Leonardo Péricles: “Unidade Popular nasceu para desenvolver formas do povo mandar”

por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Rafael Freire /A Verdade)

Inspirado na coalizão de mesmo nome que em 1970 levou à presidência do Chile o socialista Salvador Allende, a Unidade Popular (UP) é o 33º partido do Brasil com registro eleitoral. Ele foi conquistado em dezembro do ano passado, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após quase um ano de processo, oficializou a legenda.

À frente do partido está o mineiro Leonardo Péricles, de 38 anos. Nascido na periferia de Belo Horizonte, filho de um operário com uma dona de casa, Leonardo deixa claro que vem do seio do mesmo povo sobre o qual tanto fala. “Tive o básico, nunca tive berço de ouro, não. Sempre tive que correr atrás. Fui estudar, bem cedo fui para o SENAI, com 15 anos, para ser mecânico. Foi uma experiência boa pra caramba. Trabalhei na área um tempão, depois fui fazer curso técnico de eletrônica, mas nessa área não cheguei a trabalhar porque desenvolvi outros caminhos e fui conhecendo o movimento popular.”

Os “outros caminhos” nasceram quando começou a tomar parte no movimento estudantil secundarista. Foi um dos fundadores da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande Belo Horizonte (AMES), e com orgulho conta ter feito parte das mobilizações que conseguiram o direito ao passe estudantil na capital. “Era a última das grandes capitais que não tinha nenhum benefício para os estudantes no transporte. Numa época, entre 2009 e 2011, em que já se dizia que o movimento estudantil não existia como antes. E a gente conseguiu mobilizar muita gente nas ruas”, conta.

Dali, entrou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas não concluiu o curso. “Por vários problemas, inclusive militando, organizando luta. Numa ocupamos o bandejão, e acabei sendo expulso da universidade. Logo depois, achei que esse não era mais meu caminho, e fui chamado para reorganizar o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).”

É no MLB que o atual presidente da Unidade Popular se destacou como liderança. “Participei ativamente desse processo, em 2012 fizemos uma ocupação – inclusive onde moro – a Ocupação Eliana Silva, que teve repercussão nacional.” Sofreram despejo mas, alguns meses depois, retomaram a ocupação. Péricles lembra também da Ocupação Izidora: “Oito mil famílias que resistiram à construtora Direcional, que era a maior construtora do Brasil na época. E a gente conseguiu derrotar a construtora e as oito mil famílias estão lá.”

Em entrevista à Revista Opera, Leonardo fala sobre a formação e as perspectivas do novo partido, sobre as prioridades estratégicas enxergadas hoje para o Brasil e os perigos que a classe trabalhadora enfrenta.

Queria que falasse um pouco sobre o processo de formação da Unidade Popular. Que forças a compõem?

Primeiro, é importante ressaltar que a gente não é racha de partido nenhum. Nos últimos anos, todos os partidos que surgiram no campo de esquerda são rachas de outros partidos – e mesmo no campo da direita. Nós surgimos a partir de movimentos populares que já existiam, podemos dizer que somos filhos das Jornadas de Junho, provando que elas não foram um golpe da direita – têm muitos resultados positivos à esquerda, e a Unidade Popular (UP) é um dos principais deles.

A gente nasce a partir de movimentos como o Movimento de Mulheres Olga Benário, do Movimento Luta de Classes, que é uma corrente sindical nacional, da União da Juventude Rebelião, que é uma organização de jovens, das escolas, das universidades e das periferias, e também do Movimento de Luta dos Bairros Vilas e Favelas (MLB) no qual inclusive eu faço parte da coordenação nacional; é um movimento de luta pela reforma urbana, um movimento de ocupações urbanas.

Esses são movimentos que não tinham representação institucional do ponto de vista partidário. Então foi uma decisão coletiva que compõe inclusive com muitas pessoas que não eram de muitos desses movimentos, que não viam alternativa nos atuais partidos e resolveram participar dessa construção. Hoje a UP conta inclusive com uma parcela maior de pessoas do que a dos movimentos.

Nós nascemos a partir do trabalho voluntário, comunitário, popular, da turma que não faz política por dinheiro, mas porque acredita. As pessoas perguntavam sempre, durante a campanha de coleta de assinaturas: “Quanto você recebe para fazer isso?” E a gente respondia que estava fazendo porque acredita. “Mas isso existe ainda?” Sim, existe, e a UP está aí para provar isso. A conquista do registro eleitoral é uma prova cabal de que fazer esse tipo de trabalho, popular e voluntário,  é o caminho para a esquerda, e que é um caminho possível. Nós não queremos disputar pelo caminho do dinheiro, mas mesmo que nós quiséssemos, a burguesia sempre vai ter muito mais dinheiro que nós; então eles vão dominar esse campo, não adianta tomar esse caminho. Nosso caminho é outro, da conscientização, do trabalho de formação política: este é o caminho no qual acreditamos e no qual as forças sociais que fazem parte da UP acreditam.

Você falou um pouco sobre esse processo para conseguirem o registro eleitoral. Vocês colheram mais de um milhão de assinaturas, foi um processo que levou três anos. Que lição tiraram especificamente desse processo?

Nós tiramos algumas. A principal é a importância do resgate do trabalho de base. E quando eu falo trabalho de base, isso virou meio que um jargão na esquerda – mas qual é a referência desse nosso trabalho de base?

Primeiro, que ele não pode ser feito para fortalecer uma liderança, que super-concentre a possibilidade de mudança em um indivíduo. Ele tem de ser um trabalho que forme centenas de lideranças. Eu acho que isso é uma das questões de fundo que a esquerda precisa saber trabalhar nos próximos anos. Um trabalho de bases que é libertador, que não é condicionado às eleições apenas – porque é isso que vem acontecendo, né? Os partidos só aparecem na época das eleições, e isso, na nossa opinião, não é trabalho de base. Trabalho de base tem de dar as condições para que as pessoas de determinado lugar se libertem, e para isso é preciso muita liderança, é preciso fazer um trabalho político mais ousado.

Esse processo também nos trouxe a reflexão de que temos que ser um partido não dos gabinetes, mas sim ter nossa militância no meio do povo. E outra questão muito importante que o processo de coleta trouxe para nós é que é um mito essa história de que fazer trabalho em frente da porta da fábrica, fazer panfleto, ir de casa em casa, em praça, fazer agitação na rua, é coisa do século passado. Pode até ser coisa do século passado – mas o que a gente confirmou fazendo isso é que é algo extremamente atual. Não importa se foi montado lá no século passado: é atual, extremamente atual. Nós não negamos os meios digitais, eles são muito importantes; mas eles são dominados hoje pelos grandes monopólios da comunicação, que são vinculados aos bilionários do país. São pouco grupos, famílias, que mandam e desmandam no sistema de comunicação, e mesmo a internet sendo um pouquinho mais “democrática”, quem manda nela são as bolhas que eles vão produzindo, que inclusive direciona as pessoas a terem determinadas opiniões.

Então é preciso ir além disso – temos que estar lá também – mas o trabalho que realmente pode criar as condições de mudar esse país passa por um sistema de comunicação que não dependa dos meios oficiais e super-monopolizados que existem hoje. Então o partido precisa criar seus mecanismos para falar com suas bases, com o povo, e ao desenvolver esse processo de coleta de assinaturas nós começamos a desenvolver isso. “Como realmente nos comunicar com milhões de pessoas?” – para isso nós precisamos da militância lá, no lugar onde as pessoas vivem, trabalham, estudam; tendo a mesma vida que esse povo vive. Essas são algumas das grandes lições que tiramos desse processo.

Você falou sobre a UP como uma filha das Jornadas de Junho. Foi a partir daquele momento que vocês tiveram a compreensão de que era necessária uma nova legenda? Como foi isso?

Acho que as Jornadas de Junho têm vários aspectos. Como foi um grande movimento difuso, em que participou gente de todas as classes sociais, com muitas bandeiras, é evidente que vá haver efeitos à direita, mas também à esquerda. Dou esse parênteses aqui porque se falou muito recentemente de que “foi um golpe da direita”. Mas primeiro que se você for avaliar um movimento grande daquele, você não pode avaliar só resultados imediatos. Mas pelo resultado imediato nós já temos reflexões importantes: foi um movimento que reduziu o preço das passagens em centenas de cidades do Brasil. Isso não é um resultado à direita na nossa humilde forma de ver o mundo.

Outra questão importante é que trouxe à tona bandeiras históricas, importantes, que ganharam mais força a partir dali. Os sem-teto, as mulheres, a questão racial, a questão LGBT: ganharam força a partir daquele momento, e é importante lembrar disso. E outra é que mostrou para o povo duas coisas: um, que há um esgotamento dos atuais partidos. Dali pra frente o distanciamento das organizações tradicionais que existiam é latente. E a outra questão é mostrar para o povo que o caminho é lutar. Tanto que, a partir dali, você pode olhar que qualquer problema… Se tem falta de água na comunidade, o povo desce, joga os pneus na rua, taca fogo e protesta. Mostra que luta resolve sim.

O resto, os outros resultados, não vão vir de imediato, vão demorar um pouco. É claro que houve uma intervenção da direita, que eles tiveram ganhos. Mas aí… eu até escrevi um artigo recentemente, porque penso que foi mais pela arrogância de como o governo da época tratou as Jornadas de Junho, não abraçando na época as bandeiras que fortaleceriam a esquerda. Essa arrogância acabou afastando muita gente e jogando elas para o outro lado. Esse processo difere muito do golpe institucional que derrubou a presidenta legitimamente eleita – golpe que nós combatemos, que foi um absurdo, um golpe institucional feito pela direita. Tanto é que houve uma vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores em 2014, um ano depois das Jornadas de Junho. Não dá para dizer que é a mesma coisa.

Agora, esse esgotamento mostrou para a gente que tínhamos que buscar outro caminho. E, para terminar, uma das reflexões que nos fez desenvolver esse trabalho foi a enorme distância com a qual esses partidos estavam do povo. Entendemos que a esquerda consequente não pode receber dinheiro de empreiteira, de banco, dos ricos – tem de combatê-los. Podem dizer: “Mas isso não é um jargão?” – Olha, diga o que quiser. Mas acho que isso é uma base ideológica central para a esquerda: esquerda combate os ricos, combate a direita, que é a representação das classes que dominam. Luta de classes nunca foi tão atual; é só olhar o que acontece no Brasil. Quem domina mesmo é menos de 1% da população, são super-ricos, que dominam a 500 anos o Brasil.

São classes dominantes altamente racistas, autoritárias, machistas e extremamente anti-povo. Qualquer possibilidade de mudança passa por enfrentar esses setores; criar as condições no meio do próprio povo – porque não vai vir um povo de outro lugar para fazer isso, não. A tarefa vai ser resolvida aqui dentro, no Brasil, com esse povo que nós temos. Uma parte, iludida, acabou votando no Bolsonaro, e está percebendo o grande erro que cometeu. Outra já não votou nele, não acreditava, já sabia que o caminho é a luta, e vem buscando se organizar.

É nessa perspectiva que decidimos montar a UP e fomos enxergando que não era um devaneio, ao longo do trabalho percebemos que tinha espaço para falar de socialismo, de luta de classes, de poder popular. Não são coisas do passado, não. E, ao contrário do que muita gente diz, que o povo “é burro”: muito pelo contrário. O povo entende bastante o que a gente está falando, e aquilo que não entende, pergunta; e nem tudo concorda, a gente conversa; mas é um debate que precisa ser feito.

O programa da UP de fato é ousado. Fala em nacionalização, socialização, estatização dos meios, do mercado financeiro. Normalmente o que veríamos é reformar, mexer no spread bancário. No entanto, há a desconfiança de que um programa ousado precise de uma força que vá para além do que a política institucional permite, de que há uma contradição entre o programa revolucionário e o caminho eleitoral. Como a UP entende isso?

No período das Jornadas de Junho foi inclusive uma reflexão que a gente começou a fazer: será que a institucionalidade não estava fracassada por completo, e tínhamos que tomar outro caminho?

A reflexão à qual chegamos foi a seguinte: o caminho eleitoral é uma parte da luta que as esquerdas precisam fazer. Uma parte. Não pode ser o fim. Começa por aí; porque boa parte dos partidos colocam isso como fim. Um dos erros está aí.

Nós não podemos desconsiderar o que o povo pensa, a forma com que o povo vê a política. E hoje milhões enxergam a política apenas pelo processo eleitoral. Se considerarmos isso, e não participarmos do processo eleitoral, a conclusão à qual chegamos é que vamos deixar a direita nadar de braçada, falar sozinha para o povo. E acho que isso é uma posição errada. Por isso nós decidimos atuar também na frente institucional.

Existem exemplos interessantes na história em que a política institucional foi utilizada para dar mais força e mais poder para o movimento popular, para dar mais condições para o embate necessário com a extrema-direita, o neoliberalismo, com as classes que dominam hoje. A gente não pode fazer parecido com o que a direita faz. Um exemplo concreto: governadores no nordeste, que se colocam no campo da esquerda, fazendo reforma da Previdência igual à do Bolsonaro. Fica difícil para as grandes massas da classe trabalhadora enxergar a diferença. O cara fala que é de esquerda, entra lá e faz igual: não dá, tem alguma coisa errada aí. Faz privatização, corta salário… É uma questão que precisamos pensar.

A institucionalidade impõe limites? Impõe. Agora, limites foram feitos para serem quebrados. Nós precisamos fazer isso, uma esquerda que não baixa a cabeça para os desmandos, que não esteja prostrada frente às ideias do neoliberalismo. Eu falo disso pelo seguinte: boa parte do que se diz de esquerda no Brasil concorda que tem que tirar direito, que tem que privatizar… Concorda com a cantilena, a ladainha, que esses setores neoliberais falam, de que o Estado está quebrado, que as prefeituras estão quebradas, que não tem dinheiro. Aí que está, essa é uma questão de fundo: a nossa atuação na política tem de ser pautada para combater, demarcar e derrotar o neoliberalismo.

Essas mentiras, ditas mil vezes – como os nazistas diziam – acabam virando verdade. Tem outro caminho, é claro que tem. Ao invés de apertar o cinto dos pobres, vamos inverter? Quem fez isso nesses anos todos? Nos últimos 30, 40 anos – antes estava a ditadura – quem apertou os cintos dos ricos? De todos esses processos, passando pelo governo entreguista do Collor, mesmo o Itamar, que entrou dizendo que ia fazer o contrário e acaba projetando o Fernando Henrique Cardoso; entra o PSDB, depois os governos mais populares – que foram importantes pro nosso povo, trouxeram avanços, não vamos negar isso – mas concretamente, do ponto de vista econômico, seguiram basicamente o mesmo caminho. Uma coisa ou outra de diferença, mas pouca: porque na hora que vem uma crise econômica, destrói tudo. E qual apertou, mesmo? Porque tem que apertar o cinto é deles. É dos privilegiados que temos que tirar os privilégios. E isso não foi feito, nunca foi feito! Ao não fazer se isso, fica parecendo que é a mesma coisa.

Do ponto de vista de programa: desfazer as reformas antipopulares. O discurso da reforma trabalhista é de que era pra gerar emprego. Gerou é desemprego! No concreto dela, tirou direito, precarizou ainda mais o mundo do trabalho, precarizou as pessoas que trabalham. Os trabalhadores pobres do Brasil se lascaram sob esse discurso de flexibilizar a lei trabalhista. Quer modernizar a lei trabalhista? Diminua a jornada de trabalho. Quer gerar emprego? Diminua a jornada de trabalho! Quem fez isso?

A Previdência: ela não estava quebrada. E foi feita uma reforma para detonar, para as pessoas não aposentarem. No fundo, isso está sendo organizado para as pessoas trabalharem a vida toda. E quem ganha com isso? Quem superexplora a classe trabalhadora. A reforma agrária: Quando foi feita no Brasil? Os que dizem, até os de lá de fora, que fazem o discurso de que reforma agrária é coisa de comunista, que isso e aquilo: todos eles fizeram. Qualquer país, seja ele de esquerda ou de direita, historicamente, para virar potência, fez reforma agrária. Fomenta-se o mercado interno. Nunca fizeram isso! E quando tentou-se fazer isso, no governo Jango, foram derrubados por um golpe militar, financiado pelos EUA para impedir que o Brasil tomasse um caminho independente. Isso falta ser feito, nunca foi feito, e é extremamente atual. Taxar grandes fortunas, reestatizar aquilo que foi privatizado, ao invés de tomar esse caminho da privatização.

Um exemplo é a Vale: eu sou aqui de Minas Gerais, ela matou 270 pessoas e ganhou dinheiro com isso. As ações dela no mercado internacional aumentaram, porque a oferta de minérios diminuiu. Minas é estratégica para o mundo; diminuiu a oferta de minérios, aumentou a ações dos caras. Eles ganharam bilhões! E ainda estão voltando a minerar em Mariana (MG) e vão minerar na região onde ocorreu o crime deles. Como pode um negócio desses? São absurdos que nós, do campo da esquerda, não podemos aceitar. E, por fim, a suspensão e auditoria da dívida pública. Tem gente na esquerda que começou a cair nesse discurso – por isso que digo que estão prostrados frente ao neoliberalismo – de que a dívida não é questão central.

Até os caras da grande imprensa… Recentemente saiu uma matéria no jornal O Globo que diz que em um ano foi gasto 370 bilhões em pagamento de juros e amortização. Isso é três vezes o investimento em educação. Então isso, feito pra enriquecer os banqueiros e os especuladores, não é central? Por isso falo: é preciso suspender e auditar. Um grupo sério como o Auditoria Cidadã da Dívida mostra que a dívida já foi paga no Brasil; essa dívida não se deve, não é feita para desenvolver a favor do povo, para criar escola, universidade, hospital. O Brasil está se endividando para fortalecer meia dúzia de especulador, nacional e internacional, e essas coisas parecem palavrões para o setor neoliberal e para parte da esquerda que caiu nesse discurso e fica reproduzindo e fazendo o joguinho deles. Nós precisamos quebrar com esse discurso, senão não tem mudança no Brasil.

A gente entende que a esquerda precisa trabalhar pelo poder popular, pelo socialismo; mesmo que isso não aconteça amanhã, a gente nasceu para chegar lá. Essa é a questão. Nós precisamos falar disso, precisamos projetar para isso, precisamos apontar para isso. Estou falando de democracia para a imensa maioria do nosso povo, que sofre ganhando dois salários mínimos: favelado, o povo pobre, o povo da roça, entendeu? Mulheres, LGBTs, negros, indígenas. O povo que não tem vez e não tem voz, e nunca teve nesse Brasil: é esse que tem que mandar! E desenvolver formas desse povo mandar é um dos grandes desafios da UP e para isso que nós nascemos.

Você disse que a conquista do poder, o socialismo, tem de estar sempre no horizonte. Mas a curto prazo, o que a UP coloca como foco estratégico? Derrotar o governo Bolsonaro? Ou o partido acha que é um momento de acumular forças? Qual é o horizonte tático, imediato, com o qual estão trabalhando nesse momento?

Essa pergunta sua é muito importante, porque nós achamos que é um pouquinho disso tudo junto [risos]. Não estou querendo simplificar a resposta: para ter condições de almejar o poder político no Brasil nós precisamos ter força, e ter força é ter milhões e milhões de pessoas nesse projeto. Então uma das tarefas que temos é crescer a UP em meio ao povo, filiar milhões de trabalhadores e trabalhadoras. A prioridade está aí.

Esta força evidentemente deve apontar para alguns lugares. Do ponto de vista prático e imediato, derrotar o governo Bolsonaro, que é entreguista, antipovo, é fundamental. Porque passa inclusive por um programa emergencial prático que esteja ligado à questão do emprego, por exemplo – é preciso criar emprego no Brasil. E existem formas concretas de se fazer isso, só nesse negócio das chuvas já dá para ver: o caos que as cidades estão vivendo, por um projeto urbanístico que foi feito para as classes dominantes. As obras para modificar essa situação… Podem ser feitas grandes frentes de trabalho a partir dos municípios. Isso é muito possível, criar milhões de empregos rapidamente, inclusive com o povo participando da decisão de como isso vai ser operado. São questões que precisam emergencialmente ser feitas.

Mas mais importante do que isso tudo é enfrentar e derrotar o neoliberalismo. Os bilionários, que alimentam isso no Brasil. Derrotar o neoliberalismo e sua face repressora, que está nesse resgate que eles vêm fazendo do fascismo. É uma política de contenção da revolta que está em curso, porque eles sabem que para continuar a superexploração que estão propondo e para implementar efetivamente essas reformas que foram feitas, eles precisam aumentar a repressão. Nós estamos vendo hoje o aumento do aparato policial, das cadeias. E não é para diminuir a violência! Se você for olhar os números nos últimos anos, não há governo que não falou: “Vou aumentar o aparato militar, botar mais viatura, botar mais polícia, aumentar o armamento.” Fizeram isso tudo, e a violência aumentou e está aumentando. É um fracasso, essa política. Atende quem tiver muito dinheiro, fora isso… Quem está sofrendo com esse projeto é o povo preto e pobre. Sobretudo a juventude das periferias. Bandido mesmo essa política não combate – senão tinham prendido os donos de helicóptero de cocaína, aviões, navios que transportam toneladas de droga. Esses não estão nas favelas; estão no meio da burguesia e não aconteceu nada com eles. E isso ajuda a alimentar a violência que vivemos, e dar resposta para isso faz parte de um programa de esquerda.

É mentira que a esquerda historicamente não tenha resposta para resolver o problema da violência, tem: alto investimento em educação, saúde, emprego, moradia. Esse é o caminho; um caminho a médio prazo, mais complexo de ser feito. Agora, esse é o caminho que precisa ser feito, porque senão vamos mudar como? Essas são questões prioritárias que consideramos.

Um dos pontos do programa da UP diz respeito à necessidade de se investigar e punir os crimes cometidos durante a ditadura. Por que isso é importante? E como vocês vêem essa aparente volta dos militares para o cenário político? Trabalham com a possibilidade de que se esteja engendrando um tipo de ditadura militar ou aumento da repressão?

Sem dúvidas. Não é só com a eleição do governo Bolsonaro. O alto-comando das Forças Armadas já vem a algum tempo falando sobre golpe, ameaçando a democracia, as instituições – por mais limitadas que elas sejam, o que eles estão propondo é algo muito mais repressor, muito mais antidemocrático. E é importante lembrar que discursos como o que o Bolsonaro fez já no processo eleitoral, de apologia à tortura, são crimes contra a Constituição atual do Brasil, de 1988. Gostem dela ou não, ela que é a lei máxima do Brasil, e ela condena a tortura, assim como os tratados internacionais nos quais o Brasil é signatário. Então se formos levar ao pé da letra a nossa Constituição, Bolsonaro não poderia nem ter sido candidato.

Mas essas anomalias acontecem porque o nosso Brasil é o único país da América do Sul que não puniu os torturadores do período da ditadura; a chamada justiça de transição não foi feita no Brasil. A anistia acabou anistiando, a partir de uma interpretação das classes dominantes que infelizmente a correlação de forças na época não teve condição de superar, também os que torturaram, estupraram, mataram, ocultaram cadáver – todos crimes, inclusive, que nunca prescrevem. E a Comissão da Verdade, que foi uma das coisas muito boas que aconteceu no Brasil – inclusive no período do governo da Dilma – tirou definições muito importantes. O erro foi o governo não ter levado até as últimas consequências essas definições, e não ter punido esses torturadores.

Se isso tivesse acontecido… Você pega exemplos como o do Chile, aqui do nosso lado. O Sebastián Piñera, que é presidente do Chile, é de direita: quando o Bolsonaro exaltou o torturador do pai da Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, o Piñera, que é de direita, teve de se pronunciar contra. Por que? Porque a atmosfera do Chile impede; não há possibilidade do cara ser a favor da tortura e ser eleito nesses lugares.

No Chile, no Uruguai, na Argentina; tem um grande movimento popular e políticas que foram implementadas que colocaram esses torturadores em seu lugar, que é no lixo da história. Aqui no Brasil se tem um cara que ganha o processo eleitoral, o vice dele, que é ligado às Forças Armadas, um conjunto de generais, um conjunto de toupeiras, defendendo a ditadura, medidas antipopulares, defendendo o AI-5. São crimes: cada pronunciamento dessas pessoas são crimes contra nosso povo. Crimes contra os desaparecidos políticos, que são uma chaga para o Brasil. A Amelinha Teles, que é uma grande referência para nós na luta pelo direito à memória, verdade e justiça, diz que não é possível haver democracia com corpos insepultos. E faz todo sentido.

Um caso como o de Paraisópolis, em que mataram os meninos em um baile funk, estavam curtindo o baile funk com todo o direito que eles têm de curtir – pelo menos ali, nos guetos em que estão reservados a viver, porque não se garante cultura para a juventude e isso aconteceu lá, mas acontece na Serra, aqui em Belo Horizonte, nas periferias do Brasil inteiro.

Mas isso que aconteceu contra esses meninos, contra a menina Ágatha, contra o menino Café aqui em Belo Horizonte, que foi assassinado com um tiro nas costas, e contra a própria Marielle… Uma coisa que é característica nesses crimes é a certeza da impunidade daqueles que praticam, agentes inclusive em nome do Estado ou ligados a milícias, como é o caso da Marielle. A certeza da impunidade, da lentidão da Justiça para resolver esses problemas, dos preconceitos impressionantes que passam pela cabeça de setores do Judiciário que concordam com essas políticas que foram feitas no período da ditadura.

Então quem está sofrendo hoje, além da esquerda, que já enfrenta um processo de grande recrudescimento da repressão no Brasil, é a população negra e pobre desse Brasil, que vêm sofrendo os efeitos dessa impunidade. Então se a gente quiser um projeto de democracia popular para o próximo período, que represente a imensa maioria do nosso povo, isso passa pela punição exemplar aos torturadores de ontem e de hoje. E em um País racista, como o que temos, isso passará fundamentalmente também pela questão racial, uma vez que a maioria desses que estão sendo assasinados, ou pelo Estado ou pela ausência provocada do Estado, são os negros e negras.

Você mencionou essas ameaças de Bolsonaro e do entorno dele, inclusive do entorno militar. Nós vemos muito, nos setores da centro-esquerda e da esquerda liberal – e também daqueles setores da direita que comem de garfo e faca -, o discurso de que essas posições são “uma loucura”, que o sistema de “pesos e contrapesos” vai impedir, que as instituições impossibilitam que isso aconteça e que essas ameaças são da boca para fora. Qual é sua avaliação quanto a isso?

Não acho que é da boca para fora, não. Primeiro precisam aprender com a nossa história: os militares têm um papel de protagonista nos golpes das classes dominantes, e já não é de hoje. A própria República que nós temos foi fundada num golpe militar, para que o povo não tivesse direito a participar.

Posteriormente, no século XX, os militares estavam nos bastidores de praticamente todos os governos. Foram responsáveis inclusive por uma primeira ditadura, a do Estado Novo – estavam lá, presentes -, depois tiveram um papel determinante até o suicídio de Getúlio Vargas – estavam lá nos bastidores -, já queriam dar um golpe militar desde o início da década de 50, por pouco não o fizeram em 1962 – e aí é importante lembrar o papel da esquerda teve, através da Campanha da Legalidade do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que foi de mobilizar o povo para enfrentar o golpe; um papel que precisamos estudar bastante para vermos que o limite institucional não é esse que está aí agora, podemos ir muito mais longe -, e 1964, do qual inclusive se falava que não havia a menor possibilidade. O pior: a esquerda da época dizia a mesma coisa que setores ditos de esquerda estão dizendo agora; que tem um setor popular dentro do Exército, democrático, que defende a democracia.

As instituições sofrem de muitos vícios. Muitos vícios. E têm uma ligação com as classes dominantes muito grande. Nós não podemos subestimar a possibilidade de um golpe, eles estão se preparando. Estão montando todo esse aparato militar para isso, na nossa humilde opinião.

O movimento popular, o povo brasileiro, precisa reagir. E a única possibilidade de se derrotar o fascismo – nós precisamos aprender com a história -, é com a classe trabalhadora organizada nas ruas, fazendo manifestação, greve, ocupação, disputando o poder político e colocando esses setores na defensiva. As mobilizações populares são fundamentais, a única forma de deter a ofensiva conservadora e fascista que vem sendo desenvolvida.

Tem muita gente com medo ou com pudor de usar esse termo, “fascismo”. O central no fascismo não são aquelas características da Europa, a ideia de que o fascismo não é liberal – é claro, para o contexto de lá. Agora, o fascismo daqui é submisso, é entreguista, é neoliberal. Eles não têm problema nenhum com isso. A característica central do fascismo a nível mundial é querer destruir a esquerda, destruir o movimento popular e estabelecer o grande poder dos monopólios, do capital financeiro, da superexploração da classe trabalhadora. Nós precisamos derrotá-lo, e isso não será feito só com discursos – nós precisamos mobilizar milhões e milhões de pessoas para esse enfrentamento que é necessário e já está acontecendo. Ele não vai acontecer: já está acontecendo. E é necessário que tenhamos articulação popular para enfrentar essa situação.

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