A resposta da China ao coronavírus mostra o que é possível quando o povo vem antes dos lucros

por C.J. Atkins | People's World - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Kristoffer Trolle)

A atmosfera geralmente comemorativa do Ano Novo Lunar foi marcadamente mais moderada em toda a Ásia neste fim de semana, enquanto oficiais do governo na China lutavam para conter o surto de um novo e mortal coronavírus que, até o momento em que este texto foi escrito, infectou quase 2.700 pessoas e matou mais de 80. Esforços sem precedentes estão sendo feitos para impedir a propagação da doença respiratória causada pelo coronavírus, que acredita-se ter se originado em um mercado onde a carne ilegal de animais selvagens vivos era vendida.

Mais três casos nos EUA foram confirmados no domingo passado, dois na Califórnia e um no Arizona, de acordo com informações divulgadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Dois casos anteriores foram confirmados nos estados de Chicago e Washington. O CDC disse que está monitorando pouco mais de 100 pacientes em 26 estados para uma possível infecção.

Na maior parte da China, as reuniões em massa para dar as boas-vindas ao Ano do Rato foram canceladas sexta e sábado, enquanto outros países permitiram que os eventos avançassem, mas incentivando uma maior vigilância entre o público. O Ano Novo Lunar é a maior migração humana anual do mundo, com centenas de milhões de pessoas viajando para estar em família – tanto na China quanto no mundo. Mas a rápida disseminação do coronavírus prejudicou a grande movimentação deste ano, deixando muitos – especialmente trabalhadores migrantes em algumas das principais cidades da China – incapazes de voltar para suas cidades natais.

A cidade de Wuhan, na província de Hubei, é o epicentro do surto e foi efetivamente isolada. Todos os aviões, trens e outros acessos foram cortados na última quarta-feira. O transporte público e o transporte de veículos particulares dentro do núcleo urbano agora estão suspensos, com cerca de 6.000 táxis coordenados pelo governo para fornecer aos bairros da cidade transporte essencial.

As autoridades dizem que tomaram a medida para “garantir a segurança e a saúde das pessoas”. Regulações semelhantes, porém menos intensas, estão em vigor em outras cidades ao redor de Wuhan, elevando o número total de pessoas em quarentena para 50 milhões.

A Organização Mundial da Saúde elogiou a rápida resposta do governo chinês à crise, com o diretor-geral Tedo Adhanom Ghebreyesus dizendo que o país estava tomando “medidas muito fortes […] com total comprometimento”.

Resposta rápida

A escala desse compromisso está aumentando de maneira massiva – mostrando a capacidade do estado socialista do país de reunir recursos de maneira rápida e eficiente a serviço da saúde pública.

O governo de Wuhan lançou uma campanha urgente para construir hospitais especiais para tratar pacientes com coronavírus e fornecer alívio para o sistema de saúde da cidade. O primeiro hospital de 1.000 leitos já está sendo construído, com conclusão prevista para 3 de fevereiro – um tempo total de construção de apenas seis dias.

Transmissões de vídeo na sexta-feira mostraram dezenas de escavadeiras nivelando o local onde o hospital irá subir. Trabalhadores da construção civil estão demonstrando sua própria devoção ao projeto, com muitos desistindo de suas férias para voltar ao trabalho. O engenheiro Wu Zhizhen disse à Associated Press que era movido por um senso de responsabilidade, tendo apenas cinco horas de intervalo por dia. “Como residente e trabalhador da construção de Wuhan, tenho a obrigação de contribuir com tudo o que posso”, disse ele. “Temos que fazer as coisas com antecedência.”

Em 25 de janeiro, primeiro dia do Ano Novo Lunar, o Diário do Povo – jornal do Partido Comunista da China – anunciou que uma segunda nova instalação também seria construída, acrescentando mais 1.300 camas. Está prevista para abrir dentro de duas semanas.

As duas instalações fornecerão tratamento especificamente às necessidades daqueles que contraíram essa nova doença e agem para conter sua propagação. Elas são baseadas em um hospital pré-fabricado semelhante, construído em Pequim em 2003 para lidar com a crise da SARS. Esse centro de saúde foi concluído em sete dias; o primeiro hospital de coronavírus de Wuhan ficará pronto um dia mais rápido. [Nota do tradutor: o primeiro hospital de Wuhan ficou pronto no dia 28.]

Além dos esforços de quarentena na província de Hubei e da construção expressa de hospitais, estão sendo adotadas várias novas medidas para conter o surto. O Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças diz que está trabalhando para desenvolver uma vacina para proteger as pessoas de contrair a doença.

O chefe do Instituto Nacional de Controle de Doenças Virais do centro, Xu Wenbo, disse no domingo que estão em andamento pesquisas para identificar e isolar a cepa a infecção e determinar os medicamentos mais eficazes para tratar a pneumonia causada pelo vírus.

Além disso, 450 médicos do Exército Popular de Libertação foram enviados a Wuhan para prestar ajuda aos médicos e enfermeiros de lá. Entre os médicos militares enviados estão muitos que ganharam experiência durante os surtos de SARS e Ebola.

Povo antes dos lucros

A alta liderança do Partido Comunista se reuniu em Pequim no sábado para formular estratégias para os próximos passos no combate à doença. A reunião decidiu que o Comitê Central do partido estabeleceria uma comissão especial dedicada ao controle do surto.

O secretário geral do partido, Xi Jinping, que também é presidente da China, presidiu a reunião. “A vida é de suma importância”, disse ele. “Quando uma epidemia ocorre, um comando é emitido. É nossa responsabilidade preveni-la e controlá-la.” Ele disse que os membros do partido em todos os níveis e em todo o país devem “estar na linha de frente” para proteger a saúde pública.

Um editorial no Diário do Povo também encorajou um esforço nacional unido para combater a disseminação do coronavírus. Ele disse que todos devem participar e estar dispostos a sacrificar quando necessário, mas também disseram que funcionários do governo devem fazer tudo o que puderem para minimizar o impacto dos esforços de contenção no dia a dia dos cidadãos.

O jornal classificou a crise como “um teste para o sistema e a capacidade de governança da China”, dizendo que era especialmente urgente garantir o armazenamento e o fornecimento de medicamentos e suprimentos médicos. “A China, como fábrica do mundo, não sofre de falta força de produção, e não é difícil preencher as atuais lacunas de oferta. Pedimos às partes relevantes que pisem no chão para garantir a produção e exortamos todas as cidades do país a oferecer assistência mútua para superar o desafio.”

Enquanto isso, em Wall Street, o foco era o lucro, e não a saúde pública. Em Nova York, as ações de companhias aéreas, empresas de viagens, cassinos e empresas voltadas para o turismo caíram nas negociações de sexta-feira (24), com os investidores preocupados com a forma como o congelamento das viagens na China poderia afetar as margens de lucro.

Essa pressão descendente foi equilibrada, no entanto, por consultores financeiros ansiosos que pediam a seus clientes que comprassem ações de empresas que fabricam máscaras e suprimentos médicos e empresas de biotecnologia que produzem vacinas – especialmente quando os Estados Unidos relataram seu primeiro caso de coronavírus.

A analista de mercado Elizabeth Balboa Benzinga forneceu a seus leitores do Yahoo! Finanças uma lista de “13 ações relacionadas ao coronavírus a serem observadas”. Ao escrever sobre a empresa Lakeland Industries, que produz equipamentos de risco biológico para os profissionais de saúde, Benzinga lembrou aos investidores que a empresa “historicamente subiu durante surtos e provou ser um fornecedor preferido em meio ao surto de Ebola.”

Lucrar a partir da crise foi proibido na China, pois os reguladores do mercado do país ameaçavam “punições rápidas e severas” para qualquer empresa apanhada por manipulação de preços ou acumulação de suprimentos médicos. Foi criada uma linha direta para o público denunciar violadores.

As respostas contrastantes dos funcionários do governo e do Partido Comunista na China e dos investidores de Wall Street colocam em relevo a distinção entre os sistemas socialista e capitalista e suscitam a pergunta: o que vem primeiro – pessoas ou lucros?