“Poder para o povo”: A revolta de 1968 na África

por Heike Becker | Review of African Political Economy - Tradução de Gabriel Deslandes

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Manifestação contra o apartheid em 1980. (Foto: Paul Weinberg)

Mais de 50 anos após os protestos estudantis abalarem grande parte do mundo durante a Guerra Fria, tanto no “Ocidente” como no “Oriente”, o “1968 global” se tornou o slogan para descrever essas profundas revoltas geracionais. Berlim Ocidental, Paris e Berkeley vêm com força à mente, e os eventos mais memoráveis por trás do que era a então Cortina de Ferro foram da Primavera de Praga. Para a maioria dos comentaristas e estudiosos, esses eventos no Hemisfério Norte parecem ter constituído  o “1968 global”.

Em 2018, no início do ano do aniversário, por exemplo, chegou às mesas das principais livrarias de Berlim uma publicação de um pesquisador alemão de história contemporânea, Norbert Frei, chamada “1968: Youth Revolt e Global Protest”. A monografia de Frei inclui capítulos sobre Paris e os eventos nos Estados Unidos, Alemanha, Japão, Itália, Holanda e Reino Unido em “O Ocidente”, complementados por um capítulo sobre “Movimentos no Oriente”, que discute protestos em Praga, Polônia e República Democrática Alemã (RDA). Frei não menciona nem as revoltas de 1968 na África, nem as que ocorreram em qualquer parte do Sul global. Qual seria então, me pergunto, o conceito dele de revolta global?

Embora ignorada na monografia de Frei, a América Latina chama um pouco mais de atenção graças aos eventos de 1968 na Cidade do México, que são ocasionalmente mencionados nessas discussões. Em contraste, nenhuma das análises gerais relevantes traz à tona eventos relacionados no continente africano.

Qual seria o motivo pelo qual, nos debates atuais sobre 1968 e seu legado, o continente africano quase nunca seja mencionado? Certamente não é porque não teria acontecido nada no continente que correspondesse ao ativismo da revoltosa geração dos demais lugares. De fato, estudantes e trabalhadores de vários países africanos contribuíram para o levante global com suas próprias interpretações, do Senegal e da África do Sul ao Congo (basta ver o relato completo da revolta do continente em 1968 de Becker e Seddon), para citar só alguns exemplos. Contudo, essas revoltas e protestos africanos foram esquecidos no discurso global de comemoração de 50 anos.

Claramente, há uma grande necessidade de olhar mais de perto para os eventos, trajetórias e significados do ativismo africano de 1968. Para começar, aqui estão dois resumos de protestos estudantis que vêm à mente; ambos ocorridos no continente. O primeiro levante aconteceu em Dacar, o segundo na Cidade do Cabo.

Protestos liderados por estudantes: Dacar, 1968

A maioria das pessoas que celebram e debatem no Norte global pode se surpreender ao saber que, em maio de 1968, foi no Senegal que uma revolta liderada por estudantes quase derrubou um governo. Em Dacar, os estudantes estavam em greve desde março, criticando inicialmente as condições de sua universidade. A partir de abril, eles se conectaram às preocupações mais amplas da sociedade, como o alto preço dos produtos básicos locais, a queda no padrão de vida, o desemprego dos graduados e o domínio estrangeiro sobre a indústria doméstica. Em maio, os sindicatos senegaleses adotaram os slogans dos estudantes e se juntaram às lutas. Leo Zeilig, que estudou os protestos senegaleses no contexto mais amplo dos movimentos estudantis africanos, descreve os eventos de Dacar em 1968:

“Em manifestações, a multidão declarou: ‘Poder para o povo: liberdade para os sindicatos’, ‘queremos trabalho e arroz’. A junção das demandas estudantis e da classe trabalhadora culminou na greve geral iniciada em 31 de maio. Entre 1 e 3 de junho, ‘tivemos a impressão de que o governo estava vago. Ministros estavam confinados aos prédios administrativos, e os líderes do partido e do Estado se esconderam em suas casas!’

O governo reagiu à greve mandando o Exército para o campus da universidade, com instruções para disparar. Durante uma manifestação após esses episódios, trabalhadores e estudantes decidiram marchar rumo ao palácio presidencial, que era protegido pelo Exército. As tropas francesas intervieram abertamente, ocupando instalações importantes na cidade, no aeroporto, no palácio presidencial e, claro, na embaixada francesa. A universidade foi fechada, estudantes estrangeiros foram enviados para casa, e milhares de estudantes foram presos.”

Houve alguma discussão entre ex-ativistas e analistas sobre até que ponto os eventos em Dacar estavam conectados aos de Paris. Embora pareça claro não ter havido ondulações distantes da tempestade na metrópole francesa – e, de fato, os estudantes de Dacar haviam saído às ruas antes de Paris –, autores como Zeilig afirmam que eles realmente faziam parte da revolta juvenil global de 1968.

Protesto da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1968: marcha do Jameson Hall para o Bloco Administrativo.

Hoje, os eventos que aconteceram em Dacar entre março e junho de 1968 raramente são debatidos como focos centrais de um movimento de protesto global daquele ano. Isso é cada vez mais surpreendente, pois a brutal repressão ao levante no Senegal repercutiu na Europa. Em setembro de 1968, milhares de pessoas protestaram contra a entrega do “Prêmio da Paz da Associação dos Editores Alemães” ao presidente senegalês Léopold Senghor durante a Feira do Livro de Frankfurt. Os protestos foram explicitamente dirigidos contra o conceito de Négritude de Senghor, que prometia promover ostensivamente o desenvolvimento neocolonial e o esmagamento brutal dos movimentos de oposição senegaleses no início daquele ano.

Entretanto, os eventos em Dacar estiveram relacionados ao 1968 global e aos da antiga capital colonial do país, Paris, de maneiras mais complexas do que as sugeridas por aqueles que afirmam que “os protestos franceses chegaram rapidamente a Dacar”. O movimento senegalês não só começou antes, como também se conectou às histórias locais de protesto. Em fevereiro de 1961, 250 estudantes foram às ruas de Dacar para protestar contra o assassinato do líder congolês Patrice Lumumba. Analistas sugerem que esse foi o momento em que os estudantes senegaleses passaram de uma orientação anticolonial para uma ideologia anti-imperialista.

Os levantes africanos em 1968 também precisam ser considerados no contexto de ondas mais amplas de ativismo e rebelião estudantil no continente. Mais uma vez, os eventos no Congo foram fundamentais para isso, pois o assassinato de Lumumba radicalizou a política estudantil, impactando os movimentos estudantis locais, africanos e, de fato, os internacionais (Norte global). Na Alemanha Ocidental, por exemplo, muito antes dos protestos maciços contra Senghor na Feira do Livro de Frankfurt, estudantes estavam marchando em Berlim Ocidental contra uma visita oficial do presidente congolês Moise Tschombé em dezembro de 1964, implicado no assassinato de seu antecessor, Patrice Lumumba. No continente africano, como em outros lugares, a revolta estudantil assumiu diferentes formas em resposta às diferentes condições locais, nacionais e regionais. Todavia, o final da década de 1960 viu protestos em múltiplos países da África.

Protestos estudantis contra o apartheid: Cidade do Cabo, 1968

A África do Sul também teve seu momento de ativismo estudantil transgressor em 1968. Na universidade mais antiga do país, a Universidade da Cidade do Cabo (UCT), Archie Mafeje, um negro com mestrado e, naquele momento, concluindo seu doutorado na Universidade de Cambridge, foi nomeado em 1968 para um cargo de professor-sênior em Antropologia Social. A universidade ofereceu o emprego a ele, mas, após a pressão governamental do regime do apartheid, a oferta foi rescindida.

A questão foi discutida no congresso da União Nacional de Estudantes da África do Sul (NUSAS), na qual a maioria dos estudantes da UCT eram organizados na época, e surgiu a ideia de uma manifestação na mesma linha das ocupações universitárias realizadas no restante do mundo. Alguns dos envolvidos lembram que os protestos europeus foram amplamente divulgados na África do Sul e que os estudantes os seguiram com interesse.

Quando as autoridades da universidade não resistiram à intervenção do governo em suas políticas de contratação em agosto de 1968, uma massiva reunião aconteceu no grande Jameson Hall, tradicional local de formaturas e outros eventos acadêmicos da universidade. Depois de discursos empolgantes dos líderes estudantis, a maioria da plateia de mil pessoas seguiu em marcha, e cerca de 600 estudantes ocuparam o prédio da administração da universidade. Tal qual as formas de ativismo de Berkeley e Berlim Ocidental, os estudantes e alguns funcionários acadêmicos resolveram “sentar-se no Edifício Administrativo até o momento em que o Conselho Universitário se reunisse para: 1) nomear Mafeje como professor da universidade; 2) apresentar uma declaração de políticas assegurando que as futuras nomeações sejam feitas apenas por motivos acadêmicos”. Embora a forma de ativismo tenha sido bastante radical, a linguagem do protesto, com ênfase na “liberdade acadêmica”, permaneceu dentro dos limites da oposição liberal contra o regime do apartheid. O que é significativo para as condições políticas e acadêmicas sul-africanas da época é que a maioria – se não todos – dos manifestantes estudantis pertenciam à minoria branca do país.

Protesto da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1968: dentro do Bloco Administrativo ocupado.

Eventualmente, os ocupantes – cerca de 90 deles haviam continuado o curso – desistiram e saíram após uma semana e meia. Um antropólogo branco foi nomeado no lugar de Mafeje. A universidade mais antiga da África do Sul cedeu às demandas da política do apartheid em relação à educação universitária.

O “caso de Mafeje” de 1968 deve ser entendido como representativo da aplicação das políticas de apartheid na academia. A partir de 1959, estudantes sul-africanos haviam sido admitidos em universidades segundo critérios raciais e étnicos – na UCT, que havia sido declarada uma instituição branca, estudantes negros eram admitidos só em circunstâncias excepcionais e qualquer candidato não-branco que aspirasse a estudar nela precisava solicitar uma autorização especial do governo. Embora essa lei não abarcasse os membros do corpo acadêmico, a nomeação de Mafeje foi impedida.

Porém, por um breve período de agosto, a África do Sul experimentou 1968. Martin Plaut, um dos ocupantes, descreveu essa ação de um grupo de estudantes brancos da África do Sul:

“600 de nós decidimos participar da ocupação, determinados a não sair até que a UCT revertesse sua decisão. Ficamos dez dias dormindo no chão. A comida era cozida em comunidade – mesmo por homens que, na época, ignoravam fortemente o funcionamento de uma cozinha. Muito vinho e maconha foram consumidos, e virgindades foram perdidas, mas, no geral, foi um protesto cuidadosamente administrado, com uma placa pedindo que o lixo fosse removido e que as áreas ocupadas fossem mantidas limpas. Mensagens de apoio chegaram de estudantes em Paris e Londres e houve uma cobertura favorável na mídia internacional.

Talvez a coisa mais importante tenha sido a descoberta da libertação intelectual. Palestras alternativas foram organizadas nas escadas. Tínhamos um jornal circulando. De uma só vez, jogamos fora nossas correntes mentais. Enfim, não éramos apenas um posto avançado racista isolado do império, mas parte de um movimento internacional de estudantes.”

Essa conclusão foi realmente significativa: os manifestantes estudantis sentiram que, por meio de seu ativismo transgressor, haviam adquirido uma sensação de liberdade intelectual e autorrespeito que a instituição acadêmica – orgulhosa de sua posição “liberal”, como era e continua sendo a UCT – não foi capaz de manter.

Os eventos em Dacar e na Cidade do Cabo demonstram exemplos de estudantes no continente africano se revoltando de maneiras e contextos muito diferentes dos praticados nos cenários da América do Norte e Europa Ocidental. A comparação desses dois exemplos de muitas revoltas na África em 1968 também mostra a diversidade de cenários e formas de ativismo no continente. O desenrolar desses eventos e o fato de terem sido recebidos com solidariedade e protestos relacionados nos centros das revoltas ocidentais enfatizam que a África não deve ser deixada em branco no mapa dos estudiosos que buscam entender 1968 em uma perspectiva global.

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* Heike Becker é ativista, escritora e colaboradora regular do Review of African Political Economy. Como professora na Universidade de Western Cape, ensina Antropologia e escreve sobre política, cultura e movimentos sociais em todo o continente.

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