Ucrânia: Dez pontos de discussão para pessoas racionais

por Gary Leupp* | Counterpunch - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Shealah Craighead / Casa Branca)

1. A Ucrânia é a maior nação da Europa, com uma fronteira terrestre de 2,2 mil km com a Rússia. O governo dos EUA, sob administrações desde Bill Clinton, tentou integrar a Ucrânia na aliança militar anti-russa da OTAN.

2. A OTAN é um artefato do início da Guerra Fria e da Doutrina Truman, que prometia usar todos os meios necessários para impedir a propagação do comunismo. Fundada em 1949, quando os EUA governavam a maior parte do mundo, incluía a maioria dos países da Europa, exceto os libertados do nazismo pelos soviéticos, como a Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Romênia, Iugoslávia e Albânia, onde partisans (guerrilheiros) antifascistas tomaram o poder.

3. Após a dissolução da URSS e do Pacto de Varsóvia (uma aliança de defesa formada em 1956 após a inclusão da Alemanha Ocidental na OTAN), em 1990, e a completa restauração do capitalismo nos países da antiga União Soviética, não havia um conflito ideológico leste-oeste ou outra justificativa para manter a aliança da OTAN. Assim, a aliança redefiniu gradualmente sua missão para “manter a estabilidade” na era pós-soviética, na esteira de conflitos étnicos em toda a Eurásia e “contra-terrorismo”. Mais tarde foram acrescentadas missões “humanitárias”.

4. Em 1989, o presidente George HW Bush prometeu ao secretário-geral soviético Mikhail Gorbachev que, após a reunificação da Alemanha com o consentimento de Moscou, a OTAN não “se moveria nem um centímetro” para o leste. Mas enquanto Bill Clinton era presidente em 1999, Polônia, Hungria e Tchecoslováquia se uniram à aliança. Sob o filho de Bush, em 2004, a lista cresceu: Estônia, Lituânia, Letônia, Bulgária, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. A OTAN agora fazia fronteira com a própria Rússia. Obama acrescentou a Albânia e a Croácia. Sob Trump, Montenegro ingressou e a entrada da Macedônia do Norte é preparada. Obviamente, os EUA estão tentando incorporar todas as nações europeias possíveis em uma coalizão anti-russa para uso futuro.

5. As forças da OTAN nunca foram destacadas contra as forças soviéticas ou do Pacto de Varsóvia durante a Guerra Fria. Mas Clinton (incitado pela belicosa Hillary) as usou para derrubar posições sérvias na Bósnia nos anos 90 e bombardear Belgrado durante a guerra de 1999 para separar o Kosovo da Sérvia e convertê-lo em uma base da OTAN. (Nos dois casos, Clinton alegou motivos “humanitários”.) Eles também foram usados no Afeganistão e na Líbia, longe do Atlântico Norte, sob direção dos EUA, para derrubar o Taliban, produzindo assim uma insurgência contínua e destruir o estado moderno da Líbia de Gadhafi. Eles não são uma força do bem no mundo.

6. A Rússia respondeu com raiva, mas com cautela, à expansão incessante e inexplicável da OTAN. Os três momentos cruciais foram em 1999, quando as tropas russas correram para o aeroporto de Pristina, no Kosovo, para preservar algum orgulho nacional após a expansão da OTAN e a humilhação dos sérvios pelos EUA; em 2008, quando a Rússia invadiu brevemente a Geórgia para puni-la por ataques à Ossetia do Sul (e sua recém anunciada busca pela adesão à OTAN); e em 2014, quando em resposta ao golpe em Kiev, apoiado pelos EUA, Moscou se moveu para garantir o controle contínuo da Península da Crimeia. Obviamente, essas foram medidas para desencorajar a expansão da OTAN.

7. Para estrategistas e apoiadores da OTAN, a Ucrânia é o prêmio máximo. (Depois disso, apenas a Bielorrússia e a Geórgia precisam ser absorvidas.) O país ainda está programado para ser membro da OTAN, este ano; o secretário geral da aliança, Jens Soltenberg, reiterou esse compromisso em Kiev. Continua a ser a posição dos EUA que a Ucrânia e a Geórgia devem se juntar à OTAN. O governo alemão, por outro lado, muito mais sensível às questões históricas envolvidas, observa que a filiação ucraniana ou georgiana “cruzaria uma linha vermelha” com a Rússia. O povo ucraniano está dividido sobre o assunto. É bom se os alemães e outros possam bloquear a expansão do bloco.

8. De fevereiro de 2010 a fevereiro de 2014, a Ucrânia foi chefiada por um presidente eleito democraticamente, Viktor Yanukovych, que se opôs à adesão à OTAN. Ele foi eleito apesar da intromissão rotineira nas eleições por parte dos EUA. Ele foi retratado na imprensa dos EUA como “pró-russo” e se opondo à adesão da Ucrânia à União Europeia. Na verdade, ele buscou entrar na UE, usando seu assessor norte-americano Paul Manafort para esse fim, e desistiu de um acordo depois de perceber os custos políticos do programa de austeridade necessário. Ele era “pró-russo” por ser etnicamente russo em um país multiétnico e, enquanto estava no poder, estava disposto a manter boas relações com o vizinho. Ele foi alvejado pela nomeada de Hillary Clinton, Victoria Nuland (esposa do guerrista neoconservador Robert Kagan), e acusado de negar as “aspirações europeias” do povo ucraniano – ou seja, ele estava resistindo a uma associação com a UE (e a OTAN).

Ele foi de fato derrubado, sucedido por um novo regime que provocou revolta entre os russos étnicos no leste desde o início. A tentativa dos EUA de instalar um regime que pudesse se alinhar rapidamente com o Ocidente, juntando-se à UE e à OTAN com o pacote habitual, resultou em conflito civil e na reanexação russa da Crimeia. Finalmente, o esforço da OTAN para dominar a Eurásia encontrou um problema quando os russos disseram: de maneira alguma lhe concederemos o porto base da frota do Mar Negro, pertencente ao país desde a época da imperatriz Catherine, em 1785.

9. Após o golpe de 18 e 21 de fevereiro de 2014, Arseniy Yatsenyuk, escolhido a dedo por Nuland, tornou-se primeiro-ministro. A Rússia se recusou a reconhecer o governo que chefiava mancomunado com apoiadores da OTAN. Somente quando a Ucrânia realizou uma eleição presidencial e um candidato aceitável para Moscou, Petro Poroshenko, foi eleito, os russos se envolveram ativamente na diplomacia com Kiev. O resultado são os Acordos de Minsk e um processo contínuo de negociações entre Kiev, os separatistas do Donbass, Moscou, Alemanha e França. A questão-chave da autonomia do Donbass como pré-condição para a paz encontrou oposição no parlamento, mas desde a eleição de Volodomir Zelensky, houve movimentos concretos em direção à paz. Não que tenha havido muitos combates pesados desde 2015. A Rússia e a Ucrânia estão trabalhando com a Europa para encontrar uma solução. Seria bom para os EUA evitar interferências.

10. Após o golpe de fevereiro de 2014 (descrito na imprensa ocidental como uma “revolução” que derrubava um líder “pró-russo”), a Ucrânia ingressou informalmente no campo imperialista dos EUA. De fato, não há aliança formal, mas a Ucrânia agora é retratada como uma aliada, na verdade uma que precisa desesperadamente de armas dos EUA para resistir à invasão russa. Mas não houve invasão russa real, apenas muita publicidade; hoje em dia, os chefes de conversa se referem às forças “apoiadas pela Rússia” na Ucrânia, referindo-se a ucranianos etnicamente russos; eles exploram a ignorância geral das pessoas neste país sobre história e geografia e mesclam os russos com os russos-ucranianos (ou, às vezes, qualquer eslavo). E a anexação da Crimeia foi feita sem sangue, e popularmente apoiada. É improvável que a provisão de 380 milhões de dólares em mísseis anti-tanque e outras armas ao governo de Kiev contribua para a solução do problema do Donbass.

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Em meio a toda a atenção aos detalhes, telefonemas e transcrições e visitas secretas, os que pressionam pelo impeachment de Trump (por motivos de suborno) nunca discutem o contexto desse pequeno escândalo. O fato de a Ucrânia ter sido irremediavelmente corrupta desde que se tornou independente, com a dissolução da URSS em 1991; o fato de os EUA terem subscrito o golpe de 2014; o fato do filho de Joe Biden, Hunter Biden, ter sido contratado pela Burisma Holdings dois meses após o golpe (enquanto seu pai era o homem de referência da equipe de Obama em corrupção na Ucrânia) e serviu até abril de 2019; e acima de tudo, o fato de os EUA quererem colocar a Ucrânia na OTAN, cercar a Rússia europeia e tomar a Crimeia para si.

Tentar adquirir sujeira dos Bidens numa queda de braço com um líder estrangeiro, ameaçando um corte no suprimento de armas, é ruim, por definição. Mas fornecer armas para alimentar um conflito desencadeado pela interferência dos EUA na Ucrânia é pior. Se os EUA não tivessem gasto 5 bilhões de dólares (dados da Nuland) para “apoiar as aspirações europeias do povo ucraniano”; se John McCain e Lesley Graham não tivessem distribuído biscoitos com Nuland durante o Euromaidan; se a OTAN não tivesse declarado sua intenção de incluir Kiev na aliança, o leste ficaria quieto como sempre. O golpe e a rescisão imediata da lei que respeita os direitos linguísticos dos falantes de russo provocaram rebelião.

O escândalo na Ucrânia poderia ser uma oportunidade de aprender: é para cá que a agressão dos EUA leva. Você provoca a Rússia repetidamente, a cada nova admissão na OTAN. Em algum momento, a Rússia precisa agir. Ela não pode permitir que um país do tamanho do Texas em seu flanco sul se junte a uma aliança militar direcionada a si mesma. Especialmente, não pode aceitar a perda de controle da Península da Crimeia.

O fato de Nuland, nos dias anteriores ao golpe planejado, não prever essa reação russa é intrigante. Ela realmente achou que a conquista da Ucrânia seria tão fácil? Ou ela esperava os contra-movimentos russos, pensando que, uma vez que a Ucrânia estivesse na OTAN, a Rússia teria que recuar? Essa ainda é a suposição dominante no Departamento de Estado?

Agora, um presidente com zero preocupação com a Ucrânia e seu povo é acusado de uma relutância chocante em entregar armas a um país invadido pela Rússia, “nosso maior adversário”, segundo os âncoras da TV a cabo. Que ele sofra o impeachment, é claro! Mas se ele cair, substituído pela liderança mais inclinada a provocar a Rússia pela expansão da OTAN, o mundo será mais perigoso do que está agora sob Trump.

*Gary Leupp é professor de História na Universidade Tufts e ocupa um cargo secundário no Departamento de Religião.