Como o novo acordo de paz EUA-Afeganistão reacendeu um “Talibã pró-negócios”

por Whitney Webb | Mintpress News - Tradução de Ciro Moreira para a Revista Opera

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(Foto: (Department of Defense photograph by Lt. j. g. Joe Painter/RELEASED)

O presidente Trump, que está concorrendo à reeleição neste ano, acrescentou outro acordo de “paz” a suas credenciais, um acordo que o presidente, sua campanha eleitoral e seus apoiadores promoveram como uma prova de que Trump está disposto e é capaz de resistir o establishment da política externa norte-americana e seu impulso constante para manter o país em “guerras eternas”.

Entretanto, diferente do criticado acordo de “paz” Israel-Palestina que foi recentemente lançado pela administração de Trump, há mais sutilezas no acordo dos EUA-Talibã do que se imagina. Certamente, é possível que o acordo diminua e talvez até encerre a presença militar americana oficial no Afeganistão, mas há pouca indicação que será o fim do derramamento de sangue ou o fim da economia fantasma do país que está mergulhada nos lucros do narcotráfico e da mineração ilegal.

É marcante o fato de que a crescente presença da CIA no Afeganistão, que se expandiu durante os anos do governo Obama e continuou a expandir-se sob Trump, permanecerá ainda que as tropas americanas estejam preparadas para sair. Ainda mais, muitos dos detalhes do acordo – como o que o Talibã deve fazer para garantir que os Estados Unidos continue a retirar tropas – são vagos, o que significa que a retirada de tropas pode facilmente ser pausada ou cancelada sob a discrição da administração de Trump a qualquer momento durante os 14 meses que foram estabelecidos no acordo.

Claro, o cronograma de 14 meses encerra bem depois da eleição de 2020, provavelmente salvando os esforços eleitoreiros de Trump de qualquer consequência negativa do acordo que contenha poucas especificidades na sua forma atual, bem como diversos anexos “secretos”, que garantiram uma presença contínua da CIA e um contingente considerável de forças antiterrorismo dos Estados Unidos que permanecerão indefinidamente no Afeganistão.

Além disso, a classe de “oligarcas da guerra” do Afeganistão, que enriqueceram com a corrupção que marcou a era pós-invasão do país ,elogiaram este acordo. Isto é marcante visto que esses oligarcas, muitos dos quais atualmente moram nos Emirados Árabes Unidos (EAU), se opuseram à retirada de tropas dos Estados Unidos no passado. Junto a essa esquisitice, também há um esforço midiático ocidental para descrever o Afeganistão pós-invasão como “aberto para negócios”.

Entretanto, são as atividades econômicas ilícitas do Afeganistão, especialmente seu comércio de ópio, que irão definir se este acordo será bem sucedido ou não, visto que o ópio afegão é uma importante fonte de renda, não apenas para o Talibã, mas também para a CIA – portanto, de fundamental interesse de ambos os partidos. Não é surpreendente quando o acordo contém um anexo que concerne às futuras operações da CIA nas áreas controladas pelo Talibã.

A miríade de fatores que está em jogo neste “acordo” sugere que há diversos motivos detrás dele para sua assinatura e promoção. Enquanto o acordo certamente favorece o desejo de Trump em se reeleger, e também reacende as velhas alianças do Talibã com os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita às custas dos seus laços com o Irã, bem como os esforços para trazer o Afeganistão para o bolso de vários projetos de infraestrutura financiadas pelos Estados Unidos na Ásia Central que visam impedir o sucesso de projetos similares promovidos por estados rivais aos Estados Unidos na região.

Qualquer que seja a motivação exata por trás do acordo vigente, seu sucesso no longo prazo será determinado pelos interesses de negócios, governo e inteligência norte-americanos no país e se o Talibã constituirá um obstáculo a estes, e não por um desejo real de trazer as tropas americanas para casa e diminuir a presença americana em “guerras eternas” no exterior. 

Acordo histórico ou encenação em ano de eleição?

O “acordo histórico” assinado pelos Estados Unidos e o Talibã em 29 de fevereiro não é um acordo final, mas um acordo preliminar sobre o qual os oficiais dos Estados Unidos não estão autorizados a comentar publicamente e cujas as especificidades ainda não foram divulgadas publicamente.

Entretanto, poucos dias depois de ter sido assinado, os Estados Unidos bombardearam o Talibã em suposta retaliação a ataques pelos quais ninguém assumiu responsabilidade, o que é plausível, visto a natureza faccional das lutas no Afeganistão e do próprio Talibã. Também há o fato de que alguns dos grupos armados mais letais do país são paramilitares criados e mantidos pela CIA, e é dito que o controle da CIA sobre a ação desses grupos “diminuiu” nos anos recentes, tornando eles essencialmente esquadrões da morte. Porém, os Estados Unidos garantiram que esses ataques foram cometidos pelo Talibã.

O Talibã poderia facilmente ter cometido esses ataques sem ter tecnicamente violado o acordo, entretanto, visto que o acordo de “paz” não “obriga o Talibã a se abster de qualquer ação específica após a semana inicial de redução da violência” que encerrou no último fim de semana, de acordo com a CBS News. Em outras palavras, o acordo de “paz” não inclui um cessar-fogo, mas sim diz que uma trégua será negociada como parte das “negociações intra-Afegãs” entre o Talibã e o governo apoiado pelos Estados Unidos em Kabul. Esse governo é atualmente liderado pelo ex-economista do Banco Mundial, Ashraf Ghani, governo que aproximou-se da CIA, e cuja reeleição recente foi permeada de fraudes. Também se deve dizer que o principal opositor político de Ghani que alegou ter ganhado a eleição foi alvo em um tiroteio que ocorreu na semana passada, acontecimento que ocorreu também após a assinatura do acordo de “paz”.

Ainda que seja compreensível que muitos estejam aliviados que os Estados Unidos aparentemente estejam encerrando sua presença de 19 anos no Afeganistão, ainda há muito do acordo que merece um exame minucioso. Por exemplo, o acordo não demanda a retirada completa das tropas, mas sim sua redução, de 12.000 para 8.600 nos próximos 135 dias. Estas 8.600 tropas são o mesmo número que permaneceu após a retirada limitada feita por Obama,  de acordo com o The Hill. “elas continuarão a lutar grupos terroristas como a Al Qaeda e o Estado Islâmico”. Uma matéria do The Los Angeles Times alega que os Estados Unidos prosseguirá com uma retirada completa em 14 meses, mas apenas “se a Al Qaeda e outros grupos terroristas não ressurgirem na região”.

Esta distinção merece considerável crítica, pois o governo americano atualmente financia as forças da Al-Qaeda na província de Idlib, na Síria, e no Iêmen, já que não só permitiram ao Estado Islâmico crescer intencionalmente pela administração de Obama, mas também mantêm laços do grupo com o aparato de inteligência dos Estados Unidos e do seu principal aliado na região, Israel.

Seria simples para os soldados da Al-Qaeda em Idlib, que estão atualmente lutando contra uma ofensiva russa e síria, serem realocados para o Afeganistão, visto que os EUA estão previstos para retirar suas tropas, justificando sua presença constante no país, que possui enormes reservas minerais e uma importante localização geoestratégica crítica para a região. O pronunciamento do presidente Trump após a assinatura do acordo disse que “se coisas ruins acontecerem, nós retornaremos”, o que revela que ainda há possibilidade de reverter a retirada de tropas. Também há um presságio negativo para este acordo que é o fato da mídia norte-americana já estar especulando que o tiroteio em massa na sexta-feira (6) em Kabu,l que mirou o principal opositor ao presidente afegão, foi provavelmente feito pelo Estado Islâmico.

Além disso, a revista Time reportou mês passado que as 8.600 tropas na realidade permanecerão indefinidamente como parte de uma força anti-terrorismo semi-permanente, e que os líderes do Talibã não concordariam com essa demanda em público, mas privadamente sim. O jornalista Pepe Escobar escreveu no Asia Times um dia antes do acordo ser assinado, e alegou que o Talibã não apenas permitirá “um contingente para salvar as aparências por uns meses, e outro contingente menor… para proteger a embaixada americana em Kabul”. Escobar também alegou que os Estados Unidos inevitavelmente rejeitarão o cronograma de 14 meses, mantendo a presença eterna dos Estados Unidos no Afeganistão.

Notavelmente, no dia que o acordo foi assinado, o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, alegou que o país “não hesitaria em nulificar o acordo” se o Talibã não honrasse seus compromissos, que envolvem não permitir “a Al-Qaeda e outros grupos terroristas de se reestabelecerem no território afegão” e negociar um acordo de divisão de poderes com o governo fantoche de Kabul liderado por Ashraf Ghani, um ex-economista do Banco Mundial que na última eleição teve sua vitória fortemente contestada.

O The Los Angeles Times também disse que o governo norte-americano reservou para si o direito de suspender a retirada de tropas se o Talibã “se recusar a negociar de boa fé”, que é outra cláusula vaga no acordo de paz. Entretanto, Trump, como comandante-em-chefe, poderia teoricamente escolher a retirada de tropas, ainda que negociações futuras destinadas a discutir as minúcias do acordo entrem em colapso. 

O aspecto menos noticiado deste novo acordo de “paz” é os mais importante. Alguns dias antes da assinatura do acordo, tanto a revista Time como Pepe Escobar noticiaram, citando 5 oficiais afegãos e norte-americanos, que o acordo contém quatro provisões ou anexos secretos. Enquanto três desses anexos já apareceram na mídia após a assinatura do acordo, um ainda não. Este anexo discute como a CIA permanecerá no Afeganistão e como ela irá operar em áreas controladas pelo Talibã.

Ainda que não muito noticiado, este aspecto do acordo não deve surpreender, pois em agosto do ano passado a administração de Trump estava considerando uma expansão da presença da CIA no país na medida que as tropas fossem retiradas como parte do acordo temporário com o Talibã. O LA Times reportou que o acordo final foi cancelado, tanto para retirada de tropas, bem como para as “dezenas de milhares de contratadores e pessoal não-diplomático”, e alegou que isso também incluiria oficiais da CIA, mas esta matéria não mencionou a reportagem feita pela Time ou por Escobar, nem o anexo que concerne às atividades da CIA no Afeganistão. 

De maneira geral, apesar de muito dos detalhes do acordo serem vagos e/ou não estarem disponíveis publicamente, existem muitas razões para ser cético quanto a esse “acordo de paz histórico” trazer a paz para o Afeganistão. Entretanto, investigando quem negociou o acordo, quem o apoia e porquê, mais razões para ser cético – se não explicitamente cínico – imediatamente aparecem.

O passado suspeito do principal negociador norte americano

Apoiadores do presidente sugeriram que a rejeição do acordo por neoconservadores proeminentes – incluindo o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton e a deputada Liz Cheney, entre outros – era a prova que o acordo seria eficiente em acabar com a maior guerra na história dos Estados Unidos, pois havia irritado alguns de seus mais notórios defensores.

Entretanto, tais alegações falham em ressaltar que o principal negociador de Trump com o Talibã e o principal embaixador norte-americano no Afeganistão, Zalmay Khalilzad, é ele mesmo um neoconservador e um signatário fundador do Projeto para um Novo Século Americano, o defunto, mas controverso think-tank conservador cujos antigos membros ascenderam à proeminência durante a administração de Bush.

Não apenas isso, mas Khalilzad era também uma figura central na Operação Ciclone da CIA durante a administração de James Carter e Ronald Reagan, e ele pessoalmente ajudou a expandir o controverso programa. Essa operação criou, armou e financiou as forças Mujahidin do Afeganistão, que incluiu os mesmos indivíduos que depois criaram tanto a Al-Qaeda como o Talibã. É uma das mais longas e mais caras operações secretas da história da CIA, e também envolveu a inteligência saudita e paquistanesa.

Além disso, Khalilzad, na época da Operação Ciclone, também era o diretor executivo do Amigos do Afeganistão, um “grupo de apoiadores” para os Mujahidin, e também é um membro antigo da direção da National Endowment for Democracy (NED), há muito chamada de um braço da CIA pelos seus críticos.

Notavelmente, um dos principais negociadores do Talibã neste novo acordo de “paz”, Sher Mohammad Abbas Stanekzai, estava entre aqueles treinados e armados como parte das forças Mujahidin durante a Operação Ciclone.

O fato de que os principais negociadores em ambos os lados têm laços com essa operação desastrosa da CIA foi largamente ignorado nas reportagens da mídia sobre as negociações e o acordo de paz. Uma razão óbvia para deixar isso de fora é o fato de que a existência do próprio Talibã é resultado da política externa neoconservadora e a falta de controle sobre as agências de inteligência, com muitos indivíduos que foram atrelados à Operação Ciclone permanecendo poderosos e influentes na política norte-americana, com Khalilzad incluído entre eles.

Somando-se a essas esquisitices que concernem ao plano de fundo dos negociadores do acordo está o fato que Khalilzad foi também por anos um apoiador público do Talibã. O Instituto de Estudos de Políticas disse:

“[Khalilzad] foi um apoiador precoce do Talibã durante sua luta brutal anti-soviética no Afeganistão. E ele permaneceu em contato com as forças fundamentalistas depois de elas derrotaremos  senhores da guerra e tomarem o poder em Kabul em 1996”.

O Los Angeles Times alegou em 2002 que:

“Meros 10 dias após o Talibã tomar o poder em Kabul em 1996 e iniciar sua repressão, Khalilzad argumentou em uma matéria de opinião no Washington Post que os Estados Unidos deveriam tentar trabalhar com os mulás e formar um governo abrangente que incluísse outras facções… Na matéria de opinião, Khalilzad disse: ‘O Talibã não pratica o fundamentalismo anti-ianque similar ao do Irã – é mais próximo do modelo saudita’. Nós devemos usar isso como um incentivo positivo, os benefícios obtidos do Afeganistão pela construção de oleodutos e gasodutos no seu território”, ele acrescentou. “Esses projetos apenas seguirão para frente se o Afeganistão tiver um único governo oficial”.

Essa posição não é exclusiva de Khalilzad, visto que outros no governo norte-americano na época desejavam usar o Talibã para criar uma “segunda Arábia Saudita” no Afeganistão; e a administração Clinton, de 1994-1996, ofereceu apoio secreto ao Talibã através da Arábia Saudita e Paquistão.

Os laços de Khalilzad com o Talibã continuaram muito depois deles terem tomado o poder e ele era uma figura central nos esforços da administração Clinton e de um consórcio liderado pela companhia de energia dos Estados Unidos UNOCAL (agora uma subsidiária da Chevron) numa negociação de um oleoduto avaliado em 1.9 bilhões de dólares com o Talibã. O projeto tinha apoio tanto da administração de Clinton, bem como da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, porque o oleoduto iria “ajudar a liberar as novas nações da Ásia Central da dependência da Rússia, evitar rotas alternativas através do Irã e trazer a energia necessária ao Paquistão e à Índia”.

Em 1997, oficiais da UNOCAL receberam oficiais do Talibã em uma viagem de vários dias no Texas, e facilitaram sua reunião com oficiais de alto escalão do governo norte-americano. Na época, Khalilzad era um consultor especial na UNOCAL, e fazia parte de um esforço para cortejar o Talibã durante a visita.

As negociações UNOCAL-Talibã começaram a fracassar em 1998, e naquele ano o executivo da empresa, John Meresca, disse ao Congresso norte-americano que “nós deixamos claro que a construção de nosso oleoduto não pode começar até que um governo reconhecido esteja funcionando e que tenha a confiança de outros governos, credores e de nossa companhia”, sugerindo que a decisão do governo norte-americano em não reconhecer oficialmente o Talibã era um obstáculo intransponível e que para avançar, o Talibã deveria alterar suas políticas para receber tal reconhecimento, ou então ser substituído por uma facção mais moderada que então poderia ser reconhecida.

Após esses eventos, o Talibã tornou-se o principal competidor da UNOCAL nos esforços para criar um oleoduto, e de acordo com um artigo de 1998 do Washington Post,  um consórcio liderado pela companhia argentina Bridas, de quem o principal parceiro era uma companhia saudita atrelada ao princípe Turki Faisal Saud, na época líder da inteligência saudita. Em contraste com a UNOCAL, a Bridas “indicou prontidão para financiar o projeto e iniciar a construção sem reconhecimento formal do Talibã como governo pelo Ocidente ou pela ONU”. A proposta da Bridas também serviria ao mercado local afegão, ao passo que a proposta da UNOCAL não.

Quando as negociações com a UNOCAL fracassaram completamente, a mudança de regime feita pelos Estados Unidos passou a ser discutida abertamente e, como M. Reza Pirbhai disse em um artigo de 2009, “apenas quando o controle absoluto do petróleo foi desafiado é que o regime do Talibã passou a ser abertamente questionado” pelo governo norte-americano. A administração de Bush tentou renovar as negociações com o Talibã sobre o oleoduto, mas isto também fracassou na metade de 2001, alguns meses antes do ataque do 11 de setembro. O Globe and Mail do Canadá também disse que após o acordo do oleoduto ter sido jogado fora,

“Washington estava furiosa, levando à especulação que talvez ela destrua o Talibã. Após o 11 de setembro, o Talibã, com boa razão, foi removido – e o planejamento do oleoduto continuou com o governo Karzai. As forças norte-americanas instalaram bases próximas a Kandahar, onde o oleoduto estava previsto para ser construído. Uma motivação central para o oleoduto era bloquear uma licitação competitiva com o Irã, membro do chamado ‘Eixo do Mal’”.

Alguns argumentaram que a UNOCAL foi um fator no apontamento de Hamid Karzai como “presidente interino” do Afeganistão após os Estados Unidos expulsarem o Talibã de Kabul seguindo a invasão do país após o 11 de setembro. Isso porque Karzai não era apenas um ex-angariador de fundos para os Mujahidin, mas também um consultor da UNOCAL, e foi reportado que Khalilzad também fez lobby para que Karzai recebesse um cargo. Nove dias após Karzai ser apontado para liderar o Afeganistão após a invasão, Khalilzad – ligado tanto aos Mujahidin, quanto a diversas administrações dos Estados Unidos e à UNOCAL – se tornou o embaixador especial de Bush para o Afeganistão, uma posição que ele recentemente ganhou novamente de Trump.

Apesar do fracasso do acordo UNOCAL-Talibã, seu sucessor – o Oleoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI) – está em construção há anos, com a construção da seção do Afeganistão iniciando em 2019. Atualmente, o Talibã jurou proteger o projeto TAPI, e também anunciaram seu apoio ao projeto em 2016. Ainda que a Chevron e Exxon-Mobil estivessem originalmente destinadas a liderar o TAPI, muito de seu financiamento veio do banco saudita Banco de Desenvolvimento Islâmico e Banco de Desenvolvimento da Ásia, que é dominado pelo Japão e Estados Unidos. O competidor regional do TAPI é o oleoduto Irã-Paquistão-Índia (IPI), que é financiado pela Rússia.

A história de Khalilzad com o governo norte-americano e suas negociações corporativas com o Talibã, bem como a mudança do Talibã a favor do TAPI, sugerem fortemente que a cola segurando este acordo de paz é largamente baseada em incentivos econômicos para o Talibã para que o TAPI e outros projetos financiados pelos EUA possam seguir em frente em paz, ou com menos violência, no Afeganistão, ao passo que também frustrem projetos como o IPI, financiados por Estados rivais aos EUA.

Certamente, visto que os EUA apoiou o Talibã no passado quando se alinhava com seus negócios e interesses geopolíticos, e apenas lutou contra eles quando tais interesses estavam ameaçados, faz sentido que qualquer acordo – especialmente um negociado por Khalilzad – envolveria reacender estes antigos interesses em comum, quer relacionados ao petróleo, oleodutos ou outro recurso lucrativo, os quais o Afeganistão tem muitos.

Apesar de não estar claro o que foi prometido ao Talibã em termos de potenciais incentivos ou fluxos de receitas, o fato de oligarcas afegãos que há muito tempo se opuseram à retirada das tropas norte-americanas decidirem agora apoiar o acordo de “paz” talvez forneça algumas pistas.

O Afeganistão está “aberto para negócios”

No dia que o acordo de paz EUA-Talibã foi assinado em Doha, o Washington Post lançou um artigo que dizia que a “paz no Afeganistão dependerá de mais que um acordo. A história mostra que o crescimento econômico e melhores oportunidades de emprego são necessidades para reconstruir a estabilidade após a guerra” e continua a expor sobre investimentos prováveis no Afeganistão pós-acordo. O artigo foi escrito por Elizabeth Hessami, uma professora de direito e ex-pesquisadora do Banco Mundial focada no Afeganistão, que se descreve como tendo “forte interesse no direito minerador e governança, particularmente em relação à indústria de pedras preciosas”. Outros artigos publicados logo após o acordo promoveram similarmente a “integração econômica” nos projetos de infraestrutura regional.

Apesar de ser óbvio que o crescimento econômico auxilia qualquer estabilidade política no Afeganistão pós-acordo, o fato dos Estados Unidos sentarem com o Talibã foi motivado de maneira profunda por fatores econômicos ao invés da ideologia ou política do Talibã, sugerindo que parte das motivações por trás do acordo de paz era permitir o crescimento das atividades econômicas e exploração de recursos naturais que favoreceriam os interesses de companhias americanas ou de países aliados.

Isto é fortemente corroborado pela inclusão dos Estados Unidos durante a fase de “negociações intra-Afegãs” do acordo, em que os EUA admitiram abertamente que sua presença em tais negociações será usada para “buscar cooperação econômica para sua reconstrução” no Afeganistão pós-acordo. Os Estados Unidos têm um interesse de longa data – não apenas nos oleodutos – mas também nas reservas minerais estimadas em um trilhão de dólares e reservas de gás natural e jazidas de petróleo não exploradas que foram identificadas pelas forças armadas norte-americanas e pelo Departamento de Estado. Também há a questão do comércio ilegal de ópio, mas que será discutido na seção final desta reportagem.

Em relação ao acordo, também é interessante dizer que os oligarcas afegãos, muitos dos quais moram nos Emirados Árabes Unidos há muitos anos, também o apoiam fortemente. Por exemplo, Haji Obaidullah Sadekhail, presidente do Conselho de Negócios Afegãos nos Emirados Árabes Unidos, elogiou o acordo como “uma oportunidade dourada para todos os acionistas seguirem em frente e encerrarem décadas de guerra”, enquanto Abdul Wahid, da Momin Oil, disse que “o acordo de paz afegão entre o Talibã e os Estados Unidos abriria novos caminhos para negócios e investidores”. Outro empresário afegão residente em Dubai, Mohammad Afghan, disse ao Gulf News que um Afeganistão após o acordo “ofereceria grandes investimentos em moradia, eletricidade, energia solar, agricultura e mineração”.

O tom jubiloso da comunidade de empresários afegãos residente em Dubai é interessante, visto que a última vez que houve uma retirada de tropas do Afeganistão, o seu tom era demasiadamente diferente. Por exemplo, em 2012, a Reuters publicou um artigo intitulado “Afegãos buscam abrigo em Dubai antes da retirada de tropas” que alegava que “uma nova classe de empresários da guerra afegãos” estava fugindo das possíveis consequências de uma retirada dos Estados Unidos, bem como preocupados que o governo afegão poderia reprimir seus ganhos ilegais.

Na época, governos estrangeiros com uma presença militar no Afeganistão, especialmente os Estados Unidos, tentaram “convencer uma população afegã insegura que a transição não será um prelúdio para o abandono internacional ou o crescimento das lutas do Talibã”. Entretanto, esta classe de oligarcas da guerra aparentemente não possui nenhuma dessas preocupações sobre esta iniciativa de paz vinda da administração de Trump, apesar de não existir um cessar-fogo.

Outro aspecto do acordo que talvez tenha satisfeito esta classe oligarca pode ser que a corrupção pós-invasão que os permitiu enriquecer em primeiro lugar provavelmente continuará desde que Ashraf Ghani permaneça no governo, especialmente visto que aqueles que se opõem a Ghani e à presença norte-americana ou são mais críticos da corrupção foram alvos da inteligência afegã. Isto claramente mostra que a caça à corrupção será improvável.

Outra possibilidade é que o reacendimento dos laços entre o Talibã e seu antigo aliado, os EAU, onde muitos dos oligarcas afegãos vivem. Antes dos ataques do 11 de setembro, os Emirados Árabes Unidos eram um dos três países – os outros sendo Arábia Saudita e Paquistão – que reconheciam o Talibã como o governo oficial do Afeganistão. Durante esse período, os EAU investiu fortemente no Talibã e eles, em contrapartida, investiram no EAU. Os EAU há muito é usado para lavar dinheiro tanto para o Talibã como para os oligarcas da guerra afegãos.

Apesar desses laços terem se enfraquecido após os EAU oficialmente se virarem contra o Talibã após o 11 de setembro, esses laços continuaram em algumas formas significantes, explicando em parte porque o país lutou ferozmente para hospedar a embaixada do Talibã, mas que eventualmente foi estabelecida no país rival dos EAU, o Qatar.

Assim como outros aspectos do acordo EUA-Talibã visam levar as relações dos dois de volta a 1996, quando o Talibã era visto como uma potencial “segunda Arábia Saudita” amigável aos interesses norte-americanos, é provável que outro motivo detrás do acordo seja trazer o Talibã de volta ao alinhamento com seus antigos aliados regionais – os EAU e a Arábia Saudita – e cortar seus laços pós-invasão com o Irã. Isto deve ser considerado devido à pressão de longa data dos membros do establishment de Washington e membros da administração de Trump em tentarem uma guerra com o Irã.

Da perspectiva dos Estados Unidos, essa reaproximação do Talibã com os EAU e a Arábia Saudita ajudaria a política norte-americana de contenção do Irã, e esforços para redirecionar alguns dos gastos e pessoal militar norte-americano atualmente em missão no Afeganistão para uma possível guerra contra o Irã. Entretanto, alguns analistas e jornalistas argumentam que quaisquer esforços para empurrar o Afeganistão para abandonar seus laços com o Irã pode se mostrar difícil, para não dizer impossível.

Em última instância, ainda há de se ver se o Talibã permanecerá satisfeito com qualquer cenoura no seu lado do galho, por assim dizer, ou se eles pressionarão para ter uma fatia maior dos lucros ou até mesmo buscar acordos econômicos com a China, que investiu significativamente no setor mineiro do país.

O envolvimento militar de 19 anos dos Estados Unidos e a falta de qualquer resultado positivo tangível para mostrar ao público deu ao Talibã uma posição muito melhor para negociar, em comparação com o fim da década de 90. Entretanto, isto não necessariamente significa que o Talibã permanecerá indefinidamente satisfeito com quaisquer termos que estejam atrelados ao acordo.

É fato que qualquer divisão de receita em relação a essas atividades econômicas legítimas são largamente ofuscada pelas atividades econômicas ilegais do país, especialmente o comércio de ópio, que há muito tempo é uma fonte de renda importante não apenas para o Talibã, mas também para a CIA. Isto faz com que a atividade seja igualmente um fator ainda mais importante em determinar a possibilidade do sucesso desse acordo.

A ascensão do narcoestado apoiado pela CIA

Durante a Operação Ciclone, a CIA não apenas dirigiu o armamento e financiamento dos Mujahidin, mas também seu cultivo de ópio. O fato da CIA ter feito vista grossa ao comércio ilegal de ópio no Afeganistão durante o programa foi caracterizado como uma forma de apoio indireto, apesar da CIA estar íntima e diretamente envolvida no comércio de ópio e heroína global muito antes da Operação Ciclone existir, podendo ser traçado até o fim da década de 1940.

Além disso, visto que a Operação Ciclone coincidiu com os esforços da CIA no narcotráfico, como o caso Irã-Contra, e que o então presidente George H. W. Bush estava envolvido nas ações secretas da CIA no narcotráfico mundial quando ele serviu como diretor da agência alguns anos antes de se tornar o vice-presidente de Reagan, é provável que a decisão da CIA permitir que o comércio de ópio florescer em áreas controladas pelos Mujahidin fosse totalmente intencional.

Apesar da motivação da invasão do Afeganistão em 2001 pela administração de George W. Bush envolver os oleodutos já ter sido discutida, o comércio de ópio foi outro fator fundamental em motivar a guerra. Em 2001, a liderança do Talibã anunciou a proibição do cultivo de ópio que desencadeou uma queda produtiva significativa. Pouco depois do 11 de setembro e de George W. Bush pôr o Talibã na mira, o grupo alegou que iria voltar atrás na proibição caso os EUA atacassem o Afeganistão. Eles mantiveram sua palavra.

A proibição do cultivo de ópio na época que o Afeganistão era o maior produtor mundial teve impactos globais no comércio da mercadoria, um negócio no qual a CIA possui interesses de longa data. Isto provavelmente explica porque a invasão do Afeganistão foi majoritariamente planejada pela CIA, marcando a primeira vez na história da agência o seu papel no planejamento de uma operação militar de larga escala. A marca da CIA no plano era possível de ver imediatamente, visto que as primeiras tropas que pisaram no Afeganistão partiram da Divisão de Atividades Especiais da Agência. Atualmente, o número exato de oficiais da CIA no país e a natureza específica de suas atividades permanece “um segredo guardado a sete chaves”.

Após a invasão, a produção de ópio no Afeganistão cresceu drasticamente. Durante a proibição feita pelo Talibã, cerca de 7.600 hectares de ópio ainda eram plantados. Em 2017, este número subiu para 326.000, um crescimento de 4000%. O Afeganistão pós-invasão é responsável por suprir entre 85 e 90% do ópio do mundo. No mesmo período, os EUA experimentaram uma crise massiva de opioides, muito dela atrelada à fabricação farmacêutica de látex de ópio e seus derivados.

Vários relatórios e vídeos documentaram como as tropas norte-americanas protegeram esses campos, incluindo veículos de notícias mainstream que incluíram reconhecimento por parte de oficiais militares norte-americanos. Por exemplo, um tenente general do Marine Corp disse à Fox News em 2010 que a produção de ópio é “parte da cultura” e que os soldados no Afeganistão garantiam “segurança” e “recursos” para os plantadores de ópio. Simultaneamente, os Estados Unidos gastaram 8 bilhões de dólares em programas para “combater” os narcóticos afegãos que seus soldados estavam guardando, um programa “anti-drogas” que só foi encerrado ano passado.

Apesar dos militares dos Estados Unidos agirem de fato como os guardiões do ópio no Afeganistão, a CIA começou a armar e treinar suas próprias forças paramilitares que também seriam as forças para proteger seus interesses nos opióides. Esses paramilitares começaram a ser criados após o 11 de setembro, que de acordo com o The New York Times foi quando a CIA iniciou “uma aliança entre grupos de lutadores liderados por senhores da guerra para derrubar o Talibã e perseguir membros da Al-Qaeda”.

O Times também disse que:

“Após a queda do Talibã e o estabelecimento de um novo governo afegão, os grupos paramilitares da CIA, conhecidos como Ground Branch, começaram a transformar os grupos de soldados. Alguns se tornaram milícias grandes, bem treinadas e equipadas que inicialmente atuavam fora do auspício do governo afegão.”

Essa política resultou na criação de diversos grupos paramilitares que permanecem financiados e supervisionados pela CIA e são ativos ao redor do Afeganistão, incluindo as províncias de Khost, Paktia, Paktika, Nangarhar e Maidan Wardak. É dito que agora alguns desses grupos são supervisionados pela inteligência afegã, mas tendo em vista a cooperação entre os Estados Unidos e a inteligência afegã, isso parece ser mais uma mudança cosmética do que de substância.

Dentre esses grupos, o mais notório é a Força de Proteção Khost (FPK), que foi acusada de abusos de direitos humanos, incluindo sequestros, torturas e assassinatos em massa. O FPK aterrorizou e alienou populações nas regiões que operam através do massacre de civis. A brutalidade do PFK é tão extensa e bem documentada que grupos de direitos humanos ocidentais que frequentemente apoiam grupos paramilitares norte-americanos em outras partes do mundo refere-se a eles abertamente como “esquadrão da morte”.

Muitos desses grupos apoiados pela CIA são ativos em áreas onde o comércio de ópio está num boom, e servem para impedir o surgimento de outros que possam competir com a hegemonia da inteligência norte-americana neste lucrativo negócio ilegal. Uma fonte da inteligência, falando para Pepe Escobar em 2017, disse que a CIA financia muitas de suas operações no exterior usando os lucros do comércio de ópio.

Uma figura chave no crescimento desses grupos paramilitares foi o meio irmão de Hamid Karzai, Ahmed Wali Karzai, que não apenas estava na folha de pagamento da CIA por ajudar a recrutar membros para os grupos paramilitares, mas também estava envolvido no comércio de ópio desde os dias iniciais da invasão norte-americana. Ele foi assassinado no Afeganistão em 2011. Como foi mencionado anteriormente, Hamid Karzai foi apontado pelos Estados Unidos para governar o Afeganistão devido aos pedidos de Zalmay Khalilzad, o principal negociador dos Estados Unidos no recente acordo de paz.

A CIA também tem relações próximas com o sistema de inteligência afegão, o Diretório Nacional de Segurança (DNS), e também com a atual administração do presidente afegão Ashraf Ghani. Por exemplo, as diversas operações noturnas de “caçar-e-matar” que ocorreram nos anos recentes quase sempre envolveram tanto o DNS como a CIA. Como a Foreign Policy disse mês passado, “quase todo incidente reportado [desses ataques] envolveu o DNS e a CIA, que simultaneamente mantêm sua própria força e apoiam suas contrapartidas afegãs no DNS”. Este artigo também argumentou que o DNS está buscando “transformar o Afeganistão em um novo estado policial com a ajuda da inteligência norte-americana, que está apoiando o regime”.

No caso de Ghani, seu atual vice-presidente é Amrullah Saleh, um ex-diretor do DNS com laços com a CIA, e sua administração apoiou entusiasticamente o crescimento das operações dela no Afeganistão. Além disso, o ministro da defesa de Ghani é Asadullah Khalid, outro ex-diretor do DNS com laços com a CIA que também é conhecido por ter seu bunker privado e por supervisionar e ordenar vários abusos dos direitos humanos.

Esse modelo, em que a CIA é atrelada ao comércio de drogas ilegal de um país, corrupto mas oficial, com uma rede de paramilitares e esquadrões da morte que controle, é marcadamente similar ao modelo que foi implementado pelos Estados Unidos na América do Sul. Na Colômbia, por exemplo, a CIA tinha ligações diretas com o cartel de Medellín, como também com um de seus membros notórios, Pablo Escobar. A CIA também esteve envolvida no treinamento de numerosos grupos paramilitares na Colômbia que também estão envolvidos no comércio de drogas

Além disso, os militares colombianos – que há muito tempo são os aliados mais próximos dos Estados Unidos na América Latina e também recebem quantidades enormes de ajuda militar – são famosos por serem envolvidos no comércio de drogas, com a ONU os chamando de uma das “maiores instituições de comércio de cocaína e heroína” no mundo. O ex-presidente colombiano Álvaro Uribe também é suspeito de ter sido o ex-líder de vários grupos paramilitares narcotraficantes, e seu protegido político, Iván Duque, é o atual presidente da Colômbia. Uribe usou fundos norte-americanos para evitar investigações sobre seus laços com o narcotráfico.

A influência do governo e inteligência norte-americana nestes agentes na Colômbia é crucial, visto que a produção de cocaína no país continua a crescer para níveis recordes ano após ano, apesar da grande quantidade de dinheiro que os Estados Unidos gastam no “combate” ao narcotráfico no país.

Similarmente, a produção de ópio cresceu enormemente no Afeganistão tanto em áreas controladas pelos EUA como pelo Talibã desde a invasão. Pensar que esta tendência vai mudar devido ao novo acordo de paz é ignorar a montanha de evidências do contrário, tanto no Afeganistão como fora dele.

Certamente, o Talibã também não tem interesse em encerrar o comércio de ópio, que se tornou uma grande parte de sua receita após a invasão norte-americana e o fim da proibição do cultivo depois dela. Nos anos desde então, o Talibã pressionou fazendeiros para plantar ópio, que tem seu valor estimado pela ONU entre 22 e 44 milhões de dólares em 2009.

Nos últimos anos, o papel do Talibã no comércio de ópio se tornou mais enraizado e possui até mesmo um sistema de impostos para os plantadores, com membros do Talibã envolvidos no transporte do ópio e até o seu refinamento em heroína e outros derivados. Como consequência, o Talibã depende mais do comércio da mercadoria do que nunca para financiar sua insurgência e outras operações.

Aqui é onde se torna importante considerar o anexo “secreto” do acordo, onde os termos são definidos para as operações da CIA nas áreas controladas pelo Talibã. O Talibã é competidor direto dela no tráfico de ópio nas áreas que não controlam. Quaisquer regras que digam respeito à CIA e ao Talibã neste novo acordo irão inevitavelmente envolver uma divisão dos lucros para ambos os partidos. Entretanto, diferente da retirada de tropas no acordo, caso qualquer lado deseje respeitar essas novas regras ou manipular elas de acordo com seu interesse para enfraquecer o competidor é algo que pode apenas ser deixado para especulação.

O que se encontra pela frente

Examinando a história das relações entre os Estados Unidos e o Talibã, se torna aparente que os EUA estavam dispostos a apoiar o Talibã até que eles demonstraram ser um obstáculo para os interesses corporativos, particularmente nos oleodutos, e os interesses da inteligência norte-americana, especialmente no comércio de ópio. Como a guerra no Afeganistão se arrastou, o Talibã mandou sinal após sinal que eles estão com uma perspectiva “pró-negócios”, como foi visto no apoio deles ao oleoduto TAPI, e até dispostos para compartilhar a receita tanto de atividades legítimas como ilegítimas com o governo de Ashraf Ghani, apoiado pelos EUA, e com a CIA e seus grupos paramilitares.

Da perspectiva dos Estados Unidos, retornar aos laços entre eles e o Talibã a como eram em 1996 serviria para os interesses da administração de Trump para conter o Irã e seus interesses econômicos no Afeganistão. A relação EUA-Talibã sempre foi determinada pela conveniência do grupo aos interesses dos Estados Unidos. Portanto, os esforços para fazer a “paz” com o grupo serão guiados por esses fatores, especialmente visto que uma das figuras centrais nesta relação de longa data – Zalmay Khalilzad – é o principal negociador do acordo. Depois do 11 de setembro, o objetivo era erradicar o Talibã, mas visto que esse esforço fracassou, os Estados Unidos buscam fazer deles um parceiro nos negócios.

A questão principal é: o acordo durará? Os EUA deixaram diversas saídas abertas para eles poderem cancelar a retirada de tropas a qualquer momento. Além disso, a natureza descentralizada e faccional do Talibã faz sua habilidade de uniformemente concordar e respeitar os termos do acordo ser questionável, mas não impossível. Entretanto, se o anexo secreto do acordo que concerne à presença indefinida de mais de 8.000 soldados da força anti-terrorismo não sofrer emendas, é difícil imaginar que muitos integrantes do Talibã aceitem a presença de um contingente militar tão grande como parte de um acordo de paz, visto que a expulsão dessas tropas há muito é uma demanda central do grupo.

Independente do acordo durar ou fracassar, é improvável que levará a um Afeganistão mais pacífico e próspero. Ao invés disso, se bem sucedido, provavelmente levará para a divisão de lucros e de poder entre diferentes “máfias”, incluindo o Talibã, o governo “fantasticamente corrupto” de Ghani, os grupos paramilitares da CIA e os senhores da guerra. Aparentemente, o que este acordo pode conseguir na prática é a consolidação de um narcoestado disfuncional aliado aos interesses dos EUA, não diferente do modelo que os norte-americanos praticaram em outros países.