Chile se rebela por 30 anos, não por 30 pesos, diz fotógrafo que cobriu anos Pinochet

por André Ortega | Revista Opera

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(Foto: Jorge Villalobos Briones / Cortesia)

Jorge Villalobos Briones é jornalista e fotógrafo. Nasceu em Santiago do Chile e nos anos 80 começou a fotografar em sua terra natal. Enquanto na maior parte da América do Sul caíam os regimes militares, Pinochet seguia no poder e bancava uma última onda de reformas neoliberais. Ao mesmo tempo, o povo não tolerava mais o regime sem responder, e ressurgia a resistência popular: movimentos cobravam direitos humanos, organizações de bairro começavam se levantar, estudantes secundários e universitários ocupavam as ruas.

Os comunistas renasciam das cinzas e marchavam com seus símbolos. Jovens miristas voltavam a andar armados e os guerrilheiros urbanos da Frente Patriótica Manoel Rodriguez (FPMR) assaltavam caminhões para distribuir carne nos bairros populares, quando não planejava um atentado ousado contra o próprio Pinochet. É nesse regime abalado, mas que resistia com chumbo, sequestros e detenções, que o à época jovem fotógrafo Jorge Villalobos registrou alguns momentos e episódios da resistência popular.  Os registros estão em uma coletânea de suas fotografias no livro “Imagens Proibidas. Chile, 1985 – 1986, publicado pela Autografia nesse ano.

Mais de cem fotos, a maioria de manifestações. Jovens secundaristas. Militantes de rosto coberto e bandeiras arrojadas. Marcha de mulheres. Policiais. Cães. Bombas de gás. Veículos e barricadas queimando.

O creme da fotografia de um regime militar que encontrava sua morte pelas mãos de um povo rebelado, que desafiava o poder nas ruas, levantava suas bandeiras e chorava os seus mártires.

Apesar do lançamento desse livro ser um fato jornalístico por si só, a relevância se multiplica por uma centena quando agora o Chile volta a convulsionar com manifestações de rua e repressões policiais.

O encontrei no centro de São Paulo.

Jorge tem os cabelos e a barba brancos, a pele escura que lhe valia nos tempos de juventude o apelido de “El Negro“, as sobrancelhas são grossas, pretas, mas não de formato agressivo. Sua expressão parece misturar tranquilidade e curiosidade. Passa dos 40 anos e possui uma constituição saudável para atlética, pois, como nos diz, gosta de praticar esportes e treinar o corpo. Sei que em sua juventude ostentava uma cabeleira encaracolada. Os braços são tatuados, um deles coberto pelos desenhos. Usa roupas casuais, camiseta e calça jeans, sempre carregando a mochila e óculos de aros pretos. É um homem muito apegado à família.

É calmo e simpático – mas fala rápido quando entra nos seus turbilhões de ideias, sem se exaltar muito ou mudar sua postura.

O fotojornalista compartilhou sua opinião sobre os acontecimentos atuais no Chile. Comparou a violência policial de hoje com a violência que registrou em seu livro. Arrojado, Jorge, que foi parte de um partido socialista clandestino em sua juventude e mais tarde entreteria ideias que ele considera anarquistas, critica a extrema-esquerda enquanto acusa a direita de ser vende-patrias. Sua maior preocupação hoje é com a formação de uma elite global e as instituições através das quais ela atua, tirando a liberdade de povos como o chileno.

Seu pensamento nos oferece a janela para uma reflexão importante: seria o Chile a partir dos anos 70 mais do que o “laboratório do neoliberalismo”, mas um laboratório das formas mais novas e atualizadas de uma ofensiva colonial? Em que medida a soberania dos povos e as democracias são tomadas a partir da corrosão da soberania nacional?

Jorge também se refere à controversa compra de terras por estrangeiros no sul do Chile, na região da Patagônia, o que alguns especulam seria parte de uma nova onda de colonização no caso de um debacle na Palestina ou a articulação geoestratégica junto com o Reino Unido. Além disso, há um reconhecido interesse estratégico da atuação israelense na região devido às colônias palestinas e libanesas – no caso do Chile, habita o maior grupo de palestinos fora do Oriente Médio, 500 mil habitantes. Em 2018, o parlamento chileno foi palco da criação de uma legislação para boicotar produtos e negócios ligados aos assentamentos armados de israelenses na Palestina.

A questão que paira sobre o Chile lembra algumas de nossas preocupações no Brasil: a venda de terras e recursos para estrangeiros pode trazer neo-filibusteiros, aventuras neocoloniais ou desmembramentos? Quando se vende um país, pode se comprometer toda sua soberania?

Jorge Villalobos oferece algumas respostas e fala sobre sua vida na entrevista a seguir, feita com o auxílio da companheira de comitê editorial, Mariana Nogueira.

Você já vive no Brasil há um bom tempo, está lançando seu livro aqui. Pode nos falar dessa sua relação com o país, qual é a sua história com o Brasil?

Vivi muito tempo na Espanha, em um exílio político nos anos 80, quando era estudante de jornalismo. Vivi mais de 20 anos na Espanha. Por razões profissionais vim fazer as Diretas Já com Tancredo Neves e conheci uma moça que agora é minha mulher; decidimos depois de 18 anos morar aqui no Brasil, está é a razão de uma estadia definitiva aqui. Isso resumindo, para que não seja tão intenso!

Você era um fotojornalista e publicou o seu livro Imagens Proibidas, que cobre o período de um conjunto de manifestações da fase final do regime de Pinochet. O que te levou a publicá-lo?

Fundamentalmente, por ser um documento histórico. Um documento histórico no qual as 130 fotos que aparecem foram tiradas no últimos período da ditadura militar, entre 84 e 86, por aí. Então, amigos meus jornalistas me aconselharam que eu deveria publicar este livro, sobretudo para as gerações chilenas e gente que viveu a ditadura e quer testemunhos gráficos. Através dessas fotos eles seguem lutando e exigindo justiça em diferentes campos. Como são fotos aparece gente – gente que ainda está viva ou já morreu, que antigamente eram estudantes de faculdades ou do secundário, e agora são congressistas, gente da política; tudo se aglutinou na fotografia, o destino fez que depois de tanto tempo essas pessoas que seguem aí queiram voltar à fotografia.

Algumas das pessoas em sua fotografia você chegou a ter notícia delas não terem sobrevivido para ver a queda de Pinochet?

(Foto: Jorge Villalobos Briones / Cortesia)

Sei de várias que morreram nesse mesmo tempo. Houve um jornalista muito conhecido que era Pepe Carrasco, que trabalhava na famosa Revista Análisis – na qual eu trabalhei como fotógrafo, [era] estudante – e ele era dirigente do MIR, o Movimiento de Izquierda Revolucionario. Nesse tempo [o movimento] era totalmente clandestino. Ele morreu um mês depois de uma foto que eu tirei dele, que está aqui no livro. O mataram, os militares o assassinaram. Por outro lado há uma dirigente importantíssima, Gladys Marin, do Partido Comunista, que morreu de câncer pouco tempo depois.

Também aparece gente que agora é famosa. É um compêndio de fotos que se você vai lendo a história do período, você vai entendendo as fotos. Acontece que eu não quis colocar texto, achei um pouco redundante, sabe? No sentido de que agora com toda tecnologia você pode ver as fotos e ir ao Google, ver a história, investigar um livro, daí você pega a imagem e vai ligá-la a um texto.

Realmente, você não usa o recurso do texto descritivo, a não ser a imagem, mas colocou alguns trechos de textos com uma certa conotação poética, trechos de Sílvio Rodríguez. Qual razão dessa escolha? Cada capítulo inicia com um trecho de uma música ou escrito de Silvio.

Olha, por um lado foi uma questão bem pessoal, no sentido de que eu gosto muito de Silvio Rodríguez, Silvio Rodríguez foi muito importante para nós, para a juventude, os veinte-aneros [jovens de vinte anos] deste tempo, minha geração: Sílvio Rodríguez era muito importante. Sílvio Rodríguez era mais perigoso do que ter uma arma no Chile quando era a ditadura militar. Se te viam com uma fita cassete – antigamente era o cassete –  se a polícia te pegava uma fita cassete do Sílvio Rodríguez, você ia preso e ainda quebravam sua casa. Era tremendamente subversivo, Silvio Rodríguez para o Chile nesse tempo. E nós tinhamos a saída musical, sabe? Artística. Silvio Rodríguez como um cigarro.

E por outro lado, as canções, os trechos de música que estão neste livro, encaixam perfeitamente com cada grupo de fotografia. Se você começa a ver as fotografias e depois lê no final da página parte da música de Sílvio, você vai ver que está interagindo com o tipo de foto.

Existe uma grande discussão no trabalho jornalístico e no trabalho do fotógrafo, sobre ser arte ou não – ainda mais o foto-jornalista, que é como se ele estivesse em uma linha de produção de informação. Você falou do papel de Silvio Rodriguez na juventude daquele tempo, do papel arte como um elemento subversivo; em uma das fotografias você tem um dos murais da Brigada Ramona Parra; você falou que entende seu trabalho como registro histórico, mas você entende que seu trabalho tem também um sentido artístico?

Eu sou fundamentalmente jornalista, eu sou comunicador. Ou seja, sempre vi a fotografia como um meio de comunicação. Por isso me dediquei à fotografia. Nunca vi arte e inclusive se você me manda tirar uma foto mais artística eu não consigo, pois eu sou plenamente informativo. O que eu gosto é tomar o momento concreto, que esse momento diz mais do que mil palavras. Então minha vertente é a comunicação.

Agora, por outro lado, existe a fotografia tipo arte que é maravilhosa. Eu admiro isso, porém sempre fui da comunicação. A comunicação através da fotografia.

Você mencionou um jornalista que foi morto, vinculado ao MIR, mas e você, chegou a ter problemas com a polícia durante as manifestações? Como era essa relação com a polícia, dentro e fora das manifestações?

Nesse tempo era perigoso, claro. Nós fotógrafos sempre falávamos o seguinte, e eu  concordo plenamente, que nos salvamos (pois alguns fotógrafos morreram no Chile, meus amigos, dois deles): você para sair intacto de uma manifestação ou de alguma luta pesada com a polícia… o requisito fundamental para um fotógrafo é ter medo. Se você tem medo, é como um escudo. Se você não tem medo, é muito provável que você seja atingindo. Agora, esse medo você deve controlá-lo… você sabe onde meter-se… e há também um fator importante de sorte. Eu passei por várias circunstâncias de perigo e eu me salvei por sorte, realmente, questão de sorte.

Me lembro uma vez que os militares pegaram a mim e uma menina, companheira na madrugada tirando fotos em uma poblacion marginal, cheia de militares, e nesse tempo os militares entravam e matavam gente a rodo. Ainda tirando fotos, nos pegaram e nos botaram na parede. Na parede diziam: “rezem, rezem que é sua última noite nessa vida”, seriamente, e me colocaram a arma na nuca. Eu realmente comecei a me lembrar de toda minha vida, mas a coisa é que ficamos uma hora e meia lá sentindo o rifle na nuca, a verdade é que os caras tinham ido embora depois de uns cinco minutos. Só que nós ainda sentíamos, até que chegou um morador e disse: olha, os caras já foram embora faz tempo. A minha companheira desmaiou.

Fora isso, também tenho cicatrizes de manifestações, porrada, máquinas quebradas, mas isso é mal do ofício.

Você narra uma relação emocional com ofício: o medo, o sentimento da arma na nuca. Vejo no livro, já que tive o privilégio de vê-lo ainda antes, há um sem-número de fotografias de manifestações de massa, fotografias de repressão, policiais agarrando manifestantes, militares fazendo cordões de isolamento, canhão de água… e hoje essas cenas tem reaparecido, naquilo que vem sendo mostrado das manifestações de hoje, contra o presidente Piñera – as que marcaram outubro. Como você tem acompanhado isso?

Vou falar bem resumido, pois o que está acontecendo no Chile é muito interessante. Chile é o experimento da extrema-direita internacional, o experimento de realizar uma nova Israel na América Latina. Concretamente. Em que sentido? Isto começou quando derrocaram Allende. Quando derrocaram Allende e colocaram Pinochet, isso foi um plano que já estava estabelecido. A ditadura de Pinochet foi única em qual sentido? No sentido que Pinochet não foi tanto o que roubou, o que qualquer ditador faz; rouba todo o país e depois fica milionário, os militares ficam milionários também, etc. Depois sai do poder e acabou, volta a democracia, fim. Não, no Chile aconteceu outra coisa, Pinochet não ficou “milionário, milionário”, não era esse o foco, o plano. O plano era: vender tudo, vender o Chile. Ele vendeu o Chile, depois quem continuou foi Bachelet, Ricardo Lago e toda a pseudo-democracia que veio depois de Pinochet, que se encarregou de colocar o lacre definitivo no processo ao qual o Chile foi vendido às grandes empresas internacionais, a globalistas, como queira chamar.

Esses caras são donos do Chile agora. Planejam estabelecer Israel no sul do Chile, como fazem agora, porque Israel pode desaparecer, com a guerra, os caras podem fugir como ratos. O sul do Chile é estrategicamente fantástico, colado à Argentina, rico em minerais, tem tudo. Piñera, que poderia ter feito algo pelo país, não fez nada e se rendeu ao império, aos globalistas – a ele não interessa absolutamente nada.

As manifestações são coisa paralela. A juventude está protestando, sim, pois aproveitou a oportunidade, a faísca, os 30 pesos na passagem do metrô, mas o problema de fundo não são os 30 pesos, mas 30 anos de sofrimento e pobreza extrema, 30 anos de estar ferrado. Todo mundo através das redes sociais se mobilizou. Disso se aproveita também a extrema esquerda, que estão fazendo uma bagunça terrível, saqueando, queimando – isso é uma extrema-esquerda, uma esquerda que nunca foi nacionalista ou patriótica. Para mim, a nação deles é sua bandeira, seu grupo, não é o país em si. Por outro lado, os nacionalistas, que poderiam fazer algo, tão pouco tem a capacidade no Chile… o que defende a direita nacionalista? Bandeiras, títulos, coisas – idolatrar símbolos, dinheiro e poder.

O que creio que deveria se estabelecer no Chile agora é um patriotismo. Não um sinônimo de direita. Estamos passando por novos episódios, nova concepção do que é política; a esquerda e a direita está obsoleta, os políticos estão obsoletos, agora vem um sentido que é o patriotismo, que quando você tem esse sentimento de querer o seu país, automaticamente você está lutando contra os globalistas – os que querem governar o planeta. Quando cada país tem seu sentido de amor pela pátria – nada de nacionalismo, nem de ultra-direita – de defender sua cultura, sua gente, defender tudo. Dentro desse contexto patriótico você organiza seu país, democraticamente, e creio que isso vai acontecer no Chile.

Esse grupo que tem a cabeça clara do que é a política atual deve conseguir que a juventude na rua se dê conta disso. O Chile vai mudar e o Chile vai ser um alicerce para toda América Latina. Não sei se expliquei as ideias de uma forma clara.

Me parece que você traz um aspecto geopolítico quando fala de Israel, já que existe vínculos de intervenção na América do Sul – Bolsonaro, Macri, – e agora no Chile. Você fez essa relação com o aspecto internacional. Você acha que as manifestações vão num sentido contrário? O que pode acontecer? Você falou de um sentido patriótico, mas você acha que pode sair algo que não é positivo?

Neste momento, Chile é um caos revolucionário absoluto. Não há cabeças na oposição com peso, com apoio popular. Os políticos estão todos desacreditados, já não acreditam nos políticos e políticos alternativos não há. Então o povo se apoderou do país e nesse momento Piñera tem seus dias contados como presidente – seu partido já se quebrou, teve a oportunidade e não a usou. Vinha com uma conversa patriótica, e não fez nada, então acabou para ele.

O que vai acontecer? O Chile tem que optar por uma Assembleia Constituinte, o Chile precisa formar a Assembleia Constituinte para que o povo comece a entender o que realmente está acontecendo – do Chile vendido, do sul de Chile, tudo isso que falei – que o povo se dê conta e possamos nos organizar, através de todos os partidos políticos, mas conversando. Uma conversa e a direita vai ter que dar muito dela, vai ter que dizer “olha, precisamos ser menos ambiciosos”, abrir o jogo… essa direita vai ter que comunicar aos donos, aos grandes empresários, que eles vão ter que dar mais trabalho e dividir mais, senão o Chile vai ser o caos.

E os militares como ficam? Você que viveu no velho regime militar, cresceu nele, se enfrentou com ele, agora revisitou através de suas fotos…. Você deve ter outras memórias olhando para as manifestações de agora, não? A despeito desses sentimentos, cada vez mais os militares aparecem como “fiadores da política” na América do Sul.

Creio que os militares não querem saber. Não querem problema. Um dos generais mais importantes do Chile desmentiu Piñera quando o presidente disse que “estamos em guerra” – o povo respondeu com os cartazes “não estamos em guerra, queremos paz”. O general veio a público e disse: “eu não estou em guerra com ninguém, estou tranquilo”. Não é uma questão pessoal, por trás dessas palavras ele está dando uma informação ao povo: fiquem tranquilos que não estamos nem aí.

Então os militares não vão se meter a fazer golpe de estado ou ações ridículas, como está tratando de fazer Bolsonaro aqui – o filho dele falando de intervenção militar, é ridículo. E os militares aqui também não devem aceitar, acho que preferem matar o Bolsonaro do que fazer isso, não pode ser.

E quanto às memórias, vê alguma semelhança entre as manifestações do passado e do presente?

Uma coisa: os militares estão tranquilos. Agora, os carabineros, a polícia, a polícia é violenta. A polícia chilena é nazista. Ele são maus: a polícia chilena é composta por bipolares, caras doentes da cabeça. A maioria são sádicos. Batem porque gostam de bater. Gostam mesmo. Estupraram onze meninas! Onze meninas violadas! Pelos carabineros, te pegam presa, te levam no comissariado e te violam, em plena democracia chilena. Em um menino gay enfiaram um bastão policial. São sádicos, brutos; grupos pequenos, porém sádicos das forças especiais. O tipo de treinamento chileno que vem de Israel, do Mossad, é algo nível de intervenção MK Ultra, mudam a cabeça dos homens e os induzem a fazer mal, é assim mesmo. São sádicos, sempre foram.

Sinceramente, eu vejo as imagens das manifestações e mesmo que me pagassem um milhão eu não tirava foto!(risos) Quê isso!

Outra diferença é que vejo a juventude aqui no meu livro e a juventude hoje; é que a juventude de hoje não tem medo. Isso é importantíssimo. A juventude agora não tem medo da polícia, André. Naquele tempo a juventude tinha muito medo, saiam na rua igual. Esses caras agora não têm medo. Você vê estudantes secundários, 16 e 17 anos, que não têm medo…. e os militares dando porrada, 14 mortos…. as coisas mudaram, e muito.

Você fez uma comparação com Bolsonaro. Você já vive no Brasil há um tempo. Viu a eleição de Bolsonaro, viu os governos anteriores também. O que pensa sobre Bolsonaro se apresentando como um radical de direita, um militarista, chamando Chile de modelo, elogiando o próprio Pinochet, além de ter ofendido Bachelet?

Bolsonaro é um caso a parte – um caso a parte, mas é perigoso, esse é que o problema. Ele é louco, mas é perigoso, porque tem gente que acredita nele. Bolsonaro não saiu por uma questão de força maior…. veja, eu acredito que de 20 anos para cá nenhum governo é escolhido democraticamente, tudo é manipulado, até os Estados Unidos, quando Bush foi eleito.

Bolsonaro tem os dias contados, acredito eu. Atrás de Bolsonaro, está o cabal globalista. E os globalistas estão em uma briga com os Estados Unidos – não com o cabal norte-americano, não com os globalistas americanos que ainda estão atirando sua última bala pois estão perdendo. Bolsonaro está bravo é com a linha patriota dos Estados Unidos  – Trump é “Estados Unidos primeiro, os demais depois”. Pode parecer muito fascitoide, mas nesses novos tempos isso é positivo, no meu ponto de vista. Quebra a globalização, programa de um governo mundial, de unificação do controle.

E o que concerne ao Brasil? Afinal Bolsonaro também falou que estamos em uma guerra muito antes de Piñera. Agora se refere ao Chile para dizer que já estão preparando para uma possível intervenção militar, uma escalada repressiva: “se virar o Chile vamos para o pau”.

Eles sabem. Não é porque são muito inteligentes, mas já contaram para ele: há uma avalanche da ultra-esquerda que vai tratar de desestabilizar o neoliberalismo. A ultra-esquerda internacional tenta sua última oportunidade. Começaram no Chile pelo Chile ser o modelo.

Ele sabe, mas acho que o Brasil não vai ter o mesmo problema [do Chile]. Creio que o Brasil vai ter esse problema daqui 20 anos, para mais. Minha geração e a sua, somos a ponte. Quem vai lutar diretamente, como agora no Chile, é teu filho. Vocês podem preparar o campo para o que vai vir depois, daqui uns 20 anos.

O Brasil está adormecido. Quando começar a funcionar essa reforma da previdência, quando entrar em prática, passar uns 15 anos, aí a coisa vai começar. Porque começou no Chile agora por isso.

Um jornalista que ganha por exemplo oito mil reais por mês, é de classe média. Outra coisa que o Chile é muito hipócrita: cremos que temos classe média.

Você tocou nesse ponto, você falou do Chile ser modelo, Bolsonaro e várias outras figuras sempre se referiram ao Chile como modelo, na verdade, desde os anos 80 já vendiam o Chile como modelo. E você viu os anos 80…. E mesmo agora chamam de “Suíça sul-americana”.

[risos] É tudo mentira. Tudo mentira. A classe média chilena é empobrecida. Sabe o que acontece? Aqui [no Brasil] há mais classe média, e a classe média chilena aqui seria uma classe média inferior, a classe média no Chile vive na periferia. Por exemplo: eu moro em um bairro de classe média aqui no Brasil, em São Paulo, na Lapa. Lapa é um bairro de classe média, gente profissional que trabalha ou o cara que tem loja pequena, classe média, tem seu carro, casa própria, etc. No Chile não. É um trabalhador, peão, que tem sua casa pequena e seu carro, mas está totalmente endividado. Cada chileno está endividado, cada chileno não é livre, pois está endividado ele e o filho dele, com uma dívida secular. Cada estudante que estuda na faculdade está endividado por 20 anos no mínimo. Então a classe média não existe no Chile, somos todos pobres, ou são ricos. O 1% maravilhosamente rico e depois o povo, que é um povo pobre, todo endividado.

Essa gente tem um carro que talvez eu nunca possa comprar, e que você nunca vai comprar, mas ele toma uma dívida por esse carro que dura até os 70 anos. Os caras meteram na cabeça que democracia é consumir. As pessoas são reduzidas ao consumismo.

Encerrando, você gostaria de passar alguma mensagem ou fazer uma última consideração?

A única coisa que eu quero é que meu país, o Chile… eu gostaria que a juventude siga como está para ajudar os que são velhos agora, porque os velhos agora estão passando um mal muito grande. 250 reais uma pensão mensal a um senhor que trabalhou toda a vida. Tenho fé no futuro dessa juventude chilena que está lutando agora.

E, sobre o Brasil, temos que esperar, não sou politólogo nem nada disso, mas o que estou entendendo é que temos que esperar, porque o Brasil ainda tem mais tempo.

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