A soltura de Lula: Para além do aparente

por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Ricardo Stuckert/ via Fotos Públicas)

Quer gostemos, quer não, Lula é hoje o personagem mais relevante da política brasileira. O episódio de sua soltura nesta semana só é comparável em importância, na história recente do País, à sua própria prisão, em abril de 2018, ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e à eleição de Bolsonaro, no final do ano passado.

Estes episódios todos trouxeram importantes lições – que poderiam ter sido compreendidas antes de sua efetivação completa -, e reordenaram a balança de poder do Brasil. O processo de impeachment de Dilma Rousseff nos dava um indicativo: que aquelas forças que o moveram não buscavam mais conciliações, acordos, ou benefícios. Buscavam, sim, a implementação completa de um programa próprio, em sua própria forma, com seus próprios quadros e, acima de tudo, com o controle sem restrições do poder. Não fosse este o caso, as medidas adotadas pela presidenta durante seu mandato – incluindo a Lei Antiterrorismo e o “ajuste fiscal” de Levy – teriam os impedido. Mas, sabemos, não foi o que ocorreu. Consolidou-se em seu lugar um governo que acelerou sem restrições, aprovando a Reforma Trabalhista, aprovando a “PEC dos Gastos”, e abrindo o Brasil para os produtos estrangeiros (batendo, neste tema, recorde global). Além disso, com a reabertura do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), pelo qual ficou responsável o general Sérgio Etchegoyen, foi promovida uma ampla reestruturação do setor de Inteligência no país.

Não levando as lições a sério, o Partido dos Trabalhadores seguiu na habitual peleja institucional. Em abril de 2018, já passados dois anos do golpe contra a presidenta Roussef, Lula, perseguido pela Operação Lava Jato, teve sua prisão determinada. Uma multidão se aglomerou no entorno do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde o ex-presidente se encontrava. Apesar da massa ter se colocado à disposição para resistir, Lula se entregou no dia 7 de abril, como previsto neste veículo.

Por fim, no ano passado, Jair Bolsonaro foi eleito presidente, com o apoio de todos aqueles que se empenhavam, antes, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela prisão de Lula. Isso tudo a despeito de Fernando Haddad ter sido o candidato mais declaradamente liberal que o partido já postulou à presidência. Preferiram o capitão reformado que homenageava torturadores como Ustra, falava em “fuzilar a petralhada”, “fuzilar uns 30 mil” e que, já naquela altura, tinha ao seu redor suspeitíssimos odores milicianos. De tal umbilical foi a ligação entre Bolsonaro e estes dois episódios anteriores, que Sérgio Moro, o juiz da Lava Jato, foi anunciado como Ministro da Justiça.

Agora um excêntrico movimento é feito: Lula é libertado por aquele mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que sancionara o impeachment de Dilma e que negara habeas corpus ao ex-presidente. Precisamente em um momento em que Bolsonaro se enfraquecia perigosamente – com suspeitas sobre sua relação com a morte de Marielle Franco, declarações radicais dele e de seus filhos sobre protestos à chilena no Brasil, um vídeo atacando o STF, e as declarações de seu antigo aliado, Bebianno, de que Bolsonaro poderia escalar um golpe. Altera-se mais uma vez a balança de poder. Se antes se comentava, nas manchetes, que o presidente imaginava inimigos ao falar sobre o Chile, hoje o inimigo é real, e está livre. Há aí evidente benefício para Bolsonaro.

Mas há, acima de tudo, para os militares. É que, em momentos que editoriais elogiam a “prudente distância” dos militares e estampam que “à diferença de alguns civis, os militares têm sido exemplares no respeito à Constituição de 1988. […] Os arroubos autoritários a que vez ou outra o País assiste […] não nascem nas casernas”, e que “com esse cuidadoso distanciamento das questões políticas, as Forças Armadas são uma fonte de paz e de estabilidade”, é certo que a tão chamada polarização, se radicalizada – e é nisto que creem os militares, segundo a Folha -, pode logo ser a doença à qual se receitará a moderada moderação do Partido Fardado. Para isso, no entanto, a ameaça haveria de existir; cá se junta o suspeito voto do ministro Dias Toffoli pela libertação de Lula a uma explicação.

Por fim, ficam as perguntas: se eles não quiserem recuar, e foram tão longe em seus planos, por que agora mudam de posição? Por que buscam a “moderação”, o mea culpa? O cheiro não é de hipocrisia: é de armadilha.

A pergunta cabe também, em forma inversa, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores: se tudo isto ocorreu sem que nada fizessem para além das redomas sagradas da institucionalidade, e se até mesmo a “vitória” obtida na libertação de Lula foi alcançada sem efetiva mobilização social, por que imaginaríamos que o partido mudará agora sua postura, buscando a radicalização e um novo caminho?

Pela primeira vez desde 2016, a aparência diz que a iniciativa não está com a reação. Talvez, por um cálculo por ela bem feito. É preciso um passo a frente do Partido dos Trabalhadores para que possam, enfim, dar seu passo derradeiro – aquele do qual fala o presidente e seus filhos, todos muito bocudos, mas que não devem ter coragem de, afinal, mobilizar o cabo, o soldado e o jipe. Aquele do qual falava Mourão, conquistado em “aproximações sucessivas”. Aquele que, dizia Toffoli à Veja, foi ponderado por “um dos generais próximos do presidente.” E, faltando iniciativa por parte do PT, como de fato é de se esperar, há sempre muitas opções.

Imaginem, afinal, como cantariam os sabiás no Brasil se, ao invés de aglomerada para comemorar a libertação de Lula hoje, a multidão estivesse, como ontem, disposta a defendê-lo de mais uma prisão. Imaginem como seriam as palmeiras desta terra se um certo Adélio Bispo não tivesse esfaqueado Jair Messias, ontem, mas Luiz Inácio, hoje. Ou, não imagine, comemore em transe, em meio à acrítica catarse coletiva, e guarde a imaginação para compor no futuro belíssimas canções de exílio.