Sob pressão dos EUA, empresas de mídia social suspendem contas venezuelanas, iranianas e sírias

por Ben Norton* | The Grayzone Project - Tradução de Gabriel Deslandes

1
2343
(Foto: Joseph Eddins / U.S Air Force)

O governo Donald Trump está intensificando sua guerra de informação contra a Venezuela, Irã e Síria. E alistou plataformas de mídia social como armas em seu ataque a esses alvos principais de políticas de mudança de regime.

Nas duas primeiras semanas de janeiro, o Twitter suspendeu dezenas de contas geridas por pessoas de verdade e vivas – e não por robôs – na Venezuela, Irã e Síria. Os excluídos da plataforma incluíam chefes de Estado, várias instituições estatais, meios de comunicação e muitas pessoas comuns que sequer trabalham para seus respectivos governos.

Nos últimos dias, o líder supremo do Irã, o presidente da Síria e o líder da Assembleia Nacional da Venezuela tiveram suas contas no Twitter temporariamente suspensas ou restritas. Inúmeros meios de comunicação alternativos tiveram o mesmo destino.

Ao mesmo tempo, o Facebook e sua subsidiária Instagram anunciaram que iam censurar todo conteúdo considerado de apoio ao principal general do Irã, Qassem Soleimani, assassinado em um ato de guerra dos EUA no dia 3 de janeiro. A gigante de tecnologia disse que essa censura à liberdade de expressão de seus usuários seria feita para cumprir as sufocantes sanções de Washington ao Irã.

Essa repressão draconiana às mídias sociais ocorre enquanto o governo Trump está expandindo agressivamente sua guerra econômica e diplomática contra esses países independentes, na esperança de finalmente derrubar seus governos soberanos.

The Grayzone conversou com alguns dos ativistas civis venezuelanos e iranianos que não trabalham para seus governos, mas tiveram suas contas no Twitter suspensas. Todos afirmaram não ter recebido nenhum aviso, notificação ou mesmo uma explicação do motivo pelo qual foram bloqueados da plataforma.

Como The Grayzone reportou anteriormente, as empresas de “Big Tech” estão intimamente ligadas ao Estado norte-americano e cada vez mais atuam como uma extensão dele, eliminando as contas de funcionários de governos estrangeiros que são alvo de uma mudança de regime por parte de Washington, incluindo China, Rússia, Cuba, Palestina, etc. No início de 2020, essa guerra nas mídias sociais aumentou dramaticamente.

Twitter elimina contas do governo e da mídia venezuelanas

O Twitter suspendeu várias vezes centenas de contas geridas por venezuelanos, em uma série de expurgos direcionados não só a perfis vinculados ao governo, mas também daqueles administrados por ativistas civis do movimento chavista.

A gigante das mídias sociais fez isso ao mesmo tempo em que verifica e promove as contas de ativistas da oposição e golpistas apoiados pelos EUA, como Juan Guaidó e seu regime-sombra, que se enfraquece aceleradamente.

The Grayzone já havia noticiado como o Twitter conta com organizações financiadas pelo governo dos EUA e seus aliados europeus para reprimir a mídia estatal estrangeira e suspender contas que desafiam as narrativas de Washington.

Em 7 de janeiro, essa corporação de Big Tech realizou mais uma rodada de suspensões. E mesmo quando The Grayzone entrou em contato com a empresa solicitando uma explicação, ela não apresentou um motivo claro.

Nesse último expurgo, o Twitter suspendeu as contas oficiais da Guarda Nacional da Venezuela, Marinha, Força Aérea, Comando Estratégico, Ministério do Petróleo, Ministério dos Serviços Penitenciários, Comissão Nacional de Tecnologia da Informação e Fundação Instituto de Engenharia.

O escritório de governo do Distrito da Capital, o escritório do vice-presidente da Economia e a assessoria de imprensa das Forças Armadas também tiveram suas contas removidas pelo Twitter. Juntas, essas contas bloqueadas tinham milhões de seguidores. As contas do Banco Central da Venezuela e do Ministério de Economia e Finanças foram temporariamente retiradas, mas depois restauradas.

Os meios de comunicação venezuelanos que desafiam as narrativas de direita promovidas pelas principais redes de mídia corporativa e por Washington também foram censurados. O Twitter suspendeu as contas da principal estação de rádio La Radio del Sur; o popular site de notícias Red Radio Venezuela; e Ciudad CCS, o jornal do município de Caracas, capital do país.

O Twitter, em inúmeras ocasiões, suspendeu as contas do presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro, ainda que, em resposta à indignação generalizada, mais tarde as tenha trazido de volta.

Porém, nem todos os venezuelanos que foram removidos trabalham para instituições apoiadas pelo Estado. Ativistas chavistas populares como Patricia Dorta, que tinha quase 40 mil seguidores, e Yepfri Arguello tiveram suas contas suspensas, sem explicação, no expurgo de 7 de janeiro.

Funcionários do governo individuais também foram alvo. O Twitter suspendeu as contas de Víctor Clark, governador do estado de Falcón, do Partido Socialista Unido (PSUV); Jesús Suárez Chourio, ex-comandante geral das Forças Armadas da Venezuela; e Hugbel Roa, eleito deputado na Assembleia Nacional também pelo PSUV.

Kenny Ossa, renomada ativista que defende a educação tecnológica e a liberdade de acesso à informação e atua como presidente do Centro Nacional de Tecnologia da Informação da Venezuela, teve sua conta removida pela segunda vez.

O Twitter também suspendeu o perfil do proeminente ativista venezuelano Freddy Bernal, liderança do movimento chavista que ajuda a supervisionar o programa de alimentos do governo CLAP, que atende a cerca de sete milhões de famílias, que recebem caixas de comida por alguns centavos. Sua conta foi restaurada mais tarde.

Em sua série de expurgos, o Twitter quase sem exceção alvejou os venezuelanos do movimento chavista, que Washington vem tentando esmagar desde que chegou ao poder na eleição do presidente Hugo Chávez em 1998. Contudo, no que parece ser algo inédito, o Twitter chegou a perseguir em 7 de janeiro um grande político venezuelano da oposição de direita. A empresa de mídia social restringiu a conta do legislador venezuelano Luis Parra dias após ele ter sido eleito presidente da Assembleia Nacional. Diferentemente dos outros censurados pelo Twitter, Parra é do Primero Justicia, um partido de oposição apoiado pelo governo norte-americano.

A suspensão de um líder da direita venezuelana no exato momento em que sua eleição a presidente da Assembleia Nacional foi condenada por Washington está entre as evidências mais claras da influência do governo dos EUA sobre o Twitter.

The Grayzone conversou com Dhaymi Peña, que administra a estação La Radio del Sur, cuja conta foi suspensa pelo Twitter. Ela disse que o assessor de mídia que administra a conta recebeu uma notificação de que seu perfil havia sido removido e um link com as diretrizes do Twitter. “Mas não havia uma explicação direta. Apenas as regras gerais da plataforma”, disse Peña. “É difícil para todos nós”, comentou ela, observando que outros meios de comunicação venezuelanos também sofreram com essas suspensões.

Vanessa Gutiérrez, jornalista venezuelana que realiza um programa na Rádio del Sur, também teve sua conta pessoal no Twitter suspensa duas vezes. Ela disse a The Grayzone que seu perfil foi suspenso pela segunda vez em outubro de 2019, mas, depois de inúmeros apelos à empresa, foi restaurado depois.

“Houve um ataque maciço contra contas administradas pelo governo e pela mídia”, disse Gutiérrez. “Parece que eles estavam tentando fazer um teste. Quando suspendem as contas, sempre direcionam você para as regras. Só que não apresentam as provas da minha ‘infração’”, explicou ela. A jornalista venezuelana acrescentou: “Não há desculpa. Eles simplesmente nos silenciam”.

Twitter suspende meios de comunicação iranianos e de ativistas civis

O Irã também enfrentou uma onda de censura nas mídias sociais exatamente ao mesmo tempo em que era atacado pelo governo dos EUA. Autoridades iranianas, meios de comunicação e ativistas foram censurados pelo Twitter em um expurgo acelerado este mês.

The Grayzone já havia documentado como o Google, o Facebook e o Twitter removeram as contas de mídia social de iranianos, incluindo jornalistas.

Após a execução pelo governo Trump do principal general do Irã, Soleimani, um claro ato de guerra, o Twitter passou a restringir a conta do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. No passado, o Twitter também suspendeu a conta em espanhol de Khamenei. E até baniu uma conta que postou vídeos e trechos de discursos do primeiro líder supremo iraniano, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Nos dias seguintes ao ataque aéreo que matou Soleimani, o Twitter também suspendeu a conta oficial da HispanTV, veículo de mídia em espanhol apoiado pelo governo iraniano e que é popular na América Latina. Todavia, após uma reação maciça, a empresa de Big Tech concordou em restaurar o perfil da HispanTV.

Além do HispanTV, o Twitter suspendeu a conta do meio de comunicação estatal iraniano Al-Alam News. Muitos iranianos individuais também foram alvo. Os usuários publicaram listas de dezenas de iranianos que tiveram suas contas removidas, incluindo muitos ativistas, jornalistas e pesquisadores de destaque que desafiaram a propaganda e a desinformação ocidentais contra seu país.

Após passar anos reunindo seguidores, Ahmad Nozoori, um pesquisador e analista político iraniano que não trabalha para seu governo, teve sua conta no Twitter suspensa.

“Eu não podia acreditar que eles fizeram isso”, disse Noroozi a The Grayzone. “Na verdade, eu quase não uso o Twitter diariamente. Meu uso esteve limitado para seguir alguns amigos e jornalistas.”

“O mundo precisa saber o que realmente está acontecendo”, afirmou Noroozi. “O secretário Pompeo acreditava que o povo do Irã e do Iraque aplaudiria o assassinato [de Soleimani]. A mídia americana estava promovendo o mesmo absurdo e descrevendo o martírio de Soleimani como uma coisa boa. Qual é o benefício do jornalismo cidadão se você é impedido de usar plataformas de mídia social para dizer a realidade?”

“Tentei atualizar meus seguidores no Twitter sobre a situação com as minhas reportagens como testemunha ocular – principalmente com minhas próprias imagens e vídeos – e as notícias da mídia iraniana sobre o ataque de retaliação à base americana”, explicou. “É claro que os controladores de mentes não gostaram que eu reportasse em inglês. Eles preferem manter todos na escuridão e espalhar sua narrativa unilateral.”

Twitter suspende a conta do presidente sírio

Não são apenas instituições governamentais, meios de comunicação e ativistas que foram alvo do expurgo do Twitter. A corporação de Big Tech já mirou em chefes de Estado estrangeiros que Washington tenta derrubar.

A Síria também foi alvo dessa repressão no Twitter. Em 4 de janeiro, o Twitter suspendeu temporariamente a conta oficial do presidente sírio Bashar al-Assad. Alguns dias depois, em meio à reação, ela restaurou a conta.

O Twitter suspendeu e removeu repetidamente o perfil do presidente da Síria, forçando o escritório presidencial do país a criar múltiplas contas (nenhuma das quais verificada pela empresa).

Assim como o Irã e a Venezuela, o governo sírio é reconhecido internacionalmente e atua nas Nações Unidas. Porém, os EUA e seus aliados se comprometeram a derrubar todos esses governos e substituí-los por facções de direita subservientes aos interesses ocidentais. E as empresas de mídia social seguiram obedientemente a agenda de Washington, dificultando a liberdade de expressão no processo.

The Grayzone entrou em contato com o Twitter com uma solicitação detalhada de respostas, comentando os principais pontos mencionados acima. Um porta-voz da empresa respondeu com apenas duas frases padronizadas: “O Twitter conta com sistemas proativos que visam detectar a manipulação em larga escala da plataforma como parte de nosso foco para melhorar a saúde das conversas presentes no serviço. Às vezes, isso pode resultar em falsos positivos, que podem ser contestados por qualquer proprietário de conta”.

Facebook e Instagram se unem ao Twitter como a Polícia do Pensamento do Império Norte-Americano

O Twitter não é, de forma alguma, a única empresa de mídia social que tem como alvo os inimigos oficiais do governo norte-americano. O Instagram e seu proprietário, o Facebook, também suspenderam centenas de contas venezuelanas, iranianas e sírias, citando expressamente as sanções do governo dos EUA como justificativa.

Dias depois de o Facebook censurar um vídeo do The Grayzone que reportava de fato os discursos do líder supremo iraniano Khamenei e do secretário-geral do Hezbollah libanês Hassan Nasrallah, a empresa de Big Tech tirou do ar o vídeo de um pastor cristão sírio que elogiou o general iraniano Soleimani por derrotar o ISIS e outros extremistas takfiri.

O pesquisador libanês Hadi Nasrallah traduziu e publicou um vídeo do reverendo cristão sírio Ibrahim Naseir, cuja igreja foi destruída pelos jihadistas salafistas – apoiados pelo Ocidente – que ocuparam a cidade de Aleppo.

Em seu post, Hadi Nasrallah escreveu “Q*ssem S*leim*ni”, com medo de que o uso do nome completo do general morto desencadeasse o algoritmo do Facebook. Contudo, ainda assim, seu vídeo e postagem foram excluídos, mostrando como a empresa de mídia social está sufocando o discurso de pessoas a milhares de quilômetros de distância, no Líbano.

Essas medidas cada vez mais autoritárias demonstram como as grandes empresas de tecnologia agem como um braço do governo norte-americano e de sua política externa.

Em 2018, quando o Facebook removeu as páginas de meios de comunicação alternativos que desafiavam as narrativas de Washington, Jamie Fly, um operador neoconservador apoiado pelo governo dos EUA, prometeu que aquele era “apenas o começo”. Logo depois, Fly se tornou presidente e CEO do braço de propaganda do governo norte-americano Rádio Europa Livre / Rádio Liberdade (RFE / RL).

A promessa de Fly se tornou realidade nas primeiras semanas de 2020, quando o aparelho de inteligência militar dos EUA pressionou as gigantes da mídia social a suprimirem os pontos de vista de milhões de pessoas em todo o mundo, especialmente as que vivem em Estados classificados como inimigos.

Trata-se de censura governamental por procuração, demolindo direitos civis para ocultar do público fatos inconvenientes.

* Ben Norton é jornalista, escritor e cineasta. Ele é o editor-assistente do The Grayzone e o produtor do podcast Moderate Rebels, que co-organiza com o editor Max Blumenthal.

[rev_slider alias=”livros”][/rev_slider]

1 COMENTÁRIO