No dia 19 de janeiro deste ano, o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, levou ao ar uma reportagem sobre a homofobia no futebol. O objetivo era entender por que a camisa 24 é tão rejeitada por jogadores e dirigentes de clubes brasileiros. O historiador Luiz Antonio Simas, como tem acontecido amiúde, foi convidado a falar sobre o tema. Na entrevista, Simas voltou ao ano de 1892, quando o Barão de Drummond, proprietário do único zoológico do Rio de Janeiro, criou o jogo do bicho.

Na época, conforme explicou o entrevistado, o jogo funcionava assim: ao comprar o ingresso para entrar no zoológico, o visitante recebia um bilhete numerado que lhe dava o direito de concorrer a um prêmio em dinheiro, sorteado ao longo do dia. Cada animal correspondia a um número. O veado correspondia ao número 24. “Como já havia no imaginário popular a associação entre o veado e o homossexual, o número 24 acabou tendo essa pecha”, informou. 

No entanto, para além do assunto da reportagem, um detalhe chamou a atenção de várias pessoas nas redes sociais. A jornalista Carolina Morand comentou no Twitter: “Eu amo o Rio de Janeiro. Onde mais um intelectual do porte de @simas_luiz dá entrevista na TV usando chinelo e camiseta do @velhoadonis? Mestre!”. Na ocasião, Simas apareceu na tela de sandálias Havaianas, bermuda cáqui e camiseta branca com a logomarca do Bar Adonis, do qual é frequentador. 

Mesmo para os padrões cariocas, muito mais flexíveis e despojados do que os do resto do país, a aparição pública de um intelectual em trajes sumários não é algo tão corriqueiro. Ainda mais se levarmos em conta que esse pensador foi agraciado, em 2014, com o título de Comendador do Município do Rio, e conquistou, em 2016, o Prêmio Jabuti de livro de não ficção, pelo seu Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira), escrito a quatro mãos com Nei Lopes. 

Se qualquer elogio na imprensa já é suficiente para que uns e outros se considerem sumidades e passem a adotar o terno e a gravata, ter conquistado o prêmio mais importante da literatura brasileira não alterou em nada a forma como Luiz Antonio Simas se apresenta no dia a dia. Suas entrevistas, quase sempre, são agendadas no Bar Madrid, que fica perto de sua casa na Tijuca, bairro da Zona Norte onde mora com a mulher, Cândida Carneiro, e o filho Benjamin. Nas suas aulas e palestras se sente mais à vontade se estiver usando um par de tênis surrados e uma camisa de time de futebol — que tanto pode ser a do seu Botafogo quanto a de um time pequeno de alguma cidade perdida no mapa. 

No dia 30 de julho de 2017, o colunista Rodrigo Casarin perguntava, em letras garrafais na capa do portal UOL: “Quem é o historiador que tomou cachaça e cantou ponto de Umbanda dentro da igreja em Paraty?”. Dias antes, segundo a coluna, Simas havia protagonizado um dos grandes momentos da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, daquele ano. Em debate com a pesquisadora Beatriz Resende, o professor assumiu ter tomado uma cachacinha na sacristia e cantado um ponto de macumba em cima do palco da Igreja da Matriz. “Quem conhece Simas, no entanto, estava mais surpreso com algo que parecia banal: ele estava de calça”, destacou Casarin.

Sobre este episódio, que desatou injustificada polêmica na época, Simas escreveu: “Cantei um pequeno trecho de um ponto de Umbanda — um verso apenas — na minha mesa, respondendo a uma pergunta sobre a religiosidade nos subúrbios cariocas. Falei do sincretismo e citei um ponto de Seu Sete da Lira ao lado da Ave Maria; (…) Quero lembrar que o imenso João José Reis leu um trecho do Alcorão na mesma Igreja — ao falar lindamente sobre a Revolta dos Malês — e não houve estranhamento algum. É curioso: versos do Corão, da Bíblia e do Gita são textos sagrados, fontes para entender as histórias dos judeus, cristãos, muçulmanos, hindus… Por que  pontos de Umbanda e Candomblé não podem ser considerados da mesma forma? Por que são textos normalmente relegados ao campo dos exotismos, bizarrices e folclores? (…) Queriam um canto gregoriano pra ilustrar as crenças sincréticas das ruas cariocas? Debaixo deste angu tem caroço”.

Segundo a professora Adriana Facina, do Museu Nacional, Simas “misturou com sucesso uma formação acadêmica sólida com a oralidade do papo de botequim”. Isso explicaria, em parte, o interesse que seu trabalho vem despertando, sobretudo entre o público jovem. Em suas aulas abertas dentro do projeto Ágoras Cariocas, feito em parceria com o coletivo Norte Comum, Simas ocupa ruas, praças e botequins para falar com os moradores sobre cultura, identidade e formação dos bairros. Não fala de generais, presidentes ou imperadores, mas de sambistas, bicheiros, jogadores de futebol, prostitutas, malandros, pais de santo e outros tipos populares desprezados pela história oficial. “O cara que vai trabalhar e pega o trem em Japeri às quatro da manhã também está fazendo história”, disse o professor a um jornal da imprensa fluminense.  

Em texto confessional, publicado em seu blog Histórias Brasileiras, escreveu: “Entrei numa faculdade de História com o objetivo de dar aulas para crianças e adolescentes. Não entrei pensando em fazer carreira acadêmica ou pesquisa; entrei para ser professor de escola e isso é o que mais gosto de fazer”. Com o tempo, porém, Simas percebeu que gostava “de ver a rua na escola e a escola na rua”. Ao transpor os muros do colégio e levar o seu conhecimento —  e a sua interpretação do Brasil — para a rua, o historiador abriria novas frentes de luta contra o “desencantamento da vida”, como costuma dizer. 

(Foto: Lucas Haubrick / Revista Opera)

Aos cinquenta e dois anos, Luiz Antonio Simas tem dezoito livros publicados sobre samba, futebol, festas populares e epistemologia das macumbas, entre outros temas afeitos ao campo das brasilidades. Seu trabalho mais recente, O Corpo Encantado das Ruas (Record), foi a obra de não ficção mais vendida da editora na última Bienal do Livro do Rio de Janeiro e apareceu, em fotos no Instagram, nas mãos de artistas da música pop como Emicida e Marcelo D2. Em quatro meses, o livro chegou à quarta edição. Simas se tornou “celebridade” dando aulas e escrevendo livros — uma proeza e tanto se levarmos em conta o modo como professores têm sido tratados no Brasil.

Não obstante, Simas tem uma faceta ainda pouco conhecida do público que o acompanha: a de compositor. Além de lecionar em escolas e praças públicas, de escrever livros e de colaborar com artigos para jornais e revistas, ele compõe canções em completa sinergia com as outras atividades. “Não vejo a música como algo à parte do meu trabalho de historiador e escritor. As coisas pra mim são cruzadas, busco uma escrita que se aproxime do som. Certamente escuto mais o mundo do que vejo”, diz. 

A cantora paulistana Fabiana Cozza, uma das vozes mais potentes do samba na atualidade, incluirá pelo menos quatro composições de Luiz Antonio Simas em seu próximo álbum — o sétimo da carreira. Desde Jaraguá do Sul, onde estava hospedada para ministrar aulas de canto popular no Festival de Música de Santa Catarina, ela falou sobre o disco que sairá do forno em breve. Revelou, entre outras coisas, que a participação de Simas neste trabalho vai além das composições de sua autoria que serão gravadas. “Este é um trabalho de afirmação, de chamamento, que exige sabedoria. Tenho que saber quem tem licença e quem deve estar nele”.

Simas, que é babalaô (sacerdote do Culto de Ifá na tradição afro-caribenha), estaria atuando como consultor espiritual na produção do disco? É possível que sim, mas esta é uma resposta que não será dada — e isso não importa. O importante é saber que sua presença no repertório de Fabiana Cozza se deu exclusivamente pela relevância dos temas que desenvolve num tempo em que a cultura popular brasileira tem sido tão atacada pelo conservadorismo e pela intolerância religiosa. “Eu escolhi me aproximar do Simas. Queria tê-lo no meu círculo de amizades, de artistas que admiro. Sua presença é uma voz luminosa”, diz a cantora.

Estarão no repertório Bravun de Elegbara e Ogã de Ogum, ambas em parceria com Moyseis Marques; Ponto da Cabocla da Mata, que ele assina sozinho; e Caboclaria, feita com Alfredo Del-Penho. Sobre esta última composição, a intérprete tem uma passagem curiosa: “No ano passado, quando eu estava num hotel em Madri, Simas me enviou pelo celular uma gravação caseira de Caboclaria. Imediatamente senti os encantados me visitando na Espanha e um arrepio me percorreu dos pés à cabeça. Eu soube naquele instante que essa música deveria entrar no disco”.

A letra faz uma homenagem aos caboclos de Umbanda, nomeando as entidades que marcaram a sua infância de criança nascida e criada em terreiro:

“Salve o caboclo no meio da mata
Flecha encantada no pé da jurema
Faz o abô com as folhas sagradas:
Guiné, peregum, alecrim, alfazema.

(…)

Bate na palma da mão e arrepia
Tem ventania no bambuzal
A cobra sibila e a coruja pia
Chama os caboclos no temporal.”

Fabiana Cozza faz questão de elogiar a disciplina com que Simas tem tratado, “como um artesão”, temas relacionados às “encantarias do Brasil reveladas pelos cultos afro-brasileiros e pela ancestralidade afro-indígena”. Vai além: “Simas é um artista, um educador poderoso que se faz ainda mais necessário em tempos de trevas como os atuais. É a leitura de seus textos, incluindo os poemas das canções, que tem me dado ciência e consciência do que estou preparando agora”.

Apesar do cargo de Luiz Antonio Simas dentro do Culto de Ifá — “sacerdote de Orunmilá, senhor do oráculo e pai do segredo” —, que leva muita gente a associá-lo automaticamente às religiões de matriz africana, uma revelação surpreende aqueles que não o conhecem de perto: Simas se considera um homem sem fé. “Não me defino como uma pessoa exatamente religiosa. Sou mais de rito do que de fé. Gosto de macumbas em geral: candomblés, umbandas, catimbós, babaçuês, torés, encantarias… Formas de encantamento do mundo”, diz o compositor. 

Com outras palavras: falar, pensar e divulgar estas “formas de encantamento do mundo” seria, para ele, uma atitude política perante a vida. No dia 3 de outubro de 2014, ele publicou em seu blog um artigo intitulado “Política”, com a seguinte declaração: “Se faço política? Claro que sim! Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de egun e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico nos porões imundos dos tumbeiros para inventar a vida onde amiúde ela não poderia existir. Eu faço política quando rezo as folhas e encanto com meu canto a jurema das matas do Brasil”. 

É desse mesmo texto o trecho que melhor traduz a sua busca intelectual: “Ando convencido faz tempo da necessidade de ao menos ousarmos questionar os modelos ocidentais de interpretação, aqueles que produzem um radical desencantamento da vida. É disso que falo e escrevo no meu ofício”. 

A vontade de superar a visão de mundo ocidental, branca e cartesiana está na base do pensamento de Luiz Antonio Simas, presente com o mesmo peso em sua literatura, em sua música e em sua forma de ser e estar no mundo. 

“Qual é o povo que não bate o seu tambor?”

Nascido na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em 2 de novembro de 1967, Dia de Finados, Simas passou pela primeira cerimônia religiosa logo após o parto: teve a cabeça lavada e seu cordão umbilical foi enterrado em Nova Iguaçu. Filho de uma dona de casa pernambucana e de um barbeiro catarinense, o menino foi criado pela avó, Dona Deda, após a separação dos pais, quando ele tinha apenas quatro anos de idade. A avó, alagoana, era uma ialorixá (mãe de santo) conhecedora dos segredos do Xambá, culto de origem nagô observado no Nordeste brasileiro e fortemente mesclado com elementos bantos e ameríndios. Ela também cultuava a Encantaria, mais comum na região Norte.

Dona Deda foi iniciada em 1943 por Zefa dos Olhos de Louça, na Água Fria, em Pernambuco, e abriu casa em Nova Iguaçu, na Rua Castor, no Jardim Nova Era, estado do Rio. Uma parte da infância de Simas foi vivida nesse terreiro, que também era a sua residência. Outra parte foi vivida em Laranjeiras, num apartamento alugado que funcionava como pensão na Rua Pinheiro Machado e onde a avó jogava búzios para seus filhos de santo e eventuais clientes. 

O avô, com quem tinha menos contato, entregava marmitas, feitas por Deda, aos funcionários do Palácio Guanabara. Simas se lembra de vê-lo também trabalhando como vendedor de enciclopédias da Abril Cultural. A família era pobre, mas de uma pobreza digna. “Vivi toda a minha infância e adolescência entre Nova Iguaçu e Laranjeiras, de acordo com a contingência dos compromissos da minha avó com o terreiro”, recorda.

“Não tenho a menor ideia do meu primeiro contato com a religiosidade. Cresci dentro de um terreiro, então é difícil estabelecer um ponto de partida”, afirma o compositor. Esta vivência molda a sua audição de forma definitiva. “Os primeiros sons que me espantaram foram os dos tambores da macumba. A primeira recordação de alumbramento da minha vida foi quando vi Tupinambá dançando com seu cocar majestoso. E ele me abraçou. Isto definiu o meu modo de ver o mundo”, conta.

A música de Luiz Antonio Simas tem forte ligação com o tambor. “Eu encaro a música como macumba, ritual de interação entre tambor e corpo”, explica. Além de fascinado com os sons dos terreiros, cresceu acompanhando desfiles de escolas de samba — sua grande paixão desde sempre. “Costumo dizer, por conta disso, que sou um compositor de música de tambor. Como letrista, embarco na sonoridade, tenho uma preocupação danada em aliar som e sentido. Como melodista, os ritmos que mais me agradam para compor são o ijexá e as variações do toque de congo”, revela. 

Em 2008, junto ao parceiro e também escritor Alberto Mussa — com quem escreveu o livro Samba de Enredo: História e Arte (Civilização Brasileira) —, Simas inscreveu um samba-enredo no Salgueiro, visando levá-lo à Sapucaí no Carnaval do ano seguinte. O desafio era enorme, pois não havia recursos financeiros que lhes dessem a mínima chance de avançar na disputa com os outros concorrentes. Porém, o enredo idealizado por Renato Lage era Tambor, tema que ele dominava como poucos. A melodia, toda ela em tom menor, era um diferencial ousado. Mas a letra, contando a história dos tambores, desde os primórdios da África até a sua chegada ao Brasil, foi tida pelos especialistas como imbatível.

“Quem cruzou o mar
Encontrou um som guerreiro
E desde então o baticum não quer parar
Zambê, zabumba, ilu-abá
Angoma, tumba, candongueiro
Batá-cotô no meu terreiro
Põe na roda o tambozeiro
O Brasil nasceu de mim
Inclusão, cidadania
Furiosa bateria
Coração que bate assim.”

Contra todos os prognósticos, Simas e Mussa chegaram à final. Em tempos onde o poder econômico é determinante para o sucesso de um samba-enredo, a parceria independente da dupla (acrescida de Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené do Salgueiro, que cuidaram de facilitar a entrada do samba na disputa) poderia ser vista como um verdadeiro milagre, caso não fosse realmente acima da média. 

De forma espontânea, sem receber nada por isso (a compra de torcidas, por meio de propinas, ainda é prática usual nas disputas de samba-enredo), amigos da dupla se deslocaram até a quadra do Salgueiro, na época situada no bairro da Tijuca, para torcer pelo samba e cantar os versos que culminavam numa pergunta: “Qual é o povo que não bate o seu tambor?”. 

Contudo, a lógica dominante prevaleceu: apesar de contar com a mobilização dos entusiastas e a simpatia da imprensa nas redes sociais, a composição de Simas e Mussa, que vinha com uma proposta diferenciada, caiu diante de um samba de animação fácil assinado por Moisés Santiago, Paulo Shell, Leandro Costa e Tatiana Leite. 

Na época, o blog do jornalista Sidney Rezende, especializado em Carnaval, culpou o cantor Rixxah (no texto grafado como Rhichahs), que defendeu a obra na quadra: “Além da pequena torcida, o samba não foi bem interpretado por Rhichahs, o que pode ser considerado um fato inédito, já que o cantor é conhecido com o Pavarotti do Samba. ‘Estou com rinite alérgica. Não cantei no máximo do meu potencial. Entrei com garra, mas senti o problema. Apesar disso, tenho certeza que o samba passou muito bem e vai entrar para o hall dos grandes sambas do Carnaval’, afirmou Rhichahs, após a apresentação”.

Simas discorda e se recusa a culpar alguém pela “derrota”. Ele era o “azarão” e entrou na disputa com um samba em tom menor — algo tido pelas modernas escolas de hoje como “passadista” ou “inapropriado” para o ritmo dos desfiles. Por fim, com um samba-enredo mediano, mas um desfile quase perfeito, o Salgueiro seria campeão daquele Carnaval com 399 pontos.

Ironicamente, passados onze anos, o samba de Simas e Mussa ainda é mais lembrado do que alguns sambas que foram parar na avenida. Isso não é novidade. Aconteceu com muitos compositores, em várias escolas de samba, ao longo de tantos carnavais. “Foi a primeira e última vez que cometi a loucura de concorrer com um samba”, desabafou em sua conta no Twitter. Seu envolvimento com o Carnaval, porém, só fez aumentar desde então: além de ser convidado para jurado do Estandarte de Ouro — o maior prêmio do Carnaval carioca —, passou a comentar os desfiles pela Rádio Arquibancada e a servir como fonte de consulta para carnavalescos. 

A gramática dos tambores

Em 2019, com o enredo História Para Ninar Gente Grande, assinado pelo jovem Leandro Vieira, a Mangueira fez um desfile épico que lhe rendeu 270 pontos (nota máxima possível naquela apuração) e o vigésimo título de campeã. Na avenida, a escola retratou personagens históricos (Pedro Álvares Cabral, Princesa Isabel, Duque de Caxias, etc.) como “anões morais”, ao mesmo tempo em que exaltou heróis “esquecidos”, como Cunhambebe, Dandara e Sepé Tiaraju. Na execução, a bateria adotou um tom marcial no trecho que fazia referência aos “anos de chumbo” da ditadura militar no Brasil. A vereadora de esquerda Marielle Franco, assassinada um ano antes (o crime até hoje não foi completamente elucidado), também apareceu citada na letra de Manu da Cuíca: 

“Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”

O polêmico desfile foi alvo de críticas do Comando do Exército Brasileiro, que soltou nota de repúdio no dia seguinte: “Não é de hoje que, por razões diversas, tentativas revisionistas acercam-se do vulto histórico de Duque de Caxias. Todas caem em descrédito”. O objetivo da escola estava mais do que cumprido. 

Na época, o carnavalesco Leandro Vieira revelou que a inspiração para o enredo nasceu da necessidade de se fazer frente ao projeto “Escola Sem Partido”, formulado por grupos civis de direita com o objetivo de proibir professores de falar sobre política em salas de aula. Um dos consultados para a formulação do enredo foi o professor Luiz Antonio Simas.

Em entrevista à Revista Fórum, em março de 2019, Simas contou que a ideia do enredo começou a ganhar corpo numa mesa de bar. “Batemos um longo papo quando o enredo estava sendo pensado, nas mesas do Bode Cheiroso. Foi uma tarde intensa e de cara fiquei muito impressionado com a ideia do carnavalesco. Posso garantir que Leandro leu muita coisa produzida na academia, conversou com vários professores e o resultado está aí”, disse.

Quem conhece o pensamento de Luiz Antonio Simas nota sem muito esforço suas digitais no enredo da Estação Primeira de Mangueira. Ao contrário da interpretação feita por grande parte da imprensa, a escola não quis dizer que os personagens retratados na avenida estavam “fora das salas de aula”. A narrativa foi justamente no sentido contrário. “Eles estão nas salas de aula sim, levados por professoras e professores de História comprometidos com visões plurais que colocam o povo brasileiro como sujeito, e não objeto, da sua história”, explica.

Transmitidos nos bastidores, sem alarde, os conselhos de Simas tiveram papel fundamental na construção daquele que já pode ser considerado um dos mais importantes desfiles da história do Carnaval carioca.

À parte seu envolvimento com o universo do samba, Simas é crítico ferrenho do modo como as escolas estão se distanciando gradativamente de suas comunidades de origem. “Os donos da Liesa (a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio) falam em importância cultural das escolas, mas não querem mudar nada. O horizonte limitado dessa turma é só garantir que o dinheiro entre e arregar para a televisão. Se o prefeito (Marcelo Crivella) tivesse mantido a subvenção, eles ainda estariam cantando ‘pega no ganzê’, pensando em suas lavanderias de grana e gritando ‘aleluia!'”, escreveu em 2017. 

Ao mesmo tempo, ele acredita que um dos fundamentos que mantém viva a alma das escola de samba é o que ele chama de “gramática dos tambores”, conceito elaborado a partir do “diálogo” estabelecido entre os atabaques rituais. Segundo Simas, ainda é bastante comum que as escolas se baseiem nos toques sagrados dos orixás para conduzirem a levada de suas caixas de guerra nos desfiles. No passado, as batidas que anunciavam a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel eram as mesmas que, nos terreiros de Candomblé, convocavam Oxóssi. As entradas da Portela e do Império Serrano, por sua vez, eram marcadas pelas batidas associadas a Iansã. E assim por diante.

Obrigadas — no passado pela força do Estado e hoje pela força da grana — a exaltar em seus enredos a história oficial ou temas que não dizem respeito à comunidade, as escolas acharam brechas, muitas vezes inconscientes, para contar nos desfiles outras histórias, que valorizam suas referências culturais. Enquanto puxadores e componentes cantam sambas cujas letras exaltam políticos, celebridades da mídia ou empresários de sucesso, as baterias ainda evocam — para os ouvidos entendidos — concepções de mundo afro-brasileiras.

Simas cita uma passagem recente para mostrar que esta “gramática ancestral” continua viva nas agremiações. Em 2018, o enredo do Império da Tijuca era Olubajé: Um Banquete para o Rei. Olubajé é a cerimônia anual em que são servidas e consumidas as comidas votivas de Omolu. O tema deixou a escola ainda mais à vontade. “A bateria, por causa disso, veio batendo em algumas passagens do samba o opanijé, que é o toque deste orixá”, explica. Os iniciados perceberam logo de cara que a bateria começava a bater o toque sagrado no trecho do samba que dizia:

“Eu quero ver Omolu dançar
No opanijé com o seu xaxará
Tem pipoca no alguidar, mandingueiro
Sinfonia imperial chegou no terreiro”

“Para quem não conhece o opanijé, passa desapercebido ou parece só uma bossa da bateria. Tá longe disso. Para a turma do Morro da Formiga versada na gramática dos tambores, foi a evocação mais forte, o discurso mais bonito, da noite dos desfiles”, afirma Simas, para quem o toque dos atabaques rituais deveria ser ensinados nas escolas. Não por questão religiosa, mas civilizatória. 

Segundo demonstra o historiador, os atabaques nos cultos de Candomblé “conversam o tempo inteiro”. Cada toque conta uma história. Durante o xirê (a festa dos orixás), o tocador dos tambores sagrados precisa conhecer o toque adequado para cada entidade. Há toques para expressar alegria, tristeza, cansaço, harmonia, suavidade, sensualidade, guerra, etc.

Nos terreiros de Ketu, por exemplo, um dos toques característicos de Ogum é o adarrum, que se caracteriza por sua rapidez agressiva e pelo ritmo contínuo, e evidencia o caráter marcial deste orixá. O agueré, consagrado a Oxóssi, mistura cadência e agilidade e evoca a astúcia do caçador que conhece a floresta como ninguém. O ilú de Iansã é muito rápido e repicado, representando a agitação da senhora dos ventos, dos raios e das tempestades. O igbin, toque para Oxalufã, traz a lentidão do caramujo que carrega sua própria casa, como Oxalufã carrega nas costas o peso do mundo. 

“Quem não percebe que existe aí, nesse idioma dos tambores, um manancial educativo vigoroso de capacitação para interpretar a vida?”, pergunta o professor. “O tambor também é livro e o aguidavi — a vareta que percute o couro — é caneta poderosa para contar as aventuras do mundo. Eles educaram mais gente do que os nossos olhares, acostumados apenas aos saberes que se cristalizaram formalmente nos bancos acadêmicos, imaginam. Saibamos reconhecer, aprender e ensinar suas falas”, diz. 

“Não gosto do Brasil; gosto da Brasilidade” 

Quando estava envolvido com seu projeto de mestrado sobre o agueré, o cantor e compositor Lúcio Sanfilippo procurou Luiz Antonio Simas, a quem conhecera numa casa de santo em Magé, para solicitar ajuda com a tese. Simas era babalaô da casa e começava a mostrar aos amigos e conhecidos as suas composições, que até então estavam engavetadas. Afoxé de Oxalá — também conhecida como Cortejo de Babá — foi a primeira que Sanfilippo ouviu, cantada pelo próprio autor. Perguntou se ele tinha outras. Simas disse que sim. Marcaram um encontro fora do terreiro.

“Eu trabalhava na banca de jornal do meu pai, na Avenida Princesa Isabel, e marquei com o Simas lá. Ele levou o cavaquinho e começou a me mostrar tudo o que tinha guardado. Liguei o gravador e deixei correr a fita. Foi quando me bateu o desespero: eu sabia que não conseguiria gravar todas aquelas músicas, mas era preciso”, conta. “Decidi gravar um disco só com músicas do Simas porque me dava pena imaginar que poderia demorar muito tempo até as pessoas descobrirem a obra dele. Acho que de certa forma ajudei a acelerar esse processo”, diz o cantor.

Alguns meses depois do encontro na banca de jornal, Lúcio Sanfilippo entrava em estúdio para gravar Do Reino da Pedra Miúda, que seria lançado de modo independente no dia 9 de dezembro de 2015. Todas as quatorze faixas do álbum são de autoria de Luiz Antonio Simas. Há sambas, jongos, capoeiras, cirandas e ijexás, entre outros ritmos. Os temas versam sobre orixás, caboclos e encantados. No show de lançamento, ocorrido na Sala Baden Powell, a voz do compositor se fez ouvir na plateia por meio de uma gravação. No texto, em que faz a apresentação de si mesmo e de sua obra, diz:

“O meu lugar é aquele que me arrepia e pinga de luz incerta a escuridão do mundo. É o chão em que piso, a língua que falo e as canções que faço e ouço. As composições deste Do Reino da Pedra Miúda resultam disso. Saíram de um coração que balança numa redinha da terra da minha avó, lá nos cafundós das Alagoas; passam pelos pregoeiros de Caruaru e têm o cheiro do fumo de rolo e das ervas que curam. Foram maceradas no espanto das folhas de Ossain, o Katendê dos congos, senhor das Jinsaba; folhas sagradas. O encanto com os ijexás, o assombro com os transes dos caboclos de pena, a alegria dos frevos e rojões de São João, o alumbramento quando o repique anuncia a entrada da bateria, o sax fraseando Pixinguinha, o baque dos tambores misteriosos, o rum virando para Oyá domar o afefé e pairar — soberana entre relâmpagos — sobre o resto do mundo, são as matérias primas deste trabalho. A voz do Lúcio Sanfilippo condensa isso tudo e vai além. Ele, o Maurício Massunaga (arranjador) e os músicos são parceiros desses cantos. Lúcio tem a voz de um Brasil que é mátria; longe da pátria dos poderosos e do patriotismo tonto. É dele o timbre do país imaginado que ilumina meus olhos, rega meu peito e acaricia as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi do meu avô ao meu filho, no contínuo descortinar da vida. A arte do Lúcio é aquela que faz tremer o chão com o cajado sagrado ao reverenciar, no canto, o mistério intuído dos ancestrais. Axé!”.

Na primeira vez em que Luiz Antonio Simas foi apresentado ao público como compositor, muitos consideraram aquilo uma novidade — embora ele já tivesse sido gravado anteriormente. Coube à Roberta Nistra ser a primeira a registrar, em CD, uma canção do professor que lhe foi apresentada por Lúcio Sanfilippo. Em 2011, pela gravadora Biscoito Fino, a cantora lançou seu álbum de estreia, que trazia composições próprias e de nomes consagrados como Roque Ferreira, Paulo César Pinheiro e João do Vale. Mas foi Simas, com seu Afoxé de Oxalá, que conseguiu emplacar o carro-chefe do disco. “Foi a música mais tocada deste trabalho”, lembra Roberta. 

Nem tudo, porém, saiu como ela gostaria: por erro da própria gravadora, a autoria da faixa acabou sendo creditada, no encarte, a um tal Marco Antonio Simas, que ninguém sabe quem é. “Fiquei chateada, mas não tive culpa. Hoje isso dificilmente aconteceria, pois todo mundo conhece Luiz Antonio Simas”, diz.

Aproveitando o ensejo, Roberta Nistra revela um episódio que nunca teve coragem de contar ao amigo. “Na época da gravação eu não o conhecia, não sabia como era a aparência dele, não sabia quase nada. Então fiz uma busca no Facebook, achei um Simas e julguei que fosse o próprio. Durante a produção do disco enviei para esse cara várias gravações da faixa, para ele ver como estava ficando. E ele devolvia dando altas opiniões sobre os arranjos, como se fosse o autor da música. Só descobri que ele não era o compositor quando o disco já estava pronto”, diverte-se. 

Afoxé de Oxalá, no entanto, estava fadada a dar certo. Com ela, a cantora foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira em 2012. Foi também a música escolhida pela Biscoito Fino para entrar no catálogo da gravadora. “Afoxé de Oxalá teve relação direta com o progresso do meu disco e da minha carreira”, diz. Quatro anos depois, a música viria a ser gravada também por Sanfilippo, “padrinho” da obra.

Simas diz que a canção foi feita pouco depois de ter participado das Águas de Oxalá, uma festa anual do Candomblé em homenagem a este orixá. Ela começou a ser gestada a partir da frase “a soma de cem é um”, que durante horas ficou martelando em sua cabeça. “A partir dessa ideia comecei a compor um ijexá. A melodia veio rápido. A letra demorou, já que pensava em incluir a corte dos orixás funfun na história. Com a música pronta, não imaginei gravar”, relembra. Acontece que o Afoxé de Oxalá se espalhou feito erva rasteira. 

“Debaixo do seu alá misericordioso
Babá me dê proteção
Escuta a minha oração
Me guarda com seu alá
Que guarda todo esse povo
Babá é senhor idoso
É o moço que faz a guerra
É o ar que alimenta o fogo
É a chuva que molha a terra
Cajado e opaxorô
Babá me estenda a mão
Alivia a minha dor
Enquanto pila o pilão”

Não existe marco inicial na trajetória de um compositor. Pelo menos, até hoje, nunca conheci quem admitisse ter se descoberto compositor a partir de determinada data ou ocasião. O letrista Paulo César Pinheiro diz que, por compor e ser gravado desde muito jovem, demorou a se espantar com a repercussão de uma música que tivesse feito. Para ele, ser cantado por milhares de pessoas desconhecidas sempre foi uma “consequência natural” do trabalho. No entanto, houve um dia especial em sua caminhada.

No começo da década de 1970, disposto a dormir ao relento numa noite quente de verão, ele caminhou até a praia de Paraty, onde estava hospedado, e deitou-se nas tábuas de um velho trapiche. Não muito longe dali, um grupo de rapazes bebia e tocava violão na areia. Sem saber quem eram aqueles jovens, Paulinho Pinheiro afiou os ouvidos para descobrir o que estavam cantando. Para sua surpresa, cantavam Viagem, sua primeira composição, feita aos 14 anos de idade em parceria com João de Aquino. Foi a primeira vez que se espantou de verdade por algo que tenha escrito. “Aquelas pessoas não sabiam quem eu era e, caso eu decidisse me apresentar como o autor da canção, talvez nem acreditassem”, conta. Neste dia, de alguma forma, ele teve a certeza de que era um compositor popular.

É possível que Luiz Antonio Simas tenha sofrido impacto semelhante ao descobrir que sua canção para Oxalá estava sendo cantada em terreiros de Candomblé e de Umbanda de vários estados do Brasil. Há no YouTube vídeos caseiros que mostram sacerdotes e filhos de santo cantando o Afoxé de Oxalá como se fosse uma música de domínio público. A cantora umbandista Bhetânia Lemme, mineira de Janaúba, que detém um canal com mais de 160 mil seguidores, é uma delas. A ialorixá Glória Bomfim, cantora tardiamente revelada, a incluiu num show. “A minha autoria foi pra cucuia. Chegaram até a me mostrar a canção como se fosse um ponto de macumba antigo. Pensei em dizer que era minha, mas a pessoa acharia um tremendo caô e fiquei na moita”, brinca o compositor.

Esta talvez seja a diferença entre a maioria das músicas feitas no Brasil sobre orixás e as músicas feitas por Luiz Antonio Simas: em sua obra, as canções vão além de homenagear uma entidade ou contar a história de suas predileções e características. As canções de Simas não são sobre os orixás, mas para eles. Aliadas ao seu profundo conhecimento acerca dos tambores, as suas letras têm fundamento. É por isso que, ao ouví-las pela primeira vez, temos a sensação de que a conhecemos de longa data. Não é exagero dizer que muitas tendem a se tornar pontos cantados em terreiros e a se integrar, no futuro, ao inconsciente coletivo do povo de santo, em processo semelhante ao que tem ocorrido com Afoxé de Oxalá.

Apesar de compor quase sempre sozinho, Simas cultiva parcerias esporádicas com alguns dos músicos mais talentosos de sua geração, como Vidal Assis (Quizomba de Bamba), Moyseis Marques (Brasil Natal) e Pedro Amorim (Aldeia). Este último, instrumentista e parceiro de Paulo César Pinheiro em vários afro-sambas, conheceu o historiador na livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor, ponto de encontro de nove entre dez cariocas que gostam de jogar conversa fora sobre samba, literatura e futebol. 

“Depois desse primeiro encontro no Centro do Rio, vi uma publicação do Simas no Facebook e senti, pelo ritmo do texto, que daria música. Mandei um comentário perguntando se eu poderia botar uma melodia e assim, de modo bem informal, nasceu a nossa parceria”, relembra Amorim.

Aldeia é a única música da dupla até o momento, mas o violonista revela que Simas está trabalhando na produção de uma série de letras que serão musicadas posteriormente por ele. “As letras seguirão um determinado tema, mas isso ainda é segredo”, diz. “Gosto muito do seu pensamento sobre a rua, sobre as formas de resistência a essa violência avassaladora que a gente sofre desde a época do Brasil colônia. É muito bom conversar com ele. Ele é um cara que realmente troca ideia, que dialoga, uma coisa rara de se ver hoje em dia”, comenta o parceiro. 

Outro artista que não poupa elogios às composições de Simas é Moyseis Marques. Cantor e compositor revelado na efervescente cena da Lapa do início dos anos 2000, Marques lançou recentemente o CD e DVD Passatempo Ao Vivo, cujo repertório perpassa vinte anos de carreira. Entre os convidados do disco está Chico Buarque, com quem divide a faixa Subúrbio. “Aldir Blanc diz que poucos compositores conseguem desfrutar a glória do anonimato, que é estar num lugar e ver todo mundo cantando sua música sem que ninguém saiba que você é o autor”, disse em entrevista à Mídia Ninja. Simas caminha para ser um deles.

No fim do ano passado, Moyseis Marques e Luiz Antonio Simas compuseram Brasil Natal (Que Perdoem-me as Renas), canção natalina apinhada de referências da cultura popular brasileira. A letra narra a chegada de Papai Noel ao Brasil. Assim que passa a ter contato com as nossas coisas, o “Bom Velhinho” vai se despindo das roupas do Polo Norte, entrando na cachaça e se integrando ao país por meio de suas danças, músicas e festas.

“O boi-calemba dançou
Na barra do meio-dia
Papai Noel estranhou
Mas gostou da fantasia
Livrou-se da bizarria
Das roupas do Polo Norte
Virou nordestino forte
De lida de gado e festa
E foi logo pro terreiro
Ver Lapinha e Pastoril
Cantando as canções de gesta
Entranhado de Brasil

Perfumou-se de alfazema
Pra festa de Santo Reis
Sentiu cheiro de açucena
Quis cheirar mais uma vez
E trocou o gorro vermelho
Por quepe de marujada
Pra ver chegança embarcada
Nas águas de Pirapora
Embebido de aguardente
Esperando sua hora

Enfim é chegada a hora
Noel já estava curtido
Juazeiro, Juazeiro,
É Lua que faz sentido
Lapônia que me pariu
Que perdoem-me as renas
Vou de jegue pras morenas
Troco um mundo desigual
Por esse teu Brasil natal”

“No fim das contas, tudo que falo em aulas, livros e canções almeja a Brasilidade”, diz o historiador, que faz questão de grafar o termo com B maiúsculo. 

Um Brasil autêntico? “Não. Não sei qual é o Brasil autêntico. Desconfio das identidades fixas. Acho que há embates. Tenho pouquíssimo interesse no Brasil oficial. Não gosto do Brasil; é mais honesto dizer. Eu gosto é da Brasilidade, essa comunhão de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras e contradições”, declara Simas. 

Para ele, a Brasilidade deve ser encarada como uma “reação vital, inovadora e transgressora à mortandade do Brasil do ódio”. 

“Não se faz festa porque a vida é mole, mas pela razão inversa”

Em 2011 nasce Benjamin, seu primeiro e único filho (cujo nome é uma dupla homenagem: a Paulo Benjamin de Oliveira — o revolucionário sambista Paulo da Portela — e a Walter Benjamin — filósofo judeu alemão que exerceu grande influência na formação crítica de Simas). Este acontecimento, recebido com alegria, obrigou-o a reduzir a biblioteca pessoal para ceder um quarto à criança. Mais de quinhentos livros tiveram que sair de casa. A solução encontrada para amenizar o vazio deixado mais na alma do que nas estantes foi a melhor possível: vender a coleção ao sebo Al Farabi, localizado na Rua do Rosário, que também funcionava como café e cervejaria. O pagamento foi em cerveja e o crédito demorou mais de um ano para terminar. 

Seu vínculo com a rua e com a festa pode ser percebido mesmo nos pequenos detalhes, como no episódio acima descrito. Apesar de espontânea, sua relação cotidiana com as ruas da cidade parece ser também um compromisso político. Em seu livro O Corpo Encantado das Ruas há uma passagem que confirma esta hipótese: “Em um momento em que o Brasil dá a impressão de se desmanchar num mar de ódio, pode parecer maluquice escrever sobre pipas. Não acho. Soltar pipa, jogar porrinha, fazer churrasco na esquina, sambar, jogar futebol (…) são formas de construir sociabilidades mundanas capazes de dar sentido à vida, reverenciar o tempo e instaurar a humanidade no meio da furiosa desumanização que nos assalta“. 

A rua e a festa estão presentes na vida, na literatura e na música de Luiz Antonio Simas — o que confere coerência ao conjunto de sua obra. Ele defende que é na rua e na festa que o povo “finalmente dá o troco nos colonizadores”. Parodiando o sambista Beto Sem Braço, que teria dito certa vez que “o que espanta miséria é festa”, o compositor cunhou uma resposta à turma que critica quem brinca o Carnaval, quem samba e quem ri em tempos de crise: “Não se faz festa porque a vida é mole, mas pela razão inversa. A gente faz festa porque a vida é dura”. 

Estive com Simas várias vezes desde que nos conhecemos pessoalmente, em 2007. Em quase todas as ocasiões o contexto era de festa ou celebração. Uma dessas ocasiões foi o aniversário de quarenta anos de nosso amigo em comum, o advogado Eduardo Goldenberg. No rega-bofe, oferecido em 2009 em seu apartamento tijucano, na Rua Haddock Lobo, Edu ganhou de presente uma antiga imagem de São Jorge que, durante décadas a fio, figurou no centro do gongá (altar) do terreiro de Dona Deda, avó de Luiz Antonio Simas. 

Dez anos depois, o advogado recorda o episódio com a voz embargada: “Eu era amigo dele há apenas dois ou três anos. Muito pouco tempo para merecer tamanha consideração. Aquele São Jorge tinha um valor afetivo incomensurável para o Simas e mesmo assim ele me deu, num gesto de desprendimento que até hoje me comove”, conta. Para Goldenberg, a generosidade é um dos traços mais marcantes da personalidade de Luiz Antonio Simas — traço este que pode ser percebido em seus textos, quando se refere ao povo brasileiro.

Apesar de reconhecer que a amizade de quase quinze anos com Simas poderia torná-lo “suspeito” para opinar sobre o compositor, Edu acredita que é justamente o longo convívio com o amigo que o autoriza a tecer considerações como esta: “Um sujeito como Luiz Antonio Simas nasce a cada cem anos no Brasil. Muita gente escreve bem neste país; muita gente compõe música bem; muita gente faz letra bem; muita gente fala bem, usando a cátedra; muita gente domina temas importantes muito bem. Mas é muito raro ver uma pessoa que faz tudo isso com extrema competência e autoridade. Simas faz todas essas coisas muito bem; por isso o considero um gênio”, diz. 

Simas provavelmente discordaria da afirmação, argumentando que o reconhecimento é fruto de intenso trabalho (sua rotina começa por volta das quatro da manhã, hora em que acorda para ler, estudar e escrever até o meio-dia, quando então vai para o seu posto de observação: a rua). É inegável, porém, que seu talento não resulta apenas de sua disciplina de escritor, mas principalmente de sua relação intrínseca com o terreiro, a roda de samba e o botequim. Simas não é um mero observador dos personagens da rua, mas é, ele próprio, um personagem que vivencia o cotidiano do Rio e nele interfere desde que começou a se entender por gente. 

Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Antonio Simas abandonou a academia após ter seu projeto de doutorado rejeitado por seus pares. A tese se propunha a traçar um paralelo entre as vidas do sambista Noel Rosa e do futebolista Leônidas da Silva, ídolos nos anos de 1930. De suas frases conhecidas, a que mais gosto é uma que sintetiza toda a sua obra escrita e cantada: “Um samba é um documento, um gol é um fato histórico”. Decidido a não seguir carreira acadêmica, Simas foi dar aulas para adolescentes com o cavaquinho à tiracolo. Ensinou a História do Brasil cantando Luiz Gonzaga, Candeia e Silas de Oliveira. 

Na juventude chegou a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a se declarar ateu. Só se reaproximou da religião quando a avó morreu e o terreiro teve de fechar as portas. “Quando me despedi da minha avó, mãe de santo que me criou, prometi a ela que me dedicaria a falar do terreiro. Meu amor pela velha já seria suficiente para seguir os ensinamentos deixados”. A consagração como sacerdote aconteceu sob a condução de Ogum, após seu contato com o Ifá (da forma como cultuado em Cuba, onde esteve algumas vezes).

Passou a usar o termo “macumba” com orgulho e de forma provocativa, para fomentar a discussão. “Foi uma palavra injustamente depreciada. Não só por aqueles que não têm nenhuma relação com essas religiosidades, mas também por aqueles que estão dentro delas”. Faz questão de deixar claro que antes de ser professor, escritor ou compositor, considera-se macumbeiro. “Eu fui civilizado pela macumba. Sem ela, a macumba, eu não seria”.

Gosta soberanamente da rua, mas não vai à praia. “O sol me detesta”, costuma dizer. Sua bebida preferida é a cerveja gelada. Certa vez me disse que seu ideal de vida era passar o dia todo tomando cerveja com os amigos no Bode Cheiroso, um de seus botequins de fé. O primeiro gole de cada entardecer é sempre oferecido a Exu Odara, o senhor da alegria.

“Eu não admito andar de cabeça baixa e nem me envergonhar do legado dos meus ancestrais”, diz. Lembra-se de uma ocasião em que, criança de colégio, teve vergonha de dizer que era do santo durante uma aula. “Dessa fala que não saiu da minha boca nunca mais esqueci — e o silêncio constrangido do menino ainda grita no homem que sou”. 

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