Pompeo em turnê: Reforçando alianças e gestando divisões

por Aníbal García Fernández e Tamara Lajtman | CELAG - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Ron Przysucha / Departamento de Estado dos EUA)

A turnê de Mike Pompeo, Secretário de Estado dos Estados Unidos, entre 20 e 23 de janeiro, teve como objetivo fortalecer as relações diplomáticas, econômicas e políticas com os aliados do governo dos EUA, em face de problemas internos ( impeachment contra o presidente) e os desafios e tensões na arena internacional (escalada de conflitos com o Irã, guerra econômica com a China) e regional (reforçar a pressão contra Venezuela, Nicarágua e Cuba, e impulsionar a candidatura de Luis Almagro para sua reeleição na OEA).

O funcionário viajou para a Colômbia, Costa Rica e Jamaica, mas também se reuniu com líderes e grupos políticos de outros países. Os eventos mais relevantes foram: participação na III Conferência Ministerial Hemisférica de Combate ao Terrorismo, encontro com Juan Guaidó para discutir a Venezuela e o lobby a favor de Almagro. Pompeo também teve tempo de se encontrar com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, muito em contato com a equipe de Guaidó. Como cenário de fundo, vale ressaltar que um exercício militar conjunto do Comando Sul foi realizado na Colômbia.

Colômbia

Pompeo iniciou a turnê pela Colômbia, em um ambiente tenso devido à possível saída do embaixador colombiano nos Estados Unidos, Francisco Santos. Desde o epicentro da guerra contra o narcoterrorismo na América Latina, ele pediu o fortalecimento da luta contra o terrorismo, destacando que Argentina e Paraguai designaram o Hezbollah em 2019 como organização terrorista – e que Honduras e Guatemala se somarão a esta posição-. Um fato importante é que as FARC não serão incluídas na lista de organizações terroristas porque já são um partido político.

Na Colômbia, ele se reuniu com Guaidó e revisou a trajetória do autoproclamado presidente da Venezuela e de seu grupo, destacando sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos, sua viagem a Londres e Bruxelas, onde realizou uma reunião com Líderes do partido espanhol Vox, reforçando a rede internacional de direita. Como parte dessa delegação, Julio Borges teve uma reunião com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, no qual foi discutido o papel do Grupo Lima na “restauração da democracia na Venezuela e o perigo de Nicolás Maduro como protetor do terrorismo” na região. A mesma questão foi discutida entre Araújo e Pompeo, além do apoio à Bolívia.

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Fortalecendo a triangulação das relações entre os “aliados”, Pompeo também dedicou tempo à chanceler do governo golpista da Bolívia, Karen Longaric, a quem parabenizou pela convocação das eleições em maio e pelo estabelecimento de um novo Tribunal Eleitoral no país.

Costa Rica

A primeira visita de um secretário de Estado ao país da América Central em uma década se concentrou na campanha de pressão diplomática e sanções econômicas de Washington contra a Nicarágua e a Venezuela. Pompeo destacou o papel de liderança da Costa Rica na OEA em relação à “crise do autoritarismo” na Nicarágua e se reuniu com líderes de organizações “exiladas”, como a Aliança Cívica da Nicarágua. Em relação à Venezuela, ele disse que “nossa estratégia pode mudar com o tempo, mas a missão e nosso objetivo em relação à Venezuela nunca mudarão”. Ele também agradeceu o apoio do presidente Carlos Alvarado para a reeleição de Almagro na OEA.

Pompeo criticou a cooperação econômica chinesa no país, afirmando que gera “dependência e corrói a soberania”. Esses comentários desencadearam tensões com a Embaixada da China, que aconselhou que o Secretário de Estado “recupere a racionalidade o mais rápido possível, lide com seus próprios assuntos e pare de espalhar boatos falsos sobre a China”.

A visita culminou com uma visita ao Centro de Operações Conjuntas do Ministério da Segurança Pública, localizado na Base 2 do Aeroporto Internacional Juan Santamaría, onde Pompeo celebrou esforços conjuntos na área de segurança e combate ao tráfico de drogas. Nos últimos dois anos os EUA alocou 80 milhões de dólares em assistência para segurança, principalmente para neutralizar o fluxo de drogas nos EUA. Destaca-se a compra de quatro helicópteros, três barcos-patrulha tipo island de 110 pés e um avião de patrulha marítima.

Jamaica

A visita à Jamaica é essencial como parte da campanha de apoio dos EUA a Luis Almagro nas próximas eleições da Secretaria-Geral da OEA (reiterada por Pompeo alguns dias antes do início da turnê), já que a maioria dos países da Comunidade do Caribe (CARICOM) anunciaram seu apoio a María Fernanda Espinosa, até agora a principal alternativa a Almagro na Secretaria. Assim, além de se reunir com o primeiro-ministro jamaicano Andrew Holness e o ministro das Relações Exteriores Kamina Johnson-Smith, Pompeo participou de uma mesa redonda multilateral com ministros das Relações Exteriores da Jamaica, Bahamas, Belize, República Dominicana, Haiti, São Cristóvão e Santa Lúcia. Os líderes desses países, com exceção de Belize e São Cristóvão e Névis, se reuniram em março de 2019 com Donald Trump em seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida, para reafirmar a “forte amizade” compartilhada e discutir oportunidades de investimento.

A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, que também é presidente da CARICOM, condenou anteriormente a reunião alertando as intenções dos Estados Unidos para dividir a região. Os primeiros-ministros de Trinidad e Tobago, Keith Rowley, e São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, aderiram à iniciativa de rejeição. Finalmente, Pompeo realizou uma reunião com Miguel Vargas, Ministro das Relações Exteriores da República Dominicana, onde foi abordada a situação atual da OEA. Vargas destacou o compromisso dos EUA com a democracia na região.

Dividir para vencer

A turnê de Pompeo foi organizada em torno de três objetivos principais: as eleições na OEA, a luta contra o terrorismo e as interferências na Venezuela, Cuba e Nicarágua. Com relação à primeira questão, fica claro que sua presença na Colômbia contribuiu para reforçar e apoiar a pressão contra a Venezuela, exercida pela Colômbia junto ao Brasil e à Bolívia, além de criar consenso sobre a continuidade de Almagro como secretário-geral. Na Jamaica, a decisão de não convidar vários membros da CARICOM demonstra a intenção de dividir um dos votos mais importantes para as eleições na OEA. Em relação à luta contra o terrorismo, ligada ao narcotráfico e à presença do Hezbollah na região, continua sendo um dos principais argumentos para expandir os esquemas de segurança e vincular a Venezuela a essa organização. Mesmo isso pode ser usado como um guarda-chuva legal para criminalizar os líderes do Movimento Socialista na Bolívia, recentemente denunciados por sua ligação (não comprovada) ao “narcoterrorismo”. Da mesma forma, a presença da China na região continua sendo motivo de preocupação por parte do governo dos EUA em um processo de clara expansão (especialmente econômica) do país asiático na América Latina e no Caribe.

No final deste passeio, a demonstração de força: a promessa dos EUA de realizar exercícios com o Comando Sul na Colômbia, entre 23 e 29 de janeiro. Participaram 75 pára-quedistas da 82ª divisão de Fort Bragg da Carolina do Norte e 40 membros do Exército do Sul dos EUA. Além disso, em 16 de janeiro de 2020, Adam Boehler, diretor da International Development Finance Corporation (DFC), foi à Colômbia anunciar que investirá 5 bilhões de dólares nos anos seguintes nos territórios afetados pelo tráfico de drogas.

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