A mão civilizadora do colonialismo?

por Dominic Cerasoli | Morning Star - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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Um homem congolês olha para as mãos e pés arrancados de sua filha de cinco anos, morta e supostamente comida viva por membros da milícia da Companhia Anglo-Belga de Borracha das Índias.

Mesmo com os mais distantes cantos do mundo sendo atormentados por incontáveis crises ecológicas, ainda há aqueles que mantêm a opinião segundo a qual a primazia do capitalismo sobre nosso planeta não foi nada senão algo bom – incluindo o derramamento de sangue que o procedeu.

Apesar dos inegáveis horrores infligidos pelo colonialismo, ele ainda é imaginado por alguns como um processo pelo qual os poderes nascentes do capitalismo “civilizaram” o resto do mundo.

A imagem de tribos selvagens se mexendo em meio à lama, convertidas forçosamente à idade moderna, é uma imagem comum no pensamento de direita. A ideologia da “responsabilidade do homem branco” forja o colonialismo como uma missão de civilização, tendo os colonizadores como avantajados, mas em última instância paternalistas – até mesmo benevolentes – missionários.

Apesar dessa concepção não ser tão explícita na esquerda, é comumente aceitada tacitamente devido à incompreensão sobre o desenvolvimento assimétrico.

Enquanto um fardo moral é posto nos colonizadores, permanece uma ideia de que uma existência estática e primitiva de certos povos indígenas, por vezes romantizada e mal compreendida, foi a causa natural de sua ruína – por vezes acompanhada por suspiros de generalizações segundo as quais os fortes sempre irão oprimir os fracos.

Ambas as ideias – a da tribo atrasada que precisa da mão-guia da civilização ocidental, e a dos nômades pacíficos que vivem suspensos no tempo e em harmonia com a Terra – traem a impossibilidade de imaginar sociedades não-ocidentais pré-capitalistas de forma complexa; como civilizações, com seu próprio curso de desenvolvimento e seus próprios problemas.

Mais insidiosamente, essas posições reforçam a ideia de que a pobreza era a condição histórica original, e que os poderes ocidentais simplesmente venceram a corrida rumo à modernidade civilizada – obtendo portanto o direito de conquistar o mundo.

A Índia pré-colonial é uma forte refutação dessas incompreensões. Não havia ali nem uma terra selvagem a ser domada nem um paraíso pitoresco de harmonia primitiva, mas sim um dos poderes mais produtivos do mundo. Ela era responsável por 24% do PIB global em 1700 e tinha um perturbador sistema de classe próprio.

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Frente ao déficit nos têxteis, a Inglaterra do século 19 tomou medidas para retirar a Índia da posição que ocupava: tarifas proibitivas em produtos acabados e redução de preços de commodities por meio do uso da força militar.

Em 1850, a dívida da Índia havia crescido para 53 milhões de euros. Os seus grandes centros têxteis foram reduzidos a cidades fantasmas decrépitas, e o povo foi enviado de volta para o campo, para cultivar algodão para os magnatas têxteis britânicos. O valor dos materiais extraídos pela Inglaterra a cada ano eram superiores ao total da renda de seus 60 milhões de trabalhadores indianos.

Uma economia antes independente e produtiva foi reduzida ao status de uma vaca leiteira, a ser sugada pelos financistas britânicos. A pobreza que normalmente associamos àquele país não era sua condição histórica original – ela foi forçada.

De fato, há poucos países originalmente pobres. Níveis variantes de desenvolvimento tecnológico devem ser esperados, mas em poucos casos o povo em sociedades menos desenvolvidas serve à imagem de pobreza abjeta que temos hoje.

Povos pré-agrícolas viviam em equilíbrio relativo com o que seus ambientes naturais tinham a oferecer, e costumavam ser mais flexíveis e menos sujeitos à inanição do que algumas das primeiras sociedades agrícolas, cujos estoques de comida estavam tão garantidos quanto a próxima boa safra.

Ainda mais, dizer que qualquer maioria de povos se beneficiaram do choque de modernização colonial seria uma horrenda distorção da verdade. A população Maia da Guatemala tinha melhores condições de saúde no século 16 do que eles têm hoje. Com a chegada de companhias madeireiras nas florestas tropicais de Borneo, um povo que antes era feliz e auto-suficiente foi reduzido a uma população desnutrida de moradores de favelas subempregados em apenas alguns anos – seu modo de vida foi obliterado e o seu mundo se transformou em uma zona de desastre ecológico. Seus pedidos para que fossem deixados em paz pelas mãos civilizadoras do capital são bem documentados.

Em tais casos, os povos chegaram a algo que lembre a concepção moderna de pobreza só depois de ter contato com o capitalismo global. A ideia convencional sobre desenvolvimento há portanto de estar errada –  geralmente é somente quando o desenvolvimento de um determinado país ou povo é interrompido que o que chamamos de “país em desenvolvimento” realmente surge.

A frase é, portanto, um nome impróprio – eles poderiam ter ficado bem por conta própria, antes de serem arrastados sem piedade para a era industrial por potências estrangeiras ávidas por recursos naturais e lucros rápidos.

Isso não é para romantizar o primitivo. A marcha do progresso é inevitável e estar no caminho para um mundo abundante de avanço tecnológico é obviamente uma coisa boa – mas apenas quando isso ocorre em seus próprios termos.

Em grande parte do que chamamos agora de Terceiro Mundo, as pessoas estavam se desenvolvendo de maneira impressionante em toda uma gama de campos produtivos – assim como os povos da revolução urbana, sem necessidade de ajuda externa, aprenderam em poucas gerações como extrair, transportar e esculpir rochas e como fazer bronze com cobre e estanho extraídos.

As próprias formações da civilização propriamente dita – bois e arados, represas e valas, poços e terraços – faziam parte de um processo de desenvolvimento em desdobramento com um momento próprio.

A Europa, no início da era colonial, liderou o mundo em campos como praga, fome, desigualdade e violência sectária. Seus habitantes viveram algumas das vidas mais curtas e miseráveis conhecidas na história e suas práticas sociais eram bárbaras e repressivas.

Mas ela também gozava de uma vantagem crucial: a de um poder inigualável em navegação e armamento. Foi com isso – poder de fogo superior, não cultura superior – que eles foram capazes de subjugar o mundo.

A existência de um país pobre não pode ser vista isoladamente, mas deve ser entendida no contexto do capitalismo global e da desigualdade. Por mais sitiado que seja, um país pobre que conquiste a independência do capitalismo neocolonial é capaz de fazer grandes progressos no desenvolvimento social, na democracia política e na diversificação econômica.

O exemplo, embora breve, do caso de Burkina Faso, de Thomas Sankara, é suficiente para pôr em causa toda as ideias convencionais em torno da África como uma terra inerentemente pobre e pestilenta. A África é rica – apenas seu povo é pobre.

Não se deve esquecer que o colonialismo nunca foi uma força progressista na história humana. Pelo contrário, fez pouco a não ser atrasar seu desenvolvimento para obter ganhos a curto prazo, deixando para trás terrenos baldios irradiados e populações destruídas – que são castigadas por não conseguirem se sustentar.

Devemos ter receio de cair no dogma preguiçoso de que a história fornece sua própria justificativa, de que os males do império eram necessários em uma sequência determinística de eventos que inevitavelmente levará ao socialismo.

Fazer isso não é apenas ceder terreno à direita pró-imperialista, elevando um dedo em riste a milhões de vidas obliteradas – é suprimir a necessidade de uma análise materialista daquelas tendências econômicas que a barbárie colonial interrompeu.

Os argumentos socialistas contra a ortodoxia de direita não podem ir além do moralista, a menos que comecemos a fazer tais análises e reconheçamos que as potências coloniais não eram mais do que intrusos assassinos em processos independentes de desenvolvimento que se desenrolam em todas as sociedades do mundo.