Como a Venezuela venceu o golpe dos EUA na ONU

por Anya Parampil | The Grayzone - Tradução de Raphael Muniz para a Revista Opera

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(Foto: Cancillería de Venezuela / Jesus Adrian)

A vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez passou pelas portas da sede das Nações Unidas em Nova Iorque na tarde do dia 27 de setembro e sorriu para os repórteres que aguardavam próximo à entrada. Acompanhada pelo ministro de relações exteriores, Jorge Arreaza, e pelo embaixador da Venezuela na ONU, Samuel Moncada, Rodríguez ergueu os braços e balançou uma foto com sua mão esquerda antes de desaparecer nas escadas rolantes que levavam ao saguão da Assembleia Geral.

A foto mostrava o líder golpista apoiado pelos EUA, Juan Guaidó, posando com membros do grupo paramilitar colombiano Los Rastrojos, grupo este associado ao narcotráfico e notório pela prática de sequestro, contrabando e assassinato. Aparentemente, Guaidó confiou nos Los Rastrojos para que pudesse entrar na Colômbia antes de falhar em sua peça de “ajuda humanitária” em 23 de fevereiro. Para o líder golpista e seus apoiadores em Washington, tais imagens não poderiam ter surgido em um momento mais inconveniente.

Rodríguez parecia confiante enquanto se preparava para discursar na 74ª Assembleia Geral. A equipe venezuelana entrou na reunião aflita com os planos dos Estados Unidos de escalar sua guerra diplomática contra o país. Observadores próximos esperavam que os EUA tentassem impedir Rodríguez de falar como parte de seus esforços para deslegitimar o governo venezuelano.

De toda forma, Rodríguez finalmente apareceu na tribuna para bradar contra a interferência americana nos assuntos de seu país e o que ela classificou como “violência capitalista.” Sua presença dominante na ONU foi outro golpe nos esforços de mudança de regime da administração Trump, e sinalizou que a maioria dos países do mundo segue reconhecendo a autoridade do governo eleito da Venezuela.

Durante meses, uma guerra clandestina vem sendo travada nos corredores da ONU e nas capitais de todo o mundo, onde o objetivo é determinar quem tem o direito de definir o governo reconhecido internacionalmente da Venezuela: o povo venezuelano ou a administração Trump. Desde janeiro, os EUA tem pressionado países a revogar o status da Venezuela nas Nações Unidas, transformando o organismo internacional em um campo de batalha pela soberania do país.

“[Nicolas] Maduro é e seguirá sendo o presidente legítimo da Venezuela, pelo direito sagrado do povo à autodeterminação” Rodríguez anunciou perante a Assembleia Geral momentos após sua chegada.

Enquanto Rodríguez tomava a palavra, um modesto grupo de representantes dos países aliados dos EUA saíram do salão, como forma de mostrar oposição à sua presença. Tal manifestação ecoou cenas das reuniões diplomáticas de Viena a Genebra nos meses após Washington reconhecer Guaidó como presidente da Venezuela em janeiro.

“Foi uma vitória clara porque o que eles estavam tentando fazer era não somente sair da sala ou ignorar o discurso — o que eles queriam fazer era impedir a vice-presidente de falar — mas eles não tinham força e foram derrotados”, afirmou o vice-ministro para a África, Yuri Pimentel, para o The Grayzone. “A única coisa que eles puderam fazer foi ir embora”, explicou Pimentel. “Isso não é um problema para nós, o salão estava realmente cheio de delegações e nós sequer notamos quando essas pessoas saíram.”

Nove meses após os EUA e mais 54 países reconhecerem oficialmente Guaidó, a reunião na Assembleia Geral teria sido o lugar perfeito para provar o sucesso da política de mudança de regime de Trump e declarar a figura da oposição venezuelana como sendo o presidente da Venezuela reconhecido pela ONU.

Em vez disso, Washington e seus aliados foram reduzidos à realização de uma marcha simbólica de protesto enquanto a comunidade internacional celebrava o triunfo da soberania do governo eleito da Venezuela frente à tentativa de golpe apoiada pelos EUA — tudo isso enquanto Guaidó e seus comparsas se afundavam ainda mais em escândalos, absurdos e irrelevância.

A batalha diplomática começa

O palco para um dramático encontro na Assembleia Geral da ONU foi montado meses atrás, em 10 de abril, quando o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, convocou uma reunião do Conselho de Segurança para iniciar um ataque aos diplomatas que representavam o governo eleito da Venezuela.

“Com todo o respeito, Sr. Embaixador, você não deveria estar aqui”, vociferou Pence ao Embaixador da Venezuela na ONU, Samuel Moncada, recusando-se a olhar-lhe diretamente nos olhos. “Você deve retornar à Venezuela e dizer a Nicolás Maduro que o seu tempo acabou. É hora dele partir.”

Moncada, um experiente diplomata e historiador profissional cujo salário foi congelado graças às restrições financeiras impostas pelos EUA, vez ou outra parava de olhar em seu celular para encarar Pence com expressão desafiadora, enquanto balançava a cabeça em um aceno sarcástico de concordância.

“Essa Assembleia deve revogar as credenciais do representante da Venezuela nas Nações Unidas, reconhecer o presidente interino Juan Guaidó e dar lugar ao representante do governo livre da Venezuela nesse órgão sem mais adiamento”, continuou Pence.

Moncada respondeu os comentários de Pence durante uma entrevista ao The Grayzone na cidade de Nova Iorque pouco tempo após o acorrido.

“Se ele [Pence] achou que estava causando algum dano a mim ou à Venezuela e ao governo venezuelano, acho que ele superestimou”, comentou o embaixador. “Isso não é diplomacia, isso é intimidação. ‘A lei do mais forte’ não é o tipo de pensamento que tem êxito aqui nas Nações Unidas.”

Um dia antes da visita de Pence à ONU, a Organização dos Estados Americanos votou, pressionada pelos EUA, para reconhecer o representante de Guaidó no grupo. A medida, uma violação completa da carta de fundação da OEA, sinalizou os esforços que Washington faria para legitimar o regime golpista de Guaidó em nível internacional, e telegrafou sua estratégia para a ONU.

“Felizmente, as Nações Unidas não são a OEA”, disse o vice-ministro Pimentel ao The Grayzone após a reunião da Assembleia Geral. “[Os EUA] não podem fazer o que eles quiserem nas Nações Unidas da forma como eles vêm fazendo na OEA.”

De acordo com o Artigo 18 da Carta das Nações Unidas, todas as decisões incluindo “a suspensão de direitos e privilégios dos membros ou a expulsão de membros” devem ser feitas “por uma maioria de dois terços dos membros presentes e votantes” em qualquer ocasião. Em 2009, no entanto, o então presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, foi impedido de se dirigir à Assembleia Geral após uma maioria simples das nações presentes e convidadas votar para impedi-lo de exercer seu direito de falar. Tal precedente sugeria que os EUA poderiam tentar punir a Venezuela da mesma maneira, desencadeando um jogo de números entre Caracas e Washington nos meses que antecederiam a Assembleia Geral.

“Eles estão trabalhando de sua maneira para conseguir os números, e nós também estamos trabalhando de nossa maneira. E a maioria do mundo reconhece que se o procedimento for bem-sucedido [com a Venezuela], ele também poderia ser aplicado a qualquer outro”, afirmou Moncada ao The Grayzone em abril. “Eles inclusive se atreveram a mandar seu vice-presidente para anunciar a ação”, Moncada notou. “Ninguém manda esse tipo de presença de alto nível para nada. Eles vão fazê-lo. E nós estamos lutando. ‘Lutando’ significa fazendo campanha. Estamos conversando, persuadindo, convencendo todo o mundo [a nos apoiar], e agora estamos bastante certos de que os EUA não possuem os números.”

A campanha diplomática liderada por Moncada e sua equipe em Nova Iorque valeu a pena. Seis meses depois, os EUA e seus aliados foram forçados a caminharem envergonhados para fora do salão da ONU, revelando-se como representantes de uma minoria global.

“No mundo de hoje, o senso de soberania e de independência é muito forte”

Pimentel afirmou ao The Grayzone que a delegação da Venezuela na ONU estava “acostumada” a tal comportamento, “porque todo ano, em diferentes reuniões da ONU, quando a Venezuela fala, alguns desses países liderados pelos EUA normalmente deixam a sala.”

“Isso não é um problema — nós não queríamos que eles estivessem lá de qualquer forma”, adicionou Pimentel. “A derrota foi uma enorme, enorme derrota. Eles não conseguiram o que planejavam fazer.”

A decisão dos EUA de desafiar o direito da vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez de discursar na sessão mostrou que Washington sabia que tal votação somente resultaria em fracasso — expondo de uma vez por todas a derrota internacional da tentativa de golpe orquestrada por Trump.

“Eles claramente subestimaram todo o trabalho que os diplomatas da Venezuela têm feito em relação à situação que estamos enfrentando e à ameaça que eles estão tentando nos impor nas Nações Unidas”, afirmou Pimentel em relação a Washington e seus aliados. Ele adicionou: “Mas a coisa mais importante nem foi essa… A maioria dos países [da ONU] claramente entendeu o que os EUA estão tentando fazer na Venezuela e não podem apoiar, porque eles sabem que hoje é a Venezuela, e amanhã pode ser um deles.”

Pimentel disse que sua equipe recebeu a informação de que os EUA e seus aliados haviam emitido uma série de ameaças contra países de todo o mundo como forma de pressioná-los em seus esforços de remover a Venezuela da ONU. Os avisos incluíam promessas de acabar com programas de ajuda ou implementar sanções como punição por desobedecer às ordens de Washington. “Mas eles não conseguiram mudar um voto sequer”, afirmou Pimentel, “porque no mundo de hoje, o senso de soberania e de independência é muito, muito forte. Infelizmente, não em muitos países da América Latina, mas na África [esse senso] é muito forte.”

África, indobrável

Como vice-ministro da Venezuela para a África, Yuri Pimentel destacou a importância do apoio do continente para seu país no cenário internacional.

Países africanos representam 54 dos estados reconhecidos pela ONU, cerca de um terço dos países membros. Enquanto os Estados Unidos se orgulham de terem pressionado 54 países ao redor do mundo a reconhecer Guaidó, o continente africano permaneceu unificado em sua rejeição à tentativa de golpe de Washington na Venezuela.

“As relações da Revolução Bolivariana com o continente africano são muito fortes, e não é de [algo que tenha começado] dois dias atrás”, Pimentel salientou. “Desde o início da revolução, o falecido presidente, comandante Hugo Chávez, sempre nos disse que devíamos fortalecer nossas relações com a África.” “Costumava dizer-nos: ‘a África não é só mais um continente; a África é a mãe África, e nós precisamos trabalhar de forma muito próxima com eles’”, disse Pimentel.

De acordo com Pimentel, no início da Revolução Bolivariana de 1998, a Venezuela somente possuía relações diplomáticas com cerca de 20 países africanos. Hoje, esse número é de 55. “Eu falei com cerca de 55 [nações], mesmo um deles não sendo reconhecido pelas Nações Unidas, porque nós reconhecemos o Saara Ocidental como um país independente”, explicou.

Entre os aliados mais fortes da Venezuela no continente está a África do Sul, o polo industrial da região. Em fevereiro, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (CDAA) divulgou uma declaração onde afirma que “[observa] preocupada as tentativas de líderes de alguns países de interferir nos assuntos e na soberania da República Bolivariana da Venezuela.” A CDAA, que é composta de 16 estados membros, caracterizou os esforços de reconhecer Guaidó como presidente da Venezuela como “violações dos princípios da Lei Internacional.”

O espírito de unidade entre as nações africanas e a Venezuela foi demonstrado durante a 74ª Assembleia Geral da ONU quando o presidente da Namíbia, Hage Geingob, chegou a usar seu tempo para falar frente aos dignitários internacionais apoiando o governo eleito da Venezuela. “Também estendemos nossa solidariedade ao governo e ao povo da Venezuela e louvamos os esforços de mediação empreendidos pelo reino da Noruega”, anunciou o presidente Geingob após pedir pelo fim do bloqueio econômico imposto a Cuba e das sanções contra o Zimbábue.

Muitas nações africanas também estiveram presentes quando, à margem da Assembleia Geral, a Venezuela dirigiu a última reunião com o líder do Movimento dos Países Não Alinhados (MNA), a maior organização-membro da ONU. Cerca de 100 países participaram da sessão, a primeira desse tipo desde que diplomatas de alto nível representando os estados membros do MNA se reuniram em Caracas para participar da conferência ministerial do grupo em julho.

Conforme documentado por esta repórter na época, a cúpula ministerial viu os 120 estados membros do MNA afirmarem por unanimidade seu apoio ao governo de Nicolás Maduro, sinalizando que a Venezuela de fato derrotaria os esforços dos EUA para deslegitimá-la no salão da Assembleia Geral da ONU.

Um espião oposicionista no salão, autorizado pelos governos aliados dos EUA

Durante a sessão do MNA na Assembleia Geral, um membro da oposição venezuelana apoiada pelos EUA materializou-se no fundo do recinto. Esta repórter observou-o tomando notas e fotografando delegados conforme eles se dirigiam ao salão.

Enquanto tirava fotos dos representantes de África do Sul e Índia, o homem parecia estar monitorando a reunião como forma de estimar quantas delegações votariam em apoio à Venezuela se os EUA chamassem por uma votação em relação às credenciais do país durante o discurso da vice-presidente Rodríguez programado para o dia seguinte.

O homem, que posteriormente identificou-se como “Claudio”, foi reconhecido por esta repórter após ter interagido com ela durante um evento pró-oposição liderado pela Atlantic Council, um think tank semioficial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Washington, no início da semana.

No dia seguinte, durante o discurso da Venezuela frente à Assembleia Geral, “Claudio” foi visto sentado com a delegação de Honduras. Ao seu lado estava um homem chamado Diego Arria, um diplomata da era pré-revolucionária da Venezuela que uma vez representou o país nas Nações Unidas. Arria acusou o falecido presidente Hugo Chávez de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional em 2011, um ano após o governo da Venezuela desapropriar o seu rancho privado.

“Claudio”, Arria, e outros membros da oposição venezuelana apoiada pelos EUA, incluindo o enviado de Guaidó aos EUA, Carlos Vecchio, receberam credenciais para a cúpula desse ano da Assembleia Geral dadas por países aliados dos EUA, como Honduras, Colômbia e Brasil — uma ação que Pimentel afirma que deveria incomodar as populações desses países.

“Isso é realmente incrível, alguns países, por instruções dos EUA, concordaram em credenciar alguns membros da oposição venezuelana em suas delegações”, Pimentel observou. Ele também disse que suas decisões demonstravam “a conspiração contra o povo venezuelano”, acrescentando que “eles não respeitam regra alguma, não respeitam lei alguma.”

Um membro da delegação venezuelana, Gessy González, tuitou uma foto em que Arria e Claudio aparecem sentados atrás do painel escrito “Honduras”, em contraste à imagem da vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, o embaixador da ONU Samuel Moncada e o ministro de relações exteriores Jorge Arreaza sorrindo orgulhosamente no assento da Venezuela.

“Para aqueles que tinham alguma dúvida sobre quem representa a Venezuela, aqui está a verdadeira delegação para a Assembleia Geral, enquanto, por outro lado, vemos lacaios da oposição envergonhando as posições de outros países”, comentou González.

“Eles estão vagando como fantasmas nas Nações Unidas”, disse o ministro Arreaza a respeito das figuras da oposição, enquanto falava com repórteres. “Eles estão vagando por aí com credenciais das missões de outros países. É o maior absurdo. Desespero absoluto.”

Ainda assim, Pimentel afirmou: “a única representação real da Venezuela, e ficou claro para a maioria dos países das Nações Unidas, era a [delegação] enviada pelo presidente Nicolás Maduro. Nós estamos muito orgulhos disso — foi uma derrota total para os EUA e suas marionetes da região latino-americana.”

Mesmo membros da mídia hegemônica como a revista The Atlantic admitiram que o esforço dos EUA foi falho. A revista tipicamente pró-oposição reportou: “dentro das Nações Unidas, onde mantém o assento da Venezuela, o governo Maduro acumulou vitórias.” A The Atlantic descreveu o ministro Arreaza “atravessando os corredores, abraçando dignitários amigos enquanto criticava a abordagem hipócrita de Trump em relação à soberania e o ‘governo paralelo’ que ‘ninguém convidou’ circulando pela ONU”

Um dos momentos mais memoráveis da Assembleia Geral ocorreu quando começaram a circular nas redes sociais fotos da delegada venezuelana Daniela Rodriguez, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, discursava contra seu governo, com os olhos firmemente fixados em uma biografia do libertador anticolonial da América Latina, Simón Bolívar.

“Lendo Bolívar enquanto Trump faz seu discurso xenófobo e fascista”, Rodriguez escreveu em sua conta pessoal no Instagram. “Vida longa à Venezuela anti-imperialista.”

Mesmo os mais convictos conglomerados de comunicação anti-Maduro tiveram que dar-lhe atenção. “Delegada venezuelana, aborrecida com o discurso de Trump na ONU, lê um livro durante sua intervenção”, afirmava uma manchete no Huffington Post.

Apesar da intimidação e das bravatas de Washington, a ONU demonstrou sua independência contínua ao defender a soberania de um Estado membro frente ao ataque feroz de uma superpotência global.

Enquanto isso, a delegação venezuelana mostrou sua criatividade, roubando os holofotes de Trump para usar o fórum como uma plataforma de promoção dos seus valores anti-imperialistas.