Ninguém deseja virar um propagandista de guerra, mas de alguma forma isso acontece

por Caitlin Johnstone | Tradução de Ciro Moreira para a Revista Opera

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O editor-sênior do Huffington Post do Reino Unido, Chris York, publicou o que eu conto ser sua décima segunda matéria de ataque contra um pequeno grupo de acadêmicos e jornalistas independentes que expressaram seu ceticismo com as narrativas dominantes sobre a Síria.

O dilúvio obsessivo de matérias de York concerne aos acadêmicos britânicos Tim Hayward e Piers Robinson, bem como à jornalista independente Vanessa Beeley. Cada palavra nesta frase leva para um artigo diferente que os insulta.

A décima segunda matéria de York é muito parecida com as onze anteriores: ela omite fatos cruciais, esconde a natureza obscura de suas fontes, faz reivindicações claramente falsas, e os indivíduos que acreditarão nela ou não pesquisam este assunto com muita profundidade, ou têm seus salários dependentes de não pensarem muito a respeito. Mas, mais importante que isto, está é sua décima segunda matéria.

Uma dúzia de artigos ofensivos. Uma dúzia. Não contra políticos. Não contra líderes do governo ou celebridades. O foco do ataque de York são dois professores que juntos possuem 22 mil seguidores no Twitter, e Beeley, a quem York se refere como uma “blogueira desconhecida”, mas sobre quem escreve uma matéria desrespeitosa atrás de outra.

Beeley, Hayward e Robinsons fazem um ótimo trabalho fazendo as perguntas importantes que ninguém mais faz sobre as várias inconsistências nas narrativas com as quais estamos sendo alimentados sobre o que está acontecendo na Síria pela classe política e a mídia ocidental. Eu sou uma fã. Mas apenas um número relativamente pequeno de pessoas ouviu falar neles. Eu não quero minimizar a importância do que eles fazem, mas eles são comumente desconhecidos fora de círculos singulares online que mergulham profundamente nas narrativas questionáveis sobre a Síria.

Nós podemos dar como certo que o objetivo do Huffing Post do Reino Unido com esses constantes ataques não é gerar cliques ou uma viralizar organicamente. Nenhuma pessoa normal está acessando sua rede social e pensando “Oh, eu espero encontrar hoje alguma fofoca nova sobre Piers Robinson!”.

O objetivo também não é educar o público com informações importantes e pertinentes. Ainda que as matérias de York contivessem informação precisa (elas não contêm), você não precisa de doze artigos dizendo “Ei, as informações que essas pessoas estão compartilhando são prejudiciais no seguinte sentido”. Você poderia dizer isso uma vez e seguir em frente reportando as várias histórias importantes que estão se desenrolando no mundo enquanto falamos. Mas o intuito não é noticiar.

Então, qual é o objetivo?

O objetivo é o gerenciamento da narrativa.

Se você ler as matérias de York, notará que muitas delas sequer se endereçam ao público. As que falam sobre Robinson e Hayward na verdade são destinadas às instituições acadêmicas que empregam eles, e foram redigidas para pressionar elas em encerrar tal vínculo (e proclamando vitória quando essa campanha aparentemente tem sucesso). Esta matéria foi claramente feita para gerar pressão no Museu de Leeds a encerrar um evento onde os três alvos de York estavam previstos para falar publicamente, e esta celebra a Câmara dos Vereadores de Leeds cancelando o evento.

Se você também olhar quem está compartilhando as matérias de York no Twitter, também perceberá que uma porcentagem grande delas são contas verificadas que despejam um grande dispêndio de tempo e energia em gerenciar a narrativa dominante sobre a Síria. Eu não sei em quais grupos de chat ou fóruns privados esse artigo apareceu, mas ele gerou poder de fogo rapidamente nas mídias sociais.

O propósito desses ataques não é gerar cliques, e não é informar o público. É manipular a opinião do público. É tirar a plataforma de vozes que são céticas com o que nos está sendo dito sobre uma nação que há muito tempo é alvo de planos de mudança de regime por parte do império ocidental, é providenciar recursos para que outros gerentes de narrativa possam fazer circular e citar seus próprios trabalhos, e para impedir a herdo mainstream de qualquer possível surto de “pensamentos errados”.

Ninguém deseja virar um propagandista. Nenhuma criança de 8 anos está sonhando em um dia vender sua integridade para ajudar o império ocidental a criar consentimento para o envio de equipamento militar mais lucrativo para outra região geoestratégica rica em recursos naturais.

Mas de alguma forma isso acontece. Você vai para a escola de jornalismo, consegue um emprego, se for esperto aprende que existe uma cobertura que é recompensada e uma que lhe deixa marginalizado, e antes que perceba você está na sua mesa digitando sua décima segunda matéria de ataque contra professores e blogueiros desconhecidos, pensando sobre o que  aconteceu com sua vida.

Os anfitriões do programa Rising, Krystal Ball e Saagar Enjati, fizeram um excelente trabalho alguns meses atrás onde eles demonstraram as diversas formas de pressão para defender a situação atual quando você conseguir um emprego em um meio de comunicação grande, descrevendo suas próprias experiências nesse ramo.

“Certamente existem pressões para ter boas relações com o establishment visando manter o acesso ao jornalismo político”, Ball disse na ocasião. “O que eu quero dizer? Deixe me dar um exemplo de minha própria carreira, já que tudo que estou dizendo aqui também se aplica para mim. Em 2015, na MSNBC eu fiz um monólogo  que alguns de vocês talvez tenham visto, implorando para que Hillary Clinton não concorresse na eleição. Eu disse que suas ligações com a elite estavam em dissonância com o partido e o país, e que, caso ela concorresse, provavelmente seria a nomeada e depois disso perderia. Ninguém me censurou, permitiram eu dizer isso, mas depois o pessoal de Clinton ligou e reclamou para o alto escalão da MSNBC, ameaçando impedir o acesso durante a campanha. Me disseram que eu poderia dizer o que eu quisesse, mas que qualquer comentário relacionado à Clinton deveria ter autorização do presidente da rede. Sendo um ser humano interessado em manter meu emprego, eu certamente fiz menos comentários críticos à Clinton após isso do que eu em outras condições teria feito.”

“Isso é uma coisa que muitas pessoas não entendem”, disse Enjati. “Alguém não necessariamente diz a você como fazer sua cobertura, mas é que se sua cobertura for feita deste jeito, você não será contratado naquela instituição. Se você não trabalha dentro deste modelo, o sistema é desenhado para não lhe dar uma voz. E se você realmente fizesse isso, todas as estruturas de incentivos acerca do seu salário, suas promoções, seus colegas que dão um tapinha nas suas costas, tudo isso iria desaparecer. É um sistema de reforçamento, que faz com que você não queira seguir este caminho em primeiro lugar”.

“Com certeza, novamente, isto não é necessariamente intencional”, Ball acrescentou. “As pessoas que lhe rodeiam são assim, então se torna um pensamento coletivo. Você está ciente sobre o que será recompensado e o que será punido, ou também o que não será recompensa, tudo isso pesa na sua consciência, querendo ou não, e isso é uma realidade.”

O chefe de York, o editor executivo do Huffington Post do Reino Unido, Jess Brammar, compartilhou a última matéria de York no Twitter, jorrando elogios sobre como era uma “fascinante e importante história” e lamentando que os escritos de York “são sujeitos a abusos na internet” quando ele publica uma de suas matérias contra as pessoas que lembram da Guerra do Iraque.

Se eu já vi um, isso é um verdadeiro tapinha nas costas, e está vindo de um editor executivo que atualmente colabora com o Comitê Consultor de Defesa e Segurança Midiática (CDSM). O CDSM é um órgão consultor que funciona de forma sobreposta entre o jornalismo e governo britânico, sendo responsável por publicar as notificações CDSM (anteriormente conhecidas como Notificações-D), que aconselham meios de comunicação britânicos a não noticiarem certas questões tidas como sensíveis à segurança nacional. Este sistema foi utilizado anteriormente, de acordo com uma publicação do Wikileaks de 2010, para pedir que os editores consultem o governo britânico antes de noticiarem um fato.

Eu estou certa de que Chris York não queria se tornar um propagandista da guerra. Ele apenas foi impulsionado pelo mesmo sistema de reforços positivos e negativos que muitos outros jovens e esperançosos jornalistas encontraram antes dele, e agora ele tem um trabalho que faz sua família orgulhosa, pois jornalismo é uma profissão nobre, rodeada por pessoas que dizem que ele está fazendo o certo. Ele tem todo o incentivo para permanecer fazendo isso, e aquele pequeno incômodo que sente em seu coração nos momentos sozinhos não são nada que um pouco de álcool ou outra forma de escapismo possam aliviar.

Mas um propagandista ele certamente se tornou, como todos os demais que estão subindo a escada do jornalismo mainstream com sucesso. Continue atacando as vozes divergentes, continue se provando um lacaio leal do império, e as recompensas continuarão vindo. Eu tenho certeza que essa pequena voz interior que você não pode matar, independente do quanto tente, realmente vale a pena.

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