordes para as famílias, o governo federal e a dívida corporativa. A maioria das empresas americanas tem recorrido a dívidas crescentes, bem acima de US$ 9 trilhões, para recomprar ações em vez de investir em novas instalações e equipamentos, alimentando uma bolha sem precedentes em ações da Standard & Poor’s. As ações em alta não são um sinal de saúde econômica, mas de uma perigosa bolha especulativa vulnerável rumo ao colapso.

Agora, se o FED retomar o aumento da taxa de juros e continuar seu pouco divulgado aperto quantitativo (Quantitative Tightening) em 2020, uma série de inadimplências em efeito-dominó, falências corporativas, execuções hipotecárias em residências, inadimplência em empréstimos para carros e para estudantes poderiam rapidamente tornar uma segunda eleição de Trump em 2020 mais do que duvidosa. Entretanto, isso não seria motivo para a torcida do resto do mundo que se opõe às políticas de Trump. Isso também provocaria o colapso nos principais países do mercado emergente, que emprestaram centenas de bilhões denominados em dólares americanos, incluindo empresas estatais chinesas, Turquia, Argentina e Brasil, entre outras. Bancos da UE, da Itália à Alemanha e França, entrariam em falência.

Se esse cenário de Dudley ocorrer em 2020 ou não, apenas os principais atores dos bancos centrais terão certeza. É claro que, após quase 11 anos desde o colapso financeiro global de 2008, as políticas sem precedentes de taxa de juros zero nos bancos centrais da UE e, até recentemente, nos EUA estimularam a criação do que alguns chamam de “bolha de tudo”, não só em ações, em títulos públicos e corporativos, em preços de imóveis. Quando Carney diz que “a transição para uma nova moeda de reserva mundial não deve ocorrer sem problemas”, ele teria em mente uma nova intervenção do FED para aumentar as taxas de juros e restringir o crédito – ou seja, uma ruptura deliberada por parte do banco central americano dessa bolha inflada, usando a desculpa do “perigo de Trump para a economia mundial”? Espero que não. Os próximos meses dirão.

* Frederick William Engdahl é consultor de risco estratégico e conferencista, é formado em Política pela Universidade de Princeton e é um autor best-seller de petróleo e geopolítica.