Guerra com a França, bases norte-americanas no Brasil, ataques terroristas, conflitos continentais com a Venezuela, intervenções brasileiras na Bolívia. Estes são alguns dos cenários projetados em um estudo intitulado “Cenários de Defesa 2040”, elaborado pela Escola Superior de Guerra (ESG) para o Ministério da Defesa.

O documento foi feito, de acordo com a apresentação, em 11 reuniões regionais, nas quais participaram 500 pessoas, majoritariamente militares. Nele, há “quatro hipóteses para futuros plausíveis” no cenário de Defesa do Brasil: 1 – Alinhamento aos EUA, com recursos orçamentários (isto é, em um cenário de crescimento econômico brasileiro, com aumento do orçamento da Defesa); 2 – Alinhamento aos EUA, com restrição orçamentária; 3 – Relacionamento global, com recursos orçamentários (ou seja, em um cenário de equilíbrio no relacionamento do Brasil com a China e os Estados Unidos); e 4 – Relacionamento global, com restrição orçamentária.

As projeções feitas partem de cenários bastante realistas e acima de tudo sintomáticos. Os dois vetores da análise são traços clássicos de uma crise aguda: por um lado, a luta pela apropriação do excedente, entre a intenção de espoliar economicamente (e portanto “enxugar” o Estado) contra a necessidade de se garantir o poder (e dar de comer ao Leviatã). Por outro, a luta por hegemonia das duas grandes potências econômicas do planeta, e seus reflexos no continente. Frente à crueza destes fatos, convertidos em opções estratégicas, é que o supérfluo das guerras, das bases, dos grupos ecoterroristas e dos conflitos distantes se desenham. 

A loucura no país dos sãos e a sanidade no país dos loucos

Apesar de preparado pela Escola Superior de Guerra, o estudo foi tomado por muitos com um comportamento contraditório, que ora dá a ele grande importância como demonstrativo do que pensam os militares do País (até ontem considerados equilibrados e democráticos, não esqueçamos) e ora vê o absurdo nos cenários pintados. Perde-se assim o fundamental: que quem desenha previsões o faz segundo suas intenções, que projeções por vezes são, na verdade, projetos. Não foi ignorando isso, afinal, que tantos perderam de vista que os respeitáveis coturnos se dispunham a marchar com o abominável presidente? Que viram em pronunciamentos incendiários do então comandante Villas Bôas não um fomento aos golpistas, mas um breque?

É que, talvez inspirados em David Rosenhan, nossos militares busquem, fingindo-se de loucos, falar muito sério. Como o cientista, anotam, observam e projetam a partir do hospício, e assim são tidos como loucos pelos sãos, enquanto reconhecidos como sãos por seus pretensos pares, os loucos. E fingem repetir as vozes que ouvem quando na verdade falam para si o que querem ouvir.

Marcelo Godoy, colunista especial d’O Estado de São Paulo, herdeiro e continuador do serviço de Oliveiros Ferreira no diário, foi quem fez as observações mais relevantes e equilibradas sobre o famigerado estudo do Ministério da Defesa. Mas pecou por um fato: vendo a fundo as enormes contradições no real, entendeu o documento como desordenado. Pelo contrário, trata-se de um ordenamento ideal, próprio, de seus autores.

Godoy abre seu artigo apontando que os soldados do 34º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro são abastecidos a partir da Guiana Francesa, e que, “no meio da selva”, os soldados de ambos os países se veem como “nações amigas”. Mais: que sem a França o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil (Prosub) e o projeto do submarino nuclear brasileiro não existiriam. “A ESG preferiu os generais aos almirantes”, diz o colunista que afirma: “a estrela do papel é a França, transformada em potência hostil e ameaça aos objetivos nacionais permanentes. Transforma-se assim a arte de traçar cenários prospectivos em mera projeção do bate-boca entre Bolsonaro e Emmanuel Macron em razão da Amazônia.”

É certo que a arte de projetar cenários prospectivos é transformada em mera projeção. Não de um bate-boca entre presidentes – mas sim dos novos ideais do Partido Fardado.

Ora, militares de destaque, alguns inclusive no governo, por vezes se puseram publicamente contra declarações do presidente. Mas, no polêmico caso da Amazônia, foram uníssonos em seu apoio ao mandatário. Durante o bate-boca o general Santos Cruz, que desde que foi expulso do governo de maneira humilhante dá repetidas e controversas declarações contra o presidente e seu entorno, estreou sua conta no Twitter criticando Macron, sua “arrogância”, “interferência” e “mentalidade descabida”. A fúria de Villas Bôas frente aos franceses foi tanta durante o episódio que o general chegou a citar Ho Chi Minh para rebater Macron. E o acanhado general Mourão viu nas palavras do mandatário francês uma “busca por um minuto de fama” e lembrou a empresários brasileiros as maravilhosas virtudes conservacionistas do País. 

Quanto ao Prosub, cabe perguntar que valor teria um submarino nuclear em um projeto de país em que as fardas controlam a terra enquanto a frota – especificamente a quarta – controla os mares. O mesmo vale para quaisquer batalhões na selva: seriam importantes se, como delineado no estudo e projetado anteriormente, tivéssemos na Amazônia uma base norte-americana?

Talvez seja justamente a dependência francesa que irrita os generais. Afinal, foram eles quem traçaram no relatório um cenário em que o Brasil se abastece, a partir dos EUA e de Israel, de sistemas antímisseis. De fato, como escreveu Godoy, “a ESG preferiu os generais aos almirantes”. E, de fato, a França é a estrela do papel. É que assim como o Partido Fardado não quer competidores, tampouco querem seus aliados internacionais preferenciais. Em um cenário em que se busca jogar o Brasil no front norte-americano de uma Segunda Guerra Fria, que é escalada sob as vivas palavras da Doutrina Monroe, a presença francesa no continente de fato pode ser vista como uma “ameaça aos objetivos nacionais permanentes”. Citando um general que dissera que “duas democracias separadas por oceanos nunca entraram em guerra”, Godoy arremata: “A não ser que se projete um destino autoritário para um dos dois países, os cenários da ESG não teriam sentido ou aderência histórica”. Tiro-o das entrelinhas: estaria a França a caminhar para a reversão de sua república, ou estaríamos nós? São loucos ou sãos os generais?

A despeito de fruto de cabeças aventureiras, imaginar um conflito com a França, envolvendo a Guiana Francesa e o Amapá, não é coisa nova. Em 1961, em meio à Guerra da Lagosta, o presidente Jânio Quadros chegou a considerar a anexação da Guiana Francesa. De acordo com o então governador do Amapá, Moura Cavalcanti, souberam do plano o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, marechal Cordeiro de Farias, o então chefe do gabinete da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional, Golbery de Couto e Silva, e o secretário de Jânio, José Aparecido de Oliveira. Como se sabe, dos três, dois deles tiveram ativa participação nas movimentações anti-Lott e a favor de Jânio nos meios militares e, depois, no regime militar. A loucura de Jânio passou, consolidando-se como governo nas mãos de seus antigos aliados.

Quem manda em quem manda? Manda quem manda em quem?

A maior virtude de Marcelo Godoy, ao lado do extenso conhecimento sobre o que trata, é a coragem. É que, ao contrário de tantos outros, o colunista ilustra seu artigo com uma foto do general Augusto Heleno e com sua citação nominal, e denuncia a profundeza do Bolsonarismo dentro das Forças Armadas.

Mas se os mestres da dialética ensinaram que “as coisas apresentam frequentemente uma aparência oposta à sua essência”, e que a razão de ser das coisas por vezes estão em seu contrário, sou obrigado a afirmar: as observações da ESG não revelam a força do Bolsonarismo nos meios militares, mas, ao contrário, a força dos militares sobre Bolsonaro. 

São eles quem, como temos reiterado, nesta reprise da França de 1850, são os senhores de força concreta. São eles quem, a despeito de qualquer contradição ou interesse, controlam o tal 34º Batalhão de Infantaria de Selva. E foram eles, não o presidente ou seu entorno, quem ocuparam a Amazônia em meio às queimadas. Daqui a vinte anos, eles permanecerão. O passageiro presidente não.

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